segunda-feira, 10 de abril de 2017

P900: EVACUAÇÃO ATRIBULADA

Recentemente, um comentário do nosso camarigo Alberto Branquinho no blogue “Luís Graça & Camaradas da Guiné” despoletou a publicação naquele blogue da história (revista) da queda do DO-27 em que seguia a Enfermeira Paraquedista Giselda Pessoa, no decorrer de uma evacuação, em 17 de Novembro de 1973. 

Porque existia uma versão mais personalizada e mais completa (publicada no livro "Nós, Enfermeiras Paraquedistas"), foi essa que disponibilizei para publicação. E já agora republica-se o texto (agora revisto) neste blogue, quatro anos depois da primeira edição, pois temos camaradas chegados mais recentemente que muito provavelmente ainda não leram esta história.
Miguel Pessoa


UM DO-27 NO CHARCO DO COMO

Na manhã do dia 17 de Novembro de 1973 o Centro de Operações do Go1201, na BA12, recebe um pedido de evacuação, vindo de Catió, tendo de imediato destacado um avião DO-27 para efectuar essa missão. A equipa de alerta era constituída pelo Fur. Ivo Mota, da Esq. 121, e por mim, Enfª Paraquedista Giselda Antunes, juntando-se a nós a Enfermeira Paraquedista Natália Santos, acabada de chegar à Guiné e que, por ser "pira", acompanhava as "veteranas" nas evacuações, para "ganhar calo".

Estava-se já na época pós-Strela, que tinha trazido diversas restrições à navegação aérea. Entre a opção de subir para 10.000', descendo depois à vertical do destino, o piloto optou pela outra opção possível, que era a de efectuar todo o voo a baixa altitude (50' a 100' sobre o terreno - o correspondente a 15 a 35 metros), o que implica um risco acrescido no caso de uma falha no motor.

Para evitar zonas mais perigosas o piloto decidiu então seguir ao longo da linha de costa, sobre a água, contornar a ilha de Como (refúgio do PAIGC), subir o rio Cumbijã e, atingido Cufar, dirigir-se em linha recta para Catió.

O voo decorria normalmente a baixa altitude; à passagem por Bolama tivemos a oportunidade de ver o navio que fazia o transporte de víveres e material, que se dirigia para sul. O DO-27 não parecia ressentir-se de qualquer problema resultante do incidente da véspera. O avião sofrera um choque com um pássaro que lhe tinha acertado no hélice, mas a inspecção feita ao avião no intervalo dos dois voos não tinha detectado qualquer anomalia.

Quando sobrevoávamos os tarrafos ao lado da ilha de Como, o avião resolveu "apagar-se" - o motor parou repentinamente, obrigando o piloto a uma reacção rápida para preparar uma aterragem de emergência. Dada a baixa altitude a que seguiam, a única solução era "poisar o estojo" na direcção em que seguiam, em pleno tarrafo, o que o piloto fez - diga-se - com bastante êxito, pois o avião ficou atolado no lodo, mais ou menos direito, tendo os ocupantes saído ilesos desta aterragem (ou mais propriamente "alodagem"). 



Quem esteve na Guiné sabe bem as diferenças no contorno das margens (no mar ou nos rios) entre a maré cheia e a maré vazia. Neste caso era hora da maré baixa e a água, tendo descido, deixara o tarrafo coberto de uma espessa camada de lodo.

Rapidamente abandonámos o avião procurando, atascados no lodo, alcançar uma zona de águas mais profundas, onde pudéssemos, mergulhados, ficar menos expostos a olhares da margem e ser eventualmente "pescados" pelo navio que pouco antes tínhamos visto a navegar naquela direcção.

Na realidade era grande a nossa preocupação com a nossa segurança pois a zona em que tínhamos caído era completamente dominada pelos guerrilheiros do PAIGC e a população existente totalmente controlada por aqueles.

Para além da eternidade que demora a passar o tempo naquelas condições, não dá a esta distância para especificar o que senti. Claro que a aproximação do navio por que tínhamos passado e o facto de sabermos que a Base detectaria a nossa ausência nos transmitia algum optimismo. Nem por isso deixava eu de empurrar a “pira” Natália para dentro de água quando ela, ainda inexperiente e não se apercebendo da gravidade da situação, se tentava levantar para ver melhor à volta... Tentávamos mesmo não lhe dar a entender o perigo que corríamos, pois não ganhávamos nada em pô-la ainda mais nervosa.

