quarta-feira, 13 de agosto de 2014

P528: LEMBRANDO UMA EVACUAÇÃO...



A DAR AO AMBU

A actividade que nós, enfermeiras pára-quedistas, desenvolvíamos no Teatro de Operações da Guiné, proporcionava-nos por vezes momentos de grande realização profissional. As características particulares da geografia do território em parte também ajudavam. Havia bastantes aquartelamentos a menos de 30/45 minutos de voo do Hospital de Bissau, o que significava que, desde o pedido da evacuação até à entrada do evacuado no hospital poderia decorrer, nesses casos, um período máximo de duas horas, com a forte possibilidade de a evacuação ter o apoio de uma enfermeira, o que aumentava um pouco mais as hipóteses de sobrevivência do evacuado.

Também o facto de o tempo gasto numa evacuação ser mais curto que noutros territórios aumentava a disponibilidade das enfermeiras para fazerem mais evacuações e garantia assim uma maior qualidade dos serviços prestados.

Estou convencida que, comparativamente com os outros Teatros de Operações, essas características permitiam que em igualdade da gravidade do estado dos evacuados, o ferido tivesse mais hipóteses de sobreviver no território da Guiné - possibilidade de maior apoio do pessoal de enfermagem e menor distância a percorrer até à unidade hospitalar.

Assim, viu-se muitas vezes evacuar feridos em estado desesperado que, devido ao apoio rápido recebido, conseguiam sobreviver contra todas as expectativas. Essas "vitórias" davam às enfermeiras uma grande motivação para prosseguir o seu trabalho.

Lembro-me de uma evacuação que fiz a Guidaje, com essas características. Estávamos em 1972 e fomos chamados para uma evacuação de um ferido militar em estado muito grave. Tratava-se de um cabo enfermeiro do Hospital Militar de Bissau que, no período de férias do enfermeiro colocado em Guidaje, o tinha ido substituir no seu serviço. Estava quase a acabar este destacamento em Guidaje quando teve que ir socorrer um milícia local, o qual tinha pisado uma mina numa zona próximo do aquartelamento, de que tinha resultado a perda de uma perna. Quando ajudava o milícia na sua deslocação para o quartel, aquele teve a infelicidade de pisar uma segunda mina, o que provocou a perda da segunda perna, bem como a amputação de uma das pernas do enfermeiro.

À nossa chegada verifiquei as dificuldades em que o cabo se encontrava, pois tinha perdido bastante sangue, os camaradas não tinham conseguido ainda pôr-lhe o soro e tinha dificuldade em respirar pois encontrava-se num estado de extrema debilidade.

Coloquei os dois feridos nas macas colocadas na traseira do DO e dediquei a minha atenção ao seu estado, enquanto voávamos para a Base. Curiosamente, o milícia encontrava-se mais estável, apesar de ter tido as duas pernas amputadas. Quanto ao cabo enfermeiro, consegui finalmente colocar-lhe o soro e dada a sua dificuldade em respirar coloquei-lhe o Ambu[1], que não é mais que uma bomba manual usada para aumentar o fluxo de ar para o doente e consequentemente a sua oxigenação.

Foi um voo extremamente duro - para o doente, claro, e para mim, que tive que dar permanentemente ao Ambu, que o estado do doente assim o exigia. Em casos graves como este, podíamos decidir pela transferência do evacuado para um AL-III, que recebia o evacuado na placa da BA12 e o transportava directamente para o hospital. Assim fizemos, transferindo o ferido para o heli e dirigindo-nos para a placa do hospital, de onde o levei directamente para o bloco operatório, onde era aguardado.

Devo dizer que durante uma ou duas semanas continuei a sentir dores nos braços , devido ao esforço feito com o Ambu durante toda a evacuação. Mas o meu trabalho continuou e eu fui esquecendo este episódio.

Poucas semanas depois, quando preparava no Hospital de Bissau a evacuação dos feridos para Lisboa, a fazer no DC-6, percorria o Serviço de Recuperação do Hospital quando subitamente ouvi atrás de mim um grito estridente: "Devo-lhe a vida!". Recuperando do susto, dirigi-me ao doente, que me confirmou ser o cabo evacuado de Guidaje, que tanto trabalho me tinha dado. Disse-me que durante a evacuação tinha conseguido abrir os olhos durante uns momentos e, tendo-me reconhecido (ele era do Hospital de Bissau), pensou: "Ao menos morro ao pé de alguém conhecido". Mas não tinha morrido e estava até bastante melhor; e pelo grito que deu naquele dia, estou convencida que terá conseguido ultrapassar totalmente esta fase má da sua vida.

