sábado, 29 de janeiro de 2011

P72: 8ºEncontro da Tabanca do Centro - Encontro de Ano Novo

Comemorando o 1º Aniversário da Tabanca do Centro




A Poda

O mail chegou atempadamente. Numa escrita bonita, perfumada de amizade, intimava-me o nosso amigo Joaquim Mexia a comparecer na simpática localidade de Monte Real no dia 26/01 a fim de participar no oitavo encontro dos Tabanqueiros do Centro. Imprimi para não esquecer e, como o Benjamim do Sérgio Godinho, respondi dobrando o canto do sim.

De Pombal, onde tenho o meu tugúrio, até Monte Real, vai o salto de uma pulga. Avancei pela Bajouca até Monte Redondo onde tomei a 109 no sentido de Leiria e, em menos de nada, apreciava a modernidade das novas rotundas e variante que permitem o acesso fácil e rápido à vila termalista. Assim pensava eu! Ao contornar a segunda daquelas obras de engenharia urbana, deparo com um sinal a proibir o trânsito através da principal via de acesso ao centro do burgo. Num posto de abastecimento ali à mão, indaguei das razões do desaforo. Fiquei a saber que, por determinação da senhora Câmara, ninguém passava, pois estava em curso a poda das árvores que ladeiam aquela via. Que grande poda, pensei! Mal podia imaginar que me estava reservada uma poda idêntica ao deixar a localidade. Não fosse o aconselhamento paciente de alguns indígenas, e por lá teria pernoitado. Segui então o caminho alternativo que me indicaram e dei comigo a pastar numa série de vielas, becos e quelhas até “dar com eles”. Na verdade, não foi difícil. Qual logotipo de ultra sexagenários que somos, avistei um grupo de senhores envergando o fatinho domingueiro, grande prevalência de cãs pontuadas aqui e além por algumas carolas completamente desabitadas. Frente ao café Central, conversavam em pequenos grupos congregados pela intimidade de um conhecimento mais antigo. Apertei mãos, dei e recebi palmadas de simpatia nas costas até chegar ao maior (na estatura e na função!), que me recebeu com um caloroso abraço. A partir desse momento passei a jogar em casa dado que, às primeiras impressões, o terreno me parecia estranho visto muitos dos presentes serem camaradas com os quais ainda não havia privado e daí, um certo acanhamento da minha parte.

Julgava eu, mal, que iria encontrar no máximo para aí uma dúzia de pessoas, atendendo ao qualificativo da Tabanca que é do “Centro”. Afinal, deviam estar para cima de três dezenas, incluindo muitas que vieram do norte e da região de Lisboa. Como seria de esperar o Mexia estava como peixe na água e não seria de esperar outra coisa já que esta é, definitivamente, a sua praia. Uma organização irrepreensível não tardou a convidar-nos a abancar no restaurante da Preciosa, praticamente do outro lado da rua. Com garbo (e garfo!), atacámos o seu afamado cozido à portuguesa onde impera a couve lombarda cozida no caldo das carnes e uma morcela de arroz, cuja confecção só pode ter sido conseguida através da usurpação de receita da minha terra, porque a legítima, de arroz, é nossa. Para que conste, só em Pombal e suas freguesias!

O almoço decorreu em clima muito animado, de tal modo animado que, o anfitrião teve de mandar dois berros à militar para se fazer ouvir quando quis comunicar aos presentes, a oferta de um mapa da Guiné primorosamente emoldurado que depois de assinado por todos passou a fazer parte do espólio da galeria de obras pendentes nas paredes do Preciosa’s. Curiosamente, na minha “mesa” não se falou de guerras, fossem elas passadas ou destas mais literárias! Nem sequer houve qualquer comentário acerca do sucesso do Algarvio ou da vã expectativa do Homem de Argel. Falou-se de passeios, das recentes promoções a avô de alguns camaradas e da saúde que já vai claudicando.

