segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

P442: DO MANUEL MAIA - 9

Ao contrário das anteriores colaborações, o nosso camarigo Manuel Maia optou por nos apresentar um texto em prosa. Certamente irão apreciar...



ADEPTO DO AZUL, MAS
APAIXONADO PELO VERDE…
 
Soares   de   Pinho, como o próprio gostava de pronunciar  endireitando-se todo e sem nunca esquecer o ‘de’ "ligador" dos dois nomes, era uma figura típica da minha terra embora não fosse um Moreirense de nascimento mas  aqui viera parar nas deambulações que a vida aporta a todos.

Estamos a "vê-lo", gabardina de cor indefinida mas que na sua génese terá sido bege, ao que se crê, com mais nódoas do que espaço vago para novas manchas, desprovido de botões à excepção do cimeiro, junto ao colarinho, que normalmente apertava...

Usava-a todo o ano, Verão e Inverno, só a tirando à noite quando na padaria exercia  (conforme podia...) a sua profissão de padeiro/amassador.

Lembram-se da série policial televisiva “Colombo” em que o protagonista se tornou conhecido por inspector "côdeas" devido à nauseabunda gabardina que vestia sempre? 

Soares de Pinho digamos que se lhe assemelhava, não porque fisicamente pudesse ser confundido com o actor, mas apenas porque a sua gabardina em termos de "bedum" ostentava um visual similar à do astro cinematográfico...

Contavam as más línguas que Soares de Pinho para tornar a massa do pão mais fluída lhe "aplicava" de quando em vez umas  cuspidelas, mas disso nunca houve "prova provada", passe a redundância...

Ao que parece, era apenas e tão só, a língua viperina dos seus  detractores, "gente do copo", que como ele percorria o circuito da pinga com paragens  nos muitos  "santuários" que na altura faziam parte do roteiro báquico, onde discutiam a qualidade do tinto ou a leveza do branco, ambos de garrafão, em contraponto com o divinal carrascão de pipa de Felgueiras, ou então oriundo de Ponte da Barca ou da Lixa, de que se ufanavam os tasqueiros onde se prestava o culto àquela divindade anti lei seca americana...

Soares de Pinho era o que poderíamos, sem rebuço, chamar de "expert" numa linguagem hodierna, e era nessa qualidade que tinha sempre uma  palavra de "consultor técnico", convidado pelos tasqueiros a visitarem as adegas onde se abasteciam...

Assim, e nos "santuários" em que não fora chamado para debitar o seu conhecimento de apreciador qualificado, aprumava-se e proferia discurso...

- Esse do garrafão,especialmente o branco,não presta!

É feito de palha,ou não fosse  de Almeirim, a terra dela... Bastaria ter lido o rótulo...

O tinto é quase igual, navegando nas mesmas  águas do baptismo da partida...

Bom é este, o puro sangue de Cristo... Coisa de estalo, o tinto da Lixa !

Já o branco, para mim, só o de Ponte de Lima!

Após o discurso laudatório, saboreava o tinto que tingia  a alva porcelana da caneca,debitava:

- Isto sim. É  vinho e do bô…

Mas se era ao tinto que destinava a sua especial atenção e carinho (até porque dizia que o tinto deixava sempre ficar a cor no corpo...) por vezes o branco também recebia os seus  rasgados elogios, especialmente quando o potencial pagador era fervoroso "branquista"...

- Trinca-se pá, trinca-se, é uma  maravilha...

Estava ganha aquela  caneca e a seguinte ou pelo menos o copo ou "négus" que  fosse...

No café Cerqueira, antigo Branco, ali frente à parada  dos  bombeiros e onde alguns dos "repentinos" (conforme apelidara os soldados da paz como critica à sua   morosidade na saída...) também dirimiam os seus  argumentos de apreciadores, Soares de Pinho tem esta  tirada: - Baltasar (inquirindo o irmão do proprietário que ali "deitava uma  mãozinha"...) Tens  café quente ?

- Tenho!

- Então deixa-o esfriar e dá-me mas é um bagaço amarelo...

