terça-feira, 18 de setembro de 2018
quinta-feira, 13 de setembro de 2018
quarta-feira, 12 de setembro de 2018
P1055: MEMÓRIAS DAS GUERRAS COLONIAIS
A
GUERRA COLONIAL"
O investigador Miguel Cardina, que recebeu no ano passado uma bolsa de 1,4
milhões de euros do Conselho Europeu para a Investigação para coordenar o
projeto CROME, que aborda as memórias das guerras coloniais, esteve há dias na
Nazaré para apresentar um livro e explicou ao REGIÃO DE CISTER o que o atrai no
estudo da Guerra Colonial.
Colaboro neste semanário há já alguns anos e tive acesso ao texto da entrevista
que reproduzo seguidamente, começando com alguns elementos biográficos do
entrevistado.
Miguel Cardina
Historiador e investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de
Coimbra. Recebeu em 2016 a bolsa Starting Grant do European Research Council
(ERC - Conselho Europeu para a Investigação) na qualidade de coordenador do
projeto de investigação «CROME - Crossed Memories, Politics of Silence. The
Colonial-Liberation Wars in Postcolonial Times».
É autor ou co-autor de vários
livros, capítulos e artigos sobre colonialismo, anticolonialismo e guerra
colonial; história das ideologias políticas nas décadas de 1960 e 1970; e
dinâmicas entre história e memória.
REGIÃO DE CISTER
(RC) > Como é que surgiu o interesse pelo tema do colonialismo?
Miguel Cardina (MC) > Surge na sequência do trabalho que desenvolvi
anteriormente. Fiz a formação superior em Filosofia e depois em História, tendo
começado desde logo a estudar o século XX português, nomeadamente nas décadas
de 1960 e 1970. E a Guerra Colonial é o grande acontecimento da segunda metade
do século XX português, embora muitas vezes silenciado.
Esse interesse acabou por dar origem a um projeto, que foi financiado pela
União Europeia e que me confere as condições para desenvolver um trabalho sobre
a memória da Guerra Colonial e das lutas de libertação em perspetiva comparada,
entre Portugal e as antigas colónias.
RC > Ainda há,
digamos, muitos recalcamentos na sociedade portuguesa sobre a Guerra?
MC > Não diria tanto. Para percebermos o modo como a sociedade
portuguesa lida com este tema é interessante fazermos uma retrospetiva
histórica. A seguir ao 25 de Abril, que foi feito por militares e para terminar
com a Guerra, os portugueses passaram a cuidar do seu presente e tenderam a
esquecer um conflito que tinha tido um desfecho negativo e que deixara sequelas
físicas e psicológicas naqueles que a combateram. Isto já para não falar do
retorno dos cerca de 500 mil portugueses que voltam à metrópole.
Há duas vagas importantes: aos 120 mil soldados que combateram em 1974, sem
falar nos 800 mil que combateram nas diferentes frentes desde 1961, há as cerca
de 500 mil pessoas que retornam a Portugal. E há todo um processo de mudança
política que torna o Estado Novo e a Guerra Colonial algo de um passado indesejável.
Isso faz com que Guerra seja um evento difícil de recordar nos primeiros anos
após a revolução. E nos anos seguintes também, porque se queria esquecer a
ditadura e o colonialismo.
Por outro lado, mexer com a Guerra era mexer com a violência colonial, os
massacres, com toda a dimensão disruptiva que as guerras têm e que as
sociedades tendem a querer esquecer. Portanto, só na década de 1990 é que a
Guerra Colonial volta a surgir no espaço público. Dá-se uma monumentalização do
conflito, começam a surgir diversas publicações de ex-combatentes e também uma
certa ideia do soldado como vítima. E isso aparece muito associado ao
reconhecimento do stress pós-traumático como uma realidade.
Hoje vivemos noutro paradigma. Muitos ex-combatentes querem recordar os acontecimentos
e começam a contar as suas histórias. A Guerra do Ultramar tem vindo a ser
falada no espaço público, mas de uma maneira que nós, no projecto,
classificamos como permanências do lusotropicalismo, que foi uma teoria
adoptada pelo Estado Novo, sobretudo a partir da década de 1950, descrevendo o
colonialismo português como menos violento e mais ‘miscigenador” relativamente
aos outros colonialismos.
O que queremos dizer com isto é que o conflito é visto de uma forma que dá
a entender que Portugal foi mais brando na guerra. Além disso, todos os
testemunhos vão no sentido de uma certa estranheza. O País foi levado para uma
guerra não se sabe muito bem porquê e quem regressa sabe que perdemos a guerra,
mas também não se sabe muito bem por que a perdemos.
