quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

P858: JERO - UM NATAL JÁ DISTANTE... MAS INESQUECÍVEL

RECORDANDO UM NATAL
DOS TEMPOS DA GUERRA

Não há nada a fazer. Sou dos tipos que raramente deita papéis fora. Quando me decido que na tarde daquele dia é que vai ser… perco a vontade em poucos minutos.
Mais uma vez assim aconteceu. Porquê? Porque encontro papéis antigos que leio, releio e não sou capaz de rasgar nem deitar fora.
Vou partilhar um desses que, para melhor leitura, resolvi encurtar. Já lá vão uns anitos. Diz respeito ao Natal de 1964.
Está a chegar ao fim o Dia de Natal, epílogo de uma semana de trabalho intenso que nos permitiu festejar de uma maneira única e inesquecível o que foi para a grande maioria o primeiro Natal fora de casa, longe das famílias.
Vista do cais de Binta e de algumas ruas
Mas o «milagre» que tínhamos conseguido compensava tantas can­seiras e sacrifícios.
Binta poderia considerar-se agora quase uma pequena vila e com certeza um estacionamento militar sem rival, ao nível de Companhia, em toda a Guiné.
A sujidade de outrora que imperava por toda a parte desapareceu e nem um papel conspurca os arruamentos do estacionamento que merecem bem a toponímia que ostentam, aqui séria, ali com apurado sentido de humor.
Capela
Uma cozinha, uma padaria, uma secretaria, uma caserna, um refeitório para praças, uma cantina, um depósito de géneros, messes de oficiais e sargentos e res­pectivas camaratas, um parque auto, um Posto de Socorros modelo e finalmente uma capela original que não existia três dias antes do Dia de Natal, nasceram depois da chegada a Binta da «675».
Além de tudo isto temos um campo de aviação que, embora ainda não aprovado, já serve para uma aterragem de emergência.
O «milagre» de Binta foi conseguido enquanto 160 homens, comandados por um oficial de excepção, faziam no exterior do «arame farpado», 124 patrulhas, «limpando» uma área de 400 km’ de elementos indesejáveis.
Os sacrifícios, os perigos passados, não se podem descrever com palavras. Mas valeu a pena.
Seis meses depois da nossa chegada a Binta pudemos ter um Natal de Esperança.
Foi o generoso esforço de todos neste ambiente diferente, próprio da grande família que é a «675», que possibilitou este Natal diferente que perdurará no espírito de todos que estiveram na nossa Ceia de Natal (e foram todos os elementos da Com­panhia, à excepção dos que se encontravam nos Postos de sentinela).
Daqui a cinco, dez anos, durante toda a nossa vida, em cada Natal que chegue, quando na noite da Consoada estivermos com a nossa família, recordaremos com emoção um Natal diferente que houve nas nossas existências.
«Faz hoje anos, quando eu estava na Guiné a cumprir serviço militar, em Binta, junto ao Rio Cacheu...»
E começará um desfile de recordações que com os olhos brilhantes, nostálgicos, relataremos aos que nos rodeiam.
Quando o nosso Comandante de Companhia chegou ao refeitório, vistosamente decorado com motivos alusivos à quadra, todos os elementos da Companhia, que já se encontravam em volta das mesas, se levantaram respeitosamente.
Na mesa da parte mais central ficaram sentados à direita e à esquerda do nosso capitão, respectivamente, o Capelão do Batalhão e Ribeiro de Carvalho, industrial de madeiras que há trinta e oito anos se encontrava na Guiné, rodeados pelos restantes oficiais.
As mesas encontravam-se muito bem arranjadas, ardendo em todas elas impro­visados «castiçais». Começou então a ser servido o tradicional bacalhau com batatas e couves cozidas, não faltando o vinho verde para “alegria das gentes”.
A lauta ceia decorreu na melhor ordem.
Há em cada rosto uma sentida alegria nesta noite de reunião perpetuada através dos séculos.
Findo o jantar os comandantes de pelotão e sargentos dirigiram-se às mesas onde estavam os seus soldados para todos confraternizarem.
A certa altura faz-se silêncio: “Vai falar o nosso capitão”.
Capitão Tomé Pinto
Em frases breves, concisas, dirigindo-se não só à companhia, mas também ao industrial de madeiras Ribeiro de Carvalho e aos guineenses presentes, começou por dizer que embora sendo diferente este Natal, ele também estava a decorrer em família, já que a nossa companhia constituía uma grande família.
A outra, embora longe, estava presente em espírito, e o oceano que havia entre nós não nos separava mas, pelo contrário, unia-nos neste dia de significado tão especial.
Concluídos quase oito meses de comissão volta a afirmar (já o tinha escrito no “Jornal da Companhia”) que estava muito satisfeito como todos os elementos da Companhia que lhe tinha cabido trazer para o Ultramar, e, se não pudesse ser melhor, que no futuro todos procurassem cumprir como até agora o tinham feito.
Os votos que é costume desejar na quadra de Natal resumiu-os numa frase curta: «O que desejo para mim desejo para todos vós».
População com o médico
Disse ainda que dentro em pouco teria início uma nova fase na missão que nos tinha sido confiada na zona, pois estaria para breve o regresso das populações, já que a segurança e a «limpeza» da área o permitia.
Desejou que o Novo Natal, se ainda estivessemos em Binta, decorresse igualmente com tranquilidade e sossego, que a nossa «família» aumentasse com a presença dos ele­mentos das populações nativas e que pudessemos andar em paz de tabanca para tabanca, proporcionando a todos uma vida melhor.  
Capelão Padre Gama
Neste Natal, que ficaria com certeza inesquecível para todos, teríamos ainda na nova Capela de Binta Missa da Meia Noite pelo sr. Capelão que nos quis honrar com a sua presença amiga.
Terminou desejando para todos muita saúde e sorte.
À meia-noite começou a missa, muito concorrida, sendo a homília do Capelão verdadeiramente brilhante, dando assim o melhor fecho à inesquecível Noite da Consoada.
E embora muito ao longe, durante a santa missa, se ouvissem rebentamentos e o matraquear de armas automáticas, que nos recordavam amargamente a guerra, no silêncio que nos rodeava «flutuava uma mensagem, de amor, paz e esperança».
Mais de meio século passou. Pela lei natural da vida já cerca de 50 camaradas nos deixaram. Mas os que ficaram não cedem. O que nos uniu mantém-se. A amizade cimentada pelos tempos difíceis da guerra continua.
E as recordações do Natal de 1964 ficaram-me para sempre na memória e num papel.
Que mais numa vez “escapou” às limpezas e ficou arrumado…
Quem vier mais tarde que faça as limpezas e feche a porta.
Natal feliz, Camarigos.

