sábado, 20 de maio de 2017

P912: EM FIM DE COMISSÃO

INÍCIO DO REGRESSO A CASA

JERO
Em 17 de Abril de 1966 foi rendido o nosso 1º Pelotão, de Guidage, pelo 3º. Grupo da Companhia de Artilharia do 731. Em Binta já há uns dias que decorria a transmissão da carga da «675» para a Companhia que nos iria render na «quadrícula». Torrava-se no aquartelamento. O calor era infer­nal, mesmo para os veteranos.

O nosso Comandante de Companhia, Tenente Pedro Cruz, bem avisava o Alferes «maçarico» da C.Caç. 1550 para se pôr a pau com o calor. Transpirava no armazém coberto de zinco e, de tronco nu, ia recebendo o material do nosso cabo-quar­teleiro. No dia seguinte estava mesmo «cozido»... Não acres­centamos «mal pago» porque Alferes... para 1º emprego... não era mau de todo!

A malta ia arrumando os seus "pertences" em caixas, caixinhas e caixotes e, finalmente, chegou o dia da partida. A despedida foi emocionante. A "aldeia" em peso veio despedir-se da «675».


Lágrimas e mais lágrimas selaram uma vida em co­mum. Com muitos sacrifícios mas também com momentos inesquecíveis que a todos nos marcaria pela vida fora. Binta ficava para trás... Aqueles momentos da despedida seriam para mais tarde recordar.

A estrada para Farim era bem conhecida de todos. Quan­tas vezes percorremos aquele itinerário! Chegámos a Farim e ao Batalhão sem problemas de maior. Chegámos sem problemas porque os «ditos» (os proble­mas) estavam lá à nossa espera.

As ordens eram para entregar as armas e seguir numa coluna para Bissau, com passagem pelo Óio, com «passaporte de turista». Que «presente» envenenado! Desarmados, apreciando a paisagem e tirando fotogra­fias !!!

É verdade que seríamos escoltados por um pelotão mas passar pelo Óio «desarmado» era coisa que nunca nos tinha passado pela cabeça. A «nossa» relação com o Batalhão 733 nunca tinha sido das melhores e estava a acabar mal.

Viveram-se momentos difíceis (para não empregar pala­vras mais vernáculas) mas os nossos oficiais lá conseguiram levar a sua avante. Seguimos para Bissau com as nossas armas. Foi uma viagem de nervos, muitos nervos. Chegámos ao nosso destino já de noite. Estoirados. Com os nervos em franja. O nível de simpatias pelo Batalhão 733 não era, propria­mente, elevado.

A malta encostou «às boxes» e os nossos oficiais foram tentar entregar o nosso armamento. Mas havia «baile de gala» no Quartel da Amura e... ninguém nos esperava...


Para escândalo público o nosso Tenente Cruz apareceu de camuflado e de cara enfarruscada no baile e ... lá «conseguiu levar a carta a Garcia» ! Um amável Tenente-Coronel, de impecável farda branca, passou a noite «por conta» da “675” e conseguiu-se entregar o armamento até às tantas da manhã.

Uma ideia esquisita que retemos desse dia memorável (em que para «quase» todos nós acabou a guerra) foi a de que nin­guém em Bissau nos esperava. Ninguém contava com a chegada da Companhia de Caçadores 675!

E... finalmente o embarque no «UÍGE» e o início do regresso a casa. Já lá vão mais de 50 anos. Como o tempo passa !

José Eduardo Oliveira
JERO

terça-feira, 16 de maio de 2017

P911: TESOURINHOS DO BAÚ DE RECORDAÇÕES - 1

MANIFESTO ANTI-KARAS

Ao fazer umas consultas no blogue e analisando as estatísticas sobre o material já editado verifiquei a existência de um Poste publicado há já cinco anos que se destacou pelo número de visualizações que teve, bem como pelo elevado número de comentários que suscitou. 

Trata-se do Poste 283, "Manifesto Anti-Karas", da autoria do nosso camarigo Vasco da Gama, publicado numa fase de grande produtividade deste nosso camarada. Pensamos que a sua reedição será um modo de relembramos o seu sentido de humor e imaginação e de o animarmos a retomar o ritmo a que há uns anos atrás nos habituou. E serve como pequena homenagem em dia de aniversário... 

Já estamos com saudades dos teus textos, Vasco!

Ao longo da sua existência de mais de sete anos já foram editados diversos textos que no nosso parecer merecem ser novamente apreciados, pois desde então surgiu pessoal novo que muito provavelmente não foi aos arquivos ver o material mais antigo.