Aproximava-se o término do nosso encontro. Eu sou como o Zezito, não gosto de finais de festa e as despedidas são sempre penosas. O fim de tarde de um dia esplendoroso parecia-me toldado por uma nuvenzita de angústia. Como o sol de Inverno, não tenho calor, diz a Simone. Acompanho-a. Tomado pela melancolia, apertei algumas mãos e, com um genérico “até à próxima, camaradas”, remeti-me à minha individualidade algo solitária, de regresso a casa. Enquanto conduzia, não pude evitar certa reflexão.

Para trás acabava de deixar amigos, alguns que nunca tinha visto, mas que agora já eram “família”. Como é possível ligarmo-nos assim a pessoas que mal conhecemos? Será este mais um sortilégio do nosso passado comum? E como se compreende que vivências que partilhámos na juventude possam cimentar amizades de hoje, mesmo as mais recentes? Porque nos juntamos e o que é que verdadeiramente buscamos nestes convívios que não almejamos noutras tertúlias? Porque nos despedimos sempre com um certo “amargo de boca” e na mente, aquela dúvida existencial: Até quando? Tudo quanto posso alvitrar é que continua bem vivo dentro de cada um de nós o básico instinto de grupo decorado com umas pinceladas de civilização, que nos leva, em momentos de grande stress, a reconhecer, amar e proteger “os nossos”.

Desde pixote, venho assistindo (pela televisão) àquela cerimónia em que uns velhinhos depositam flores nas campas de distintos republicanos. A coisa deve ser importante e digna de celebração porque se mantém, passados tantos anos. Para mim, que já nasci republicano, diz-me niente e, não fosse o cinco de Outubro ser feriado, bem podia passar-me de todo ao lado.

Também tenho presente a homenagem que sempre se prestou em locais públicos como na Batalha, aos caídos nas pelejas de 1914/1918. Daqueles heróis altamente medalhados, não resta um, e tenho dúvidas se os seus netos e bisnetos sabem que tiveram um avô ex-combatente ou se a esse facto atribuem algum valor.

E nós? Que pensarão as novas gerações, nascidas em paz e democracia, destes velhotes que se encontram de vez em quando para, julgam eles, nada mais do que uma almoçarada? Quais as memórias e valores que conseguimos deixar-lhes? Parece que os ouço dizer: Ora, não há pachorra! Oxalá possam dizê-lo sempre ao longo das suas vidas, e que a dura realidade não lhes mostre da forma mais cruel, porque é que em certos momentos, não existe alternativa às armas nem ao derramamento de sangue. Que me perdoem os mais pacifistas.

Tal como as árvores da rua principal de Monte Real, a minha geração está a sofrer a poda que a lei da vida a todos impõe. Começou a acelerar o passo, e a que ritmo! Mas ainda somos muitos. Recusamos mordomias, exigimos reconhecimento e respeito. E num momento muito complicado para milhares dos nossos concidadãos, queremos com o nosso exemplo e dignidade mostrar-lhes que antes deles, outros suplantaram tempos muito difíceis em que estava em causa, não o salário ao fim do mês, mas a vida ao fim do dia.

Fazendo um apanhado muito sumário deste encontro de “camarigos” (esta é para polir um pouco o ego do Mexia já que foi ele quem inventou o termo, se não estou em erro!), tenho a dizer o seguinte:

- Quanto aos costumes: É para manter.

- Quanto ao local: O “Centro” do país, como todos sabem é Pombal.

- Quanto aos participantes: E venham mais cinco.

- Quanto à ementa: Não está mal, mas nada tenho contra os regionalismos. Não me incomoda trocar o patriótico cozido à portuguesa pelo leitão à Bairrada, por exemplo.

- Quanto às libações: Sugiro que sejam consumidos apenas dois tipos de bebidas, nacionais e importadas. Relativamente à frequência, apenas duas vezes ao dia, às refeições e nos intervalos.

E com estas ressalvas que venha o nono e o décimo e todos quantos a estaleca nos for permitindo.

A todos os presentes, quero deixar o meu muito obrigado pelos agradabilíssimos momentos de convívio e camaradagem que neste dia pudemos compartilhar.

Victor Junqueira


Notas:

1 - As fotografias são do Miguel Pessoa e do Jero. Obrigado.

