quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

P420: CONTO DE NATAL... SÓ PARA ALGUNS!


O  TRANSPLANTE  DO  TRANSMISSÕES

“Trim…Só eu sei porque não fico em casa…Trim…Só eu sei porque não fico em casa…Trim….Só eu sei porque não fico em casa…”

 - “Ó Miguel, atende lá o telemóvel que eu já não suporto essa musiquinha e ainda por cima estou no telefone fixo com o meu primo Gosé Seara”, gritou a nossa estimada e gloriosa Camariga Giselda.

O nosso Piloctor em vez de acelerar o passo parou a meio do caminho e exclamou:
- “Vocês têm mesmo mau perder! Já não me lembro do meu Sporting estar isolado em primeiro lugar e agora não me deixas saborear o hino?”

- “Ó homem, atende lá o telefone, pode ser outra vez a Zézinha Valério! Já ligou ontem e disse que voltava a falar por causa de um novo CD que anda a gravar…”

 - “A Zézinha? Essa grande leoa? Esse símbolo que vem desde a fundação do nosso Clube?”

E não é que o nosso Piloctor sprintou em direcção ao telefone… mas, o sprint de cinco metros demorou um tempito e quando lá chegou o telemóvel estava mudo!

 - “Eu não te avisei?”, ralhou a Giselda, ao mesmo tempo que se despedia do seu primo Gosé Seara, com um : “temos de ter paciência, mas vamos fazer uma petição para correr com o “Jasus” embora me custe, agora que estamos no Natal… Estás de acordo?”

- “Persupuesto que estou! «Jasus» para a Benezuela, JÁ!”, gritou o seu primo, que sem mais delongas desligou o aparelho.

- “Gaita”, murmurou o Piloctor… “desligaram, tenho de fazer dieta!”

E lá voltou para o seu sofá verde às riscas e cobriu as  pernas com a sua felpuda manta cor verde esperança com uma mancha amarela no meio, a fazer lembrar um ovo estrelado, oferta da tal Zezinha que lha comprou na feira de Carcavelos, vai para cinquenta anos!

Trim… e antes que aquela musiqueta começasse a tocar, Dona Giselda, num voo espectacular a fazer lembrar a nossa querida águia Vitória, levanta o auscultador e prontamente, sem mais delongas, pergunta com uma ligeira rispidez na voz:

- “Quem fala?”

- “Sou eu, o Guaquin, quero dizer, o Joaquim. Vê lá tu, Giselda, desde que tive aquele diálogo com o Maduro quedou-se-me na fala um pouquito de sotaque!”

- “Queres hablar com Miguel”, pergunta a Giselda que também fala espanhol correcto, tantas são as vezes que discute as tácticas do Glorioso com o seu primo Gosé Seara.

- “Vou-to passar”, só um momento! Até logo.

Já o nosso Amado Chefe entoara por duas vezes o “ Fado da Guiné”, quando se ouve uma voz sorridente:

- “Sim, Joaquim, tudo bem? Viste o jogo? E o Montero? Este ano ninguém nos pára! Isolados em primeiro! Grande presidente! Grande treinador! Grande Juve Leo!”

- “Porra, Miguel, estava a ver que não atendias. Deixa-te de futeboladas que eu estou atrapalhado. Preciso do telefone do ministro da saúde, o Macedo”!

- “Estás doente, Joaquim?”

- “Não, estou a tratar daquele pobre Camarada das Transmissões que ficou com os tímpanos furados quando escutava a minha conversa com o Maduro! Foi transferido do hospital para a BUARKOS KLINIC NIC NIC para um transplante, mas aquilo não anda e tenho de meter uma cunha para ver se se consegue um dador!”

- “Não tenho o número. Quem te pode desenrascar são os gajos da BUARKOSLEAKSLEAKS  que têm o melhor ficheiro do país!”

- “Não vou telefonar a esses gajos mas…já sei, peço ao Agostinho que está aqui ao meu lado. Obrigado!”

- “Ó Agostinho, ligas aos gajos mas não digas que é da minha parte, pois com essa gente ninguém sabe o que nos espera!”

- “É para já, Mexias!”

