sexta-feira, 17 de novembro de 2017

P967: REVISTA "KARAS" DE NOVEMBRO



Uma arreliadora avaria, já em plena vila de Monte Real, fez atrasar a chegada do Miguel Pessoa ao local da concentração. Enquanto esperava pelo apoio do ACP para substituir a bateria do carro, a Giselda e a irmã Nair avançaram para o local, aqui fazendo companhia ao Artur Soares e ao Jaime Brandão - este último só de passagem, para dar um abraço ao pessoal.


Um grupo habitual nos nossos encontros - o Diamantino Ferreira, António Sousa, Manuel "Kambuta" Lopes e Almiro Gonçalves. Este último passou momentos difíceis durante os recentes incêndios nas matas nacionais do pinhal de Leiria, tendo visto em risco a sua habitação em Carvide.


Um friso de senhoras presentes no convívio - Isabel Gaspar, Hortense Mateus, Helena Frade, Giselda Pessoa e Nair Antunes.


O José Manuel Coutinho Quintas e o Vitor Junqueira lá vão aparecendo, embora não sejam dos mais assíduos... E o António Nobre aparece aqui na companhia do Virgolino Ferreira, por ele inscrito.


No momento da foto da praxe, antes da ida para o almoço, lá apareceu finalmente o Miguel Pessoa, já com o problema do carro resolvido. Felizmente o Kambuta tinha tirado algumas fotos durante a concentração no Café Central, o que garantiu a reportagem da parte inicial, que o nosso editor não tinha podido acompanhar.


O Manuel Mendes e o Kambuta ladeiam o Manuel Frazão Vieira. Todos eles têm sido assíduos participantes nos nossos convívios... assim como o António Sousa e o Vitor Caseiro, que também não costumam faltar. Já o Carlos Manata e o Carlos Prata têm dias sim... e dias não...



O Luís Branquinho Crespo partilhando a mesa com a família Gaspar. O Agostinho, esse lá continua a fazer o pleno das presenças nos nossos convívios . Vai em 64!...
O JERO vai folheando a agenda para não falhar nenhum compromisso . E é vê-lo apressado no fim do almoço para regressar a Alcobaça e dar uma saltada ao "seu" jornal - o Cister - para ver como estão indo as coisas...



O Silvino Correia d'Oliveira "baldou-se" no encontro anterior devido a outros compromissos, mas desta vez conseguiu estar presente. O António Sousa, ao seu lado, esse não tem falhado nenhum convívio...
O casal Gonçalves - Almiro e Amélia - já nos habituou à sua presença. E não falhou - mais uma vez.


O Manuel Mendes por vezes aparece sozinho, que alguém tem que ficar a tratar dos netinhos... Aqui, o Almiro Gonçalves faz-lhe companhia.
Um grupo variado na foto da direita; Em primeiro plano o Carlos Santos, que se fazia acompanhar pelo Raul Santos e José Carvalho. Ao fundo o Vitor Junqueira e o José Pimentel de Carvalho. De pé, o Miguel Pessoa e o Kambuta.



O António Frade e esposa Helena vinham desta vez acompanhados por um estreante, o Fernando Cabeço Cação, que fez a sua comissão em Moçambique.
Como vem sendo hábito o Rui Marques Gouveia vinha acompanhado pelo cunhado, José Jesus Ricardo.



O casal Lopes - Manuel e Hortense - partilhou a mesa com o Miguel Diniz. Noutro canto o DiamantinoFerreira e Emília tinham a companhia do Manuel Frazão Vieira e do Benjamim Mira Dinis.



Uma panorâmica dos dois lados da mesma mesa. Desfalcada de metade do grupo, a dupla sobrevivente de Aveiro - Manuel Reis e Carlos Prata - rodeou-se de reforços: De um lado o Artur Soares e o José Luís Rodrigues, do outro o Carlos Manata e o Vitor Caseiro.



O Manuel Kambuta Lopes foi de grande ajuda neste encontro pois garantiu a cobertura fotográfica da fase incial do convívio na ausência forçada do editor/fotógrafo da revista "Karas". E a dupla responsável pelas contas do almoço - Vitor Caseiro e Carlos Santos - mais uma vez realizou um excelente trabalho. Os nossos agradecimentos a este trio, sempre pronto a colaborar.



sábado, 4 de novembro de 2017

P963: AFINAL HAVIA MAIS...

Já depois de publicado o texto do JERO sobre o Moreira (nosso Poste 962) surgiu um comentário elaborado pelo próprio JERO em que acrescentava pormenores interessantes à saga deste nosso camarada. Achamos que este novo texto merece ser destacado pelo que publicamos hoje o comentário do próprio autor feito ao poste anterior. Será que acaba aqui?...

