segunda-feira, 20 de setembro de 2021

P1311: ENGANANDO OS INCAUTOS...

           O CONTO DO VIGÁRIO E A GUERRA COLONIAL

Há gente capaz de tudo.

Com um esquema bem urdido, bem montado, acercam-se das pessoas que na sua vida simples nunca pensam que o diabo pode estar atrás da porta e, zás, são enganadas por vezes com coisas, de tão simples e credíveis, que ninguém se atreve a pôr em causa.

Penso que o conto do vigário é a trafulhice em que quase toda a gente pensa que nunca cai. Mas estamos enganados e lá vem o dia em que baixamos a guarda, abrimos as defesas e, pronto, somos enganados pela mais estapafúrdia das encenações.

Uns são enganados pela sua ambição, outros são enganados pela sua noção de solidariedade e outros pelas suas fraquezas, pelo seu amor aos que estão longe. Tudo serve para enganar os incautos.

Veio este assunto à lembrança pois também alguém da minha família foi em tempos enganado, quando a mentira fez tocar as campainhas do seu desvelo, da sua preocupação quando eu estava a cumprir o meu tempo militar na Guiné.

Um dia, lá para o fim de ‘73, apresentou-se em casa dos meus pais um individuo praticamente da minha idade, que se apresentou como meu amigo, igualmente a cumprir comissão comigo na Guiné.

Pobre coração da minha mãe - deu um salto, franqueou as portas e bebeu avidamente o que ele dizia. Que me conhecia muito bem, que eu mandava cumprimentos e que também lhe tinha transmitido alguns pedidos de coisas que pretendia que ele me levasse.

A minha mãe estava sozinha em casa e ofereceu-lhe almoço, ao que ele disse que não tinha tempo pois ia apanhar o comboio no Valado dos Frades para Lisboa, de forma a embarcar novamente para a Guiné. A minha mãe foi recolher o que ele dizia que eu lhe tinha pedido, embora estranhando pois nunca lhes pedia nada nas cartas, lá arranjou meias, cuecas e mais que ele inventou, juntou alguns chouriços,  uma garrafa de ginja David Pinto,  pois sabia bem a saudade que tinha desses petiscos.

Aproveitou para me mandar umas fotos a cores de um rolo, que tinha mandado para ser revelado e deu-lhe o dinheiro todo que tinha em casa, pois também eu o tinha solicitado. Está claro que não deu muito, pois era coisa que não abundava lá em casa, mas deu-lhe o que lhe fazia falta,  de certo.

Já que ele não podia almoçar, fez-lhe um farnel para ele comer no comboio e, ala que se faz tarde, ele foi-se embora.

Tudo isto se passou de manhã e, quando o meu pai chegou a casa para almoçar, ela contou-lhe ainda toda eufórica o que se tinha passado, pois não era todos os dias que se tinha contacto com um amigo do filho, que lhe tinha ido dar de viva voz noticias suas. Ele disse-lhe logo, “Já foste enganada!”.

Foram logo à praça dos táxis, onde perguntaram pelo sujeito; logo o taxista,  até nosso vizinho, se apresentou como tendo sido ele a ir levá-lo, acrescentando que o dito tinha deixado esquecido um embrulho no banco de trás, que não sabia de quem era.

O que já se temia, ficou logo ali comprovado.

A minha mãe fartou-se de chorar, apesar das tentativas do meu pai para minorar a importância do acontecido. As cuecas e meias voltaram para a respectiva gaveta, o resto desapareceu, como também desapareceu o dinheiro…

Costuma-se desejar, quando nos enganam com dinheiro, que o patacão lhes sirva para o médico ou para a farmácia. Fraca, forte ou inútil a vingança, mas que parece que nos conforta, à falta de uma justiça mais imediata e vigorosa.

É que na maioria dos casos é aquela que se consegue arranjar…

Veio-se depois a saber que não foi só a minha mãe enganada pelo individuo que explorou os sentimentos e as saudades de quem tinha os filhos longe.

Crime e Castigo é uma obra de Fiódor Dostoiévski e conta a história de um criminoso que não consegue viver com o sentimento de culpa pelo crime que cometeu. Era bom que isso acontecesse aos criminosos, o Mundo seria um lugar muito melhor de se viver sem dúvida nenhuma.

Juvenal Amado

3 comentários:

Valdemar Silva disse...

Juvenal esse conto do vigário foi dos fortes.
Coitada, qual mãe não cairia numa esparrela daquelas.
Comigo aconteceu um dos fracos.
Numa das vindas de férias à metrópole, no avião da TAP, o meu parceiro de viagem meteu conversa comigo 'também vai de férias, se calhar voltamos no mesmo dia', que era marinheiro, morava no Barreiro, de máquina fotográfica na mão, e tinha pena não ter muito dinheiro para suportar as despesas da revelação de fotografias tiradas ao deserto do Sahara, que se vendiam que nem tordos à rapaziada, para depois eles mostrarem à família no regresso da comissão.
Fiquei, logo, com vontade de 'eh pá aguenta aí, essa comigo não pega', mas não quis desanimar o tretas do rapaz e disse-lhe: pois fotografias do deserto é que a rapaziada mais gosta, de gajas nuas já estão eles fartos.
E adormecemos até à chegada da ponta de Sagres, com o negócio do ter de avançar com metade do dinheiro para dezenas de cópias de fotografias ao deserto a cair por oceano abaixo.
Evidentemente, no regresso das férias o marinheiro não apareceu.
Já contei esta história várias vezes, provavelmente tenho acrescentado ou esquecido algum pormenor contado em vezes anteriores.

Abraço e saúde
Valdemar Queiroz

Juvenal Amado disse...

Valdemar tudo é possível para essa gente. O engraçado é que pensamos nunca cair nelas até á primeira.

Hélder Valério disse...

Caro Juvenal

A lista de vigarices não terminou aí.
O "conto do vigário" assume várias formas mas tem sempre duas partes: o vigarista e o vigarizado
E este último pode ser por ingenuidade, por boa fé e também por ganância. Em princípio e à partida, ninguém poderá dizer que "nunca cairá".
No caso que contas, para além da atitude miserável de um escroque se aproveitar da debilidade emocional da tua mãe que julgava poder assim ficar "mais próxima" há ainda a acrescentar que afinal não foi caso único.
Lamentável.
Mas já passou!

Abraço
Hélder Sousa