quarta-feira, 9 de julho de 2014

P519: JERO - HISTÓRIAS DA VIDA MILITAR

Na vida militar depois de um início bem difícil na E.P.C., de Santarém, onde fiz a recruta no Verão de 1962, fui “cair" no Hospital Militar de Lisboa.


Levei o meu 2º. Ciclo do “meu” C.S.M. a sério e passados uns meses eis-me Chefe da Enfermaria de Dermato-Sifiligrafia. Um cargo ao tempo com alguma importância para um cabo-miliciano, remunerado com 90 escudos por mês!

Um dia fui procurado ao fim da tarde por um Soldado-Miliciano que, com acentuada pronúncia madeirense, me pediu uma conversa a sós. Tinha um problema complicado e pedia a minha ajuda para nessa noite correr uma hora e meia no corredor que ficava entre a enfermaria e o meu gabinete.

Os “porquês” deste pedido insólito tinham a ver com uma ida à Junta Médica no dia seguinte. E explicou-me a necessidade da corrida nocturna.

Durante a recruta quando fazia “trabalhos de estrada” horas depois começava a urinar “sangue”. 

Como já estava há mais de um mês internado (e sem fazer os esforços normais de uma recruta) já não tinha os sintomas que o tinham levado ao internamento no HMP (um cálculo renal).

Convém esclarecer que nesta Enfermaria de “Siflis” –como era conhecida na gíria hospitalar - “residiam” doentes de outras especialidades (no caso de falta de camas em Medicina ou Cirurgia).

Voltando ao jovem madeirense… precisava portanto de uma corrida nocturna para "mijar sangue" no dia seguinte. Confesso que hesitei um pouco por o Director do HMP da altura (Dr. Ricardo Horta Junior) ser tudo menos compreensivo. E quem fosse apanhado a “mijar fora do penico” comia pela medida grande...

Mas o nosso soldado-recruta estava tão aflito que… eu alinhei. Voltei ao Hospital após o jantar (estava “desarranchado”)  e, depois de informar o “vela”(que era da Nazaré) que ia haver uma actividade física do “cama 30”, consegui reunir condições para o rapaz do “cálculo” começar a correr.

Parece-me que ainda hoje ouço a sua respiração ofegante e vejo o seu olhar angustiado… Foram voltas e mais voltas no corredor até o jovem “sentir” que tinha conseguido atingir um  “cálculo” semelhante aos esforços que era obrigado a fazer  na sua recruta .

No dia seguinte, à tarde, arranjei maneira de estar no corredor das Juntas Médicas. Quando o "recruta" madeirense me viu e correu para mim para me dar um abraço percebi que tudo tinha corrido bem.

Meses depois visitou-me em Alcobaça e foi coberto de “mimos” da minha mãe. Boas comidas e dormidas… sem necessidade de corridas prévias…

Escrevemo-nos alguns tempos mas depois… o tempo afastou-nos. Mas quase meio século depois sabe-me muito bem recordar esta estória pouco vulgar. 

Por vezes na vida há que arriscar um pouco por causas justas. E este jovem madeirense mereceu bem a corrida “fora de horas” que lhe consegui arranjar no HMP.

Foi o que se chama “correr por uma boa causa” !!!

JERO

5 comentários:

Hélder Valério disse...

Caros camaradas

O nosso amigo Jero tem, sempre teve, pelos vistos, destas coisas.

Vê-se metido em situações que podem não ser as mais convencionais, 'pesa' um bocado os prós e os contras e quando 'sente' que há uma base sustentável acaba por 'arriscar', como no caso que relatou, e no fundo, temos mais uma 'boa acção'.

Este é o Jero que (re)conheço.
Amigo de sempre.

A imagem do HMP da Estrela, vista de onde foi tirada, foi-me muito familiar, mas uns anos mais tarde... (o Jero tem mais alguns anos que eu...), já que vinha da Rua de Buenos Aires apanhar o "28" ao Largo de Estrela e a imagem que via era exactamente essa. Mas isso não em 62 mas sim em 66, 67, 68 e 69.

Abraço
Hélder Sousa

Joseph disse...

"Por vezes na vida há que arriscar um pouco por causas justas".
Um grande abraco ao Jero.

Anónimo disse...

Amigo Jero, fez muito bem arriscar por mais uma causa justa e solidária. Quem sabe se o madeirense, não era um amparo necessário à sua família?. Há corridas que valem "ouro" e para ele foi por certo. Gostei do relato mesmo e também cheguei a ouvir falar desse Sr. Dr. Um abraço amigo. Mª Arminda

joaquim disse...

Ó Jero, é a isso que se chama "mijar fora do penico"???

Grande história, meu amigo.

Grande abraço
Joaquim

manuel maia disse...

camarigos,


E dessa forma se safou o madeirense graças a uma "corrida p`ró mijo" que o Jero lhe facultou...

Em linguagem popular dir-se-ia pois que o dito teve um mijo do catano...

Com muito mijo escapou// da guerra está bem à vista // e assim mijado ganhou //lugar na KARAS revista . Abraço ao Jero e a todos os tabanqueiros do centro.