quarta-feira, 16 de novembro de 2011

P151: AVENTURAS DE UMA NOTA DE 10 EUROS - 1



Nasci na zona de Lisboa, mas pouco tempo lá estive. Cedo me transferiram para um Banco em Monte Real, onde fui guardada cuidadosamente dentro de um cofre, juntamente com as minhas irmãs. Muitas de nós, sem qualquer experiência da vida, aguardávamos os ensinamentos de outras mais experientes. Finalmente, de um molho de notas evidenciando já um certo desgaste, destacou-se uma que, com base na vida errante já levada, nos explicou o que iria ser o nosso futuro – passadas rapidamente de mão em mão, amassadas por gente que pouca atenção nos dedicaria, facilmente trocadas por objectos de pouco valor, outras vezes aferrolhadas a sete chaves junto com outras por pessoal mais avarento, por isso afastadas do convívio com novos conhecimentos.
Não passou muito tempo até ser colocada junto com outras irmãs dentro de uma caixa à porta do Banco. A mais velha explicou-nos rapidamente que estava para breve o nosso primeiro contacto com as pessoas, aquelas que seriam os nossos donos, de quem iriamos passar a depender e que, com as suas decisões, iriam influenciar totalmente o nosso futuro.
Razão tinha a mais velha no que tinha previsto, que ao fim de umas horas rapidamente me vi disparada de dentro da caixa, juntamente com outras irmãs de 20, 10 e 5 euros e metida numa carteira que rapidamente foi guardada pelo meu primeiro dono.
Sentia-me curiosa e, embora abafados pelo cabedal da carteira e pelo bolso do casaco, tentei ouvir os sons à nossa volta. Compreendia razoavelmente o que se dizia em redor, principalmente o meu dono, possuidor de uma voz forte e imponente. Rapidamente soube que se chamava Joaquim e que era pessoa importante, pelo modo amistoso e simultaneamente respeitoso com que os outros se lhe dirigiam. Foi um tempo algo limitado mas que me deixou boas recordações, dadas as experiências interessantes que tive nesse curto período.
Foi assim que tomei contacto com um local chamado Café Central, onde o Joaquim (a quem por vezes chamavam Sr. Mexia Alves, não percebi muito bem a diferença) se reunia com pessoas suas conhecidas. Eram momentos muito interessantes – umas vezes mais sérios, outros mais divertidos, mas que eu, face à minha inexperiência, tentei aproveitar ao máximo.
Notei que o Joaquim por vezes sacava a carteira do bolso e retirava uma das minhas irmãs, das mais crescidas às mais pequenas. Eu lá ia continuando guardada, mas sabia que o descanso não iria durar muito – alguma vez lá chegaria o meu momento de partir.
Foi então que tive o meu primeiro contacto com um local onde o Joaquim costumava almoçar, que percebi chamar-se Pensão Montanha. À pessoa que mandava chamavam  D. Preciosa e vi que ela mantinha um bom relacionamento com o meu dono. Foi um local que não esquecerei, devido aos cheiros fabulosos que me rodeavam. Pelos vistos o meu dono tinha a mesma opinião que eu pois não se fartava de gabar os cozinhados que lhe apresentavam. Foi por isso com pena por um lado (por me ver afastada do Joaquim) e satisfação por outro (por ficar naquela casa) que um dia vi o meu dono retirar-me da carteira e entregar-me à D. Preciosa. Entretanto ainda ouvi o Joaquim lembrar à minha nova dona: “Amanhã cá estarei com o grupo do cozido”. Claro que fiquei com curiosidade e desejei poder continuar na casa para descobrir o que iria passar-se ali no dia seguinte.
O meu desejo foi satisfeito pois por ali fiquei até ao momento ansiado. E do local onde fiquei guardada apercebia-me dos cheiros que voavam à minha volta – pela conversa dos clientes compreendi que aquilo era o tal cozido de que tinha ouvido falar no dia anterior. Já a hora de almoço ia avançada apercebi-me da entrada de um grupo que, manifestando-se ruidosa e alegremente, ocupou uma parte significativa da sala. Reparei no empenho com que a D. Preciosa e as suas ajudantes apoiaram o grupo durante a refeição. Apercebi-me também que entre os presentes estava o Joaquim, que era facilmente identificado pelo seu vozeirão e tive a esperança secreta de voltar à sua posse.
Esperança desfeita pois bruscamente fui retirada da caixa e entregue a um cliente de outra mesa. Já recolhida na sua carteira vi-me afastada de um ambiente que me tinha agradado bastante, dada a amizade e camaradagem que emanavam daquele grupo.
Os dias seguintes foram sem história, com altos e baixos e trocas frequentes de dono. Tinha-se passado quase um mês nestas andanças. E chegou o dia de voltar a um local que já conhecia: o Café Central! O meu dono, um cliente da casa, deu-me à empregada para pagamento da sua despesa e esta, depois de lhe entregar umas moedas, guardou-me cuidadosamente na caixa registadora. Ali fiquei descansada até ao fim da manhã seguinte.
Foi então que a empregada me retirou da caixa depois de ali ter guardado uma irmã maior e, juntamente com algumas moedas, entregou-me… ao Joaquim! Para além do espanto por este reencontro inesperado, senti uma satisfação enorme por voltar ao seu contacto pois ainda me lembrava do tempo que tinha passado na sua posse.
Apercebi-me então do reboliço à nossa volta e pela conversa que trocavam compreendi que o pessoal presente pertencia ao… grupo do cozido de boa memória! Afinal tinham estado a fazer tempo para o almoço e dirigiam-se agora para a Pensão Montanha para “mandar o cozido abaixo”, como alguém disse! E o mais agradável é que eu também ia, recolhida no bolso do meu primeiro e actual dono…
Sei que vou absorver com satisfação o cheiro delicioso que sai dos cozinhados da D. Preciosa. Também sei que irei sentir-me encantada por acompanhar as conversas, as chalaças e as manifestações de amizade que tinha observado um mês atrás. Apenas uma coisa me preocupa: No fim do almoço onde é que eu vou ficar? Continuo aconchegada no bolso do Joaquim? Sou dada à D. Preciosa como pagamento do almoço? Ou passam-me como troco para alguém do “grupo do cozido”? Bom, o melhor é não me preocupar com isso agora – vou antes aproveitar o momento, apreciando o cheirinho da comida e o ambiente fraterno de um grupo que me parece bem simpático!

