terça-feira, 19 de janeiro de 2016

P752: DO ÁLBUM DE MEMÓRIAS DO JOSÉ BELO

DESERTORES

Sou um, entre milhares dos que combateram na Guiné ao lado de Camaradas de todos os recantos de Portugal, sem esquecer os guineenses que envergavam com orgulho  fardas portuguesas.

(Estes, não só ao nosso lado mas, muitas das vezes literalmente à nossa frente!)

Em 1980, quando ainda havia um grande interesse por parte da sociedade sueca para com os acontecimentos relacionados com Portugal da guerra colonial e de Abril, fui procurado por um grupo de jornalistas suecos que desejavam aprofundar alguns detalhes e histórias relacionadas com acontecimentos dos anos 74-75 em que eu tinha participado, e muito especialmente em alguns passados "do outro lado dos espelhos convenientes".

Foi um interessante diálogo quanto ao nível de ideias trocadas no decorrer do mesmo, não menos pelo facto de muitos dos jornalistas terem estado presentes em Portugal na altura de alguns dos acontecimentos discutidos.

Já em fim da conversa, o jornalista representante de conhecido jornal de esquerda do norte da Suécia - Norlandsk Flamma - perguntou-me com mal escondida ironia: Se eram assim tão contra a política governamental... porque é que cumpriam o serviço militar em África e não desertavam em números substanciais?

Confesso que, no momento, senti vontade de lhe explicar que tendo passado todo o "PREC" como oficial responsável pela segurança do Depósito Geral de Material de Guerra e dos seus Destacamentos Militares, todos eles situados em plena cintura industrial de Lisboa, tinha mais do que um curso completo quanto a perguntas provocatórias apresentadas em tudo que eram plenários, por representantes de grupos e grupelhos de pseudo-extremistas de punhos de renda.

Mas como explicar-lhe o facto de, desde o nascimento nos terem colocado sobre os ombros "os tais" seiscentos anos de um passado de colonialismos épicos feito?

Como explicar-lhe que, desde o Minho aos Açores, todos tínhamos bisavós, avós, pais, tios, irmãos, primos, amigos, vizinhos, colegas de estudo ou de trabalho que, ou tinham cumprido, ou cumpriam o seu serviço militar algures no Império?

Quando quase (!) todos os que conhecia em Lisboa, com idades próximas da minha, se encontravam algures em África?

Explicar-lhe que o meu avô, republicano e anti-salazarista convicto, se orgulhava de ter servido como médico militar no norte de Moçambique durante os ataques Alemães na Primeira Grande Guerra?

Que o meu pai, também médico, estivera voluntariamente no norte de Angola aquando dos massacres de  1961?

Talvez por ignorância, resultante do profundo isolamento cultural a que estávamos sujeitos, o desertar era unicamente identificado como cobardia para com a Pátria, e não como uma legítima forma de luta política contra o regime.

E, francamente, acabaram por ser bem poucos os que o fizeram... Por razões estritamente políticas (!).

A ironia barata do jornalista, nascido e criado numa sociedade livre que, na sua neutralidade, não participa em nenhuma guerra nos últimos 360 (!) anos, quase me levou a usar a frase histórica do Sr. Almirante Pinheiro de Azevedo quanto ao... "bardamerda para os trabalhadores"!

Mas, e desculpando-me por descer a um nível tão "simplista" nos exemplos ridículos e inofensivos que lhe dava da minha Lisboa dos anos sessenta perguntei-lhe:

Acreditaria ele que, "a bem da moral pública”, estavam diariamente colocados polícias da segurança pública à porta dos liceus femininos de uma capital europeia em 1968,para afastar menos "delicadamente" os pobres dos namorados (de idades dos 14 aos 17 anos) que romanticamente iam esperar as meninas à saída das aulas?

Ao mesmo nível da tal profunda moral, que razões levariam a senhora Reitora do Liceu Maria Amália de Lisboa a percorrer sistematicamente os recreios com uma régua na mão, medindo o comprimento adequado das saias e batas das alunas?

Enfim...

Enquanto isto, a escassos dois mil metros de distância, no "estrangeirado" Liceu Francês Charles Lepierre, as nossas aulas eram mistas e... as mini saias das colegas... bem fresquinhas.

Perguntei-lhe se compreendia o que lhe queria dizer com estes exemplos, aparentemente tão simplistas e desencontrados, mas que faziam parte dum contexto muito vasto de tantas outras realidades envolventes como as tais hipotéticas... deserções.