2 - Tivemos vários camarigos novos, pela primeira vez na Tabanca do Centro, alguns mesmo que nunca estiveram na Tabanca Grande. Obrigado.

3 - O mapa da Guiné foi oferecido pelo Carlos Santos, (espero não me enganar no nome), e vai ficar na Pensão Montanha, para ser assinado pelos vindouros. Obrigado.

4 - O texto é do Victor Junqueira, que pela primeira vez nos deu o prazer de estar connosco. Obrigado.

5 - Qualquer erro ou omissão são devidos à incompetência deste vosso "arvorado comandante.

6 - Peço a todos os camarigos de quem não tenho email, (que vieram pela primeira vez, ou já vieram antes), que, por favor, me façam chegar essa informação, aqui na caixa de comentários ou por tabanca.centro@gmail.com

7 - Peço a todos os camarigos que inscreveram outros de quem não tenho email, que lhes façam chegar esta informação e este pedido.
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11 comentários:

Hélder Valério disse...

Caros camarigos

Soberbo texto!
Só posso subscrever e aplaudir, demoradamente.

O VJunqueira, duma penada e também assim de uma só vez, percebeu tudo e, mais ainda, escreveu tudo.
Tudo o que interessa que aqueles que nos possam ler, possam perceber estes mecanismos dos afectos.
Porque queremos estar uns com os outros?
Porque mantemos esta unidade funcional?
Porque ganhamos, cimentamos e alimentamos estas amizades, mesmo quando, do ponto de vista directo, imediato, não houve relacionamento?

Há uma frase que pode ajudar a fazer a diferença.
Hoje há dificuldades, sim senhor, e não são poucas nem menores, mas o que nos une é aquela velha questão que o Junqueira referiu de que se não se sabe como vai ser o fim do mês, tínhamos o problema de não saber da vida ao fim do dia.

Um forte abraço
Hélder Sousa

Anónimo disse...

Vitor Junqueira,

Obrigado pelo magnífico texto. Gostei do que li pela forma como foi contruído, em torno de amizades despidas de interesses e lembrando outros, de gerações passadas.
Um abraço
Bsardinha

José Marcelino Martins disse...

Bravo!

Que mais posso dizer?

José Casimiro disse...

Palavras para quê ?
é um Junqueira Português
e usa vinho tinto do centro.

um abraço

J Carvalho
Guileje

Anónimo disse...

Camarigos do Centro
Comentário À OITAVA
Cada vez me sinto mais orgulhoso por pertencer a esta Tabanca Real.
Que extraordinário texto o do nosso médico de Pombal !!!
Cada vez que leio o Victor Junqueira assaltam-me dois sentimentos antagónicos:
1)Como este tipo escreve bem!
2) Vou deixar de escrever…
Depois imprimo o seu texto para lentamente o saborear.
Tive o privilégio de ser seu companheiro de mesa, frente a frente ao cozido da Dª.Preciosa..
O que ele diz no seu texto também eu senti. Vivamente.
No regresso a casa – mais uma vez – pensei:
«Como é possível ligarmo-nos assim a pessoas que mal conhecemos? E como se compreende que vivências que partilhámos na juventude possam cimentar amizades de hoje, mesmo as mais recentes? Porque nos juntamos e o que é que verdadeiramente buscamos nestes convívios que não almejamos noutras tertúlias?
Porque… porque… porque…
«Porque na verdade continua bem vivo… dentro de cada um de nós o básico instinto de grupo decorado com umas pinceladas de civilização, que nos leva, em momentos de grande stress, a reconhecer, amar e proteger “os nossos”.».
E esse património ninguém nos consegue tirar.
O nosso “oitavo” fica pra História da Tabanca do Centro.
Foi muito bom.
Vou terminar mas tenho que dizer que só discordo duma coisa que escreveu o VJunqueira.
O Centro do País não é Pombal.
O Centro do País é Alcobaça. Vamo-nos deixar de bairrismos exacerbados!
Quem é que é Património Mundial ? Quem é que tem o frango na púcara? Quem é que tem os doces conventuais ?Quem é que…
Perguntem ao Belarmino Sardinha.
Perguntem ao Joaquim Mexia Alves.
De Alcobaça… sempre pronto a receber… “os nossos”.
Até sempre.
Até breve.
JERO

J.Belo disse...

