sexta-feira, 27 de julho de 2018

P1045: DESABAFOS...


VELHICE, QUEM A TEM CHAMA-LHE SUA…

Passaram mais de 50 anos desde que regressei da “minha” guerra na Guiné (1964-66).

Quase que posso jurar que não há dia da minha vida em que, sozinho ou acompanhado, não “retorne” a Binta, no Norte da Guiné.

Sozinho de certeza.

Acompanhado nem sempre. ”Isso” só acontece quando telefono ou visito um antigo camarada de armas.

Também partilho algumas vezes “dizeres da guerra” com gente nova, com quem convivo de perto. Uns dão-me ouvidos, outros nem tanto.

Com a família próxima nem pensar. Já não me podem ouvir falar da Guiné.

Relativamente a patologias associadas ao stress pós-traumático, sentidas pela maioria dos antigos militares, as mais frequentes são as depressões, seguindo-se dores de cabeça, alcoolismo, pânico e fobias, úlceras gástricas, doenças tropicais e hipertensão.

Disfunções sexuais, epilepsia, doenças de pele e problemas cardíacos também estão associados ao stress pós-traumático que o Serviço de Saúde que temos – ou devíamos ter – está longe de resolver.

Há os reencontros mensais da Tabanca do Centro, em Monte Real, os convívios anuais da CCaç. 675, organizados pelo meu ex-Alferes Belmiro Tavares e os telefonemas aos amigos mais próximos.

Amigos de toda a vida com quem se tem desabafos que não se têm com mais ninguém.

“Tenho andado à rasca da coluna”, “a minha mulher não fala, está depressiva” e “o meu filho, depois de quase 20 anos de casamento, vai-se divorciar”…

Esta dos divórcios já aconteceu a quase todos.

Os “crescidos” são maiores mas há os nossos netos com quem passamos a ter que nos preocupar em dobro…

E as forças – não as “armadas” mas as “nossas”- já tiveram melhores dias.

Há dias em que um tipo se sente mesmo velho…

E, depois, termino normalmente o dia sentado da minha sala de estar a ver um filme de guerra no canal “Hollywood”, com a minha mulher a dormir há muito no nosso quarto.

Quando falo nestas “cenas” ao meu médico ele diz-me que eu tenho de mudar hábitos!

Às vezes tento… mas não consigo.

São muitos anos de guerra. O “Xanax 0,5” é que me vai safando para dormir 5 ou 6 horas por noite.

Quanto às dores nas costas, felizmente que agora há o “Voltaren”…
JERO

4 comentários:

Carlos Pinheiro disse...

É o resultado daqueles dois anos. Mas tu ainda falas e desabafas, mas muitos nem por isso. Foi uma preparação à pressa,uma viagem péssima para a maioria, o chegar foi aquilo que a gente sabe e o que se encontrou só cada um sabe de si.Para muitos, para a maioria, foram dois anos traumatizantes em todos os aspectos, mas para a maioria que se safou, não foram maus de todo porque regressámos. Pior foi para aquels que lá ficaram aos bocados e nunca ninguém se importou com eles, bem pelo contrário. Mas faz bem desabafar. Um abraço Jero, extensivo a todos os camarigos.

joaquim disse...

Grande amigo, dizes tudo!

Comecei a descobrir o que dizes quando comecei a frequentar os convívios de combatentes, pois só então me apercebi seriamente que as pequenas ou grandes coisas que me iam acontecendo no dia-a-dia eram transversais, como mais ou menos intensidade, a todos nós.

Hoje já consigo, de vez em quando, prever a chegada das irritações sem sentido que me levavam sempre a violentas respostas verbais e antes ainda piores do que isso.

O Estado não nos liga, sobretudo àqueles que andam pelas ruas e nada têm, mas nós cá nos vamos apoiando uns aos outros conforme podemos.

Infelizmente nós, Portugueses, não estamos habituados a exigir ao Estado as suas responsabilidades e por isso o Estado nos "destrata" e despreza.

Grande abraço

Unknown disse...

Saber voltar as paginas...MAS...sem nunca as arrancar. Um abraco desde o extremo norte da Suecia. J.Belo

Anónimo disse...

Pois é amigo JERO.
Momentos como esses passam um pouco por todos nós que vivemos situações impensáveis, para esta geração.
Faz bem desabafar. Por vezes somos repetitivos, mas há acontecimentos que não nos saiem da cabeça!.. É a vida, os dias que nos lembramos...
Boas férias. Descanse e ande muito a pé e vá falando, mesmo para com os seus botões... Há sempre alguém que nos gosta de ouvir.
Abraço grande.
M Arminda