quarta-feira, 16 de julho de 2014

P521: RAMBO DE TRAZER POR CASA



UMA IDA À MATA!

Olhei para a minha G3 (feita especialmente para mim), e chamei os furriéis:
- Ó Manel, manda lá o pessoal preparar-se que hoje apetece-me encontrar os gajos e pregar-lhes uma carga de tiros!

O Furriel Manel, entre o brincalhão e o apreensivo voltou-se para os outros e disse:
- É pá, cuidado com ele! O Alferes hoje tá danado para a porrada! Até já “tou” com pena dos turras! 

Reentrei no meu quarto e comecei a preparar-me.
Pintei a cara e as mãos segundo a melhor arte de camuflagem e vesti o camuflado.

No tornozelo direito coloquei num coldre apropriado a minha Walter PPK. No tornozelo esquerdo o meu revolver Smith & Wesson, fiel companheiro de tantas idas ao mato sem nunca encravar.

À volta da cintura, presas ao cinturão 4 granadas defensivas enquadradas pelos diversos carregadores de munições das diferentes armas.

Presa à passadeira do camuflado no ombro esquerdo coloquei a minha indispensável faca de mato, que já me tinha valido a vida em tantas lutas corpo a corpo naquelas matas da Guiné.

Olhei para o cantil da água e coloquei-o de lado. Homem que é homem não bebe água e um guerrilheiro não tem sede!

Em vez de levar o cantil, coloquei mais duas granadas à cinta e no ombro direito.
Coloquei os óculos de lentes amarelas no bolso do peito, porque já sabia que me iam fazer falta para ver os turras empoleirados nas árvores no meio da folhagem.

Olhei-me no espelho grande que tinha no quarto e um ligeiro tremer apoderou-se de mim.
Porra, até a mim eu metia respeito!!!

Saí para a parada e do meu Pelotão formado saiu um Ah! de espanto e temor! Eu tinha esse condão! 

Quando saía para a mata em operações o pessoal ficava sempre à rasca quando me via. Ou não tivesse eu a fama que tinha!

Ouviam-se pelo meio dos soldados uns murmúrios que diziam:
- É pá o gajo hoje “tá” de todo. Coitados dos gajos, nem têm hipótese!

Como sempre fazia, levantei a voz e disse para os meus homens:
- Pessoal já sabem como é. Não há misericórdia, nem fazemos prisioneiros, e já sabem que enquanto eu estiver a dominar a coisa sozinho, vocês não metem o bedelho!

Só o Furriel Manel é que fica incumbido de atirar aos gajos das árvores se eu não os conseguir abater a todos.
Todos têm as palhinhas para respirarem debaixo de água?

Era o meu melhor truque!
Colocávamo-nos dentro de água, totalmente imersos e a respirar por umas palhinhas e quando os gajos se chegavam ao rio era só saltar de dentro de água e disparar a torto e a direito! Nem um só escapava!

Olhei para o pessoal, olhos nos olhos de cada um, e comandei em voz alta e forte:
- Vamos lá despachar uns gajos que eu quero chegar a tempo de beber a cervejinha da tarde!!!

Ouviu-se uma grande algazarra, vozes a discutir, etc, e depois finalmente uma voz que dizia esganiçada:

- Porra! Façam silêncio no estúdio que estamos a filmar!!!


Monte Real, 19 de Outubro de 2009 

Joaquim Mexia Alves



Este texto foi originado ao ouvir e ler algumas histórias mirabolantes de alguns, (poucos, felizmente), combatentes, que se esquecem, muito provavelmente, que houve outros combatentes que por lá andaram e conhecem a realidade da Guerra do Ultramar.



3 comentários:

Joseph disse...

Falta o garfo,Joaquim.
Apanhados "à mäo" mas comidos com faca e...garfo!
Aquele abraco.

MANUEL MAIA disse...

E DESTA FORMA BRILHANTE ENTROU PARA O CINEMA O SWARZENEGER DE MONTEREAL TAMBÉM CONHECIDO POR RÉGULO DA TABANCA DO CENTRO...

Jorge Portojo disse...

Assim não pode ser ó régulo de Monte Real. Eu vi esse filme há mais de 30 anos, mas o actor não era o Chesewarneguere. Mas ainda vais pagar uma de direitos de autor.
Mas parece que uma parte do filme ainda vive nas mentes de uns tantos Rambos.
Há muito, muitos anos, havia um homem com talvez 1,55 m e 50 kg de peso, conhecido pelo Básico (ver Tabanca Grande)que já tinha inventado um filme idêntico. O herói Rambo era eu mesmo. Felizmente tinha outros Rambos comigo que o colocaram atrás das Câmaras.