RC > O
surgimento de tantos blogues e referências digitais com referências à Guerra
torna mais difícil ou mais fácil o trabalho dos historiadores?
MC > Para nós, no projecto, é uma vantagem, porque não estamos a fazer
história da Guerra. Não estamos a retratar o que aconteceu. Estamos a fazer uma
história da memória, de como é que as representações da guerra mudaram no
pós-guerra. Tudo aquilo que venha somar informação de como a sociedade e os
indivíduos viveram a guerra tem interesse, pois é uma fonte. Inclusive, uma
parte do projeto visa aquilo a que chamamos de memórias digitais, que aborda os
blogues e os grupos no Facebook.
Também isso tem vindo a mudar. A lógica de autopublicação fomentou a
memorialização da guerra e hoje o universo dos blogues perdeu expressão, mas há
alguns que mantêm grande dinâmica.
RC > Num estudo
que fez identificou 8 mil desertores da Guerra do Ultramar. De que maneira
essas pessoas foram julgadas pela sociedade?
MC > Cheguei a esse número num projeto que tive anteriormente com a
Susana Martins, e que foi um trabalho muito difícil, pois tivemos de cruzar
informação de muitas fontes de diferente proveniência. Chegámos a um número que
superava os 8 mil, mas que ainda assim peca por defeito. Faltam muitos dados
oficiais. Ao mesmo tempo, esse é um número que tem em conta várias realidades:
há militares que desertavam antes de ir para a Guerra e esse grupo é o mais
expressivo; depois há quem deserte já em África, o que era mais difícil de
fazer; e há um terceiro grupo, os africanos que estão incorporados nas tropas
portugueses.
São universos e tipos de pessoas muito diferentes. A instituição militar
sempre entendeu o acto de desertar como um acto desonroso e houve vários
militares julgados, mas hoje percebemos que a figura do desertor é muito
complexa.
RC > Saber que
se vai liderar um projeto desta dimensão não acontece todos os dias na vida de
um investigador. Como foi o dia em que recebeu a notícia de que a bolsa tinha
sido aprovada?
MC > Estava à espera de uma notícia, porque o projeto tinha passado à
2.ª fase, já tinha feito a entrevista em Bruxelas que consta do concurso e esta
era a segunda vez que concorria. Na primeira candidatura, ano e meio antes,
tinha recebido uma resposta negativa, pelo que quando recebi a aprovação li
várias vezes o documento (risos). É uma bolsa com muito dinheiro, que nos
permite construir uma equipa, o que é muito difícil conseguir na investigação
em Portugal. Somos nove pessoas e vamos ter um filme associado.
Um projecto desta dimensão, que pretende comparar a memória da guerra com
os outros países africanos, só faz sentido com uma equipa destas. A equipa está
dividida em contextos regionais e temos tido grande receptividade nesses
países.
O livro “As Voltas do Passado: a guerra colonial e as lutas de
libertação” [apresentado recentemente na Feira do Livro da Nazaré, que
coordenou com Bruno Sena Martins e que resulta do projeto CROME] foi muito bem
recebido, porque é uma obra com textos de autores portugueses, angolanos,
guineenses, cabo-verdianos, moçambicanos, etc. E isso não é comum. Estamos
sempre a querer trabalhar de forma articulada.
A entrevista que reproduzo foi feita pelo Diretor do “Região de Cister” Joaquim Paulo e foi publicada nesse periódico em 18 de Agosto de 2018.
JERO
sexta-feira, 7 de setembro de 2018
quarta-feira, 5 de setembro de 2018
P1053: EM LEIRIA - HOMENAGEM AOS COMBATENTES
Da Direcção do Núcleo de Leiria da Liga dos Combatentes recebemos a seguinte informação:
7º ENCONTRO DOS COMBATENTES
- A Cerimónia de Homenagem aos Combatentes do Concelho de Leiria realiza-se no dia 16/09/2018. (Domingo)
- Inscreva-se na sua Junta de Freguesia ou na Liga dos Combatentes-Núcleo de Leiria.
O programa é o seguinte:
14:45 - Celebração da Eucaristia (Sé de Leiria)
15:30 - Concerto pelo Coro AdesbaChorus (Sé de Leiria)
16:30 - Cerimónia de Homenagem aos Combatentes (Largo 5 de Outubro)
17:30 - Lanche Convívio (Mercado de Sant'Ana)
domingo, 2 de setembro de 2018
P1052: UMA TRISTE NOTÍCIA
.
Chega uma pessoa de um almoço
domingueiro em família e abre estas
novas tecnologias de comunicação e depara-se com uma notícia: Morreu o
Joaquim Carlos Rocha Peixoto!