Este será pois o primeiro texto a desenterrarmos do nosso baú de recordações. Se tiver boa receptividade mais alguns se poderão seguir. Para os que não estão connosco desde o princípio, poderão estranhar alguns dos personagens presentes. Aconselhamos-vos a consultarem a "Centropédia" na coluna da direita ou então carregando aqui.

Dada a dimensão do referido Poste bem como dos respectivos comentários - que dele não devem ser dissociados - decidimos não o republicar, apenas vos reencaminhando para a ligação adequada ao mesmo.

Assim, para aceder ao Poste em causa (P283)  carreguem aqui , e não se esqueçam de ler os comentários no fim, que a história continua lá... 

Miguel Pessoa

terça-feira, 9 de maio de 2017

P909: OS TIGRES DE CUMBIJÃ NO SEU 21º CONVÍVIO

ENCONTRO ANUAL DA CCAV 8351 - Guiné 72/74

"Os Tigres de Cumbijã" da Companhia de Cavalaria 8351 reuniram-se no passado dia 29 de Abril de 2017, na Quinta do Pavão, na Charneca da Caparica. Realizou, assim, o seu  XXI almoço-convívio.


O dia estava bonito, com um sol primaveril radiante a querer desejar-nos um bom dia de convívio e a mostrar-se parceiro actuante na nossa festa. Pelo meio da manhã começam a chegar os primeiros participantes, muitos acompanhados da esposa, filhos e netos, que reuniu um número aproximado de 120 pessoas.

Foi particularmente marcante para mim o momento inicial das boas vindas e o tempo de abertura aos cumprimentos, considerando que já lá iam 44 anos que eu não via muitos dos meus ex-companheiros, referindo, entre outros, o Félix, o Matias, o Barbosa, os ex- furriéis Costa e Martins e muitos outros, todos do meu 1.º Grupo de Combate. No entanto, todos aquelas rostos, de antanho, persistiam e persistem, ainda, na minha memória visual, porque os reconheci, constando registados como seres integrantes do meu todo. Mas, todos têm um nome, todos têm direito ao seu nome e no momento de eu o invocar, o nome escondeu-se, não saiu, não apareceu. Ó agruras do tempo! Não sou perfeito!


Estes momentos que nos rodeiam, neste tipo de eventos, são sempre momentos de afectos e de alguma ternura. Eu nunca irei esquecer o meu primeiro momento neste XXI almoço-convívio da CCAV. 8351, do dia 29/04/2017. Tinha eu acabado de chegar ao portão da entrada do local, estava, à entrada, um camarigo com uma jovem menina, simpática e risonha, pela mão. Parei, cumprimentámo-nos, fiz uma carícia à menina, ele reconheceu-me de imediato, ao fim de 44 anos, pronunciou o meu nome e eu ... a coçar na cabeça ... a querer fazer o mesmo que ele, tão bem fez. O nome dele não vinha à mente! Eis, senão quando, a menina-neta , a saltitar, a sorrir, encostada ao meu carro, olha-me e diz: "sabes, este é o meu avô, chama-se Barbosa e esteve na Guiné!" Nem mais. Era isto mesmo que eu queria ouvir. Fantástico! Parabéns, Barbosa, pela tua bonita netinha. Aquela menina, na sua espontaneidade e atenta, apercebeu-se da minha angústia ao não me lembrar do nome do avô. Sendo eu um sentimental e de lágrima fácil, não me contive, pelo impulso da oportuna ajuda daquela criança a um ex-combatente vetusto e de teimosa desmemória - aventuras da alma.

Nestes encontros memoráveis de reviver factos e reactivar relações de camaradagem e de solidariedade, onde se recordam pedaços da nossa vida, qual manta de retalhos, não nos esquecemos dos nossos saudosos 27 ex-companheiros que já nos deixaram e partiram desta vida terrena. Todos, individualmente, foram recordados e o seu nome trazido ao altar, na celebração da Eucaristia campal, nos jardins da Quinta que nos acolheu, num espaço de meditação e de espiritualidade.


Aproximava-se o momento para o almoço, momento alto nestes eventos, num espaço digno e condigno, bem decorado, cores claras e atraentes, mesas bem compostas e preparadas para o lauto almoço onde, de facto, nada faltou. Ementa bem confeccionada e abundante, reinando sempre a alegria e a boa disposição que se prolongou para além da partilha do bolo da companhia, cortado e distribuído pelo nosso grande chefe e líder ex-Cap. Vasco da Gama.