Sentado ao calor da lareira, recordando acontecimentos passados há quase meio século, surgem imperceptíveis generalizações fáceis.

Pergunta (aparentemente inapropriada, por já bem fora de contexto), apresentada pelo jornalista quanto ao serviço militar do Senhor Professor Marcelo Rebelo de Sousa em 1974, obrigou-me a pensar em alguns casos de "deserções" por outros meios. Elas foram muitas entre alguns filhos de famílias do grande capital, alta burguesia, ou de algum modo bem "situadas" politicamente.

(Devemos, com justiça, reconhecer terem também existido muitas e honrosas excepções a estas "deserções" aos mais altos níveis).

São os tais "outros" que, não desertores perante a lei, usaram de todos os meios disponíveis, no local e momento certos, para circundarem as suas possíveis mobilizações para as guerras de África.

Recordo um Senhor Brigadeiro então comandante de uma das Regiões Militares (1968) que, perante uma formatura de juramento de bandeira gritava: “Na instituição militar as cunhas não passam a porta de armas!"

Todos sabemos que assim não foi... se é que algum dia o virá a ser.

Enquanto entre as famílias mais humildes, tanto rurais como operárias as percentagens de participantes na guerra foram elevadíssimas, no capital e alta burguesia a história seria outra.

Desde a "junta médica”, à especialidade militar "conveniente".
Da não mobilização para África, à escolha de lugar resguardado no caso da mesma, de tudo havia um pouco.

Escândalo?
Não acontece  em todos os países e em todos os Exércitos por esse mundo fora?

Mas, e por isso mesmo, as posições púdicas de escamoteação destas realidades tornam-se ridículas.

Quem, de entre os antigos combatentes, não conhece uma boa quantidade de exemplos desta deserção subtil e, principalmente, não assumida?

O ano é 2016. As realidades e contextos são outros.

Mas...


José Belo

8 comentários:

Carlos Vinhal disse...

Subscrevo o camarada José Belo. Conheço uma mão cheia de casos "cunhados", cá e na Guiné. Os influentes tinham sempre hipótese de viciar o jogo. Os mais pobres raramente escapavam, só aqueles que a salto passavam a fronteira, sabendo que dificilmente voltariam a ver a família.
Carlos Vinhal
Leça da Palmeira

Juvenal Amado disse...

A deserção é assunto de várias leituras mas todas elas as encontro enquadradas no texto do José Belo.
Eu conheci quem desertou na véspera do embarque e que teria sido preso pela PIDE no seguimento das movimentações estudantis.
Também conheci quem depois de a salto ter ido para França acabar por regressar para cumprir o seu serviço militar e assim libertar-se da situação de poder regressar ou não ao seu país. Mas estes não davam o salto por motivos políticos mas por motivos económicos o que era diferente. Muitos depois de instalados não tiveram para ter chatices e só regressaram depois do 25 de Abril e no seguimento disso "vestiram" uma pele de oposicionista ao regime que não era a sua independentemente de terem abraçado uma opção politica que os levaria à cadeia caso regressassem antes.
Muitos regressos foram negociados na era da abertura do Marcelismo propôs amnistia a quem regressasse de livre vontade.
Mas porque foram tantos militantes até clandestinos fazer as suas comissões em África? Na Guiné conhecemos vários que não cederam aos apelos de alguma esquerda que fazia alarde da deserção como forma de luta contra o regime.
Na verdade o regime só podia ser mudado de dentro para fora e não de fora para dentro.
Um abraço

Anónimo disse...

