A FORÇA DA NATUREZA
“Folheando” recentemente
o último número da revista Karas de Junho, chamou-me a atenção o episódio em
que a Giselda mostrava ao nosso camarigo Carlos Santos umas fotos por
nós tiradas numa deslocação que fizemos à zona de Guileje no “longínquo” ano de
1995.
Parte dessas fotografias tinha já feito parte de um Poste saído no blogue
“Luís Graça & Camaradas da Guiné”, integradas na minha apresentação ao blogue - em Janeiro de 2009 (!), já lá vão mais de
sete anos…
Tivemos entretanto a
oportunidade de enviar ao Carlos Santos essas fotos digitalizadas que ele tinha
mostrado interesse em receber – e que hoje voltamos aqui a reproduzir.
Porque em grande parte o
que eu disse nesse Poste acabei por não cumprir (nomeadamente a promessa de
ficar calado…), não resisto a transcrever algumas das partes então publicadas,
com a devida vénia aos editores do blogue “Luís Graça & Camaradas da Guiné”
– vulgo Tabanca Grande – que tiveram então a gentileza de editar. Em alguns pontos poderão verificar a
existência de (…). São partes do texto inicial que considerei não ter interesse
reproduzir nesta altura. Mas se tiverem muita curiosidade sempre podem ir à Tabanca Grande espreitar o Poste 3816...
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“Caro
Luís Graça
A
publicação do livro do Cor. Coutinho e Lima sobre a retirada do Guileje e os
subsequentes comentários que sobre esta matéria têm inundado este blogue
conseguiram de certa moda tirar-me da inércia que tenho mantido sobre um
assunto que tenho considerado demasiado íntimo e difícil de partilhar. E
desengane-se quem pensa que isso vai mudar... [Desengano-me
eu, que desde então já me fartei de falar… Comentário meu, actual]
Mas
porque, como muitos dos "frequentadores" deste blogue, dedicamos um
carinho especial a um momento difícil das nossas vidas nessa longínqua Guiné,
gostaria de partilhar algumas imagens do Guileje que tive a oportunidade de fixar no ano de 1995, quando ali passei uma semana, envolvido na gravação de um documentário sobre Guileje, realizado por José Manuel Saraiva para a RTP.
Para além de uma assistente da realização, podemos aqui identificar ao meu lado o Cor. Coutinho e Lima e o nosso camarigo Manuel Augusto Reis, meus companheiros de viagem. |
Para
começar, apresento as minhas "credenciais": Miguel Pessoa, à data Tenente-Piloto-Aviador
do Quadro Permanente da Força Aérea. Cumpri a comissão na Guiné no período de
18NOV72 a 14AGO74, com um intervalo passado em Lisboa (entre 7ABR73 e início de
AGO73) para recuperar das mazelas sofridas quando da minha ejecção de Fiat G91,
depois de atingido por um SAM-7 "Strela" durante um apoio de fogo ao
aquartelamento de Guileje.
À
chegada ao Teatro de Operações estava apenas qualificado para voar o Fiat G-91
mas rapidamente o saudoso TCor. Almeida Brito, Comandante do Grupo Operacional
1201. ministrou-me um curso intensivo de DO-27 que me habilitou a operar este
avião por muitas das pistas ali existentes (64 ao todo, se bem me lembro, que
as contei na minha carta de voo). Assim, até Abril de 1973 dividi a minha
actividade de voo entre o Fiat G-91 (1/3 das horas) e o Do-27 (os restantes
2/3). A partir daí e até ao fim da comissão a minha actividade de voo foi
essencialmente feita no Fiat G-91.
(…)
Pelas
datas que acima refiro se pode dizer que não estou minimamente habilitado para
falar sobre a retirada do Guileje, que no difícil período de Abril e Maio de
1973 estava eu a recuperar de uma perna partida e de uma compressão das
vértebras (perdi 2cms de altura...), que isto de se trabalhar sentado também
não é tão fácil como pode parecer. Mas sobre o Guileje só posso dizer que a coisa
já não estava boa em Março pois naquele dia (um domingo, 25) eu estava lá para
fazer um apoio de fogo ao aquartelamento, na sequência de um flagelamento do
IN.
(…)
Mas
vamos então às fotografias... É interessante que, olhando a fotografia do
aquartelamento publicada no blogue, se realçam os campos abertos que permitiam
às NT ver uma eventual aproximação do IN e a nós, pilotos, poder fazer uma boa aproximação ao
aquartelamento e dispor de um espaço razoável para "pôr o estojo no
chão". E, claro, tirá-lo de lá depois..
![]() |
Com a devida vénia ao então Cap. Jorge Parracho, detentor da foto. |
Não
foi nada disso que pude observar no local quando lá voltei em 1995 - por terra,
claro...
Aliás o monte de baga-baga que está numa das fotos, ao pé da porta
d'armas, está no enfiamento da antiga pista (desaparecida).
O espaço acimentado
que mostro nesta outra fotografia foi outrora a placa de helicópteros (usada por mim
em 26MAR73, quando daí fui evacuado para Bissau).
Agora,
na realidade, a placa está muito mais agradável pois dispõe de amplas sombras
que lhe são fornecidas pela magestosa vegetação que ali prolifera pelo meio do
cimento, com 5 ou mais metros de altura (e 20 anos de crescimento selvagem, à
data).
Finalmente,
fotos com monumentos que ficaram no aquartelamento e que dali não foram
retirados pelo PAIGC, embora antes da nossa chegada estivessem cobertos pelo
capim que ali existia - o qual foi limpo a mando da produção, para permitir a
realização do documentário.
Saudações
a todos os ex-combatentes da Guiné e às respectivas famílias, que tanto
sofreram com a sua ausência.
Um
abraço fraterno
Miguel
Pessoa”
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Na altura não incluí,
mas considero bastante interessantes as fotos deste camião que ali ficou
abandonado pelas nossas tropas e através do qual ao longo de 20 anos uma árvore
se foi insinuando e crescendo, ficando os dois – veículo e árvore –
interligados para sempre, um testemunho da força da natureza...
Miguel Pessoa
3 comentários:
Fotografias bem interessantes que nos fazem perceber a força da natureza, sobretudo em África onde tudo muda rapidamente.
Uma vez tive uma discussão com um oficial superior que insistia que numa operação de que me estava a incumbir tínhamos que passar por determinado curso de água, em determinado lugar, e eu respondia que tal já não existia assim.
Mas ... está no mapa, dizia ele!!!!
Abraços
Olá Camaradas,
Sobre a força da natureza, vamos a ver, se proximamente, será o camião a arrastar a árvore, ou a árvore a levantar o camião. É fantástica a natureza.
Abraços fraternos
JD
Gostei da descrição e fotos.
. Realmente a natureza altera muita coisa e pode transformar rapidamente, a vida de um ser vivo.
Na Guiné, onde também a vegetação cresce velozmente, foi ainda possível ao Miguel e à Giselda, reconhecerem o local que jamais esquecem e que de um modo muito especial, ficou ligado às suas vidas.
Um abraço para ambos.
Ma. Arminda
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