                                                                     Giselda Pessoa


[1] AMBU - Airway Maintenance Breathing Unit - Bolsa dotada de válvula unidirecional permitindo criar um fluxo contínuo através de sua compressão.

8 comentários:

Anónimo disse...

Mais uma boa história de vida passada nos confins do mundo, por gente que hoje se encontra e fala sem tabús sobre estes acontecimentos.
Para as nossa enfermeiras e enfermeiros, médicos e restante pessoal de saúde, um especial agradecimento, em especial para a Giselda por este relato na primeira pessoa, o meu reconhecimento a todos e o meu obrigado.
Um abraço,
BS

Joseph disse...

"...conseguiram sobreviver contra todas as expectativas.
Essas vitórias davam às enfermeiras uma grande motivacäo para prosseguir o seu trabalho".

E,por essas vitórias,todos lhes estamos profundamente gratos.

Um abraco do José Belo

Hélder Valério disse...

Sem dúvida alguma, uma história comovente mas também prenhe de humanismo.

É evidente que as características do território do TO da Guiné propiciavam aquilo que a Giselda nos relata (distâncias, tempos de voo, maior rapidez na chegada ao Hospital, etc.) mas havia uma forte convicção arreigada no pessoal do mato que se conseguissem chegar vivos ao Hospital estavam "safos".
Não seria bem assim, claro, e para 'chegarem vivos' a assistência em voo por pessoal habilitado (do ponto de vista técnico mas também psicológico) era crucial mas a tal 'fé' nos 'milagres do Hospital' era plenamente justificada.
Grande escola!

Quanto à história... é de realçar, mais uma vez, como a Giselda nos consegue dar conta de episódios plenos de dramatismo mas que nos são contados com tal modéstia que parece ter sido tudo fácil.

Sabemos que não e por isso, também, o meu muito obrigado.
Hélder Sousa

José Marcelino Martins disse...

Não era em vão que se dizia que, para viver, basytava estar vivo quando chegar a enfermeira para se proceder á eveacuação.

E a prova aqui está.

Beijonheo Gisela.

José Marcelino Martins disse...

Claro que se deve ler

BEIJINHO

E não aquela "coisa" que está escrita!

Anónimo disse...

Sem dúvida que a descrição desta evacuação tão bem relatada pela Giselda, demonstra o muito trabalho que as enfermeiras paraquedistas desenvolveram especialmente na Guiné e também em Moçambique. Tal como está descrito (a rapidez e os meios disponibilizados), permitiram a sobrevivência de muitos feridos graves. Esta, para a Giselda, foi mais uma que lhe ficou gravada na memória e coração. Um beijinho. Mª Arminda

joaquim disse...

Do "ar" só vêm coisas boas, tipo anjos, enfermeiras, etc....

Um beijo amigo Giselda

Joaquim

Henrique Cerqueira disse...

Enfermeira Giselda. Quero que saiba que a imagem mais grata de toda a minha vida até este momento está ligada ás enfermeiras paraquedistas que operavam na Guiné Bissau.
Estive colocado em Biambe no ano de 1972 e após três meses de permanência nesse local eu tanto como outros militares fiz operações de patrulhamento no mato. Nesse período ainda muito novato caí com o meu grupo numa emboscada do inimigo. Tivemos de imediato dois melícias gravemente feridos e um Furriel com estilhaços na cabeça. Eu como Furriel naquele instante tive que ser o elo de ligação com o apoio aéreo prestado pelo heli-canhão (lobo mau) e também dar apoio á evacuação dos feridos para outro héli no qual para meu espanto vejo saír uma enfermeira de camufolado e camisola branca que energeticamente pôs ordem na operação rápida de evacuação ,não deixando no entanto de me dirigir algumas palavras de conforto e confiança.
Acredite Giselda que ainda hoje guardo em meu coração o agradecimento de tão Fantástica aparição naquele caus de terror e muito medo que todos nós sentíamos e que eu particularmente senti , mas que após a vossa aparição me deu tanta coragem e bem estar que jamais vos esquecerei. Vocês fizeram-me sentir SEGURO. Para mim vocês eram OS ANJOS QUE VINHAM DO CÉU.
Um beijo muito respeitoso deste ex militar que teve a fortuna de vos conhecer.
Henrique Cerqueira
Ex Fur.mil.Bat.4610/72 3ªCCAÇ na altura em Biambe.