.
UMA PORÇÃO DE GUINÉ!
![]() |
| Joaquim Peixoto |
De repente, do meio do calor
da Marinha Grande, chega o calor da Guiné e sinto-me transportado para aquelas
terras ou sei lá eu bem para onde!
Pergunto-me se o conhecia
assim tão bem e chego à conclusão de que não, mas a sua bonomia, a sua
simpatia, o seu olhar sereno, confiante, camarigo, ligado ao da sua mulher, Margarida,
transporta-me para uma realidade que queria longe de mim e que é o saber que
nós, os camarigos, vamos partindo, e que não sei se deixamos história, se
deixamos sentimentos, se deixamos alma lusa, para motivar os vindouros, que já
cá vão estando!
O Joaquim Peixoto era a
serenidade em pessoa, pelos menos para mim, e na sua partida, chora-me o
coração de camarigo, mas anima-se a minha alma de cristão: Ao homem bom Deus
recebe sempre no seu amor!
Sirvo-me da expressão popular
e desejo que a “terra lhe seja leve”, porque aos homens bons Deus toma-os nos
seus braços e leva-os para a eternidade!
A ti, meu amigo, camarigo,
Joaquim, como eu, junto-me em oração à tua Margarida, à tua família, e espero
que lá no “assento etéreo a que subiste”, nos relembres sempre junto daqu’Ele
que é a vida, para que também nós a ti nos juntemos um dia, fazendo de um
bocadinho do Céu, uma porção de Guiné!
Marinha Grande, 2 de Setembro
de 2018
Joaquim Mexia Alves
sábado, 1 de setembro de 2018
P1051: OS MEUS CARROS DE SOLTEIRO – 3
UM
CLÁSSICO… QUE AINDA MEXE?
| Miguel Pessoa |
Nos
textos anteriores referi-vos a aquisição dos meus dois primeiros carros, o
Hillman Imp e o NSU TT 1200. Vou hoje falar-vos da terceira e última aquisição que
fiz nesta minha fase de solteiro. E, acreditem ou não, a escolha foi feita
através de uma fotografia, como se faz nos casamentos por correspondência!
Estávamos
em Junho de 1970 e já tinha garantida uma estadia prolongada no Hospital
Militar, na Estrela, na sequência do acidente em que tinha destruído o meu
segundo carro, o malogrado NSU TT. A recuperação da fractura do colo do fémur
ir-me-ia manter acamado por um período de dois meses, com a perna direita em
tracção com 4,5 kgs de pesos para permitir a calcificação da zona da fractura.
Para
me entreter ia pensando na possibilidade de adquirir um novo carro e, vendo o
meu entusiasmo, o meu Pai não quis deixar de me apoiar e movimentou-se junto de
conhecidos numa primeira prospecção do mercado. Liso como estava, e ainda a
pagar as prestações dos dois carros (…), não era muito esquisito com o que
podia arranjar, embora preferisse um carro “com pinta”, mesmo já com alguns
anos de uso. E assim posicionaram-se dois candidatos, um Mercedes 190 SL descapotável
e um Alfa-Romeo Giulietta Sprint Veloce, de que o meu Pai teve o cuidado de
obter umas fotos, para eu analisar… e decidir.
Finalmente,
já a caminho da recuperação, decidi-me pelo Alfa-Romeo, um modelo com 9 anos de
idade mas com razoável aspecto. Contei para isso com o apoio do meu Pai, que me
emprestou os 35 contos necessários para a transacção. E no dia da minha saída
do Hospital, ainda armado de canadianas, lá tinha o Alfa à porta para me levar
para casa!
E
falo das canadianas porque tinha havido um cuidado muito especial do meu médico
alertando-me para a necessidade de uma cuidadosa recuperação para evitar
sequelas. Por isso durante um período razoável, embora guiando o carro,
transportava sempre as canadianas comigo para os percursos a pé. E mesmo quando
ia para as discotecas só as largava para dançar…
O
carro era um modelo 2+2, com lugares apertados atrás, mas cheguei a levar 5 ou
6 ocupantes no carro… Tinha alguns requintes de carro fino, com estofos em
cabedal e uma posição de condução espectacular, a que se juntavam algumas
mazelas do uso, tal como a 2ª velocidade que por vezes arranhava quando entrava;
o travão de mão posicionado por baixo do tablier, à esquerda do volante, também
não era muito prático. O escape era ruidoso, como era hábito ter naquele tempo,
e o depósito de gasolina, enorme (80 litros), tinha já em suspensão muita
porcaria, o que originava que acima dos 150 km/hora o carro podia engasgar-se por
entupimento dos carburadores… E os dois carburadores Weber duplos também não
eram muito poupados, o que me levava a fazer médias de 10 litros aos cem…
Lembro-me
da cara dos funcionários das bombas ao atestarem o carro e da sua preocupação,
depois de metidos os primeiros 50 litros, de olharem para baixo do carro a ver
se havia alguma fuga pois não acreditavam que pudesse levar tanta gasolina!