Mãos nos bolsos, juntava os dois panos da gabardina "unibotonal" e ria-se à gargalhada...

Na "Melindra" (Assim era  conhecida  a tasca  da D. Ermelinda...)

- Pinho,queres  esta  sopinha  quente ? Tu tens de comer "home", não pode ser só beber...

- Quero,claro que quero!

É boa? Gostas?

- Ai que  boa  e que  quentinha...
Ai que  quentinha  e tão  boa...

E soltava uma  sonora  gargalhada...

Acontecera  já  a revolução de 74...

Surgiram as primeiras eleições (Constituinte...) e com elas viria a necessidade do eleitor, sem hábitos deste tipo, ser obrigado a confirmar se o seu nome  constava  nos cadernos eleitorais verificando também o local de voto, que por cá se situou em duas  escolas  primárias  nos extremos  da freguesia...

Daí que no Apolo (café) as pessoas procurassem obter informações junto mesmo do dono do estabelecimento.

- Ó Pereira, onde será que voto ? Na  Guarda ou em Crestins ?

- Como é o teu nome todo?

- Fulano de tal...

- Não sei, mas  creio que será  em Crestins...

Pouco passava das sete da matina  e já  havia  clientela sob o efeito dos etílicos  vapores... Um deles, solta esta pérola...

- Parece que  é por ordem de analfabetos...

- Sendo assim, por ordem de analfabetos, remata o Soares de Pinho, tu serás o primeirinho a votar... És o maior de todos...

Soares de Pinho era um indefectível adepto dos  azuis  e brancos do Pedras (clube de futebol local) mas o seu grande problema residia na falta de verba disponível para o tinto se acaso fosse forçado a pagar o ingresso no campo de jogos...

O bar do clube situava-se logo à entrada, aí a uns  seis sete metros do lado esquerdo. e às vezes  conseguia convencer algum dirigente ou até mesmo o fiscal da associação, alegando que se acaso o dispensassem do pagamento do bilhete, a maçaroca ficava logo ali à  entrada por troca com uns copos de tinto da Lixa, de Felgueiras ou Ponte da Barca que eram esses  sim, a sua  perdição, ou então com aguardente amarela de bagaços verdes que lhe escorregava melhor...

TINTO VERDE NA CANECA,
MAS AZUL NA CAMISOLA,
ÀS VEZES UMA "BEJECA"
MAS SÓ O TINTO ME CONSOLA...

                                                   Manuel Maia

5 comentários:

Joseph disse...

Um Portugal de nostalgias feito passeou por minha casa.
Obrigado ao Manuel Maia.

Anónimo disse...

Engraçada a estória, Manuel Maia. Em cada terra há normalmente um sujeito típico e ao recordarmos determinadas figuras de tempos passados, assola-nos a nostalgia de que fala o camarigo Joseph.
Gostei de ler e para finalizar a quadra. Continue. Um abraço. Mª Arminda

JD disse...

Manel, Manelinho, para a prosa... também tens dedinho.

Será que esse De Pinho não pasasou pela Guiné? Alguns mais alquebrados pelo clima, arrimavam pela pinga, fizeram-se homens e, até, doutores.

Se não o trouxeres ao convívio, faz o favor de trazer as estórias, que tu contas soberana e deliciosamente.

Um abraço

JD

Anónimo disse...

Os meus parabéns ao Manuel Maia que, não se fica pela poesia, também entra pela prosa.

Boa história. Estás a fazer concorrência ao JERO... Com tantas figuras ilustres dos nossos desgovernantes, que por certo não trariam qualquer mais valia à escrita, é bom haver alguém do povo a ser lembrado.

Um abraço,
BS

Anónimo disse...

É um grande texto não é "um texto grande", daqueles chatos de ler. Eu que me considero "um contador de histórias" senti-me um júnior ao pé dum "jogador" consagrado!!! Vê-se a "personagem" do princípio ao fim e quando acaba o conto...custa não haver mais !Grande Manuel Maia. A partir de hoje quando ler uma das tuas quadras vou-me "pelar" para voltar a encontrar um dos teus contos. Obrigado Manel.JERO