Pergunta-se muitas vezes qual o interesse e satisfação pessoal destes encontros entre ex-combatentes, ex-militares operacionais que viveram 24h sobre 24h num cenário de operacionalidade de guerra de guerrilha "sacana", traiçoeira e sem rosto, dominados por medos e angústias, longe de tudo e afastados de todos.

É que, em cada homem ex-combatente há sentimentos, há memórias de infância, da juventude, da família, de luta e sofrimento em cenários de guerra vividos e sofridos. Essa guerra e os seus momentos, ainda, vivem dentro de nós. Essa guerra que enfrentámos, na nossa juventude, ainda não se calou, nem terminou com a entrega das armas e o abandono do TO (Teatro de Operações). Nunca será passado. Se, felizmente, escapámos às mazelas físicas ou motoras e se as não temos, sentimo-las na alma pela extensão e alongamento de uma história de vida de sacrifício e luta de um ex-combatente. Numa luta de guerrilha em que estivemos, por um período médio de 24 meses, ela se alonga e prolonga, em nós, numa matriz de marcas e sentimentos. É nestes encontros-convívio da Companhia que se partilha e atenua o fantasma dos distúrbios e eventuais traumas que persistam e se movam dentro de nós.


"Os Tigres de Cumbijã" da CCAV 8351, que, em Maio de 1973, reocuparam Cumbijã, abandonada nos anos 1968/69, terra queimada sem água nem beira, que os recebeu e adoptou sem nada ter para lhes dar, muito terão que contar aos seus vindouros. Só a força anímica e a capacidade de liderança do seu destemido Comandante ex-Cap. Vasco da Gama e os seus bravos ex-militares permitiram o leal cumprimento da sua missão. Honra e louvor lhes são devidos.
Abraços

Manuel Frazão Vieira

sábado, 6 de maio de 2017

P908: REVISTA "KARAS" DE MAIO


O Manuel "Kambuta" Lopes parece apontar o caminho para a festa... Bom, ele deve saber do que fala, pois estava a jogar em casa...

O JERO na foto com três dos responsáveis pela organização do XII Encontro da Tabanca Grande - Miguel Pessoa, Carlos Vinhal e Joaquim Mexia Alves.

A partir das 10H00 o pessoal começou a juntar-se junto à fachada do Monte Real Palace Hotel, na rampa de acesso às Termas.

As senhoras são presença habitual nestes eventos - e aqui conhecemos algumas que são habituais nos encontros da Tabanca do Centro, como a Giselda, Hortense Mateus e Gina Marques.

Dois casais do Centro: a Amélia e o Almiro Gonçaves posam ao lado da Hortense Mateus e Manuel "Kambuta" Lopes.

O Agostinho Gaspar não podia faltar. Aqui à conversa com o Jorge Canhão (que já tem aparecido nos nossos convívios) e o Almiro Gonçalves (presença habitual),

O Diamantino Ferreira e a Emília tomaram-lhe o gosto e estiveram também presentes na festa da Tabanca Grande. Aqui à conversa com um homem do Norte, o David Guimarães e esposa Lígia.

O Luís Lopes Jorge estava feliz e manteve um diálogo prolongado com o Virgínio Briote, antes e durante o almoço.

Duas enfermeiras paraquedistas ladeiam a esposa do Jorge Canhão, Maria de Lurdes. A Maria Arminda tinha vindo de manhã de Setúbal à boleia do casal Canhão, a Giselda Pessoa já lá estava de véspera...

Outro homem do Norte, o Eduardo Magalhães Ribeiro, um dos editores do blogue "Luís Graça & Camaradas da Guiné", põe a conversa em dia com a Giselda e o JERO.

E estava na hora de se avançar para os aperitivos, que foram servidos no exterior dadas as condições meteorológicas favoráveis, coisa que não tinha acontecido no Encontro anterior...

Finalmente, o pessoal ocupou as mesas para o almoço, cada uma delas com 10 participantes. A Maria Arminda optou por se manter junto dos companheiros de viagem - aqui com o Helder Valério Sousa e a Maria de Lurdes Canhão (tudo muito setubalense...).

Este camarada da esquerda tem uma história interessante, Chegou agora ao nosso contacto através do Agostinho Gaspar, tendo-se identificado então como antigo companheiro do Miguel Pessoa e António Matos nos velhos tempos da Guiné (o que não nos elucidou absolutamente nada...). É que ele agora é conhecido como Silvino Oliveira e naquele tempo era o Correia (Silvino Correia d'Oliveira, de seu nome completo). Vêmo-lo aqui durante o almoço, partilhando a mesa com o António Matos, num mini-grupo de pessoal da Força Aérea.
O Silvino já nos prometeu ser futuramente um assíduo participante nos convívios da Tabanca do Centro em Monte Real. Se ele até mora em Leiria...