E ainda o bom do Agostinho Gaspar não tinha acabado de discar o número, já uma voz do outro lado respondia.

- “Ó Agostinho, vai um copinho?  Queres o número do Macedo para o Amado Chefe, então aponta lá e em vez de um até te dou dois!”

O Agostinho ficou branco e o Amado Chefe de boca aberta perante tamanha eficiência e rapidez! Engoliram ambos em seco, mas depressa se recompuseram pois tinham combinado ir à Boavista com o Manuel Lopes Lopes, o Kambuta dos Dembos, comer um leitão.

- “Primeiro vou ligar ao Macedo e vamos já!”, disse o Amado Chefe.

Discado o número prontamente e sem mais delongas, uma gravação responde:

- Problemas de amor, insucessos, depressões, marque 1.

- Impotência sexual, abandono do lar, problemas conjugais, marque 2!

- Alcoolismo, droga, ou outros vícios, marque 3.

- Sorte nas candidaturas a Chefe da Tabanca, Deputado da Nação, ou Presidente de Junta de freguesia, marque 4.

- Para expulsar o “JASUS” do Benfica tem de aguardar dezoito meses e marcar 5.

- Para falar directamente com o senhor ministro Macedo marque 6.

Olharam um para o outro, desconfiados, num “aqui há gato”, mas, como grandes Combatentes que foram, após ligeira hesitação, lá decidiram marcar o 6.

Ao longe, muito difusa, ouvia-se uma música a fazer lembrar os coros gospel dos que cantam sempre a mesma música, quer se trate de cerimónias de casamentos civis ou litúrgicos, baptizados ou funerais e até divórcios, pois com a crise há que aproveitar o que vem à rede.

Já os nossos Camaradas se deixavam embalar pela música, o nosso Amado Chefe até assobiava baixinho e o Agostinho acompanhava o ritmo batendo com o pé no chão, quando a música parou de supetão e uma voz rouca, roufenha, cava, mesmo fanhosa, inquiriu sem mais delongas :

 - “Já pagaram o dízimo?”

 - “Mas, quem está ao telefone não é o senhor ministro?” sussurrou a medo o Agostinho.

- “Sim, sou o ministro e Bispo Edir Macedo, chefe da Igreja Universal do Reino de Deus que é uma igreja neopentecostal, seu ignorante! Já pagou o dízimo?”

Quando ouviu falar em igreja, o nosso Amado Chefe ficou furibundo e arrancou, com alguma brusquidão, o telefone das mãos do Agostinho e logo disse ao bispo:

- “Você fique sabendo que eu não quero nada com falsos bispos e até sou amigo, desde há muitos anos, do papa Jorge Nuno e também sei que o senhor já esteve preso por…”

- “Já pagou o dízimo?”, interrompeu o Macedo.

- “Preso por charlatanismo, por curandeirismo, por estelionato seu, seu…” … “Desligou, o sacana do Macedo! Já viste, Agostinho, está aqui um homem de boa fé a querer praticar uma boa acção, a querer ajudar um Camarada e sai-lhe uma encomenda destas!”

- “Ó Mexias, isso é que é falar! Mas não percebi os nomes que chamaste ao gajo. Então aquele do “exterenato” ou lá o que é..”

- “Estelionato, Agostinho, estelionato! E o Amado Chefe colocou a sua mão no ombro direito do seu Camarada, ia a escrever discípulo, ajeitou os óculos e logo ali explicou:
“Estelionato, Camarigo Agostinho, estelionato é obter, para si ou para outro,
vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento."

- “Para entenderes melhor, é assim que a modos do que fez o teu antigo presidente, o Vale e Azevedo e vê lá tu que esse sacana agora é sacristão na igreja da cadeia e o Macedo é bispo… Estamos entregues aos bispos, quero dizer, aos bichos!”

- “Ó Mexias, deixa lá isso e vamos mas é resolver o problema do nosso Camarada. Como ele está internado em Buarcos na CLINIC NIC NIC, vou telefonar ao Almirante Vermelho e seja o que Deus quiser. Se o apanharmos bem disposto, o gajo resolve-nos o assunto. O pior é se o vento está de sul e o cheiro da celulose da Leirosa chega a Buarcos… aí o gajo fica pior que estragado e diz mais asneireda contra a Figueira do que um carroceiro quando a mula não quer andar.”

