quinta-feira, 20 de maio de 2010

P52:REENCONTROS

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Algures no estuário do Tejo,
a montante,
em enseada perdida na vasa,
ouvem-se madeiras ranger,
bater de cordames,
espaldanar de velas.

Algures no estuário do Tejo há vozes abafadas,
ordens secas,
passadas fortes em invisível convés.
Sombras furtivas vigiam da gávea......

Algures no estuário do Tejo,
a montante,
entre bancos de névoa há uma nau ancorada!

Algures no estuário do Tejo marinheiros de outrora.....
aguardam!
Sol poente sobre a barra.
Ventos de limo e sal.
Silenciosa armada em regresso......
Naus, Caravelas, Galeões, vapores e até modernos Paquetes,
voltam de mares longínquos,
de naufrágios esquecidos,
de viagens de pesadelo............
Os mortos das descobertas,
das guarnicões de Marrocos,
do Forte da Mina,
de Ormuz,de Malaca,
de Goa,
da China,
das Capitanias,
dos bandeirantes da Amazónia,
de Marracuene,
Chaimite,
das trincheiras da Flandres,
dos desterrados em Angola e na ilha maldita do Sal,
das picadas dos Dembos,
do Rovuma,
de Gamdenbel e Madina do Boé..............

Algures no estuário do Tejo,
a montante,
os raios vermelhos do poente reflectem-se em bandeiras esfarrapadas,
armaduras amolgadas, espadas quebradas,
elmos sangrentos de Alcácer Quibir,
nos corpos macilentos dos exilados,
em camuflados empastados em sangue e lama,
em camisolas de pescadores desbotadas pelos ventos gelados da Groenlândia,
em fatos de macaco rotos e remendados
dos emigrantes perdidos na solidão de todos os atalhos do Mundo...................

Algures no estuário do Tejo,
a montante,
em enseada perdida na vasa,
cobertos de neblinas estão os que.........ficaram!
Os que desesperando...esperaram!
Mães, noivas, filhos, irmãos, amigos.

ALGURES NO ESTUÁRIO DO TEJO ARDE UMA NAU ANCORADA!


Abisko/19 Maio 2010/J.Belo.

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Nota:

O José Belo, ao meu pedido de colaboração a todos os camarigos, respondeu-me com este belíssimo texto/poema.
Obrigado José Belo!
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2 comentários:

Joseph Belo disse...

Camaradas Centristas!"Camaradas Centristas"?....nao soa lá muito bem à ortodoxia,mas enfim,sao outros os tempos.Por onde é que andam os críticos literários?Já repararam na data do meu "Opus Camoniano"?-19 de Maio! Por onde é que andam os críticos literários?Os estilistas do bom-português?Os nacionalistas d'antanho?Os modernos puristas de algumas esquerdas do...meu querido Avô?Os intelectuais de salao-de-bilhar?Os eternos críticos,ou os paternalistas correctivos de outros foros?...E eu que tinha uma "pázada" de obras primas para Convosco compartilhar.Sinto-me "a como que-digamos-tipo-retraído" pela falta de eco suscitado por este meu "canto camoniano".Serao todos admiradores do "invejoso",e para mais,tao suspeito....Saramago?As palavras que escreveu em "nota" o meu Amigo Joaquim,sao,como digo...Amigas! Mas as outras? Porra!Critiquem!Batam-me!Atirem-me c'a pedra! E,nao esquecer que nas nossas idades o...aplaudir ...funciona como ginástica de recuperacao cardíaca! E mais nao disse.

Anónimo disse...

Viva José BElo!

Acabei de ler a sua obra e o seu comentário, justamente feito. Juro que só agora tomei conhecimento deste belíssimo poema que retrata fielmente quem fomos e quem somos.
E digo consigo:--Não está ninguém acordado!?
Já não existe ninguem que se lembre, que sinta, que se orgulhe, ou se envergonhe?
Não há ninguém acordado, José Belo!
Um sono grande desceu por aqui e permanece!
Ou então, somos todos pequenos de mais, para comentar a sua grandeza.
Continue criando e oferecendo, vai ver que há-de acordar alguém.
A partir de hoje José Belo, voçê é um dos meus poetas preferidos.
Um abraço de Parabéns pela sua obra.
Quero ler mais!

Felismina Costa