quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
quarta-feira, 24 de dezembro de 2025
domingo, 21 de dezembro de 2025
P1566: UM CONTO DE NATAL
ENCONTRO DE NATAL
Que porcaria de vida, pensou ele com os seus botões.
Afinal era tão bom a dar conselhos e não os conseguia aplicar na sua vida.
Tinha tentado controlar tudo tanto e tão bem, que acabou por fazer o vazio à sua volta e nada mais lhe restava a não ser um pouco do seu orgulho e teimosia em viver assim.
Nada lhe faltava financeiramente e até tinha muitos amigos.
Quando pensou nos amigos sorriu interiormente porque tinha
bem a noção de que os amigos que tinha, nada tinham a ver consigo, pois eram
fruto apenas da vida dispersa que levava e, verdadeiramente, se precisasse
deles nenhum apareceria.
Nem a família lhe restava, porque ao tentar controlar tudo e todos, a mulher e os filhos tinham acabado por se afastar de si.
Afinal tinha tudo e… não tinha nada.
Era dia vinte e quatro de Dezembro, e a véspera de Natal fazia-o sentir-se ainda mais sozinho e desamparado.
Longe iam os tempos em que em família celebravam o Natal com
paz e alegria, mas agora tudo isso era apenas recordação.
Já que assim é, pensou ele, vou jantar a um bom restaurante, comer e beber do bom e do melhor e depois… depois volto para casa sozinho, claro.
Telefonou para o restaurante a marcar mesa para jantar e ficou um pouco incomodado quando lhe perguntaram se a mesa era só para uma pessoa, mas não pensou mais nisso.
Vestiu-se a preceito e saiu para o frio da rua, rumo ao restaurante.
Entrou no restaurante e indicaram-lhe a sua mesa
Sentou-se e reparou que na mesa ao lado estava outro homem
sozinho também.
Apetecia-lhe muito meter conversa com ele, mas não
encontrava motivo para tal
A certa altura um papel qualquer caiu da mesa do seu “vizinho” e ele aproveitou para chamar a atenção do outro para isso.
O “vizinho” agradeceu e isso deu azo a conversarem um pouco sobre várias coisas, até à constatação de que afinal estavam os dois sozinhos na noite de Natal
Convidou o outro para a sua mesa e ele de pronto aceitou.
A conversa foi fluindo e o seu colega de mesa disse-lhe que
estava sozinho na vida, sem família, e inevitavelmente acabaram por falar do
Natal, referindo o outro, no entanto, que estava com uma certa pressa pois
queria ir à Missa do Galo, que era uma tradição sua desde menino a que não
queria faltar.
Ele respondeu de imediato que dantes também ia sempre a
essa Missa e então o outro convidou-o para irem juntos nessa noite.
Sem perceber muito bem porquê acedeu ao convite, e depois de jantarem saíram para a rua em direção a uma igreja que ficava ali perto.
Entraram e deixaram-se ficar pelos bancos logo à entrada da igreja.
Vários sentimentos tomaram conta dele à medida que a Missa
avançava, e deu por ele a pensar que se sentia ali muito bem e com umas
saudades imensas da sua família.
Fez um esforço para reter as lágrimas e deixou-se envolver
por aquele momento.
De tal modo estava enlevado pelo momento que não se apercebeu que a Missa tinha acabado e o seu novo amigo olhava para ele à espera de uma qualquer resposta da sua parte.
Sentiu então uma mão no seu ombro e ao voltar-se para ver quem era, deu com a cara da sua mulher que, acompanhada dos seus filhos, saíam da Missa naquele momento.
Os filhos abraçaram-no com força e ele, desta vez, não conseguiu reter as lágrimas que lhe correram pela cara abaixo.
A sua mulher perguntou-lhe então se estava sozinho e, perante a sua resposta afirmativa, disse-lhe que ela e os seus filhos gostariam muito que ele fosse lá a casa cear nesse dia.
Surpreendido disse logo que sim, mas referiu que tinha
aquele recente amigo que também estava que estava sozinho naquela noite.
Claro que o convite de imediato se estendeu ao amigo
recente, que de pronto aceitou, sem se fazer rogado.
Já em casa, sentados à mesa, antes de começar a ceia a sua mulher pediu-lhe para ele fazer uma pequena oração.
