segunda-feira, 21 de março de 2016

P774: AVENTURA ATRIBULADA COM FINAL FELIZ...

Como alcobacense de gema, o nosso camarigo JERO traz-nos hoje uma história de um herói da sua terra envolvido numa aventura que, não tendo sido totalmente concretizada, até teve um final feliz…

OS HERÓICOS MALUCOS DAS
MÁQUINAS VOADORAS

A partida para a travessia entre Portugal e Nova Iorque estava agendada para 13 de setembro de 1931, junto a Vila Franca de Xira. Acompanhado dos alemães Wily Rody e Christian Johansen, o jovem Fernando Costa Veiga, de apenas 22 anos, assumiu o leme do avião, apostando numa viagem aérea baseada essencialmente na bússola.

O trio de pilotos percorreu mais de 7 mil quilómetros, mas um violento temporal e a paragem do único motor da aeronave fez terminar o sonho de forma abrupta. Tinham passado 24 horas e 21 minutos da descolagem em solo português.

A tripulação foi obrigada a amarar em pleno oceano, quando estavam “apenas” a 150 quilómetros do continente americano. Seguiu-se uma autêntica odisseia que confirma que a resistência humana (quase) não tem limites. Mas que foi uma autêntica tortura para os três amigos... foi. 

Segundo a página “Voa Portugal - O Portal da Aviação Portuguesa”, o avião ficou sobre as “ondas alterosas de um oceano enfurecido, mais precisamente nas coordenadas 45º N e 54º W”. 
Os três aventureiros viveram dias difíceis – muito difíceis -  uma vez que não tinham alimentos nem água potável.

Costa Veiga, Rody e Johansen foram recolhidos após uma semana no mar, mais concretamente 158 horas após o naufrágio, pela embarcação norueguesa “Belmoira”, que os acolheu. Os aviadores seguiram viagem para a Rússia, que era o destino do “Belmoira”.

O caso foi seguido com grande atenção pela imprensa portuguesa, enquanto a família aguardava por boas notícias. A mãe de Fernando Costa Veiga recebeu um telegrama, segundo se pode ler nas páginas do “Diário de Lisboa” de 22 de setembro de 1931, das mãos “do boletineiro Armando Tavares”, que dizia: “Depois de flutuarmos ao sabor das ondas durante 158 horas, fomos recolhidos pelo barco Belmoira, da praça de Oslo. Estamos todos bem”.

A pedido da mãe de Costa Veiga, o ministro dos Negócios Estrangeiros telegrafou ao ministro em Berlim pedindo-lhe para “transmitir as notícias às famílias de Wily Rody e Christian Johansen ” e ao ministro nos Estados Unidos para comunicar tudo o que soubesse sobre os tripulantes do ESA.

Segundo o “Correio da Manhã” de quinta-feira, 15 de outubro de 1931, o acto heróico de Costa Veiga e seus pares ressuscitara “as virtudes da raça lusitana”. O jornal fala de um “feito de relevo, digno de igualar-se às proezas dos grandes ‘ases’ da aviação”. “O círculo da sorte afastou-se na última rodada, porque o grande pássaro de metal fora visto a voar a cerca de 400 milhas de Nova Iorque.

“O ESA, obrigado a fugir a uma espera traiçoeira que a tempestade lhe fizera no caminho da sua rota para a grande cidade, tivera que descer em pleno Atlântico, lutando durante oito dias e 14 horas contra as vagas alterosas, contra a procella e contra a morte”, pode ler-se na reportagem publicada pelo periódico.

Fernando Costa Veiga nunca duvidou do êxito da epopeia, tendo assegurado aos familiares que não pereceria na viagem. “Vão ver que não morro. E, se morrer, isso que tem? Não temos de morrer todos?”, dizia na imprensa da época o futuro engenheiro eletrotécnico, que durante os dias em que esteve à deriva se alimentou, juntamente com os dois germânicos, de... peixe cru.

Fernando Costa Veiga tinha tirado a licença de voo na cidade alemã de Leipzig a 11 de julho de 1931, ou seja, apenas dois meses antes de se meter numa aventura tamanha. A sua falta de experiência de voo foi apontada como uma das causas para o insucesso da travessia, mas o seu estatuto de herói permanece inalterado.

Depois de terminar o curso de engenharia eletrotécnica, este alcobacense de adoção foi o responsável pela presença em Portugal da Citroen, marca à qual esteve ligado durante muitos anos. E nunca deixou de visitar a nossa região. O pai e o avô eram naturais de Alcobaça e detiveram, durante décadas, o palacete Costa Veiga, na Rua de Baixo.

Comprova-se a relação de Fernando Costa Veiga com a nossa região voltando à notícia do “Diário de Lisboa”, que termina com o seguinte parágrafo: “A família do bravo rapaz, que parte amanhã para a Nazaré, pede-nos que sejamos intérpretes da sua gratidão junto de todas as pessoas que se interessaram pela sorte do seu filho”.

Costa Veiga faleceu em 1993, com 84 anos. Pode não ter conseguido completar a travessia do Atlântico Norte, mas ganhou um lugar na história da aviação.

Hoje em dia, a viagem entre Lisboa e Nova Iorque faz-se em sete horas. Mas não tem, certamente, a mesma emoção de outros tempos…

JERO


6 comentários:

Anónimo disse...

Agradeço ao Jero a transmissão desta odisseia que desconhecia.
O que o Jero, não descobre?!..
Realmente houve grandes aventureiros de sangue "Luso".
Nos ares, nos mares... Um orgulho para todos nós pelos seus feitos!..
Um abraço, amigo Jero com votos de feliz Páscoa.

Mª Arminda

josé eduardo oliveira disse...

Mito obtigado querida aminga.Páscoa feliz para si e para os seus
JERO

josé eduardo oliveira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Hélder Valério disse...

"Mas não tem, certamente, a mesma emoção de outros tempos..." diz o Jero!

Pois claro que talvez não, mas ainda bem, pois a viagem do Veiga era, por assim dizer, uma viagem individual (ele e mais dois), uma espécie de viagem exploratória, uma espécie de pioneirismo, e actualmente as viagens são "o pão nosso de cada dia", movimentando em simultâneo largas centenas de aviões (pode-se ver o 'formigueiro' no site "flight radar 24", por exemplo) com milhares de passageiros.
E, mesmo assim, de quando em vez também há "emoção" em excesso....

Mas sim, há ao longo dos tempos histórias diversas, quase sempre ignoradas ou pouco divulgadas, de portugueses que foram capazes de se distinguir dos demais, com actos de génio e de coragem.

Hélder Sousa

Anónimo disse...

Obrigado pelo teu comentário Hélder.E tocaste num ponto que nos é muito caro.Os portugueses que foram capazes de se distinguir dos demais, com actos de génio e de coragem.E foram muitos. Embora nalguns casos tenham passado ao lado da história. Na medida do possível temos obrigação de reparas esses hiatos- Páscoa feliz.
JERO

joaquim disse...

Obrigado Jero.

Já me tinhas contado a história de viva voz, mas é bom que fique aqui registada.

Portugal tem grandes Portugueses!

Um abraço
Joaquim