terça-feira, 6 de abril de 2021

P1287: APÓS O REGRESSO A CASA

 Diz-nos o nosso amigo Helder Sousa:

“Desafiaram-me para falar sobre o que foi a minha vida depois de regressar da Guiné. Aqui vai um texto que tentei manter curto para não "enfastiar", mas fico com a sensação que ficaram aspectos por desenvolver.

Juntei um conjunto de fotos que podem ajudar a ilustrar e a amenizar.

Na foto da "Barraca da Feira" sou o que está no interior do "stand", ao meio, de roupa mais clara.

Das outras fotos o "Maioral" já não é a mesma coisa do meu tempo, agora essa parte das "tapas" ocupa o que antes era , olhando de frente, o "restaurante fino" do lado direito e o "café requintado" do lado esquerdo. Quanto à famosa "Lezíria" não encontrei fotos da época e já faz uns bons pares de anos que passou a stand automóvel, sendo agora um "templo de beleza"…”

DEPOIS DA GUINÉ

Foi-me proposto que pudesse recordar como foi o “pós-Guiné”, o regresso a casa, a (re)inserção na sociedade civil, o retornar da “normalidade”.

E só me ocorre que, como me parece natural, por um lado houve coisas ou situações fáceis mas, por outro, também houve dificuldades.

Explicando melhor. A “normalidade” foi interrompida em Julho de 1969 com a ida para o CSM em Santarém. O regresso deu-se a meados de Novembro de 1972, ou seja pouco mais de três anos, mas como durante o resto de 1969 e praticamente quase todo o ano de 1970 fui com regularidade semanal (ou quase) a casa, o afastamento real mais sentido foi então de Novembro de 1970 a Novembro de 1972, ou sejam 2 anos.

Ora acontece que esses dois anos foram potenciadores de várias mudanças. Muitas delas teriam sido impercetíveis para os habitantes de Vila Franca, terra onde vivia com os meus pais quando iniciei o cumprimento do serviço militar, mas à distância do tempo passado pela comissão de serviço por imposição, o que reencontrei já tinha muitas diferenças.

Quando voltei em Novembro de 1972, os meus pais já tinham mudado de casa, da casa onde vivera desde os 4 anos de idade e além disso, eu entretanto tinha casado, em Abril, aquando das férias desse ano, que vim passá-las a Portugal (à “Metrópole”, como se dizia), portanto estas foram algumas mudanças “físicas”, por assim dizer.

Mas havia outras…

No País iam-se percebendo as mudanças, os sinais do que haveria de ser alterado em Abril de 1974, com a audácia das “mudanças por dentro” do Regime vigente, que a chamada “Ala Liberal” protagonizava; com o arrastar das “guerras em África”, sorvedouro de vidas e recursos, sem solução à vista; com a crescente e cada vez mais atuante contestação estudantil e também com a coragem de novas consciências de trabalhadores com mais formação. Acrescerá ainda as movimentações promovidas por outros sectores, como por exemplo o que o livro “Portugal e o Futuro” do General Spínola protagonizou.

Foi, portanto, neste “caldo”, que ocorreu o meu regresso.

Num primeiro momento foi o tempo de “esquecer” a Guiné. Foi a época de “Guiné nunca mais”! Não queria falar do tempo que passei lá, do que vi, do que vivi, do que ouvi, nem tampouco do que o meu pensamento projetava. Recordo que em Novembro de 1972, ao despedir-me do meu substituto na função, na Escuta, que iria terminar a sua comissão em Novembro de 1974, lhe ter dito, mais ou menos assim: “olha, vou-me embora e fico contente por isso, mas também fico com um pouco de inveja por teres vindo para a “comissão liquidatária” (entendida como a “última”, e foi!) e não ser eu a poder ficar com alguns desses gravadores”. Premonições? Diria antes “fé revolucionária”!

Queria acreditar que algo iria acontecer. Teria que acontecer. O meu enquadramento na oposição e contestação ao regime (os “situacionistas” de então - e de hoje - que me desculpem, se puderem e quiserem, pois havia pessoas assim e era assim que me posicionava) levavam-me a ter esse pensamento positivo. 