Boa noite Camarigos
Confesso que li o texto várias vezes antes de o comentar.Não só pela complexidade do tema mas também pela especial consideração que tenho pelo seu autor.Tentei andar para trás e ler o texto no seu contexto. Confesso que ao tempo da Revolução de Abril de 1974 não tinha a informação que tenho hoje. Muito longe disso. Para mim a maioria dos desertores não se escapava do País por motivos políticos mas essencialmente por terem um buraco ao fundo das costas… E digo, sem rodeios, que tinha essa impressão principalmente por causa de um rapaz do meu tempo – filho de boas e endinheiradas famílias – que deu o “salto por cagaço” e prezar muito o seu bem estar. Ponto Final. Quando se deu a revolução de Abril apareceu-me como “exilado”. Comigo os seus argumentos não pegaram porque nos conhecíamos muito bem. Aliás ainda nos encontramos de vez em quando e está muito bem conservado porque nunca fez nada na vida.E descansa nos intervalos…
O caso do José Belo é muito diferente porque era um Oficial de Quadro. Tomou posições políticas e saiu do País por razões bem diferentes daquelas que acabo de referir. A explicação que depois refere ter feito ao jornalista sueco é uma lição de História de Portugal, que eu partilho “com os meus botões” e agradeço. Admito hoje sem custo que por ignorância, resultante do profundo isolamento cultural a que estivemos sujeitos, o desertar era identificado como cobardia para com a Pátria, e não como uma legítima forma de luta política contra o regime.
As “estórias” da senhora Reitora do Liceu Maria Amália de Lisboa também me deixaram sem palavras.
E finalmente quem de entre os antigos combatentes, não conhece uma boa quantidade de exemplos desta deserção subtil e, principalmente, não assumida?
Conheço eu. Estive dois anos no HMP, de Lisboa, como Furriel Mil. Enfermeiro e 90% dos “doentes”- para não dizer mais… eram fingidores.
As realidades e contextos no ano de 2016 são de facto outros.
Grande abraço Camarigo José Belo.
JERO

Manuel Reis disse...


Existiam os mais diversificados motivos para a deserção ou não deserção.Por motivos políticos, por motivos económicos, pelo cagaço. Tenho respeito por qualquer tipo destes desertores e, por muito estranho que pareça, até os do cagaço têm o minha compreensão.

O que nunca aceitarei como razoável são os subterfúgios que eram utilizados com recurso a baixa a médica e a cunhas. Passei por isso. Estava a dar instrução nos Açores, na qualidade de Aspirante, onde se formava um Batalhão com destino a Moçambique. Passado um mês, 3 de nós, fomos substituídos e recambiados para o Continente, com destino à Guiné. Isto era muito frequente.

O requinte das cunhas atingia o ponto delirante com as baixas médicas, a nível de graduados. Uns chumbavam na especialidade, que supostamente não era do seu agrado, e procuravam outra especialidade, onde o risco de vida era mínimo. Outros procuravam libertar-se da lei militar ou passar à situação de praça onde, a custo de algum dinheiro, era possível arranjar substituto. Aliás este procedimento era praticado, com alguma frequência, entre as praças.

Havia ainda um outro subterfúgio também utilizado, como a não actualização das habitações literárias, apresentando-se na qualidade de praças, o que lhes possibilitaria ou uma especialidade de risco de vida mínimo ou a substituição por outro camarada, mediante uma maquia , previamente acordada.

Um abraço amigo.

Manuel Reis

joao costa disse...

Gostaria de saber qual o motivo porque não fui avisado das inscrições para o almoço de dia 29
cumprimentos
João costa

joaquim disse...

João Costa

Não há avisos para ninguém.

É enviado um mail para chamar a atenção para a publicação dos Encontros.

É aqui no blogue que se encontram os avisos sobre os encontros, por isso, não fazemos avisos a ninguém em particular.

Curiosamente, e mais uma vez, és a única pessoa que se queixa.

Cumprimentos
Joaquim Mexia Alves

Anónimo disse...

Embora a minha incorporação militar, tenha sido muito diferente da generalidade dos convocados para a prestação do SMO e dos militares de carreira,(oriundos da AM), tive também conhecimento das diferentes formas de deserção, tão bem descritas no texto do José Belo. Era na realidade um pais muito diferente do atual, em muitas variantes.
Louvo todos aqueles que sabendo, ou não, os riscos que envolviam as suas mobilizações para a África, aceitaram partir!..
Acredito que é muito difícil para um sueco, entender como foi a vivência da nossa juventude!..
Quanto à Diretora do Liceu MAVCarvalho, também me aconteceu ter que baixar a bainha da saia do equipamento desportivo, para integrar o campeonato de voleibol que existia entre liceus e colégios. A ordem veio da Irmã Diretora do meu colégio. Fiz uma finta. Para a revista subi e para os jogos desci-a. Valeu-me um pequeno castigo.
Gostei do texto.
Um abraço.
Mª Arminda

Joseph disse...

Caríssima Amiga e Camarada.

Que saudade das pequenas-grandes "fintas" da nossa juventude.
Com castigos,ou sem eles,era a nossa maneira de protestar contra alguns dos muitos, ridículos, e incríveis "convenientes" daqueles tempos.

Um grande abraco do José Belo