O MOREIRA – PARTE FINAL (?)

JERO
Depois do nosso regresso da Guiné em Maio de 1966 encontrei-me nos anos seguintes vezes sem conta com o Moreira. Fui ao seu casamento, conheci os seus filhos e mais tarde os seus netos.

O tempo passa a correr e ao longo dos anos muita coisa aconteceu na vida do Moreira. 

Em meados de 2012 telefonou-me e pediu-me para passar um dia ou dois com ele. Queria fazer o seu testamento e precisava da minha ajuda. Avancei de imediato e encontrei um amigo destroçado e carregado de angústias.

Devido a circunstâncias imprevisíveis vivia há cerca de 3 anos longe da família mais “próxima”: a sua mulher, os seus dois filhos e os seus dois netos. O seu “calvário” começara numa fase difícil da sua vida comercial, em que não conseguiu cumprir as suas obrigações para com os fornecedores devido a atrasos de pagamento por parte dos seus clientes.

Vivia então no Porto e, por feitio e maneira de ser, não confidenciou nunca os seus problemas nem à mulher nem aos filhos. Esperava ser capaz de superar as dificuldades sem “partilhar” os seus problemas. Iniciou uma “guerra de silêncio” com os seus e o sofrimento permanente em que se transformou a sua vida não abrandou jamais.

Apareceu entretanto no “filme da sua vida” o marido da filha que, parecendo poder ser de início um “elo de ligação” com a família, se veio a revelar uma personagem maquiavélica. O genro transmitiu à família que as suas dificuldades se deviam… “a uma vida de estroina”…

E este “bom rapaz” conseguiu minar a confiança da mulher e dos filhos, que esqueceram todo um passado de trabalho e dedicação do Luís.

Quando me chamou tinham passados 3 anos da sua rotura com a família. O que mais lhe custava era o afastamento dos seus netos: uma menina com 15 anos e um rapaz com 11.

De vez em quando falava com eles pelo telemóvel mas em condições que sentia que não eram espontâneas dada a proximidade da mãe, que impôs que tudo passasse por ela antes de falarem com o avô.

Por ironia do destino e para “ter um telhado” passou a viver e a tomar conta da mãe da sua mulher, viúva, doente e acamada. Passou os dias a cuidar da pequena quinta da sogra, que tem algumas árvores de fruta e canteiros de tomates, beringelas e outras “verduras” de primeira necessidade. Vê televisão, ouve rádio e dorme muito mal. Na parede do quarto onde dorme, bem perto da sua cama, tem várias fotografias dos netos. Que lhe sorriem mas… apenas no papel. 
O Moreira

E é aqui que entro eu e os meus dotes de escritor, como o Moreira me chama, para fazer o seu testamento.

“Quando morrer o meu corpo irá para uma Faculdade de Medicina para ser estudado por futuros médicos. Quando estiver “todo estudado” já deixei instruções para ser cremado. As minhas cinzas devem seguir depois para o cemitério da terra onde nasci. Na minha campa quero apenas que fique a minha fotografia e seja colocada uma lápide com o meu nome e com o emblema da “675”, a minha Companhia de Caçadores dos meus tempos da Guiné. A minha última família.”

Passaram 5 anos. Estamos em 2017. A sogra do Moreira já partiu deste mundo. O meu amigo, divorciado e sem família, ficou sozinho e a viver em casa emprestada por um nosso camarada da Guiné.

Mas já não está sozinho. O mundo dá muitas voltas... e o Moreira casou há dias com uma “menina” de 45 anos, também divorciada. O mundo não pára!

Ainda quererá ir para a Faculdade de Medicina para ser estudado por futuros médicos?
Não me parece. Está agarrado à vida mais do que nunca. E tenho a certeza que, se não rasgou o testamento que eu ajudei a escrever, já nem sabe onde ele está.

Bora viver, Moreira! Dá um beijo meu à Filipa.