Envergonhado e tímido disse então: Obrigado, Jesus, que hoje me trouxeste para o presépio da minha família e me deste mais um amigo, rompendo assim a minha solidão.
Numa certa gruta em Belém, dois mil anos antes, que agora se faziam presente, Jesus, Maria e José sorriam felizes com o Natal daquela família.
Joaquim
Mexia Alves
terça-feira, 16 de dezembro de 2025
sexta-feira, 5 de dezembro de 2025
sexta-feira, 28 de novembro de 2025
terça-feira, 25 de novembro de 2025
quinta-feira, 20 de novembro de 2025
domingo, 16 de novembro de 2025
P1560: MAIS UM DIA NA VIDA DE UM COMBATENTE
A MATA
Caminhas,
sentindo a pele molhada, quase pegajosa, por causa daquela constante humidade,
por causa daquele calor sufocante.
Dentro de ti há um misto de medo e de
determinação, que vai obrigando o coração a bater mais depressa, praticamente
compassado com cada passo que dás.
A mata envolve-te, árvores altas,
arbustos baixos, coisas que deveria ser lindo ver, não fossem as circunstâncias
em que estás envolvido.
Olhas para trás e vês os teus homens que
te seguem, uns com um semblante apreensivo, outros com uma calma aparente.
Querias poder transmitir-lhes paz e
serenidade, mas sabes que também tu não estás tão calmo e sereno como aparentas
estar.
À tua frente apenas o guia, um
guineense, filho da terra, em quem confias para te guiar mata adentro.
Por um breve momento voltas a casa dos
teus pais, à tua vida anterior que agora parece tão longe, e um tímido sorriso
chega à tua boca, e deixas-te levar pela saudade.
Abanas a cabeça para sair desse torpor,
pois sabes bem que ali, naquela mata, a distração pode ser fatal.
Queres olhar para além da vegetação que
ladeia o trilho em que caminhas, mas se há espaços em que consegues ver mais
longe, a maior parte do tempo apenas caminhas quase sem ter a noção certa do
que te rodeia.
Levantas a cabeça, enches o peito,
endireitas-te porque, caramba, és tu que tens que dar o exemplo, é a ti que os
homens devem seguir com confiança e esperança.
Cada um deles, ao longo destes meses já
passados, tornou-se num amigo teu e preocupa-te mais o seu bem estar naqueles
tempos difíceis, que o teu próprio bem estar.
Sentes que deves a cada um deles a
promessa a cumprir de os fazer regressar a todos ao aquartelamento primeiro, e
depois, quando for tempo disso, regressar à casa que deixaram lá longe, ou até
mais perto.
Vais ouvindo os barulhos da mata, o
vento nas árvores, os animais que “falam” uns com os outros, os cheiros que já
vais conhecendo bem, e continuas avançando como que a dizer que aquela mata
agora é tua e de mais ninguém.
De repente percebes que um silêncio
profundo se instalou.
Não se ouve nada, nem vento, nem
animais, parece que até os cheiros deixaram de cheirar.
Numa fracção de segundo tomas
consciência de que algo está errado, e gritas para os teus homens se prepararem
para aquilo que vai acontecer.
Os cheiros regressam, mas são cheiros de
pólvora.
Os animais já não “falam”, mas ouvem-se
os gritos dos homens e a “voz” das armas.
Num instante, que parece uma eternidade,
tudo termina.
Olhas apreensivo para todos e todos te
devolvem o olhar, alguns com o medo espelhado nos olhos, outros com um olhar de
alívio imenso.
Olhas para o céu, por entre as árvores,
e tu, que nem costumas rezar, pensas apenas: Obrigado, meu Deus!
Marinha
Grande, Novembro de 2025
Joaquim
Mexia Alves
quarta-feira, 12 de novembro de 2025
quarta-feira, 5 de novembro de 2025
sexta-feira, 31 de outubro de 2025
terça-feira, 28 de outubro de 2025
terça-feira, 21 de outubro de 2025
terça-feira, 14 de outubro de 2025
sexta-feira, 3 de outubro de 2025
sexta-feira, 26 de setembro de 2025
terça-feira, 23 de setembro de 2025
sábado, 20 de setembro de 2025
P1550: EM BUSCA DA VERDADE
DOS NOSSOS "MALES" SABEMOS.
E DOS
"MALES" DOS OUTROS?...