Foram
mais as coisas boas que as más e devo dizer que este carro me deixou muitas
saudades, tendo-me acompanhado durante dois anos nas viagens que fazia de e
para a Ota e posteriormente de e para Monte Real, e em todas as passeatas que
fui fazendo ao longo desse período.
O
carro acabou por ter um fim prematuro nas minhas mãos quando na viagem final de
Monte Real para Lisboa, a poucos dias do embarque para a Guiné, o motor se
finou quando percorria as rectas de Rio Maior a 130 Kms/hora. Trazido por
reboque para Lisboa e dispondo eu de pouco tempo para grandes decisões, acabei
por vender o carro como salvado ao meu mecânico, por 6 contos…
A
história poderia acabar aqui, pois entrei então numa fase da minha vida em que
optei por não ter carro nenhum… até casar. Mas, curiosamente, no ano de 2010,
tendo visitado na FIL a Feira de Carros Clássicos, no meio de todas as máquinas
em exposição deparei com uma foto bastante ampliada de um Alfa-Romeo em tudo
semelhante ao que eu tinha tido… e mais espantado fiquei ao ver a matrícula
(GF-83-27), precisamente a matrícula do meu antigo carro!
Só
posso imaginar que algum apreciador da marca tenha resolvido investir na
recuperação total do carro – e por aquilo que se pode apreciar nas fotos fê-lo
com algum cuidado, devolvendo-lhe a cor vermelha original (no meu tempo o carro
era côr de laranja), colocando-lhe os retrovisores do modelo original e
certamente tendo considerado muitos outros pormenores que a foto não deixa perceber.
Presumo
aqui que o carro rodava ainda 50 anos depois do seu fabrico (!) e que uma
recuperação destas não é posta de parte de ânimo leve por um apaixonado pelos
carros clássicos, pelo que tenho a certeza que ele andará ainda por aí, embora
de mansinho, devido à idade…
Ah!
E tenho a ideia de que quando embarquei para a Guiné já tinha acabado de pagar
os três carros!
Miguel Pessoa
terça-feira, 28 de agosto de 2018
P1050: OS MEUS CARROS DE SOLTEIRO - 2
A TER QUE IR À BRUXA…
| Miguel Pessoa |
Terminado o curso de pilotagem em
Novembro de 1969 e garantida a minha entrada no quadro permanente da Força
Aérea, sem outros compromissos a apoquentarem-me decidi investir na aquisição
de um carro mais moderno. Na altura o NSU TT 1200 estava na moda, sendo
bastante utilizado nos rallies. Longe das performances dos carros de hoje era
no entanto um carro interessante e agradável de conduzir, pelo me decidi a
trocar o Hillman Imp que tinha pelo NSU TT.
Infelizmente o exemplar que comprei parece
ter sido perseguido pela adversidade, acabando por se finar com apenas seis
mesitos de idade. Ainda antes do estouro final, já duas desgraças me tinham
sucedido com aquele carro pois duas semanas antes, quando contornava o clube de
oficiais da BA2, Ota, deparei-me com uma camioneta de transporte que, parada
junto à porta do armazém resolveu de repente fazer marcha-atrás sem confirmar
se tinha o caminho livre… Sem tempo para eu reagir, a traseira da camioneta
entrou pela frente do carro, deixando esta bastante amarrotada…
Tentando ultrapassar esta contrariedade
contactei um mecânico civil que trabalhava na Base e simultaneamente fazia uns
biscates num oficina no Carregado. Assim, lá levou ele o carro… para me
aparecer duas horas depois, com ar constrangido, a informar-me que no percurso
para o Carregado um condutor mais desatento tinha resolvido entrar pela parte
de trás do carro, deixando-a igualmente amarrotada…
Depois dos arranjos adequados, duas
semanas depois - numa 6ª feira - tinha
eu finalmente em mãos o carro, à primeira vista completamente recuperado. Mas
nesse fim-de-semana não poderia testar a condição em que se encontrava pois
tinha marcada uma missão de navegação para Madrid, em T-33.