- “Temos de entrar de mansinho e como o Benfica ganhou ao Paris e o meu Porto perdeu, temos de aproveitar a maré, que ele deve estar bem disposto e com certeza já se esqueceu do Arouca…mas, vale mais prevenir do que remediar. Olha, lês este papel e logo vês como reage a criatura.”

- “Vamos então ligar-lhe…”

Trim…S.L.B, S.L.B.,S.L.B., Glorioso…nós só queremos o Benfica campeão… Trim…

- “Alô, ici  Maison do Almirante Rouge”, respondem de Buarcos.

- “Sou eu, o Agostinho!”

- “Agostinhô, agora deu-me para falar um “petit peu” em francês pois comemos os franciuses com uma pinta que nem te digo nem te conto. E ainda dizem mal desse expoente máximo da técnica e da táctica, o mestre, esse enorme treinador, o nosso Jorge Jesus! Mas estes gajos da Federação ou da Liga  ou o raio que os parta são uma cambada de ateus!”

- “Ateus?”, perguntou o Agostinho a medo. “Querem ver que vamos apanhar outra injecção de religião”, disse de si para si.

- “Sim, ateus e ímpios desalmados. Onde é o lugar de Jesus no Natal? É no presépio! E onde o puseram esses energúmenos, esses perversos, esses desumanos? Na bancada! Ao que este país chegou!”

- “Mas diz lá, Camarigo e grande benfiquista Agostinho!”

O Agostinho de imediato começou a ler o papel que o Amado Chefe lhe havia facultado:

- “ Não levareis a mal a ousadia de vos importunar a esta hora, mas urgia pedir-vos grande favor que vou submeter à apreciação de Vª. Exª.”

- “Chiça, Agostinho, estás a falar caro… mas esse paleio não é para a gente pois, apesar de eu ser um grande escritor, um grande poeta, um grande músico, um grande actor, um grande encenador, um grande prefaciador, um grande crítico literário, um grande pintor, um grande locutor, um grande professor, um grande treinador, não gosto de puxar pelos meus galões e não sou nada vaidoso. Cheira-me que isso é paleio do Irmão Cisterciense JERO ou conversa do Amado Chefe para me cravar qualquer coisa…”

- “Almirante”, disse o Agostinho, “temos entre mãos um grave problema e queríamos ver se nos podia desenrascar. O nosso Camarada das Transmissões…”

- “Quem?”, interrompe o Almirante – “O Belarmino Sardinha ou o Hélder Valério?”

- “Não, Almirante, o Camarada da escuta da conversa entre o Amado Chefe e o Presidente Maduro que ficou sem os tímpanos e sem os pavilhões auriculares por causa daquele estrondo. Está internado em Buarkos mas ainda não foi operado pois não há dador de orgãos.”

- “Qual é o clube do gajo?!, pergunta o Almirante.

- Clube? Hesita um pouco o Agostinho, mas, logo ali ao lado, o Joaquim sussurra “Diz-lhe que é do Benfica”! “É sócio do Benfica”, exagerou o Agostinho.

- “Sócio do GLORIOSO? E já pagou o dízimo? quero dizer, as quotas!”

- “Sim, tem as quotas em dia, e antes de ir para a tropa pertencia à claque dos Diabos Vermelhos!”

- “Grande homem, não te preocupes que dentro de meia hora já te ligo! Vou falar primeiro com o Camarada das Transmissões…mas…..se ele tem os tímpanos furados, não ouve. Já sei, vou ligar ao Thamsanqa Jantje, esse expoente máximo da linguagem gestual e que tão bonita figura fez nas cerimónias fúnebres do Mandela e faz-se a coisa por vídeo conferência… Até já.”

Estava o Agostinho mais o Amado Chefe mais o Manuel Lopes Lopes, o Kambuta dos Dembos, a saborear o tal leitão da Boavista quando o telefone do Agostinho toca:

- “Sim?”

