domingo, 9 de novembro de 2014

P566: FUGINDO À CARÊNCIA HABITUAL...


FARTOTE DE LEGUMES

Quando deambulava pelos aquartelamentos espalhados pela Guiné, nas minhas missões, tive oportunidade de verificar as condições difíceis em que viviam muitos dos nossos militares, nomeadamente no que dizia respeito à alimentação.

Na verdade, devido às dificuldades de abastecimento de géneros, mais visíveis nos aquartelamentos mais isolados, a alimentação falhava com bastante frequência, quer na quantidade quer na qualidade.

Essa situação era agravada nos locais que não dispunham de pista ou que, por acção do inimigo, tinham visíveis dificuldades no reabastecimento por via aérea ou mesmo por via terrestre.

Assim, o "prato do dia" em muitos sítios era sistematicamente repetido, geralmente com base no arroz ou massas e enlatados e algum produto produzido localmente, mas muitas vezes com visível falta de frescos para acompanhar a refeição.

Tive a oportunidade de verificar isso pessoalmente em diversos locais onde, por força do apoio a operações, permanecia durante todo o dia, juntamente com as tripulações de alerta às evacuações.

Lembro-me que, em determinada altura, devido ao sistema de rotação com as minhas colegas, dia sim dia não "abancava" no aquartelamento de Cufar onde, sistematicamente, ao almoço nos era servido esparguete com ovo estrelado, salsichas e mortadela (das enlatadas). Poder-se-ia dizer que não era tão mau como isso, mas não se pode considerar adequada uma alimentação que, por ser repetitiva, se tornava enjoativa, acrescida da falta de frescos para equilibrar a ementa.

Outra situação particular vivi-a num aquartelamento no norte da Guiné que apenas dispunha de um heliporto improvisado; após a nossa aterragem, logo pela manhã, muito amavelmente perguntaram-nos se queriamos beber alguma coisa. Para evitar penalizá-los pedi-lhes um simples copo de água. Disseram-me que água não tinham no momento, que tinham que a ir buscar longe. Só se fosse whisky ou Martini...

Pelo contrário, outro local em que muitas vezes permanecíamos, no sul, dispunha de bastante água, não costumando ali faltar os frescos. No decorrer de uma operação em que ali parámos um par de horas, numa visita às hortas que ali havia tive a oportunidade de gabar ao seu responsável a qualidade dos legumes ali produzidos.

No momento em que nos preparávamos para descolar tive a surpresa de ver o tal responsável pelas hortas dirigir-se-me, trazendo-me simpaticamente dois sacos volumosos, um com alfaces, outro com couves. Embora com os meus protestos, pois eles precisariam mais daqueles frescos do que eu, acabei por embarcar o material que tão generosamente nos tinha sido oferecido.

O nosso destino era Guileje, onde tive igualmente a oportunidade de passar bastantes dias de alerta. Pela experiência anterior, sabia das limitações de Guileje no que dizia respeito à água e aos frescos, pelo que, lá chegados, foi com satisfação que ofereci os sacos com os legumes que tinha trazido comigo. E o facto é que de imediato alguém tratou de dar destino àquele "petisco" caído do céu. E ao almoço, que partilharam com a tripulação, foi possível distribuir, por um dia, um "rancho melhorado" a quem, devido às carências existentes, há já uns tempos que não metia o dente nuns legumes tão frescos e tão apetitosos.
                                                      Giselda Pessoa
Nota: A foto 1 foi cedida pelo Gil Moutinho, na foto (os nossos agradecimentos). As fotos 2, 3 e 4 aqui reproduzidas destinam-se essencialmente a enquadrar o texto, não estando directamente relacionadas com os eventos descritos. Reproduzidas de "Luís  Graça & Camaradas da  Guiné", com a devida vénia.


6 comentários:

Jorge Portojo disse...