E ainda me ressoava na cabeça a reacção do Ivo Mota quando nos afastávamos do avião, depois da queda, que me dizia com uma franqueza ingénua “Ó Giselda, ainda bem que foi contigo!”. Claro que respinguei com ele embora tivesse compreendido o alcance das suas palavras – já tínhamos um ano de convívio na Guiné e tínhamos confiança um no outro. Por isso ele sentia-se mais à vontade comigo ali.

O piloto tinha decidido entretanto regressar ao avião para recolher a arma que o DO-27 transportava dentro de uma caixa que servia de banco ao pessoal que era transportado na parte de trás. Dada a dificuldade de progressão, tive que o acompanhar para o ajudar, pois já evidenciava algumas dificuldades em regressar ao local em que tínhamos deixado a Natália.

Ter-se-iam passado duas horas desde a aterragem forçada no local quando começámos a ouvir o barulho de um motor. Detectámos então uma embarcação do tipo Zebro que se aproximava do local, atraída pela silhueta do DO-27 atolado. Desconfiados, continuámos metidos na água pois a distância não permitia uma identificação eficaz do pessoal que se aproximava. Sofremos uma grande desilusão quando vimos o zebro afastar-se da margem. Passados uns largos minutos ouvimos novamente o barulho do motor. Com o regresso do zebro, chegando agora a uma distância mais curta, pudemos verificar que os tripulantes eram brancos, o que nos levou a chamar a sua atenção. Rapidamente fomos recolhidos e levados para o navio de guerra a que o zebro pertencia e que se aproximara entretanto do local.

Na BA12, entretanto, alertados pela falta de reportes do DO-27, tinham mandado descolar um Fiat G-91 que, seguindo o percurso mais provável voado pelo DO veio rapidamente a localizá-lo no tarrafo. Imediatamente a Força Aérea pediu a colaboração da Armada, que deslocou uma segunda embarcação para o local.

Terá então havido aqui alguma falta de comunicação pois o segundo navio atarefava-se na busca do piloto no local quando este já se encontrava no primeiro navio. Mas mais vale a mais do que a menos...

O facto é que, depois de recuperada pela Armada, mesmo sem dispor de material (perdido no acidente) ainda fui fazer a evacuação a Catió, num outro avião entretanto disponibilizado, que "serviço é serviço"... Não tendo comido nada durante todo o dia, fui salva por umas castanhas que transportava no meu camuflado e que tinham resistido ao banho…


No dia seguinte, uma LDG da Armada iniciou os trabalhos de recuperação do avião, aproveitando a fase da maré alta, que permitiu a aproximação ao local. A içagem do avião infelizmente não decorreu tão bem como se pretendia. Na primeira tentativa o DO acabou por cair novamente à água, ficando ainda mais danificado… Provavelmente foram maiores os estragos nessa altura do que na altura da queda! 



Não foi no entanto importante, pois o destino dele seria sempre a sucata. A deformação da estrutura e a corrosão da água do mar tinham provocado danos irreparáveis no avião.


Podemos imaginar que o fim feliz deste acontecimento se deveu a um conjunto de factores favoráveis que podiam muito bem não ter acontecido:

O facto de o avião voar bastante baixo, não sendo observável das tabancas existentes;
A aproximação final do avião ao ponto de queda com o motor parado, não tendo, pelo seu silêncio, alertado ninguém próximo (detectou-se depois uma tabanca com população presumivelmente hostil a cerca de 700 metros);
A existência de um navio da Armada, em missão de vigilância próximo do local, o que permitiu a rápida recuperação dos ocupantes do DO-27.


Giselda Pessoa

quarta-feira, 5 de abril de 2017

P899: REVISTA "KARAS" DE ABRIL


Como já referimos atrás, as obras de remodelação do Café Central impediram que utilizássemos aquele local como ponto de concentração do pessoal. E foi possível ver os participantes espalhados ao longo da Rua de Leiria, bem próximo do local do almoço, mas aproveitando as sombras existentes para se protegerem do sol forte.