E a propósito de grupos: Também o pessoal da Tabanca da Linha organizou a sua mesa; vemos aqui o António Maria Silva com o seu inseparável Smartphone, junto ao José Miguel Louro e esposa Maria do Carmo.

Ainda na mesma mesa o casal Moreira, Irene e Luís, e o Casal Marques, Fernando e Gina.

Finalmente (eram realmente muitos...) a esposa do António Maria Silva, Maria de Lurdes, e o casal Loureiro Pinto, Ana Maria e Jorge. Todo este pessoal da Linha é presença bastante assídua nos encontros da Tabanca do Centro... e não só...


Isto é tudo pessoal do Norte - Na primeira foto, o Joaquim Peixoto, José Manuel Cancela e José Manuel Lopes, na segunda foto o Eduardo Magalhães Ribeiro e filho, também Eduardo, mais o indispensável (e único...) José Casimiro Carvalho.

No final do almoço foram chamados ao palco os camaradas que completavam as dez presenças em Encontros Nacionais da Tabanca Grande. Vemos aqui os homenageados: Eduardo Campos, Helder Valério Sousa e Jorge Canhão.

E, dada a coincidência de datas com o aniversário da Giselda, houve oportunidade para uma récita de um soneto alusivo, da autoria do Régulo da Tabanca Grande, Luís Graça, e o canto dos tradicionais "Parabéns a Você" pela assistência...

Os petiscos do lanche tinham um óptimo aspecto - como parece comprovar o Casimiro Carvalho - e proporcionaram um fim de tarde agradável... e prolongado, para alguns mais resistentes.

A organização do XII Encontro Nacional da Tabanca Grande - Luís Graça, Carlos Vinhal e Joaquim Mexia Alves - deve dar-se por satisfeita com o êxito de mais esta edição. E para o ano há mais, onde quer que seja...
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Nota: Revista editada com recurso a fotos disponibilizadas pelo Miguel Pessoa e Manuel "Kambuta" Lopes. Agradecemos a este último a colaboração prestada.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

P907: A PROPÓSITO DE UMA FOTOGRAFIA

COMBATENTE!


Jaz ali,
no meio da erva por cortar,
debaixo de uma cruz por limpar,
numa campa,
miseravelmente abandonada,
por um estado indigno,
porque indignamente trata os filhos,
que pela Pátria deram a vida.

Sim,
é o estado que é indigno,
porque a Pátria,
a Nação,
Portugal,
não pertence ao estado,
mas a cada Português,
que tem a Cruz de Cristo,
gravada no coração.

Ali,
no meio da erva por cortar,
debaixo de uma cruz por limpar,
numa campa,
miseravelmente abandonada,
não está um Português,
tão somente,
estamos todos
e cada um de nós,
que orgulhosamente,
nos levantámos por Portugal,
e deixámos que a nossa vida,
fosse vida de combatente.
Joaquim Mexia Alves           

domingo, 30 de abril de 2017

P906: AGORA NUM EXPOSITOR...

AVENTURAS DE UM CAPACETE…
E NÃO SÓ…

Miguel Pessoa
Há tempos foi publicado neste blogue um Poste (P866) da autoria do meu camarada Alberto Roxo da Cruz, em que ele relatava as peripécias que envolveram a sua ejecção e recuperação nas matas da Guiné. Dessa história – que naturalmente conhecia, pois eu também estava lá… - fixei uma frase ali escrita:

“Aí, apercebi-me que tinha perdido o capacete, que estava com o francalete bem justo, assim como a máscara e a viseira colocadas. Quem quiser, que experimente retirar o capacete da cabeça, nestas circunstâncias. Nós tentámos essa experiência e ninguém conseguiu!”

A cena da perda do seu capacete na ejecção, essa desconhecia-a. Mas é em tudo igual ao que me tinha acontecido meses antes no Sul da Guiné, quando também tive que me apear dum Fiat G-91 em andamento… No meu caso não dá para relatar a minha descida em paraquedas pois não me lembro de nada entre o disparo da cadeira de ejecção e a recuperação da consciência uns minutos (?) depois da queda.

Esses pormenores já os relatei anteriormente no blogue "Luís Graça & Camaradas da Guiné" (podem ver aqui) .