JERO

terça-feira, 31 de outubro de 2017

P962: JERO - LEMBRANÇAS DE ÁFRICA

  O MOREIRA

JERO
Era (e é) transmontano, «duro», infatigável, leal e amigo do seu amigo, como é apanágio das gentes daquelas regiões altas e pedregosas do nosso Portugal. E altamente “desenrascado”.
São inúmeras as histórias dos seus «desenrascanços» na vida militar, mas vamos só contar uma muito especial que revela o seu invulgar sentido de humor.
Por causa da minha mania das escritas deitei-me uma noite particularmente tarde.
Quando cheguei ao meu “quarto particular”, que partilhava com outros militares, já toda a gente dormia. No “quarto” ao lado, onde estavam hospedados mais uns 3 ou 4 furriéis, pareceu-me ouvir uns “cochichos” mas não liguei. Estava cheio de sono.
Mal levantei o mosquiteiro sai-me uma galinha do inte­rior, situação de todo inesperada que me fez desequilibrar e gritar acagaçado.
Depois, com a ajuda de uma lanterna percebi que, até onde a minha vista alcançava, os lençóis estavam todos borrados. Incrivelmente borrados e mal cheirosos!
Entretanto já tinha uma quantidade de “amigos da onça” (e da galinha) perto de mim que “gozavam a cena ” e que, entre gargalhadas, “lamen­tavam a sorte do Oliveira”.
De facto, em tantos meses de mato, nunca tinha aconte­cido a ninguém uma daquelas...
O Moreira
Eis se não quando aparece o Moreira com dois lençóis lavados.
Ajudou-me a tirar os ”borrados” – a galinha já tinha sido corrida a pontapés – e fez-me a cama de lavado. Que gajo porreiro!
Deitei-me e poucos minutos depois tinha comichão por todo o lado e cada vez que me virava parecia-me que estava a ser comido vivo...
Mais uma vez com o auxílio da pilha lá investiguei o interior do mos­quiteiro e pareceu-me ver milhares de minúsculos “pontos ne­gros”!
Os “pontos negros” deslocavam-se e afinal eram piolhos!

Mais uma vez me apareceu o Moreira para me dar uma “mão”. Ajudou-me a desmontar o “cenário” para... sacudir os intrusos!

E mais uma vez me esfreguei todo com álcool e tentei dormir. O que foi... mentira.

Meses depois, já a bordo do “Uíge”, quando regressáva­mos a Lisboa é que soube que a galinha ”tinha aterrado” dentro do meu mosquiteiro graças a uma mão malandra. A do Moreira, está claro. Nessa altura chamei-lhe tudo menos “bom rapaz”…

Muitos anos depois do regresso da Guiné o Moreira continua desenrascado e com uma “lata” que só visto.

Numa determinada fase da vida montou um negócio no ramo alimentar, que o obrigava a ir para a estrada muito cedo. E a fazer muitas viagens.

Um dia dirigia-se a Espanha com a carrinha carregada de presun­tos. O livro das guias de remessa seguia, como de costume, no porta-luvas.

Já perto da fronteira foi mandado parar por uma brigada de trânsito. A continência da ordem e o pedido habitual.
– Os seus documentos, por favor.

O Moreira nem lhes deu tempo para dizer mais nada.

– Oh Senhor Guarda, hoje você e o seu colega deviam jogar no totoloto ou comprar lotaria. Mas que pontaria com que vocês estão! Hoje vocês ganhavam o “Euromilhões”. Não vão acreditar mas levo a carrinha carregada de pre­suntos, tenho aqui o livro das guias de remessa e com a pressa saí de casa sem as preencher.

– Deviam jogar no totobola, na lotaria... eu sei lá. Vocês estão cá com uma pontaria!
E... repetia-se, repetindo os argumentos da sorte e do jogo até à exaustão.

Num dos intervalos do “arrazoado” do Moreira um dos guardas pediu-lhe para se calar.
– Preencha lá as guias e siga…

Poucos dias depois estavam os três a almoçar algures na zona de Vila Franca de Xira. A atitude pedagógica dos guardas granjeou dois novos amigos para o Moreira. E se não ganharam o “Euromilhões” ganharam um amigo especial.

O Moreira além de “um desenrascado” é também um ser humano de excepção. E um amigo que não esqueço.

JERO              


terça-feira, 24 de outubro de 2017

P960: UM DESABAFO DO KAMBUTA

El-Rei D.Dinis deve estar às voltas no túmulo,
revoltado com o que está a suceder…

UMA FICÇÃO MINHA, A CONDIZER COM A TRISTE REALIDADE, A DESTRUIÇÃO DAS MATAS NACIONAIS

Seguíamos os dois dentro do carro, eu e a Hortense, Estávamos então a entrar nas tristes matas nacionais, totalmente queimadas, cuja visão nos provocou fortes exclamações de pesar ao vermos tanta destruição.

Ao chegarmos junto da Ribeira de São Pedro deparámos com um casal já muito velhinho deitado no chão. Pensámos que tinham sido vítimas do fogo, por isso parámos o carro e eu tentei ver o que se passava.