MP

12 comentários:

Humberto Reis disse...

Simplesmente ESPECTACULAR. Sem mais comentários.
Humberto Reis

JD disse...

Ora vivam os Camaradas,
Constitui uma excelente surpresa esta estória da lavra do Miguel, pessoa mais associada a bonecos, fotografias e composições gráficas, mas que me deixa de boca à banda com a criatividade e clareza de explanação.
No entanto, noto agora, foi o Joaquim quem me enviou o mail com este conteúdo, o dono distraído da nota que parece querer ficer-lhe associada. Quem diria que uma nota pode ter sentimentos? Mas esta revela afecto pelo calmeirão de Monte Real. Já agora, meu Caro Joaquim, vê nos arquivos do hotel se encontras um tal José de Matos, pois o meu avô costumava ir para aí durante uma qualquer quinzena,durante vários anos, ia a banhos, e (quem sabe?), pode essa nota também ter-lhe passado pelas mãos, até ter chegado às tuas como forma de algum pagamento.
Nesse caso, também eu estaria sentimentalmente ligado a ela, e teria todo o gosto que ela aqui viesse passar umas temporadas. Não a queres enviar por correio?
Abraços fraternos
JD

Anónimo disse...

Já agora, e a seguir ao JD, tambem me candidato a ser "hospedeiro" da tal nota, coisa que já começa a ser dificil de encontrar.

JM
TC, Res

Anónimo disse...

A Economia e a Amizade ou, A Crise Chegou a Monte Real.