À esquerda, um trio que tem andado arredado dos nossos convívios - Joaquim Vieira, Luís Uva e Manuel Ferreira da Silva (o de Bor...). 
À direita, um grupo inscrito pelo Carlos Santos - o Raul Santos, o Alípio Martins e o José Carvalho (os dois últimos, estreantes). Lá atrás, o Luís Lopes Jorge observa.


O Miguel Pessoa e a Giselda confraternizam com o alcobacense JERO. E o Miguel Diniz vai pondo a conversa em dia com o Almiro Gonçalves e o Agostinho Gaspar (este no seu pleno de 60 presenças em 60 encontros). Curiosamente, o Miguel Diniz foi há uns anos vítima de uma rigidez burocrática que lhe trocou o "s" original por um "z", situação que não envolveu a esposa Judite - que continua a usar o apelido Dinis. No mínimo, invulgar...


O António Frade com o Carlos Morte e o Carlos Manata. O António esteve preocupado porque o seu nome não surgia na lista de inscritos. Mas a coisa foi corrigida a tempo... Pelo sim, pelo não, verifiquem sempre se o vosso nome consta da lista de inscritos. Mas para isso convém que a mensagem tenha sido mesmo enviada, ó Manuel da Ponte!
Não é todos os dias que temos a presença dos dois "Manuel Ferreira da Silva". Na foto da direita vemos o de Gadamael...


O Joaquim Mexia Alves com o Rui Marques Gouveia, o qual estava acompanhado como habitualmente pelo cunhado José Jesus Ricardo.
Como colaborador permanente do jornal "Cister", de Alcobaça, o JERO não perde a oportunidade de fazer a divulgação do "seu" jornal, trazendo sempre uns tantos exemplares para distribuir pelos interessados.



Chegada a hora do almoço e despachada a foto da praxe - desta vez com um enquadramento diferente - era hora de avançar para o petisco.



Como habitualmente, o pessoal vai-se organizando por grupos. Na ausência do Manuel Jacinto, coube ao Luís Ezequiel Nunes a iniciativa de inscrever uma série de pessoal. Para além de dois acompanhantes que vemos em primeiro plano no lado direito, vemos o Rui Ferreirinho e, a partir do fundo, o Luís Ezequiel Nunes, o Ramiro Garcia e o Jaime Carlos (estes dois últimos em estreia).
À direita, ainda do mesmo grupo e na mesma mesa, o Ernesto Neves Lopes e o Amândio Jorge Lopes.



O nosso experiente tesoureiro Vitor Caseiro partilhava a mesa com o pessoal inscrito pelo seu habitual adjunto nas contas, o Carlos Santos. Para além dos dois vemos ainda o Alípio Martins e acompanhantes, o Mário Passagem e acompanhante e o Raul Santos.
E o JERO teve a oportunidade de rever o Leonel Loureiro, um velho camarada a que o unem memórias comuns de 50 anos e um breve reencontro há cerca de 10 anos. Agora o Leonel pôde finalmente pôr a conversa em dia...



Duas perspectivas da mesma mesa, em que podemos ver o Carlos Manata, Manuel Ferreira da Silva (Gadamael), Jorge Marto Silva (da Liga de Combatentes de Leiria), Fernando de Freitas Pinto, José Jesus Ricardo, Rui Marques Gouveia, José Luís Rodrigues e Luís Lopes Jorge.



E o pessoal da casa - D. Preciosa e D. Dulce - atarefava-se a manter abastecidos os pratos dos participantes.



O Clã Lopes - Manuel "Kambuta", Hortense e Gonçalo - acompanhado pelos amigos Almiro Gonçalves e Joaquim Henriques.
O Luís Branquinho Crespo e o Manuel Frazão Vieira partilhavam a mesma mesa, vendo-se ainda ao fundo os regressados Joaquim Vieira e Luís Uva. Atravessando o Vasco da Gama um período menos bom do seu estado de saúde - que o tem impedido de se juntar a nós - o Manuel não tem podido confraternizar como desejava com este seu amigo e camarada de velhos tempos no sul da Guiné. Será que podemos contar com o Vasco para final de Maio?