Com os conhecimentos de enfer-magem adquiridos no decorrer da minha comissão em África, procurei de imediato socorrê-los. Abeirei-me dos dois corpos, repa-rando que estavam inanimados; logo tentei reanimá-los da melhor maneira possível. O velhinho casal lentamente começou a voltar ao normal, iniciando uma série de desabafos entrecortados com uns gemidos - «Ai, a minha linda mata toda queimada!» - exclamavam.

Calmamente fui-lhes fazendo perguntas, ao ponto de identificar o velho casal, posto o que chamei a Hortense perto de mim e segredei-lhe dizendo quem eram.

Com a nossa ajuda o casal lá acabou por se levantar, parecendo então que nos tinham reconhecido. O velhinho inesperadamente excla-mou, «Ai os meus primos, o Manel Kambuta dos Dembos e a esposa!».

Abraçámos-no os quatro mas não houve conversa para matar saudades. Eu só lhe fiz a pergunta - “Primo D.Dinis, depois de tantos séculos da vossa partida para o túmulo para um descanso merecido, depois de tanto terem trabalhado para bem da nossa Pátria, do nosso lindo Portugal, de terem mandado semear e plantar as lindas matas nacionais, afinal o que vos levou a voltar agora?”

O meu primo D. Dinis e a esposa, a minha prima Isabel de Aragão, responderam que estavam nos seus túmulos dormindo um sono profundo, quando tiveram um triste sonho que os fez acordar. E explicaram que uns criminosos sem coração, sem qualquer amor à pátria, tinham ateado o fogo e destruído as nossas lindas matas nacionais. O sonho era tão real que acordaram, e de tanto espernearem, rebentaram com o túmulo e saíram correndo como loucos só parando naquele local. E caíram no chão desmaiados ao verem tanta falsa liberdade, tanta má educação, tanta maldade, tanta falta de civismo, tanta falta de amor pelo País, tanta destruição.

E, digo eu, quem tem respon-sabilidades para resolver situações como a protecção das matas não tem feito muito por isso. E os incendiários ficam em liberdade, prontos para prosseguirem a sua nefasta acção.

No tempo da velha senhora, por muitos criticado, no entanto as matas mantinham-se sempre limpas, havia guardas florestais e casas da guarda. Quando tudo isso terminou, as matas nacionais ficaram abandonadas e à mercê destes criminosos.

O meu primo D. Dinis deu-me um forte abraço dizendo - “Primo Manuel Kambuta, és de uma geração de jovens que tudo fizeram na guerra do ultramar por amor ao nosso País, e que hoje se sentem revoltados com estas situações assim como eu me sinto. Peço-te que não te canses de escrever desabafando todas as verdades, que quem diz a verdade não merece castigo. Esta gentalha que anda a destruir o nosso País passará um dia a ser cinza e pó, não vai levar nada consigo, para quê tanta maldade, tantas destruições, roubos, fogos, mortes?”

O meu primo D. Dinis deu-me um último abraço de despedida - “Vou-me embora muito triste e desgostoso com tudo o que estou a ver, prefiro morrer outra vez e voltar para o meu túmulo; e prometo nunca mais voltar a um espaço que mandei semear e plantar com tanto amor e carinho”.

Esta minha ficção foi escrita com todo o respeito e dedicada ao nosso Rei D.Dinis, com muita mágoa pela destruição das matas que ele mandou semear e plantar para bem do seu e nosso amado País.

Manuel Kambuta dos Dembos


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

P958: NA RESSACA DE UMA TRAGÉDIA

HOMENAGEM

ÀS FLORES QUEIMADAS DO PINHAL DE LEIRIA,
AO REI D. DINIS E AO SEU PAI D. AFONSO III


D. DENIS


     Ay flores, ay flores do uerde pyno,
se sabedes nouas do meu amigo!
              Ay Deus, e hu é?

     Ay flores, ay flores do uerde ramo,
se sabedes nouas do meu amado!
             Ay Deus, e hu é?

     Se sabedes nouas do meu amigo,
aquel que mêtiu do que pos cômigo!
            Ay Deus, e hu é?

     Se sabedes nouas do meu amado,
aquel que mêtiu do que mh á jurado?
           Ay deus, e hu é?

     Vos me perguntades polo uoss` amigo,
e eu ben uos digo que é san`e uivo;
           Ay Deus, e hu é?

      Vos me perguntades polo uoss` amado,
e eu bê uos digo que é uiu`e sano,
           Ay Deus, e hu é?

      E eu bê uos digo que é san` e uyuo,
e seera uosc` ant` o prazo saydo;
           Ay Deus, e hu é?

      E eu bê uos digo que é uyu` e sano,
e seera uosc` ant` o prazo passado!
           Ay Deus, e hu é?


