RECORDANDO UM
NATAL
DOS
TEMPOS DA GUERRA
Não há nada a fazer. Sou dos tipos que raramente deita
papéis fora. Quando me decido que na tarde daquele dia é que vai ser… perco a
vontade em poucos minutos.
Mais uma vez assim aconteceu. Porquê? Porque encontro
papéis antigos que leio, releio e não sou capaz de rasgar nem deitar fora.
Vou partilhar um desses que, para melhor leitura, resolvi
encurtar. Já lá vão uns anitos. Diz respeito ao Natal de 1964.
Está a chegar ao fim o Dia de Natal, epílogo
de uma semana de trabalho intenso que nos permitiu festejar de uma maneira
única e inesquecível o que foi para a grande maioria o primeiro Natal fora de
casa, longe das famílias.
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Vista do cais de Binta e de algumas ruas |
Mas o «milagre» que tínhamos conseguido
compensava tantas canseiras e sacrifícios.
Binta poderia considerar-se agora quase uma
pequena vila e com certeza um estacionamento militar sem rival, ao nível de Companhia,
em toda a Guiné.
A sujidade de outrora que imperava por toda a
parte desapareceu e nem um papel conspurca os arruamentos do estacionamento que
merecem bem a toponímia que ostentam, aqui séria, ali com apurado sentido de
humor.
Capela |
Uma cozinha, uma padaria, uma secretaria, uma
caserna, um refeitório para praças, uma cantina, um depósito de géneros, messes
de oficiais e sargentos e respectivas camaratas, um parque auto, um Posto de Socorros
modelo e finalmente uma capela
original que não existia três dias antes do Dia de Natal, nasceram depois da chegada
a Binta da «675».
Além de tudo isto temos um campo de aviação
que, embora ainda não aprovado, já serve para uma aterragem de emergência.
O «milagre» de Binta foi conseguido enquanto
160 homens, comandados por um oficial de excepção, faziam no exterior do «arame
farpado», 124 patrulhas, «limpando» uma área de 400 km’ de elementos
indesejáveis.
Os sacrifícios, os perigos passados, não se
podem descrever com palavras. Mas valeu a pena.
Seis meses depois da nossa chegada a Binta pudemos
ter um Natal de Esperança.
Foi o generoso esforço de todos neste
ambiente diferente, próprio da grande família que é a «675», que
possibilitou este Natal diferente que perdurará no espírito de todos que
estiveram na nossa Ceia de Natal (e foram todos os elementos da Companhia, à
excepção dos que se encontravam nos Postos de sentinela).
Daqui a cinco, dez anos,
durante toda a nossa vida, em cada Natal que chegue, quando na noite da
Consoada estivermos com a nossa família, recordaremos com emoção um Natal
diferente que houve nas nossas existências.
«Faz hoje anos, quando
eu estava na Guiné a cumprir serviço militar, em Binta, junto ao Rio Cacheu...»
E começará um desfile de
recordações que com os olhos brilhantes, nostálgicos, relataremos aos que nos
rodeiam.
Quando o nosso Comandante de Companhia chegou
ao refeitório, vistosamente decorado com motivos alusivos à quadra, todos
os elementos da Companhia, que já se encontravam em volta das mesas, se levantaram
respeitosamente.
Na mesa da parte mais central ficaram
sentados à direita e à esquerda do nosso capitão, respectivamente, o Capelão
do Batalhão e Ribeiro de Carvalho, industrial de madeiras que há trinta e oito
anos se encontrava na Guiné, rodeados pelos restantes oficiais.
As mesas encontravam-se muito bem arranjadas,
ardendo em todas elas improvisados «castiçais». Começou então a ser servido o
tradicional bacalhau com batatas e couves cozidas, não faltando o vinho verde
para “alegria das gentes”.
A lauta ceia decorreu na melhor ordem.
Há em cada rosto uma sentida alegria nesta
noite de reunião perpetuada através dos séculos.
Findo o jantar os comandantes de pelotão e
sargentos dirigiram-se às mesas onde estavam os seus soldados para todos confraternizarem.
A certa altura faz-se silêncio: “Vai falar o
nosso capitão”.