A família Gaspar esteve mais uma vez reunida nestes convívios. E o trio (Agostinho, Isabel e Miguel) confraterniza com o Carlos Morte e o Manuel da Ponte. O António Carreira já tinha estado presente anteriormente, repetindo agora a sua presença entre nós.



Era chegada a altura das sobremesas, e o Manuel Kambuta avança célere ao castigo...
Como habitualmente, o régulo dirigiu algumas palavras aos presentes, lembrando que este mês não se irá realizar o habitual encontro da nossa Tabanca. 



E como é costume todos os anos, no final do mês de Março, o Paulo Moreno prepara a oferta ao Miguel Pessoa de uma garrafa de espumante com um avental alusivo, revivendo a situação original de 26 de Março de 1973, em que o pessoal de Guileje lhe ofertou uma garrafa de champanhe, comemorando a sua recuperação depois de o seu avião ter sido abatido no decorrer de um apoio de fogo àquele aquartelamento.
Na ausência do Manuel Reis, o Carlos Santos e o José Luís Rodrigues fizeram "as honras da casa".



Em fim de festa é preciso pôr as contas em dia, coisa que o pessoal já faz com muita genica - participantes e tesoureiros.
E, já agora, antes da partida, um brinde para a viagem de regresso a casa.



Os últimos pormenores, talvez já a preparar para o próximo encontro. É hora da abalada: "Adeus e até ao meu regresso!"






segunda-feira, 27 de março de 2017

P896: A RECRUTA DO JERO

ANO DE 1962 – UM VERÃO BEM QUENTE !

Esta fotografia de grupo recorda-me muita coisa e não é nada nova. Corresponde ao final da minha recruta em 30 Setembro de 1962 do C.S.M. na Escola Prática de Cavalaria, em Santarém. 3º. Esquadrão - 4º Pelotão.
Tinha – e tenho – uma mania que herdei do meu saudoso Pai. Escrever no verso das fotografias as datas e o nome das pessoas que constam das ditas. Esta foto tem portanto 55 anos e “apanha”, em diversos planos, 33 indivíduos !

Engloba os instrutores (um oficial, o Aspirante Tomás, o Furriel Teixeira, o 1º. Cabo miliciano Martins e o 1º.Cabo 52) e 29 recrutas. Como era costume ao tempo muitos recrutas eram conhecidos e tratados pelos nomes das suas terras de naturalidade.

Havia rapaziada de Lisboa, Oliveira de Azeméis, de Cabo Verde, dos Açores, de Viana do Castelo, de Santarém, de Odivelas, de Freixo de Espada à Cinta, de Alcobaça, de Vila Real de Santo António, de Figueira da Foz, de Viseu, Leiria e Viana do Castelo. E também muita malta com alcunhas. Mas não as vou referir pois afinal constam da identificação que está nas “costas” da minha fotografia e que passo a referir com a secreta esperança de que alguém que venha a ler o nosso blog se “reconheça” e diga coisas…


 Em 1º. Plano, de cócoras(da esquerda para a direita): José Manuel (Lisboa), S. Silva, João “Grande”(Lis­boa),Eduardo “Bailarina” (Oliv. Azemeis), Évora (Cabo Verde), Furriel Teixeira (Santarém), Vasconcelos (Açores), “Nódoa”, “Viana do Castelo” e Gustavo (Açores).
2ª. fila(de pé): David (reg. agrícola - Santarém), Rijo, Natal (Lisboa), Eduardo “Cardíaco” (Odivelas), 1º.Cabo 52, Rocha (Freixo de Espada à Cinta), Aspirante Tomás, 1º. Cabo Milº. Martins, Viegas(Lisboa), José Eduardo (Alcobaça), “Professor” e “Gordinho”.
Em cima do tanque: “Agrícola”(Santarém), Correia “Peixe-Espada”(Vila Real Stº.António), “Figueira da Foz”, Rui (Lisboa). De pé: “Carteiro”, Ricardo (Viseu), “Plantão” (Açores), “Leiria”, 406 (Viana Cast.) e Esteves.
  