- “Está tudo tratado!”, diz com voz triunfal o Almirante. “A operação é amanhã de manhã mas preciso que estejas na  CLINIC NIC NIC por volta das dez e meia pois não há quartos disponíveis e, depois de operado, o nosso Camarada tem de seguir para casa”. E o Almirante Vermelho desligou.

Os comensais poisaram os talheres, olharam uns para os outros e mantiveram-se em silêncio por mais de cinco minutos!

- “Este gajo é mesmo poderoso”, exclama o Amado Chefe! “Qualquer dia ainda me tira o lugar de régulo de Monte Real!”

- “Mas onde terá ele arranjado o dador?”, pergunta o Agostinho.

- “Se calhar vem alguma rena do Zé Belo”, gracejou o Kambuta dos Dembos…

E riram-se todos muito satisfeitos com a piada e até aproveitaram para mais uma viradela da terceira garrafa de Pedro Milanos, pois a Luísa Valente, da quinta Senhora da Graça, tinha ofertado duas caixas do precioso néctar ao Chefe da Tabanca do Centro para o Natal, mas como todos sabeis, o Natal para o pessoal de Monte Real é mais cedo e quando se trata de beber um copo, ala que se faz tarde, e não se pode deixar azedar o tinto, que é pecado.

Bem comidos e bem bebidos, regressaram a Monte Real e o Agostinho dirigiu-se a casa e ligou o despertador para as seis da manhã, temendo que o trânsito em Buarkos fosse complicado ou receoso de alguma greve que pudesse afectar o funcionamento da CLINIC NIC NIC!

Chovia se Deus a dava, quando o Agostinho se meteu no seu automóvel, era ainda noite escura, seis e meia da manhã, e lá vai ele a caminho de Buarkos, onde chegou sem qualquer contratempo pelas sete horas! O tempo estava magnífico e admirou-se de àquela hora ver a praia pejada de banhistas, enquanto na vizinha Figueira o pessoal andava todo encasacado, a tremer com este frio de Dezembro!

- “Categoria”, exclamou alto o Agostinho. “Este Almirante, até no tempo manda!”

Estacionou o seu carro no moderno e bem cuidado parque da CLINIC NIC NIC e, receoso, lá foi entrando.

Dirigiu-se à recepção, apresentou-se e, quando se sentava na sala de espera, um barulho enorme de sirenes estrondeou pelo ar! Assustado, ia a levantar-se quando a assuecada recepcionista, loira, de olhos azuis, linda de morrer como aquelas meninas que o Joseph Belo coloca na sua Lapland – Key West Tabanca, lhe diz:

- “Mister Agostinho seat down!”

- “Sito quê?”, pergunta o nosso Camarada, que não fala sueco.

- “Sente-se, por favor. Está a chegar o dador para o transplante e pode atrapalhar!”

- “Isto é que é uma Berliett bem oleada!”, exclamou o Agostinho, lembrando-se dos seus tempos de Guiné, onde foi louvado mecânico. Ainda estamos para saber se este comentário foi para a organização da clínica, se para a recepcionista,  Miss Lena Philipsson,

E, rodeado por seis guarda-costas, lá entrou um distinto cavalheiro, envergando um impecável fato Hugo Boss, acompanhado de um cabeludo aloirado a puxar para o esbranquiçado, que pareceu familiar ao nosso Camarada.

Quedaram-se por momentos, mirando a menina que logo saudou o visitante

- “Bom dia, senhor Presidente!”

O Agostinho logo cogitou com os seus botões: querem ver que é o presidente Maduro! Mas pelo decorrer da conversa, logo se apercebeu que não!

- “Bom dia, Lena,… hum, hum”,  respondeu o presidente. “Está tudo preparado?,.. hum, hum. Tenho de estar em Lisboa ao meio dia e quarenta e do aeroporto de Buarkos até à clínica temos de ir de automóvel e o meu condutor é um desastre…hum, hum”. E virando-se para o condutor, logo lhe ordena:

- “Ficas aqui,…hum, hum, com este senhor, enquanto eu faço a “doação”, certo?”

- “Ok! Ok!”

Foi então que o Agostinho se apercebeu de quem era o dador e de que aquela bonita cabeleira aloiroesbranquiçada era pertença do Professor/ Mestre Jorge Jesus!!!