NOTA - Esta "Cantiga de amigo" foi escrita pelo nosso Rei Poeta D. Dinis, em meados do Séc. XII, há mais de 650 anos, num português arcaico próprio da época.

O poema que acabastes de ler fala-nos de uma namorada ansiosa que pede notícias do amigo ausente às cristas floridas dos pinheiros do verde pyno do pinhal de Leiria. Estas cristas dos pinheiros respondem que o amigo da donzela apaixonada chegará antes do prazo.

O nosso Rei D. Dinis, vivendo no Castelo de Leiria, passou muito do seu tempo por terras de Monte Real (sede territorial da Tabanca do Centro) e arredores, embalado pelos seus encantos amorosos. Hoje, se voltasse, já não encontraria mais cristas floridas nos vetustos pinheiros do pinhal que plantou.


Morreu o verde pinho do Rei Poeta e Lavrador. Arderam as naus do amanhã. Há sempre "alguém" que não gosta da Natureza, que não gosta da Poesia, que não gosta do Amor! 

Manuel Frazão Vieira
ex- Alferes Milº (ex-CMT Pel Caç Nat 55)


sábado, 14 de outubro de 2017

P956: INSISTÊNCIAS...

A VISITA AÉREA ÀS COMPANHIAS…
QUE NÃO ACONTECEU…

Joaquim Mexia Alves
Quando estava na Ponte de Udunduma com o Pel Caç Nat 52, fui chamado a Bambadinca para reforçar a CCAÇ 12, numa qualquer operação de que não me lembro, mas na qual nada deve ter acontecido, pois senão até a minha fraca memória se lembraria.

A verdade é que ao fim da manhã (a operação começaria ao fim da tarde), quando já estava em Bambadinca a fim de combinar a coisa com o meu grande amigo Capitão Bordalo, comandante da CCAÇ 12, e os seus Alferes, aterra um DO 27 na pista do quartel.

É sabido, pelo menos no meu tempo assim era, que os Comandantes de Batalhão (passo a crítica jocosa), se pelavam por uma voltinha de avião ou helicóptero, com a desculpa da visita às Companhias mais afastadas.

É curioso que as colunas de abastecimento, pelos vistos, não serviam tal propósito, vá-se lá saber porquê, o que pelo menos no caso do meu batalhão era uma realidade.

Mas, voltando aos factos, logo o Comandante do Batalhão se deslocou à pista para tomar assento no avião e dar a sua volta aérea.

Foi então que o piloto, grande amigo meu de Monte Real, Jaime Brandão, perguntou por mim, convidando-me para ir com ele até Nova Lamego, pois iria acontecer uma noite da fados e era muito importante a presença da minha voz.

Acrescentou ele que não havia problema, pois no outro dia voltava a Bissau e no caminho deixava-me em Bambadinca (Era fácil, declaravam uma porta aberta e assim tinham de aterrar…).

A cara do Comandante era indescritível e eu disse ao Jaime que era impossível porque tinha aquela operação.

Voltámos para a messe e passadas uma hora ou duas ouve-se um helicóptero aterrar e aí o Comandante disse:
- Agora é que é!!!

Claro que fui também até à pista.

Do helicóptero sai o Pedro Melo Ribeiro, outro amigo, este de Lisboa, que não era piloto mas vinha a acompanhar, e me diz:
- É pá, vimos-te buscar porque esta noite há fados em Nova Lamego e o pessoal disse logo que tu eras imprescindível!!!

A vossa imaginação está agora com certeza a ver a cara do Tenente-Coronel, com o espanto e sei lá mais o quê bem retratado na fisionomia.

Claro que dei a mesma resposta e retirei-me para a messe, sob os olhares gozões de uns e o olhar reprovador de outro, que não sabia bem o que fazer e até talvez meditando na importância da minha pessoa.

Por volta das 3 ou 4 horas da tarde, depois de uns uísques bebidos para animar as tropas, aterra outro DO 27, e o Comandante entre o incrédulo e ansioso, lá se dirigiu para a pista, comigo e já um número de camaradas a acompanhar.

Era novamente o Jaime Brandão, que com um sorriso dispara:
- Então vens ou não?

Escusado será dizer que a resposta foi a mesma e que o Comandante neste momento já não tinha cara, mas uma máscara de incredulidade, espanto, irritação, etc. etc.

Nos dias que se seguiram o gozo foi enorme, umas vezes mais descarado, outras mais disfarçado.

À noite lá fomos para a operação que, como digo acima, não teve nada de especial a reportar.

E assim foi a visita aérea que... não aconteceu!!!!

Durante uns tempos foi lenitivo para as agruras e desconforto da guerra e só por isso já foi muito bom!!!

         Joaquim Mexia Alves