Deixámos de ser civis em 31 de Julho - a incorporação deu-se em 1 de Agosto – e dois meses depois éramos convictamente militares. No meu caso 2 meses e 12 quilos a menos…


José Eduardo Reis de Oliveira, Grupo sanguíneo «A»
Número de matrícula 1961/G/1399, Classe 1962
Arma ou serviço – Serviço de Saúde
Altura 1m,74. Alistado em 8 de Agosto de 1960
Incorporado em 1 de Agosto de 1962 .
Pronto da escola de recrutas em 30 de Setembro de 1962.
Tiro de carreira – Esp. Mauser n/947 – 3ª. classe.

Vou tentar transmitir algumas das memórias que ficaram depois de 55 anos passados. Mas desta fase da minha vida nem tudo são números e categorias pois nos intervalos da instrução também conseguíamos ter algumas “imagens”, que vou tentar recordar.

A entrada e recepção na parada do Quartel foi assustadora. Ainda estávamos vestidos à civil e já éramos tratados abaixo de cães. Estava à nossa espera o Comandante do Quartel, Ten. Coronel Homero de Oliveira Matos, que nos insultou de alto abaixo.

Nunca mais esqueci o momento nem a cara do dito senhor. A esta distância do tempo e depois de toda a experiência que passei ao longo dos 4 anos de vida militar que cumpri, não tenho dúvida nenhuma em afirmar que não era por um Chefe como aquele que eu daria “o peito às balas”…

Mais tarde e quando já em plena recruta tivemos por perto os nossos instrutores esse sentimento de “ódio visceral” atenuou-se e desapareceu mesmo. O Aspirante Tomás e o Furriel Teixeira levavam-nos ao “sacrifício” sem deixarem de nos tratar como gente.

Os trabalhos de estrada eram difíceis devido principalmente ao calor do Verão de Santarém, mas em cada dia que passava nos sentíamos mais preparados.

A comodidade das casernas no entanto não nos ajudava, nomeadamente quando, durante a noite  éramos “atacados” por percevejos… Passei longas horas a esfregar-me com álcool - que comprei numa farmácia da cidade - depois do toque de ordem, sem conseguir vislumbrar o “inimigo”.

Nos fins de semana quando vínhamos a casa conseguíamos recuperar alguma coisa, mas que foram 2 meses bem compridos não haja dúvida !

A comida no quartel era muita má e passei muito dias esfomeado porque não conseguia comer nada ao almoço. E não era só eu. Conseguíamos recuperar as forças depois da saída do quartel ao fim da tarde, comendo à nossa custa, está claro.

Tivemos um dia especial quando durante um trabalho de estrada passámos por uma vinha e “recolhemos” em marcha acelerada alguns cachos de uvas que nos souberam pela vida. O dono da vinha é que não achou muita piada ao nosso “golpe de mão” e apresentou queixa no quartel. Lá se foram à vida por alguns dias as nossos saídas à cidade depois do toque de ordem...

E finalmente chegaram ao fim os 2 meses da recruta.  Depois da fotografia com que iniciamos as linhas deste nosso testemunho despedimo-nos uns dos outros com abraços e lágrimas nos olhos.

E o abraço mais sentido foi ao nosso Aspirante Tomás que, uns 3 anos mais tarde, vim a encontrar numa operação na Guiné. Era então já Tenente. Cheguei-me a ele e disse-lhe que tinha sido seu recruta na EPC de Santarém. Que grande abraço trocámos!

São estas as boas recordações da vida militar…que chegaram à vida civil e nos continuam a acompanhar mais de meio século depois de acontecerem. No Verão quente de Santarém de 1962.

JERO   


sábado, 18 de março de 2017

P893: UMA ANÁLISE DO NOSSO CAMARIGO JOSÉ BELO...

INESPERADAMENTE, A MINHA PROFUNDA INVEJA DO AMIGO E CAMARADA MIGUEL PESSOA


O Miguel Pessoa na ida para uma missão
Hoje, ao começar o dia trocando alguns e-mails com o "Herr Överste" (Senhor Coronel em sueco) Miguel Pessoa, surgiu bruscamente no meu pensamento algo que até agora não tinha considerado com a devida atenção.