- “Bom dia, mister!”

- “Você por acaso conhecer-me?”, pergunta J. Jesus.

- “Então, é o treinador do meu glorioso clube, o Benfica! Mas o que o traz por Buarkos, mister/ mestre/ catedrático?”

- “Olhe, primeiros fazéramos uma reunião em Lisboa e o prasidente arrecebeu um telefonema dum gajo importante que lhe pediu as óralhas para uma transplantação e como eu agora não tenho nada que fazer vim com o prasidente fazer de chófer! Eu, o mestre da técnico táctica, pró cavia de estar guardado. O prasidente,  quando lhe atelefonaram, até me disse «Ó Jasus, estamos safes! Eu, dou as ouralhas ao gajo das transmissõeses e óspois ninguém me vai conhecer e deixam de me insultar! E, mais importante, a FRELIBU fica do meu lado a fazer claque! Já viste se os gajos entram pela Catedral dentro com aquele exército todo?…ainda faziam mais estrago que os Incendiários do Lumiar! E tu, aproveitas e rapas-me essa cabeleira na sucursal de Buarkos do Eduardinho Beauté!»… É ao rapas que eu agora estou de férias até Janeiro e ninguém me bota o olho em cima. Mas, olhe lá”, continuou o mestre no seu monólogo, “você que está bem conservado não quer jogar a defesa esquerdo no Benfica.? Pior có Cortez  não pode ser! E a guarda redes? Não, isso não, que não tem altura e dava muito nas vistas.”

- “A guarda- redes só se for o Mexias”, interrompeu o Agostinho.

- “Esse não, qé do Porto e bate com a cabeça na trave... Antes do jogo começar já estava lesiónádo e ainda ficávamos pior que com o Artur! Triste vida a de um mestre, castigado e mal pagado!”

- “Mal pagado”, perguntou o Agostinho, que logo ali aprendeu a falar “Jasulês”! “Quatro milhões por ano e mal pagado? O Mister sabe qual é o subsídio de um Combatente?”

- “Estás a ver, vocêses até têm subsídio e eu nada disso. Prontos, estou mal pagado e o papa do Norte até me dar mais, que eu sou Jasus, mas não sou parvo. E isso de dar a outra faces é tanga, pá!  E mais, até estou aqui para observar esse NIC NIC pois sei muita bem có prasidente vai vender o Nico (Gaitan) e o Matic e eu, como sou um grande treinador, faço o dois im um e o NIC NIC faz o lugar do Matic e o do Nico! Parçabeste, ó pá?”

- “O mestre sabe-a toda!”

E continuaram em amena cavaqueira até que, batia o relógio as dez horas, apareceu o senhor presidente e o nosso Camarada das Transmissões, sorridentes e de braço dado como se fossem amigos de longa data.
- “Correu tudo bem ou não houve operação?”, perguntou muito baixinho o Agostinho, pois à primeira vista parecera-lhe que os pavilhões auriculares do dador não haviam sofrido qualquer “encolhimento”.
- “Você é cegueta?”, inquiriu o presidente. “Olhe que até perdi o tique do hum…hum…”

- “Estou novo, Camarada Agostinho”, disse com rasgado sorriso o nosso Transmissões!

“Novo e com novo emprego, graças a este meu ‘Salvador’. Vou trabalhar para o estádio da Luz, como intérprete de mister Jesus.”

- “Intrépece de mim? Mas ké lá isso?”, intromete-se Jesus.

- “Ó Jesus, mas quem é que manda, hum…hum…, tu pões-me doido que até já estou outra vez com o tique! Tu não me disseste que não ganhámos ao Arouca porque o teu adjunto não percebia as ordens que tu davas lá da bancada e que o inimigo também ouvia as tuas instruções? Pois agora, com este Combatente das Transmissões, temos um código novo que só tu e ele percebem.”

- “Prontos, prasidente, eu compreender que o prasidente querer o melhor para o Benfica e não se falar mais nisso. Agora já poder ser castigado à vontade que ganharmos na mesma!”.