Na verdade a Gisela tam razão. Embora o nosso tempo de passagem pela Guiné seja diferente.
No entanto, fálo pela minha experiência, para se conseguir um ovo bom (em Catió) precisavamos de pelos menos uns 6. Logo os ovos que haviam em Cufar deveriam chegar por via aérea. Sempre seriam 1 em 2.
No entanto, se não fossem os roubos de comandantes de companhia e primeiros sargentos, a alimentação do pesssoal poderia ser muito melhor, pelo menos em zonas onde houvessem pistas de aviões ou heliportos, como eram Cufar e Catió. Como exemplo.
Só costumo falar do que sei e o que passei. Costumo puxar dos meus galões por ter feito quási 5 meses de vague-mestre ao rancho em que não houve um único problema, com excepção da célebre vaca da qual o alferes de serviço à messe de oficiais queria bifes.
Mas a ganância de muita gente - refiro-me ao pessoal do quadro permanente - prejudicaram e de que maneira a saúde dos soldados. Claro que não só a eles. Os furrieis milicianos aguentavam-se como podiam. Eram a classe mais baixa da hierarquia.
Na CCS do BART 2865 - que anularam a organização que eu criei nos últimos meses da CCS do BART1913 - havia um primeiro sargento (ligado aos serviços de operações, creio) que quis fazer uma horta. Ele comprava do seu bolso as sementes, e orientaria os serviços. Deram-lhe carta negra. Junto às traseiras do quartel - zona sul - até se deixou de capinar. Assim eram os nossos comandos- Deixar andar e o dinheirinho para o nosso Bolso. Leia-se um artigo - ou comentário de Arménio de Almeida, salvo erro, sapador do BART1913, do período da corrupto deste Batalhão.
Camarigos, o meu período foi de Maio68 a Abril70.

Hélder Valério disse...

Caros amigos

Este relato da nossa incontornável Giselda vem de uma forma simples e concisa mostrar aquilo que todos sabemos, que falamos, aqui e ali, mas que é assim bem demonstrado por esta 'amostragem' com todas as diferenças que se podem perceber, a norte e a sul e mesmo dentro da mesma região, entre aquartelamentos.

Como completa o Jorge 'Portojo', muitas responsabilidades por essas situações eram locais: por falta de visão, por falta de sensibilidade, por ganância, etc. Não era fácil, mas podia-se ter feito muito melhor.

Estive de passagem em Nova Lamego e também em Porto Gole, mas não me lembro como foi.
Em Piche, era conforme os reabastecimentos. Lá se fazia o que se podia. Algumas vezes também houve improvisação, mas é claro que estou a falar da messe de sargentos.
Achei original as almôndegas de 'mancarra' com 'gordura natural'. Diziam que era do cozinheiro negro fazer as almôndegas rolando-as no corpo suado. Mas sabiam bem!

Em Bissau, da messe de sargentos em Santa Luzia, não guardei boas recordações. Acho que havia ali também muito do que se dizia ser uma forma de 'governanço' dos responsáveis por tal serviço. Se calhar, isso era só dizer por dizer.... mas lá que parecia 'bater certo', isso sim.
Recordo com curiosidade o arroz 'colorido'. Branco quando era 'lavado' ou de 'manteiga; encarnado (não seria vermelho, claro) quando era de tomate; verde, quando era com verduras, grelos ou coisa assim; amarelo, quando parecia ter caril.

Outros tempos....
Hélder Sousa

Joseph disse...