Vejo e leio muitas vezes aqui na Tabanca Grande textos sobre os “os males” provocados pelas Forças Armadas Portuguesas na Guiné, e não só (como recentemente o uso do napalm), mas, raramente, ou nunca se encontram por aqui textos relatando “os males” que o PAIGC, e não só, provocou nos militares portugueses e nas populações durante a guerra, porque sobre o acontecido depois do 25 de Abril até há alguns textos sobre o que então se passou.
Escreve-se sobre coisas que uma grande parte das vezes apenas se ouviu falar, histórias contadas e que terão sido praticadas pelos militares portugueses, mas sobre coisas semelhantes praticadas pelos militares do PAIGC, pouco ou nada se diz.
Eu, por exemplo, ouvi contar várias histórias que terão acontecido durante e depois de emboscadas feitas pelo PAIGC, mormente no conhecido “carreiro da morte”, mas, porque de tal não sou testemunha presencial e são histórias muitas vezes repetidas, evito falar ou escrever sobre as mesmas.
Mas com tanta gente que aqui vem todos os dias, não haverá ninguém que escreva e dê testemunho sobre isso?
Calculo que não seja politicamente correcto, como hoje em dia se diz, mas se este espaço se quer considerar um repositório mais ou menos fiel dos acontecimentos da guerra na Guiné, não deveria também ter essas histórias do “outro lado” aqui contadas?
É uma espécie de desafio que aqui deixo, para que a verdade
não exista só para um dos lados, mas para ambos, pois a paz só se constrói
verdadeiramente na verdade.
Joaquim
Mexia Alves
terça-feira, 16 de setembro de 2025
quarta-feira, 10 de setembro de 2025
quinta-feira, 4 de setembro de 2025
P1547: CONSELHO DE AMIGO
CONVERSA DE CHACHA…
Aconteceu-me há uns tempos
que, no seguimento de um almoço-convívio da Velha Guarda Paraquedista realizado
na AFAP - evento onde sou sempre bem recebido - percorri a sala adjacente onde
outro pessoal almoçava igualmente, com o objectivo de cumprimentar velhos
conhecidos presentes.
Acabei por parar na cavaqueira
com um grupo para mim desconhecido e, palavra puxa palavra, acabámos por focar
a conversa nos nossos velhos tempos da Guiné, pois chegámos à conclusão de que
tínhamos estado lá na mesma altura.
Suponho que, por eu estar
rodeado de pessoal paraquedista, o meu interlocutor me terá “identificado” como
um paraquedista também; mas, dada a proximidade entre a BA12 e o BCP12 – ao
lado um do outro em Bissalanca – as memórias acabam por se misturar e fui
elucidando com alguma facilidade o sujeito sobre os pilotos e os paraquedistas
que conhecia daquele tempo. E tanto falámos dos paraquedistas Rafael Durão,
Araújo e Sá, Calheiros, Cordeiro, como dos pilotos Lemos Ferreira, TC Brito,
Pedroso de Almeida, Mantovani, com quem tínhamos lidado naquela época.
A dada altura, resolve o
sujeito perguntar-me se “eu sabia alguma coisa do Pessoa”. Como me convenci que
ele me estava a confundir com um “pára”, disse-lhe que poucos contactos tinha
tido com esse Major Paraquedista.
“Não”, diz-me ele. “Não é esse
Pessoa! É o piloto cujo avião foi abatido lá na Guiné!”
“Eh pá, esse Pessoa sou
eu!...”, respondi-lhe. Não admira que, com mais 50 anos em cima e uns bons
quilos a mais, o rapaz não me tenha reconhecido… O facto é que a partir daí a
conversa lá entrou nos eixos…
Vem à baila esta conversa de
chacha que tive naquela dia com o perigo que às vezes há de se mandar palpites
fortes de que se possam vir a arrepender, principalmente se resolverem fazer
apreciações depreciativas de alguém de que ouviram falar, mas que desconhecem.
Não foi o caso presente, que ninguém
fez comentários depreciativos, mas já assisti a uma cena de alguém que resolveu
fazer um comentário jocoso sobre uma cena que lhe tinha sido contada, sem saber
que o seu interlocutor era a pessoa visada no seu comentário…
Por isso, meus amigos, cuidado
com os comentários que fazem junto de alguém que pouco ou nada conhecem, pois
pode suceder que o vosso interlocutor esteja muito mais envolvido no assunto do
que vocês pensam…
Miguel Pessoa
terça-feira, 22 de julho de 2025
P1546
OS SINAIS DE DEUS
Este texto, da autoria do nosso camarada Joaquim Mexia
Alves,
foi recentemente publicado nos blogues
https://queeaverdade.blogspot.com/
e https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/
Era para ser uma consulta normal de oftalmologia.