E lá foram todos felizes, o Camarigo Transplantado com o seu novo emprego na capital, onde sempre sonhara viver, o nosso grande  Presidente dador, com os seus apêndices lamelares bastante mais reduzidos, o mestre “Jasus” a pensar em nova estratégia de jogo para incluir o reforço NIC NIC, o Comandante da FRELIBU a quem foi ofertado um “Red-pass” para as próximas cinquenta épocas para assim ter oportunidade de festejar um campeonato que já não cheira vai não sei para quantos anos, apesar de no início das épocas reservar o “Pelourinho de Buarkos” para grande festança que tarda em acontecer.

E eis como uma história que tão mal começa, com aquele hino de pôr os cabelos em pé a qualquer mortal, termina pejada de felicidade e de alegria, prenhe de espírito natalício de todos os intervenientes …

- “Todos?”, pergunta o leitor mais atento. “E o Agostinho?”

O Agostinho Gaspar, o Camarigo Agostinho, esse nobre Tabanqueiro Central,  não conseguiu pôr o motor do seu carro em marcha. Avaria da grossa, ao que dizem, que o deixou apeado.

- Mas, vai ter de ir a pé até à Boavista? Não vai lá chegar antes do Natal!

Não, meus queridos leitores mais sensíveis, a quem adivinho furtiva lágrima ao canto do olho, com pena, aliás justificada, do grande Agostinho. O nosso Agostinho já vem a caminho num belo trenó puxado por dezoito renas, pertença da conceituada firma Belo & Belo, com sede em Kiruna, Lapónia, pois o Director Geral, o nosso conhecido e conceituado exigrado Joseph Belo, outro grande Benfiquista, logo se prontificou a disponibilizar a mais sofisticada carruagem da sua frota, forrada a cotelê aveludado de cor vermelho sangue.

A viagem de regresso a Monte Real, segundo a “Buarkos TVVITVIT”, que a tem transmitido em directo, tem constituído assinalável êxito e os milhares de pessoas que num enorme cordão humano enchem a estrada de Buarkos a Monte Real, gritam eufóricos à sua passagem:

 “Ó AGOSTINHO, VAI UM COPINHO?”

Abençoada seja a família da TABANCA do CENTRO e, já agora, que o AMADO CHEFE instale de pronto a censura para que este gajo não nos volte a impingir com mais nenhuma xaropada!


VASCO VITÓRIA-RÉGIA DA GAMA

9 comentários:

Hélder Valério disse...

Belo "conto de Natal"!....

É um fartar de rir.
Bem 'esgalhado' e de facto com final feliz para tantos intervenientes, apesar de ter começado com aquela musiquinha a apelar para o 'misterioso' pois "só ele sabe porque não fica em casa" e pode ser tanta coisa: falta de aquecimento, falta de alimentação, falta de espaço, falta de paciência... enfim tanta coisa que o pode fazer "não ficar em casa".

Só fiquei com a 'pulga atrás da orelha' com a referência à minha parente Zézinha Valério, ainda prima da minha mãe, sugerindo que vai lançar outro disco! Será que vai colocar nele uma versão mais moderna da "quer se possa ou se não possa/ a vitória será nossa"? Como? Se não se pode como é que é?

Outra 'pulguinha' tem a ver com a insistente referência a "escuta das transmissões".... nas minhas funções só fiz 'escuta' a emissões de rádio e outras transmissões, nada de 'escutar' conversas particulares...vá lá, uma ou outra, assim para passar o tempo, mas nada que se possa dizer que era uma 'actividade', daí não perceber que raio de 'escutador' é esse.

Mas uma ilação pode ser tirada da situação relatada: a solidariedade foi visível em todo o relato, gerou-se como que uma espécie de cadeia que percorreu intervenientes de várias cores clubísticas e ou 'sensibilidades'. Por outro lado também se pode concluir do imenso poder que o "Homem de Buarcos", o "Almirante Vermelho", SEXA da Gama, tem e utiliza.

Boas Festas!
Hélder S.

Joaquim Mexia Alves disse...

Muito seriamente o Vasco da Gama é um caso sério!

Tem o humor tipicamente português, feito de meias palavras e entendimentos, que não necessita da má criação e "rebaixolices" para ter graça.

Um humor à moda dos velhos filmes portugueses que nos fizeram e ainda hoje fazem rir.