Nas conversas com antigos combatentes, sejam eles portugueses ou norte-americanos (também por lá vivo!), surge sempre a referência às frustrações sentidas quando se procura descrever aos familiares, amigos, ou simples conhecidos, as experiências e sentimentos de cada um aquando da passagem por teatros de guerra.

Sente-se sempre que este tipo de comunicação, na procura de explicações, sejam elas geográficas, sociais ou outras, é extremamente difícil de ser apreendido em todas as suas "variantes" por quem nos escuta.

Muitas vezes sente-se que não escutam... aparentam escutar!

A Giselda com a tripulação de alerta do AL-III
Isto sem se entrar em referências a situações concretas de combate, estas ultrapassam totalmente quem as não viveu.

Se a "comunicação" é difícil em Portugal, em famílias portuguesas, os que formam família no estrangeiro, com filhos quase automaticamente estrangeiros e com netos ainda mais estrangeiros que estes, torna as referências a uma guerra colonial como algo de pré-histórico... no melhor dos casos!

É sempre necessária infindável introdução quanto aos enquadramentos históricos e sociais, ao significado dos 400 anos de colonialismos vários, as consequências do longo período da ditadura no tipo muito específico de formação que, aos nascidos e educados nesses tempos, acabou por ser imbuída muito mais profundamente do que muitos hoje gostam de reconhecer.

Recuperação e evacuação do Miguel Pessoa, com o apoio da Giselda
MAS... no caso do Miguel Pessoa tudo é... diferente!
Casado com uma nossa Camarada de armas.

Uma evacuação atribulada da Giselda, com ida ao charco
Alguém que com ele COMPARTILHOU, no conjunto de difíceis situações de guerra, certamente inesquecíveis, mas (e principalmente!)... sem necessitarem das tais infindáveis explicações quanto a factos, quando, porquê e quem!

Confesso, mais uma vez, nunca ter pensado neste pequeno-grande "detalhe", em relação aos outros ex-combatentes.

Hoje em Portugal, em situação muito diferente quanto à paz e tipo de serviço militar, casamentos entre camaradas de armas não serão invulgares.

Mas... compartilhando o pior teatro de guerra das guerras de África, como o era a Guiné... ao mesmo tempo... nos mesmos locais... e em algumas situações incríveis... não haverá muitos... se alguns houver!

Será que em relação aos outros (a nós), tanto a Giselda como o Miguel terão consciência do privilégio que é esta não necessidade das tais tão limitativas "explicações"?

Um grande abraço do
José Belo


sábado, 11 de março de 2017

P891: COMENTANDO O ÚLTIMO ENCONTRO

CÁ ESTAMOS…

    Bons amigos e estimados camarigos

Manuel Frazão Vieira
Decidi, de caso pensado, intervalar no tempo e no espaço esta minha espontânea comunicação, publicitando-a entre o "terminus" do 59.º e último encontro da Tabanca do Centro, que teve lugar no passado dia 22/02/2017, e as novas inscrições para o próximo almoço, que há-de vir.

Não vou referir-me ao último encontro, já, tão bem apresentado e descrito, numa forma combinada entre a palavra escrita e a fotografia parcial ou de conjunto, mostrando quem é quem, quem está com quem, no grupo de quem. É agradável reconhecer, individualmente, todos os camarigos como parte integrante de um todo constitutivo de amigos da Tabanca do Centro. Isto, por obra, arte e paciência do Miguel Pessoa, cujo trabalho é sempre apreciado e louvável, como uma vez mais se verificou na última publicação da Revista KARAS de Monte Real, na edição mensal de Fevereiro 2017.

Digo, no entanto, e não posso deixar de o referir, que o 59.º encontro foi muito concorrido, incluindo caras novas, e ao que me pareceu, com inscrições tardias, para além do dia aprazado e tão publicitado para o efeito. Penso dever ser, cuidadosamente, observada, por razões óbvias, a data-limite da inscrição, nomeadamente, por motivos de logística que é preciso controlar. Certamente, que um eventual descuido, no futuro, se irá repetir, não fossemos nós filhos do tempo e das circunstâncias do próprio tempo. É bom respeitar e cumprir com prazos pré-estabelecidos. Daí que, seja importante e saibamos controlar o tempo, o nosso tempo, o nosso espaço, porque são nossos e com eles e neles co-habitamos.