Capitão Tomé Pinto |
Em frases breves, concisas, dirigindo-se não
só à companhia, mas também ao industrial de madeiras Ribeiro de Carvalho e aos
guineenses presentes, começou por dizer que embora sendo diferente este Natal,
ele também estava a decorrer em família, já que a nossa companhia constituía
uma grande família.
A outra, embora longe, estava presente em
espírito, e o oceano que havia entre nós não nos separava mas, pelo contrário,
unia-nos neste dia de significado tão especial.
Concluídos quase oito meses de comissão volta
a afirmar (já o tinha escrito no “Jornal da Companhia”) que estava muito
satisfeito como todos os elementos da Companhia que lhe tinha cabido trazer
para o Ultramar, e, se não pudesse ser melhor, que no futuro todos procurassem
cumprir como até agora o tinham feito.
Os votos que é costume desejar na quadra de
Natal resumiu-os numa frase curta: «O que desejo para mim desejo para todos
vós».
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População com o médico |
Disse ainda que dentro em pouco teria início
uma nova fase na missão que nos tinha sido confiada na zona, pois estaria para
breve o regresso das populações, já que a segurança e a «limpeza» da área o
permitia.
Desejou que o Novo Natal, se ainda estivessemos
em Binta, decorresse igualmente com tranquilidade e sossego, que a nossa
«família» aumentasse com a presença dos elementos das populações nativas e que
pudessemos andar em paz de tabanca para tabanca, proporcionando a todos uma
vida melhor.
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Capelão Padre Gama |
Neste Natal, que ficaria com certeza
inesquecível para todos, teríamos ainda na nova Capela de Binta Missa da Meia
Noite pelo sr. Capelão que nos quis honrar com a sua presença amiga.
Terminou desejando para todos muita saúde e
sorte.
À meia-noite começou a missa, muito concorrida,
sendo a homília do Capelão verdadeiramente brilhante, dando assim o melhor
fecho à inesquecível Noite da Consoada.
E embora muito ao longe, durante a santa
missa, se ouvissem rebentamentos e o matraquear de armas automáticas, que nos
recordavam amargamente a guerra, no silêncio que nos rodeava «flutuava uma
mensagem, de amor, paz e esperança».
Mais de meio século passou. Pela lei
natural da vida já cerca de 50 camaradas nos deixaram. Mas os que ficaram não
cedem. O que nos uniu mantém-se. A amizade cimentada pelos tempos difíceis da
guerra continua.
E as recordações do Natal de 1964
ficaram-me para sempre na memória e num papel.
Que mais numa vez “escapou” às
limpezas e ficou arrumado…
Quem vier mais tarde que faça as
limpezas e feche a porta.
Natal feliz, Camarigos.
José Eduardo Reis de Oliveira
(JERO)
4 comentários:
Nostalgia de tempos que nos fizeram, com 20 anos, mais homens do que muitos da actual juventude nunca será.
Relato espectacular duma realidade vivida e sentida. Se o autor que tão bem retratou a Noite de Natal de 1964 em Binta, dizia que se o autor, o grande Jero, alcobacense profissional, guardou muitos relatos de muitos acontecimentos ao longo da comissão, oas mesmos dariam outro livro. E é pena que relatos destes se vão perdendo. A história nunca está acabada e os historiadores pelam-se por trabalhos meticulosos como é este caso. Parabéns ao Jero. Bom Natal para todos.
Carlos Pinheiro
Bonito relato. Um abraço
Amigo JERO.
Gostei realmente de ler esta magnífica descrição da sua primeira noite de Natal, em campanha.
É bonito recordar esses momentos que jamais se apagam das nossas memórias, (enquanto as conservamos), e trazê-los ao conhecimento de outros, como é este seu testemunho. A união e camaradagem, de muitos de vós permitiu que nascessem por toda a Guiné infraestruturas que não existiam. " É bem verdade que a união faz a força!..." e assim se criam maravilhas.
Esse se Natal, também de algum modo, me fez recordar alguns dos que passei longe dos meus familiares.
Ainda bem que não rasgou papéis. Será apanágio dos enfermeiros? Acontece-me o mesmo e digo para os meus filhos; quando eu morrer, vão ter uma trabalheira...
Amigo, um nresto de festas felizes e que o Novo Ano lhe continue a dar esse dom da comunicação, com saúde e muita paz.
Bj amigo
M Arminda
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