VIAGEM PARA O DESCONHECIDO
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| Agostinho Gaspar |
Depois de um último jantar no R.I. 16, em Évora, do
dia 4 para 5 de Outubro de 1972, o Tenente João Manuel de Matos e Silva
Mendonça chamou os aspirantes, os cabos milicianos e alguns soldados para a
entrega dos galões, das divisas, das promoções a capitão, alferes, furriéis e
1ºs cabos. Foram horas de azáfama.
Depois de se ter entregue e feito o
espólio pertencente ao quartel, já com as malas feitas e as últimas
recomendações, chegou a hora da partida para um destino desconhecido, de que só
nos bancos da escola primária, dez anos antes de embarcar, tinha ouvido falar:
era a Guiné.
Depois de receber uns
certos papéis, guias de embarque e boletins de vacina, para que na hora não
faltasse nada, o 1º sargento chama o capitão e avisa que há um militar que
também era cabo e ia ser acompanhado sob escolta até a entrada do embarque. Eu
era o último dos cabos; o 1º sarg. Miguel (já falecido há uns anos) vira-se
para mim e diz:
- “Ó nosso cabo, tu e outro vão acompanhar e
fazer segurança a um preso, é preciso que levantem armamento; quando o preso
estiver em lugar seguro as armas serão entregues aos condutores dos nossos
transportes”.
Depois de ouvir o sermão e de ele ter acabado
de falar, chegou a minha vez de lhe responder. Recordo ainda as palavras como
se fosse hoje: - “Ó meu primeiro-sargento Miguel, eu nem pertenço a esta
guerra e muito menos sei mexer em armas e fazer segurança!”.
O capitão, que estava ao lado, vira-se para
mim e pergunta-me quem eu era: - “Sou o cabo mecânico da companhia”, respondi.
A resposta dele foi bem clara: - “Tens razão,
é melhor ser um atirador...”
Palavras e ordem tão
sensatas! E que alívio… Tinha chegado á Companhia semanas antes e não conhecia
ninguém e já o sargento me estava a meter medo… e em sarilhos se corresse
alguma coisa mal!
Tudo preparado, as bagagens carregadas nas
viaturas, dia 5 de Outubro de 1972, era uma noite de chuva e bastante fria,
pela uma da manhã, eu já com vinte e dois anos feitos em Abril, lá entrámos
para as viaturas com destino a Figo Maduro, onde um Boeing 707 da Força Aérea
estava á nossa espera. Apenas uma pequena paragem pelo caminho para esvaziar a
bexiga, para o avião ficar mais leve…
Chegámos pelas seis da manhã; alguns
familiares já lá se encontravam para as últimas despedidas. Da minha parte não
tinha ninguém, já as tinha feito em casa. Pelas sete o altifalante começou
a chamar um a um pela ordem de embarque para fazer o check-in, entregar as
bagagens e receber o número do lugar.
Fui um dos primeiros, a minha cadeira o
nº 13C, do lado esquerdo. No 13A ao lado da janela ia o cabo Silva Ribeiro (o
Padeiro), no13B, ao meio, o furriel mecânico, no 13C a minha pessoa, cabo
mecânico.
Mais uns tempos de espera e os últimos abraços
e beijos aos familiares: pais, esposas namoradas, filhos e amigos. Por
volta das nove horas novamente os altifalantes anunciavam o embarque. Silêncio
total, iam chamando, o pessoal ia entrando, ocupando os lugares que lhes estavam
destinados. Depois de estarem todos sentados, porta fechada.
Era um dia de
Outono chuvoso e frio. Íamos bem agasalhados, mal sabíamos que nós que passado
algumas horas estaríamos a sufocar no destino com as altas temperaturas…
Com o silvo dos reactores, o avião começou a
movimentar-se para a pista, era o meu baptismo de voo... Ao longo de toda a
viagem foi um silêncio total. A meio caminho foi-nos servida uma refeição. Quatro
horas depois da descolagem chegámos a Bissau.
Quando o avião parou
só passados mais de quarenta minutos é que abriram a porta - e nós a olhar
pelas janelas, tudo parecia diferente e estranho de ver, as pessoas em
mangas de camisa e calções, e a nós só nos faltava o sobretudo...
Quando saímos da porta para fora, ao descer as
escadas do avião parecia que íamos para o inferno, não sei se existe… (o verão quente de 73
passei-o no inferno de Gadamael, mas essa história fica para outra altura…).
Ao sair do avião
fomos recebidos por um graduado, não tenho memória de quem era. Formados em
parada na pista, veio dar-nos as boas vindas ao nosso calvário. Na
maior força do calor o oficial falava, nós sem perceber o que ele dizia e a
tropa a destilar e a assar ao calor, alguns até desmaiaram…
Acabadas as cerimónias militares, as viaturas rumaram
ao Cumeré para uma estadia de algumas semanas. Dentro do quartel, ainda em cima
das viaturas, fomos recebidos pela praxadela habitual nestas ocasiões: "Pius… pius… pius"... Eram
os da 2ª CCAÇ do nosso BCAÇ 4612/72, tinham chegado dias antes e já se
consideravam velhinhos!
Começava a nossa
provação…
Agostinho
Gaspar