Texto fantástico que diz tudo o que nos vai na alma nos "regressos" após estes encontros. Mas meu caro Camarada e Amigo Jero,essa do Centro passar por Alcobaca...?!? Näo será verdade que:-PORTUGAL ESTÁ ONDE ESTÁ UM PORTUGUES? Se medires desde a ponta de Sagres à ponta da minha Lapónia,olha que Alcobaca ficará um bocadinho ao Sul do...Centro! (Mas quanto aos doces conventuais,aí...rendo-me!) Aquele abraco Amigo!

Anónimo disse...

Meu caro José Belo
Em relação ao teu simpático comentário só tenho a dizer que muito gostava de te receber em Alcobaça para te demonstrar que essa do "Centro passar por Alcobaça" era apenas um pequeno exagero.Uma pequena "sacanagem" em relação ao Victor Junqueira que escreve tão bem que até chateia...
Entretanto se vieres a outro encontro em Monte Real avisa-me por favor para te levar uns doces conventuais..para ficares definitivamnete rendido.
Até sempre Amigo.
JERO

Joaquim Mexia Alves disse...

Meu caríssimo Victor e meus caríssimos camarigos

Por mail, e na resposta ao Victor que me enviou o seu texto, (que curiosamente eu lhe pedi, mas ele "adiantando-se", já o tinha escrito), lhe fiz saber do meu agrado pleno pelas suas palavras.

E agora que já disseram tudo o que me resta a mim dizer?


Parabéns Victor e parabéns a todos nós que contamos contigo como tu contas connosco, e isso é o que de mais importante temos e sobressai das tuas palavras. Obrigado.

Mas deixa-me ressaltar a caracteristica de humanidade e sentimento que colocas nas tuas palavras.

Quem me conhece sabe que sou de "lágrima fácil", de sentimentos à "flor da pele" e que não tenho grande pejo em os mostrar publicamente.

Se alguém faz algo, escreve ou diz algo que me toca, não tenho qualquer problema em mostrar o meu contentamento e a minha alegria, demonstrando a minha amizade e o meu profundo apreço.

(Às vezes talvez nem saiba medir bem essas minhas "exepressões" e acabo por embarçar aqueles a qeum as dirigo).

Isto tudo para te dizer que o teu texto me faz querer abraçar-te, apertadamente e confirmar-te efusivamente a minha amizade por ti,e que se estende a todos os outros camarigos.

(Espero que não fiques "embaraçado").

Joaquim Mexia Alves disse...

Quanto à discussão sobre o centro de Portugal, aqui começada, nem sequer me vou debruçar sobre o assunto, porque toda a gente sabe que o Centro de Portugal é...Monte Real!!!

Agora venham lá os doces conventuais de Alcobaça, as morcelas de arroz de Pombal, ou os bifes de rena da Lapónia, tragam-nas com antecedência, que se fazem chegar à Preciosa e podem complementar perfeitamente o Cozido à Portuguesa.

Eu prometo que não levo água das Termas para acompanhar!!!

Joaquim Mexia Alves disse...

"dirijo" e não "dirigo"

A culpa é da escrita rápida!!!

Pois, pois...desculpa-te!

Anónimo disse...

Comandante Mexia Alves,
Camarigo Vitor Junqueiro
Camarigos "centralmente" atabancados,

Ausente do meu Buarcos lindo, o verdadeiro centro do mundo, onde só regressarei quinta-feira, consegui através de computador " "mexeruca" saborear o magnífico texto do Vitor, verdadeiramente à altura do delicioso cozido da D. Preciosa e da amizade reinante, evidente e que salta á vista, onde não há fretes, apenas camarigagem!!!

Para todos vós, o meu grande abraço, pedindo apenas ao nosso Comandante que as fotografias sejam apresentadas de outra forma à semelhança das outras Tabancas.

O nosso sítio seria enriquecido e atrairía, creio, mais leitores.

Reitero a minha admiração por todos vós e mais um elogio para o Vitor Junqueira.

Vasco A. R. da Gama