Sobre o capacete, posso assegurar que também eu tinha a máscara de oxigénio colocada, o francalete devidamente ajustado e a viseira em baixo. Mesmo assim, o facto é que o capacete se foi embora durante a ejecção, o que mostra a brutalidade desta medida de emergência…

O que não contei então é que, mais tarde, em conversas tidas com o Gen. Paraquedista Norberto Bernardes (meu camarada e amigo desde os tempos da Academia Militar em 1965) me foram relatadas as peripécias da recuperação desse meu capacete, encontrado no mato pelo grupo que ele comandava (então como Capitão), inclusive com recurso a um ramo para ver se o IN o teria armadilhado…

Bom, como quem procura tem prioridade, no fim desse dia o meu amigo Bernardes estava na posse do meu capacete… e do meu paraquedas, os dois em razoável estado de conservação.

Magnânimo, o Norberto Bernardes propôs-me decidir qual a peça que eu gostaria de recuperar, ficando ele com a outra. Optei por ficar com o paraquedas, que achava ser uma boa recordação; afinal, iria ter um capacete novo quando voltasse a voar. E assim se fez: Eu guardei o paraquedas e o Norberto Bernardes levou o capacete para a sua casa.

Passados uns bons anos, parece que tivemos ambos um rebate de consciência – Afinal, lá em casa as peças não tinham grande préstimo, seria mais interessante se estivessem expostas num local em que pudessem ser apreciadas por outras pessoas.

Foi assim que em determinada altura o Norberto Bernardes me informou que tinha oferecido o meu capacete para ser exposto no Museu da Base Escola de Tropas Paraquedistas, em Tancos.

Achei a ideia interessante e resolvi oferecer o meu paraquedas ao Museu do Ar, da Força Aérea, oferta essa que acabou por não se concretizar por “falta de espaço para exposição do material” (palavras do responsável, que me escuso de comentar…).

Desde há muitos anos, principalmente desde a data da minha recuperação, os Paraquedistas têm sido uma família para mim, com quem gosto de me dar e que sempre me recebem bem. 

Foi por isso que em 2006 naturalmente resolvi oferecer o meu paraquedas ao Museu da Base Escola de Tropas Paraquedistas, onde hoje repousa na companhia do meu capacete, após uma longa separação de 33 anos, iniciada no longínquo ano de 1973…

Com um abraço especial ao Norberto Bernardes, um camarada por quem tenho grande amizade e consideração, lembrando também com saudade outro camarada que foi essencial na minha recuperação, o Cap. João Cordeiro, falecido num trágico acidente num salto de paraquedas, poucos meses mais tarde.


Miguel Pessoa



quinta-feira, 27 de abril de 2017

P905: APRESENTAÇÃO DE LIVRO EM LEIRIA

Recebemos do nosso camarigo Luís Branquinho Crespo o mail que aqui reproduzimos e em que se faz referência à apresentação duma obra da sua autoria. Aqui fica o convite para a vossa presença neste evento, em Leiria, no próximo dia 6 de Maio.
Os editores


“Segue em anexo um convite meu e da editora Textiverso para apresentação do meu livro “Guiné-Um Rio de Memórias”.

Muito grato fico que a Tabanca do Centro divulgue, entre todos os camarigos, a apresentação do meu livro a ter lugar no Auditório da Caixa de Crédito Agrícola de Leiria no Largo do Terreiro em Leiria , mais propriamente Celeiro da Casa do Terreiro como agora a Caixa de Crédito quer que seja chamado, no próximo dia 6 de Maio pelas 15.30 horas.

Tal livro também se destina a ajudar a Associação Humanitária Resgatar Sorrisos (ONGD) cuja finalidade é, fundamentalmente, ajudar a população da Guiné-Bissau nos sectores da educação e da saúde.

Luís Branquinho Crespo”



terça-feira, 25 de abril de 2017

P904: "Ó TEMPOS! Ó COSTUMES" (CÍCERO)

TABANCA DE AFRICANO NÃO CAI…

Manuel Frazão Vieira
Ainda não tenho memória curta. Mas, mesmo que tivesse, ela chegava para abarcar as imagens que ainda retenho do aeroporto de Bissalanca, dos aquartelamentos do Cumeré,  Aldeia Formosa,  Bolama e Chamarra.