Observacöes muito pertinazes quanto ao modo displicente,para lhe näo chamar criminal,como os mais altos responsáveis, alimentando-se em messes bem fornecidas (ou pelo menos fornecidas),permitiam que milhares de militares nas guarnicöes do mato passassem as maiores privacöes näo só no aspecto alimentar como também no sanitário.
Obviamente näo se tratava de um país rico.
Estávamos em guerra e näo num piquenique.
Mas a ter havido competência, interêsse e vontade, por parte dos dos altos responsáveis civis e militares muitas das condicöes extremas poderiam ter sido pelo menos melhoradas.
Isto, por näo ter sido unicamente o passado em alguns quarteis isolados pelo inimigo e com as inerentes dificuldades em se abastecer.
Toda uma cadeia de corrupcäo desde Lisboa ás cidades africanas centrais,e que daí se estendia à administracäo,distribuicäo e transporte.
Infelizmente,a tudo isto se sobrepunha ainda a "orientacäo" do producto final quando chegava a algumas unidades do mato.
Gente corrupta haveria entre pessoal do Quadro Permanente como também a havia entre Milicianos,vago-mestres e pessoal do Contingente Geral com funcöes relacionadas com a alimentacäo.
Näo se deverá esquecer muitos dos operacionais do Quadro Permanente que tudo procuraram fazer(ao seu alcance!)procurando obstar a tais stuacöes.
Poderei citar exemplos concretos de alguns destes militares que, acabaram por ser prejudicados por..."se meterem onde näo eram chamados"...como foi dito à minha frente por um senhor Coronel responsável por uma Reparticäo do Estado Maior de Bissau a um Capitäo de Artilharia na sua terceira Comissäo de Servico em África.
Quanto a generalizacöes existem sempre muitas excepcöes a näo menosprezar.
Reticências mais difíceis de aplicar aos altos responsáveis político-militares que estariam bem informados de tais situacöes,com nomes,locais e Unidades implicadas.
A täo eficiente polícia política estava presente em quase todos os locais (e meios)onde muita da corrupcäo se desenvolvia.
Estaria distraída nos seus täo cuidados relatórios?
Recebia uns quilos de bife extra?
Ou seria incompetente?...o que näo creio.
Um grande abraco.
José Belo

Juvenal Amado disse...


Não querendo comparar com as dificuldades que passaram destacamentos muito mais isolados, no meu batalhão a ausência de frescos era também constante, embora no Saltinho com a abundância de água a coisa era menos grave.
Mas em Cancolim na CCS os frescos eram distribuídos de para-quedas e ovos por exemplo era raro não se emborracharem todos. Em Cancolim a qualidade do rancho era pior do que na CCS por falta de qualidade e variedade. Em Dulombi nunca lá comi a não ser ração de combate que já levava comigo.
Mas voltando a falar do Saltinho cheguei a fazer colunas a um local onde o rio era atravessado por canoas para ir buscar arroz emprestado por Aldeia Formosa.
AS batatas que vinham a tempos já chegavam na maioria podres e após apurada escolha lá se comia uma vez ou outra batatas com o bacalhau liofilizado.
O resto era arroz, feijão, massa. Faço aqui um reparo para o pão que se comia na CCS. Era umas bolas pequenas individuais óptimas para uma sandes nas vez dos tradicionais "casqueiros"

Em Galomaro no Natal houve sempre couves para a ceia e chegamos a comer leitão assado à moda da Bairrada. Em fim luxos!

Um abraço

Anónimo disse...

Uma vez mais a Giselda a dar-nos uma pequena mostra do que é ser solidário.

Sobre os diferentes ranchos, não o prato evidentemente, nem vou falar, o ser humano pode ser tudo, generoso, solidário ou terrível e o sentido de poder associado a isso completam a má formação de muitos que tiveram esse cargo.
BS

Anónimo disse...

Achei interessante a "estória" da minha amiga Giselda, sobre as dificuldades, que tinham na aquisição de frescos os aquartelamentos, no mato. Foi solidária a atitude da minha colega em oferecer, as alfaces a outros. Também verifiquei essa insuficiência, tendo um dia em Aldeia Formosa, presenciado a morte de uma vaca, que estava à beira da pista e combinado com o piloto, um militar abateu-a para não prejudicar a descolagem da DO. Assim conseguiram carne fresca. Numa das minhas estadias na Guiné, havia no HM241, um Sarg Enfermeiro de nome Agostinho, que fez nas traseiras do hospital uma formidável horta e que nos pedia que levássemos as sementes quando vínhamos a Lisboa trazer feridos. Eu, era uma das que ia a uma casa que havia no Rossio, próximo da pastelaria Suíça e lá lhe levava o fornecimento, que algumas vezes era ofertado. Aí a solidariedade era reciproca, pois de vez em quando,ofertava-nos alguns produtos. Como cozinhávamos ao Domingo, dava um certo jeito. Mª Arminda