Obrigado Vasco, pelo humor e sobertudo pela amizade.

Um grande abraço
Joaquim Mexia Alves

Joseph Belo disse...

Mais do que merecida chuva de elogios irá desabar sobre o escriba D'A Gama..
Em plena consciência das limitacöes de um mugidor de renas ao luar árctico que de modo algum procura imitar analistas e críticos literários de um outro Blog de ex-combatentes da Guiné,aqui segue uma das muitas possíveis leituras do texto de um autor muito Amigo.
...Linguagem nobre,formal,solene.
Benfiquista mais do que experimentado por resultados funestos dentro e fora das fronteiras,tanto geográficas como do "aceitável"!
Duplo estatuto narrativo-poético demonstrando bem as afinidades do autor com deuses e heróis míticos como Eusébio,José Augusto,Torres,Coluna,Simöes.
O autor liberta-se da sua condicäo humana,acabando por impor-se como o ser superior que é,de qualidades excepcionais,testemunho vivo de feitos extraordinários e singulares de um tal...GLORIOSO.
Sem conseguir se opor ás verdades históricas,embeleza-as com artifícios poéticos(vulgo menos verdades),construindo um discurso resultante da tensäo constante entre a funcäo referencial da linguagem aquando das evocacöes verbais de vitórias mitológicas,e da sua funcäo poética.
Toda um genial enquadramento rígido,quase decassilábico,herdado de uma Antiguidade Clássica,täo bem representada nos nossos dias pelo Rancho das Cantarinhas de Buarcos!
Texto narrativo-poético (mais poético que narrativo!)surgido das altanias do "Ou-Limpo" Buárquico demonstrando as óbvias afinidades do autor com heroicos campeöes reformados,mas que,e como ele, representam paradigmas de comportamentos e actuacöes "em campo" resultantes das qualidades excepcionais que os caracterizam.
Paradigma verdadeiro de iluminado-alucinado,cruza-se nos profundos abismos de uma dilúcula dialéctica com os espíritos privilegiados de um Miguel Bombarda,ou mesmo de um Lobo Antunes.
Ou seja...clarinho,clarinho para militar entender..."Uma passarinha Vitória a cacarejar d'alto".
Aquele abraco respeitoso como sempre do José Belo.

joaquim disse...

Ó Zé Belo, tu andas a fumar umas coisas, não andas??? eheheh

Ou então é do frio!!!

Grande e amigo abraço e um Bom Natal seguido de um Feliz Ano Novo

Joaquim Mexia Alves

Joseph Belo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

Simplesmente extraordinário. Acabei de telefonar ao Lá Féria e este texto vai servir de base ao seu próximo espectáculo.O homem - ou lá o que é - falou-me em direitos de autor mas como não sabia bem o que responder disse-lhe para falar com o Arménio (aquele da CGTP), que dará com certeza o destino certo as massas. Ao Vasco Vitória - Régia da Gama tiro o meu chapéu (comprei hoje um numa loja dos chineses de Carcavelos).Simplesmente extraordinário. Grande abraço. JERO.

PS- Vou tentar comprar o novo disco da Zezinha para lhe oferecer um dia destes.Ou daqueles...

Anónimo disse...

Amigo Vasco da Gama. Não tenho palavras para descrever quanto me agradou ler esta talentosa narrativa. Ri-me à farta e comecei assim, bem o dia. Devo confessar que tive que interromper, mas estou agora à noite e acabei-a antes do seu Glorioso, ir medir meças com os meus(Carrapaus, sarredinhas e até os charroques cá do meu Burregue Vitorriane). Espero que a sua Aguia Vitória não se transforme em gaivota e se afunde no meu lindo rio. Os comentários dos nossos amigos também me agradaram. Felizmente que reina a boa disposição e se vai consolidando a amizade nos tabanqueiros, da do Centro. Também ouvi a mensagem de Natal, cantada pelo Pimentel e seus amigos. Para todos um abraço com votos de Feliz Natal e Bom Ano. Mª Arminda

antonio graça de abreu disse...

Grande malha, Vasco da Gama!