Na quarta feira, a caminho de Lisboa,
pareceu-me sentir algo diferente na minha vista direita mas não dei importância
por já ter alguns problemazitos anteriores que eram, aliás, motivo da consulta.
Na consulta a médica, muito simpática e competente (amiga do meu filho mais velho e da minha nora), mandou-me ler com a vista direita as habituais letras do quadro e foi então que percebi que não via nada daquela vista, estava tudo negro, excepto uma pequena nesga do lado direito que ainda tinha imagem.
O susto foi enorme e feitos os exames competentes logo se chegou ao diagnóstico de um grave descolamento da retina que necessitava de intervenção cirúrgica urgente.
A competência e dedicação da médica foram inexcedíveis e conseguiu que uma sua colega arranjasse tempo para me operar no fim da manhã seguinte.
Assim aconteceu e, para encurtar razões, já me encontro em casa, em repouso prolongado para garantir o bom êxito da operação.
Como em tudo o que me acontece hoje em dia tento sempre ver a presença de Deus e o que Ele me quer dizer no que me vai acontecendo.
Assim escrevo este texto que vai ser o último destes próximos dias.
OS SINAIS DE DEUS
A mão de Deus
Esta consulta já tinha sido adiada por mim.
Se fosse quando estava marcada
inicialmente o problema não teria sido detectado.
A mão de Deus guiou-me para o tempo
certo e as circunstâncias certas.
Nas coisas de Deus não há coincidências,
há “deuscidências”.
Sinal de Deus
A constatação de que nada via da vista direita, como se fosse uma cortina preta, excepto a pequena nesga do lado direito, levou-me a reflectir que muitas vezes nós colocamos essas “cortinas” na nossa relação com Deus e apenas O queremos ver em pequenas partes das nossas vidas.
Também precisamos de uma “operação
espiritual” que remova essas “cortinas” da nossa visão de Deus.
A presença de Deus
Depois do enorme susto de perceber a perda da visão naquela vista, sobreveio uma grande serenidade, aceitação e entrega à vontade de Deus.
Entreguei tudo por aqueles que podendo
ver Deus querem continuar cegos à Sua presença nas suas vidas.
Nas horas que fui passando nos cadeirões
e macas, fui invocando o Espírito Santo e servindo-me dos dedos das mãos para
ir contando as contas do Rosário, sentindo assim bem viva a Sua presença com
Maria nossa Mãe junto de mim.
O amor de Deus
As médicas, as enfermeiras, auxiliares, administrativos daquele Hospital dos Lusíadas, foram de uma simpatia e dedicação a toda a prova (e reparei que não era só comigo), e isso foi para mim o amor de Deus a rodear-me.
A minha comunidade paroquial da Marinha Grande com os seus grupos a que pertenço com enormes amizades, as minhas amigas e amigos do Renovamento Carismático Católico, no CHARIS, Pneuma, Comunidade Emanuel também do Alpha com as suas orações, foram também, sem dúvida, sinal visível do amor de Deus para mim.
O meu “velho” grupo de amigos de Lisboa com o Grupo de Forcados de Montemor e não só, já desde a juventude, com a sua amizade e solidariedade, foram uma expressão muito sentida deste amor de Deus que une os amigos. Um deles até escreveu logo que esperava um texto sobre o “acontecimento”!
Os meus filhos, nora e genro, a minha mulher, a minha irmã e irmãos, a minha família e ligados a ela, com o seu carinho e ternura foram e são sempre a parte mais visível e próxima do amor de Deus na minha vida.
A todos, muito, muito obrigado.
Guardo-vos nas minhas orações
Deus vos abençoe, proteja e guarde
sempre.
Realmente o amor de Deus não tem largura nem comprimento, é incomensurável, eterno e manifesta-se das mais variadas formas.
Obrigado meu Deus por tanto que me dás e eu dou-Te tão pouco.
Marinha Grande, 19 de Julho de 2025
Joaquim Mexia Alves













