A minha memória visual, apesar de tudo, ainda se vai mantendo fiel às origens, tornando-se num razoável instrumento de auxilio e de suporte de imagem de pessoas, coisas, momentos e espaços, apesar de, ligeiramente, alquebrada e com momentos dúbios, mas, exercitada, cá vai desempenhando a sua genésica função.

Isto, a propósito, da presença de novos camarigos, no último almoço-convívio. Não eram muitas as caras novas e nem sei quantos eram. Sei que vieram alguns pela primeira vez e ao cumprimentá-los não constavam da minha base de dados visual e mental, nem o seu formato somático me era familiar. Além disso, as suas reacções comportamentais iniciais e sociais revelavam novidade, curiosidade e uma pronta disponibilidade e abertura educadas para um livre acesso e enquadramento presencial na grande família da Tabanca do Centro.

Desde logo, notava-se nos novos camarigos uma presença expectante e curiosa envoltas numa manifestação exterior, na forma como comunicavam e se relacionavam que dava para aferir a diferença de atitudes entre um ex-combatente da Guiné acabado de chegar pela 1.º vez, "piriquito", ao café Central, na Rua de Leiria, em Monte Real e o comportamento de um camarigo já "velhinho", experiente e habituado com maior ou menor regularidade ao almoço-convívio da Tabanca do Centro.


Estas reacções iniciais, acontecem em qualquer outra situação nova de apresentação, seja em que cenário for, e são reflexo da maneira como reagimos às coisas ou situações que nos surjam, pela primeira vez. É isto que nos define como pessoas.

A presença assídua e renovada de muitos ex-combatentes na Tabanca do Centro são o íman da sua continuidade. Vale a pena. É que o tempo passa e a memória das pessoas e coisas vai-se esvaindo no próprio tempo, no crepúsculo da vida de um passado histórico e pessoal que a idade consumiu. Fica-nos o sonho e a saudade daquilo que, ainda, nos resta, se, para tanto, a incerteza ou a benevolência da vida o permitir.

Abraços
Manuel Frazão Vieira


quarta-feira, 8 de março de 2017

P890: HISTÓRIAS CURTAS DAS TERMAS DE MONTE REAL - 8

RECOLHA FALHADA…
  
Há muitos anos, quando a Linha do Oeste era a principal via de transporte para chegar a Monte Real, o Hotel Monte Real enviava sempre um motorista e/ou um recepcionista para recolherem os hóspedes na estação de caminho de ferro e os transportarem até ao Hotel.

Um dos motoristas que costumava fazer esses serviços, era uma pessoa estimada em Monte Real, e conhecida pelo seu humor, pelas suas respostas rápidas e desconcertantes.

Não o vou identificar aqui, mas as pessoas de Monte Real, com alguma idade, sabem muito bem de quem se tratava. Infelizmente já não está entre nós.

Conta a história que um dia lhe foi pedido para ir à estação buscar o filho de uma hóspede que estava no Hotel.

As recomendações da senhora foram tantas, explicando que o filho era um conhecido bailarino, muito famoso, e mais isto e aquilo, que não seria possível qualquer engano na recolha de tão “ilustre” passageiro.

Pois o referido motorista lá foi à estação e lá voltou para o Hotel … sozinho!!!

A senhora indignada perguntou-lhe como era possível ele não ter encontrado o seu filho, um bailarino tão famoso e conhecido.

Ao que o motorista lhe respondeu de imediato:

Minha senhora, os passageiros desceram do comboio, mas eu não reconheci ninguém, pelo que assobiei uma das minhas melhores árias!
Como ninguém dançou, calculei que o filho de vossa excelência tivesse perdido o comboio!!!

Poderão não ser estas as palavras exactas, visto que já lá vão muitos anos, e a história já foi contada e recontada milhares de vezes, mas o humor da resposta continua vivo!

Joaquim Mexia Alves