Mas o que vocês não sabem é a continuação da história do Transmissões agora recauchutado (o outro Orelhas, o dador vermelho sabe tudo sobre pneus!) nos apêndices auriculares.
É que o transplante fez com que lhe
começassem a crescer desmesuradamente os pelos do peito
e de outros sítios do corpo onde as pessoas costumam ter pêlos, como os sovacos e acima das virilhas, abaixo do umbigo.
Não houve barbeiro nem manicure capaz de lhe cortar tanto pêlo e de lhe pintar as unhas, com uns toques de perna, de permeio. Aquilo era só pêlo, sempre a crescer.
Veio ontem a minha casa pedir ajuda. A minha cadelinha Papoila (às vezes Saltitante) ficou tão assustada quando o viu que, em vez de ladrar, desmaiou. Corre-lhe o vermelho nas veias, às vezes vai-se abaixo.
Hoje, a conselho meu, o nosso camarada foi para o Rossio, ali ao Largo de S. Domingos,arrastando e escondendo como pôde tanto cabelo. O objectivo era consultar um feiticeiro da Guiné
que veio outro dia para Portugal, com os setenta e
tal sírios, disfarçado de bonita hospedeira da TAP, de pele mais bronzeada e escura.
O feiticeiro Mamadu Fodé disse ao nosso Transmissões que o pêlo dele só iria parar de crescer lá para Abril ou Maio, quando o Sporting se sagrar campeão. Céptico, o rapaz voltou a minha casa. Pêlo por todo o lado, sugeri-lhe que o seu cabelo fosse utilizado na confecção de tapetes, casaquinhos de Inverno ou mesmo perucas para loiras. Há pouco recomendei-lhe, para entreter o tempo, que fosse trabalhar para um circo, aproveitando a época natalícia. "É entrar, é entrar! Venham ver, o homem mais peludo do mundo,todo nu, é à vez, é à vez, tudo pêlo da cabeça aos pés!."
Estou a pensar levâ-lo para a China,
conheço um lugar em Ká Be Lu, na província de Oh Le Lha, onde existem
também uns nigromantes, o Fu e o Ku, que fabricam um elixir capaz de remover
cabelos de todo o corpo do paciente.
O problema são os efeitos secundários, Depois do tratamento,
o Transmissões ficará todo verde, e nascer-lhe-á uma cauda de leão.
Também segundo os bruxos chineses, tudo voltará à normalidade lá para Abril, Maio de 2014, quando o Sporting for Campeão.
Entretanto o nosso camarada foi agora à tarde, num camião do lixo, até ao Parque das Nações falar com os Cardinalli, do dito Circo e acabou agora de me telefonar informando-me que já tem emprego como trapezista. Aperta os cabelos entre os testículos do elefante Dumbo e baloiça no ar.
A saga continua.

Abraço de Natal do vosso Abreu Sínico (de Sina, sinae, China em latim)

António Graça de Abreu

Anónimo disse...

Eu sabia, eu sabia e devia ter avisado, não que tivesse recebido qualquer mensagem a antecipar os acontecimentos, mas sabia que podia acontecer uma coisa destas.

O que o Sporting provoca, quer dizer, por marcar o andamento do cortejo (apresso-me antes das 20H15, não vá o Diabo tecê-las).

Mas voltando ao cerne da questão, depois de bem analisado o texto pelo especialista João Gaspar Simões, desculpem, estas alucinações são transmissíveis, queria dizer José Belo, resta-nos concluir que se trata de um sonho passado a escrito que, depois de acordado o seu autor e depois de devidamente aconchegado no colete-de-forças pela nossa camarada Giselda com o apoio do seu primo Xocé Seará, já foi notícia no jornal superiormente dirigido pelo nosso camarada JERO e igualmente no blogue da Tabanca do Centro onde o Amado Chefe e o seu secretário Agostinho têm procurado todas as formas de ajuda.

Uma palavra para o escuta Hélder que logo informou nada ter escutado afinal, mas que se manteve fiel e solidário com o Piloctor ao qual transmitiu que não era visto nem achado neste assunto.

Resta-me assim desligar esta emissão, mas não sem antes desejar Boas Festas a todos e passar à escuta até nova transmissão.
BS