E de facto assim foi, como sabemos. Não foi exatamente como “sonhara”, como desejara, mas isso são contas de outro rosário.

Quando cheguei alguns provocadores perguntavam “então como é que é aquilo? é como pintam? mataste muitos pretos? deixaste lá muitos filhos?” Olhava-os com desprezo, não respondia e cada vez mais omitia tudo o que se pudesse relacionar com a Guiné.

Por outro lado, também o “meu mundo” mudara.

Antes de entrar em Santarém na EPC, frequentava um local em Vila Franca, a “Pastelaria Lezíria” que era inicialmente um local bem afreguesado com ”mães de família” e suas filhinhas, mas que aí em 1967 eu e mais dois ou três jovens estudantes em Lisboa resolvemos adotar, para estudar, conversar e/ou “conspirar”, depois do “turno de serviço” na Secção Cultural da UDV (União Desportiva Vilafranquense) em que colaborávamos e dávamos expressão ao “stand” na Feira de Outubro. Fizemos isso em rompimento ostensivo com os que frequentavam “O Maioral” onde alguns ainda se mantiveram em “alegre convívio” com os possidentes e terratenentes da região. Aos poucos a freguesia da “Lezíria” foi-se modificando, foi-se ampliando, e em certa altura já era mais conhecida por “Kremlin”. Em 1973 já havia quem se referisse ao local como “Mesoputâmia”, o que poderá querer dizer algo da “evolução da fauna” que, entretanto, ocorreu.

No primeiro semestre de 1973 utilizei as facilidades havidas ao “abrigo da lei militar” e assim procurei completar o ano escolar interrompido aquando da incorporação. Ao mesmo tempo tentei arranjar emprego pois, como disse, tinha casado e as “economias de guerra” não iriam durar muito.

Concorri a vários empregos e até tive várias respostas/propostas: delegado de propaganda médica (era assim que se designava); vendedor da “Black and Decker”; controlador de tráfego aéreo (teria sido uma boa aposta mas, caso ultrapassasse as provas, tinha garantida uma nova “comissão de serviço” de 4 anos nos Açores e isso não me atraiu); desenhador, etc. Acabei por optar pela profissão de desenhador na então “Soda Póvoa”, onde entrei ao serviço em 1 de Junho e de onde saí para a “Sapec”, em Setúbal, em Fevereiro do ano seguinte, 1974, mas isso também é outra história.

Em traços gerais, foi isto!     

Hélder Sousa

Fur. Mil. Transmissões TSF

2 comentários:

Anónimo disse...

Amigo Helder. Gostei de ler a história e de saber como veio parar a Setúbal, nesta linda terra onde por certo é feliz.
Um bj, amigo.
M Arminda.

Hélder Valério disse...

Olá Arminda

Eu já tinha vindo a Setúbal algumas (poucas) vezes.
Com os pais do meu vizinho do andar abaixo do meu na casa onde vivia em Vila Franca, era costume dar um passeio às praias, normalmente no Oeste, Areia Branca principalmente e Termas do Vimeiro, mas também viemos uma vez à Figueirinha.
Com os mais velhos, com quem me relacionava, do Café "A Brasileira" e que gostavam de fazer campismo (atenção, eram "campistas" e não "acampadores") vim duas ou três vezes para ir para Tróia. Apanhávamos a camioneta da "Setubalense" (não me recordo se fazia o percurso de Vila Franca a Setúbal e vice-versa, ou se ia até mais acima, a Santarém, talvez).
Recordo ainda com bastante nitidez sair na Estação rodoviária, seguir por umas ruas estreitinhas, passar uma avenida larga (a Luísa Todi) e depois apanhar o barco para Tróia. Só por si, estas viagens valiam o passeio.
Mais tarde, já depois de regressar da Guiné, empreguei-me na então "Soda Póvoa", em Póvoa de Santa Iria (margem norte do Tejo) e por via de um conjunto de situações que não cabe aqui e agora referir, vim parar à SAPEC e a Setúbal, onde já vivo há mais tempo que todos os outros locais somados, pelo que sou assumidamente também setubalense.

Beijinho
Hélder Sousa