Acompanhante que sou, com interesse, dos escritos aqui colocados, tenho que botar faladura sobre este artigo, com algumas palavras alinhadas a preceito, mesmo que, sem jeito.

Vamos lá a saber, a amizade rendeu-se à economia e é avaliada como tal ou foi apenas o autor? A ser assim, o Joaquim (10€) só vale isso? Ou é como no Poker, apenas a entrada?

Para quem habitualmente diz não ser dado a escrever textos sem animação, deixa dizer-te que apreciei a forma e o estilo.
A envolvência feita por uma nota de 10€ é demonstrativa da vontade em unir toda uma gente, incuindo o próprio estabelecimento e as pessoas que nos recebem, além dos que se reunem em cada alomoço. Isto ultrapassa a refeição.

Pela minha parte podes e deves continuar, assim o espero.
BS

Joaquim Mexia Alves disse...

Ah bem, agora percebo onde é que o raio da nota anda!!!

Eu já tinha dito lá em casa que me faltavam 10,00€, mas não sabia por onde tinham ficado!!!

Obrigado Miguel!

Sempre quero ver onde é que vão parar os meus 10,00€?

Temos escritor!

Grande abraço

António Martins Matos disse...

Deixem-se lá de variedades e metam mais um prato na mesa sff.
Abraços
AMM

Joaquim Mexia Alves disse...

Ok chefe!

Vossência manda!

Joaquim Mexia Alves disse...

Mail enviado pelo Agostinho Gaspar, fazendo a sua inscrição.

Leiam que vale a pena.

«Boa noite chefe tabanca a troika manda apertar o cinto, mas não diz para não deixar de comer. Como sou de muito longe tenho que disfarçar com uma linguagem muito propria da minha terra, para a troika não nos aplicar mais alguns impostos sobre as travessas do cozido, por voltarem para traz ainda muito cheias.



Suquir verdosas gravetas areoso charas grunho urca abanos alto brito arte brito piar aitro panêlo caflante marufa inásio udena de pielos ansia nente manêgo foleiro avesa trabuquir



( Comer couves batatas arroz carnes de porco de vaca, orelhas, pão broa beber um copo de vinho, café , barriga cheia nada de bebedeiras só agua se não o policia está a trabalhar )



Marcas duas cadeiras

Agostinho Gaspar

Carlos Oliveira



Um abraço até ao cozido

Agostinho Gaspar»

J.Belo disse...

Ao Camarada Agostinho Gaspar um grande abraco com Votos de que venha depressa até à Lapónia-Sueca pois vai entender-se bem com a malta cá do sítio! Uma casa ás ordens.

Anónimo disse...

O sr "de Belo" também já é Tigre...
Reparem na foto!
Isto é que vai uma abundância de tigres!
Lembrar o sr. "de" Belo que a fotografia do mamífero carnívoro robusto e muito feroz pertencente á família dos Félidas habita as regiões da Ásia e ao que se sabe o sr. Joseph está lá para os gelos quase polares! Vista-se de rena, ou mesmo de pai Natal. agora de Tigre....

O Verdadeiro, o Tigre do Cumbijã!

O Crocodilo do Mato Cão disse...

Oh Tigre do Cumbijã

Tu andas baralhado!!!

Qual foto???

E depois, Oh Tigre que habitas as regiões da Ásia, fica sabendo que também há o Tigre da Sibéria, que habita as zonas frias!!!

Não sei se será o caso do tal de Belo.

Anónimo disse...

Só me faltava um Crocodilo!!!!

Esse réptil voraz, de costumes anfíbios da família dos Crocodilídas, por vezes muito abundante nos rios de certas regiões tropicais e ainda por cima da espécie dos que matam cães!!!!Esses mamíferos da família dos Canidas, domesticado desde a antiguidade e de origem discutível, representado por numerosas raças e o verdadeiro amigo do homem!

Olhe sr. Crocodilo, vá enxugar as suas lágrimas para outro espaço!

Um Tigre de tons avermelhados.