José Eduardo Reis de Oliveira
(JERO)

4 comentários:

Manuel Ramos disse...

Nostalgia de tempos que nos fizeram, com 20 anos, mais homens do que muitos da actual juventude nunca será.


Carlos Pinheiro disse...

Relato espectacular duma realidade vivida e sentida. Se o autor que tão bem retratou a Noite de Natal de 1964 em Binta, dizia que se o autor, o grande Jero, alcobacense profissional, guardou muitos relatos de muitos acontecimentos ao longo da comissão, oas mesmos dariam outro livro. E é pena que relatos destes se vão perdendo. A história nunca está acabada e os historiadores pelam-se por trabalhos meticulosos como é este caso. Parabéns ao Jero. Bom Natal para todos.
Carlos Pinheiro

Jorge Portojo disse...

Bonito relato. Um abraço

Anónimo disse...

Amigo JERO.
Gostei realmente de ler esta magnífica descrição da sua primeira noite de Natal, em campanha.
É bonito recordar esses momentos que jamais se apagam das nossas memórias, (enquanto as conservamos), e trazê-los ao conhecimento de outros, como é este seu testemunho. A união e camaradagem, de muitos de vós permitiu que nascessem por toda a Guiné infraestruturas que não existiam. " É bem verdade que a união faz a força!..." e assim se criam maravilhas.
Esse se Natal, também de algum modo, me fez recordar alguns dos que passei longe dos meus familiares.
Ainda bem que não rasgou papéis. Será apanágio dos enfermeiros? Acontece-me o mesmo e digo para os meus filhos; quando eu morrer, vão ter uma trabalheira...
Amigo, um nresto de festas felizes e que o Novo Ano lhe continue a dar esse dom da comunicação, com saúde e muita paz.
Bj amigo
M Arminda