Por aquelas cinco localidades da Guiné por onde passei, lidei e sonhei, contactando gentes, ouvindo-as, registando e observando usos, costumes e culturas ancestrais, porventura, enigmáticas para um jovem ocidental, a aproximar-se dos 23 anos, acabado de chegar a um novo mundo, a uma nova terra que sabia existir, apenas, pela tradição oral e conhecimento livresco paginado a partir das cartilhas do ensino primário.

Fui um curioso expectante em deixar levar-me ao conhecimento das formas e desenvolvimento social, costumário, hierárquico e cultural daquelas gentes de quem eu apenas sabia fazerem parte de um povo multirracial, um povo soberano, de uma nação única e indivisível espalhada do Minho a Timor.

Por onde passei e vivi, registei histórias indeléveis e acontecimentos marcantes num sucedâneo de circunstâncias e exigências próprias de um cenário de guerra de características e operacionalidade "sui generis". 

Cheguei à Chamarra pelas 18H00 do dia 28 de Maio de 1973, onde fui substituir o ex-Alferes Ribeiro, em final de comissão, no comando do PEL CAÇ NAT 55. Tratava-se de um destacamento muito pequeno que dependia do Comando do Batalhão de Aldeia Formosa. O destacamento da Chamarra estava situado a sul, a uma distância de 10 Kms de Aldeia Formosa, funcionando como posto avançado desta, muito próximo de Porto Balana / Gandembel, mais ou menos a 40 Kms de Guileje. 

A Chamarra era temível, tenho provas disso, mas... entre o "terror" de Cumbijã e a paz aparente e calculada da Chamarra, preferi esta, considerando um privilégio ter podido optar, em missão de guerra, perante uma situação, apesar de incerta e dúbia, onde tudo poderia acontecer. 

Nessa altura, já andava a CCAV 8351 independente, a minha companhia de origem, sediada em Aldeia Formosa,  comandada pelo meu bom amigo ex-Cap. Vasco da Gama, de malas às costas a caminho do "inferno" e do "atoleiro" de Nhacobá e Cumbijã que as NT abandonaram, em 1968/69, por tanta "pancadaria", decidindo o Comando de Bissau o seu abandono.

Na Chamarra, no PEL CAÇ NAT 55, tudo era novidade para mim. Uma população civil, constituída à base de mulheres, muitas crianças e jovens famintos de tudo. O pelotão nativo mantinha a sua missão com patrulhamentos diários ao nível de Secção comandada por um Furriel. Tinha 3 Furriéis no destacamento. A minha integração de responsável e líder naquele pequeno meio militar, ao nível de destacamento, na protecção, defesa e segurança da população ia-se solidando, paulatinamente, conquistando a confiança da população e militares nativos.

Tudo corria bem. Só que, ao meu 4.º dia de Chamarra, no PEL CAÇ NAT 55, a seguir ao almoço do dia 01 de Junho de 1973 fiquei sem "casa", sem "moradia", sem "tabanca". E, agora? Coração ao alto! Eu explico.

Estávamos a iniciar a "estação das chuvas", que, como bem se lembram ocorre no período de Maio a Novembro. Este período das chuvas funciona, também, como uma marca cultural e social interessante e, se calhar desconhecido de muitos, que é o seguinte: é pelas chuvas, pela "estação das chuvas" que passaram, viveram que aquela gente africana sabia, aproximadamente, a sua idade.

Aconteceu, a seguir ao almoço do dia 1 de Junho de 1973, uma mudança radical do estado do tempo. Num ápice, a mãe-natureza surpreendeu-nos a todos transformando o espaço atmosférico límpido num acastelar medonho de nuvens de cor negra chumbada, com um vento a soprar sem piedade, desafiando uma forte trovoada que se prolongou e alongou por toda a tarde e noite desse dia.

Antes da descarga provocada pelo choque eléctrico das nuvens, eu conversava com o meu velho "chefe de tabanca" (a fazer "psico", dizia-se) alertando-o para os perigos iminentes daquele momento, provocados pela forte ventania que já se fazia sentir.

O velho, sereno, de semblante patriarcal, afagando a sua pensativa barbicha cuidada e branca, exclamou: "Alfero, tabanca de africano não cai, a de branco vai no chão..." 

Pouco depois, voavam pelos ares chapas, ramos e paus, enquanto, tento sem grande sucesso, apanhar as chapas de zinco que cobriam o meu quarto, rolando pelo solo contra tudo e contra todos. Conforme profecia, a "tabanca " do meu simpático interlocutor mantinha-se de pé, segura, como se estivéssemos em tempo da "estação seca". 

Passem bem.
Abraços
Manuel Frazão Vieira