Regressado à Ota na 2ª feira, lá pude
finalmente ir testar o comportamento do carrito, tendo-me acompanhado para o
efeito o Aspirante SV, pessoa com quem tinha um bom relacionamento. A estrada
que liga a parte alta com a parte baixa de Alenquer era sinuosa e pejada de moradias, não permitindo velocidades muito elevadas. Claro que os 60 ou 70
Kms/hora a que eu seguia já eram uma velocidade razoável, principalmente se
tivermos em conta que numa das curvas encontrei espalhada uma quantidade grande
de cascalho de construção que tinha escorregado de um montículo existente ao
lado da estrada.
O carro pareceu ganhar patins e
percorreu rapidamente os 3 ou 4 metros de distância que o separavam da árvore
mais robusta da zona… e ali se enfiou. Para quem não se lembre do NSU TT, posso
acrescentar que era um carro bastante seguro… enquanto não saía da estrada. Com
o motor colocado atrás, a parte da frente (a bagageira) era oca e funcionava
como um harmónio numa colisão frontal. Como acertei na árvore mais do lado
direito do carro, foi esse o lado que mais encolheu – os faróis foram
encostar-se ao painel e a roda direita veio encostar-se ao banco do pendura,
deixando este em maus lençóis…
O carro passou a assentar em cinco pontos no chão - as quatro rodas e uma parte empenada do chassis... E da análise à parte amassada do carro verificou-se que na sequência do embate tinha deflagrado um princípio de incêndio na caixa dos fusíveis, pronta e afortunadamente debelado pelo rebentamento dum extintor que eu tinha guardado na bagageira. Um sistema de corta-fogo que na época as equipas de Fórmula 1 não desdenhariam ter...
O carro passou a assentar em cinco pontos no chão - as quatro rodas e uma parte empenada do chassis... E da análise à parte amassada do carro verificou-se que na sequência do embate tinha deflagrado um princípio de incêndio na caixa dos fusíveis, pronta e afortunadamente debelado pelo rebentamento dum extintor que eu tinha guardado na bagageira. Um sistema de corta-fogo que na época as equipas de Fórmula 1 não desdenhariam ter...
Resumindo, resultou desta cena que
acabámos os dois num quarto do Hospital Militar, eu na cama da esquerda, ele na
cama da direita – precisamente como íamos no carro... Mais grave o estado do
meu pendura – tinha fracturado o fémur em dois sítios e rasgado o nariz – nem
por isso eu fiquei muito melhor pois para além de amarrotar a fachada (onde ainda levei uns tantos pontos) fracturei
o colo do fémur, o que me originou uma imobilização ainda grande no hospital e
um período de 6 meses até poder voltar a voar.
Claro que com esse atraso lá se
foi o curso de T-33 que estava a frequentar: Quando voltei à Ota os meus
companheiros de curso já tinham arrancado para a BA5, Monte Real… e eu
ingressei no curso seguinte, entretanto iniciado por novo grupo. Resultou daqui
um atraso irrecuperável na minha preparação para uma comissão em África, tendo
por esse motivo sido o último a partir para essas bandas, com um atraso de
cerca de 6 meses a um ano em relação aos outros do meu curso original.
Embora com uma recuperação mais lenta
que a minha, penso que o meu companheiro de infortúnio SV não terá ficado no
entanto com mazelas psicológicas relativamente às velocidades na estrada, pois
tive a oportunidade de ver nos jornais da especialidade que ele terá mesmo
participado em rallies nos anos seguintes…
O NSU TT ficou irrecuperável, como se deduz pelas fotos, mas eu ainda teria mais dois anos até terminar as
minhas qualificações e arrancar para a minha comissão em África. Por isso
estava nos meus planos adquirir uma nova viatura, plano que comecei a desenhar
ainda deitado na cama do Hospital. Mas isso será desenvolvido num terceiro e último texto que irei publicar aqui…
Miguel Pessoa
quarta-feira, 22 de agosto de 2018
P1049: OS MEUS CARROS DE SOLTEIRO – 1
Nesta fase morna do Verão, propensa à publicação de temas ligeiros que não puxem muito pela cabeça, lembrei-me de falar dos carros que possuí no meu tempo de solteiro. Vão por isso ser publicados sucessivamente três textos em que faço referência às máquinas que tiveram a desdita de me passar pelas mãos nessa fase, um texto por cada um dos carros, afinal todos eles relacionados com o início da minha carreira militar tendo, cada um à sua maneira, deixado gratas recordações.
| Miguel Pessoa |
Estávamos em finais de 1968 e iniciava
eu então o meu tirocínio como Aspirante a Oficial-Piloto-Aviador, na Base de
Sintra. Começando a auferir um vencimento mais robusto, pensei então em avançar
com a compra de um carro para as minhas deslocações. Não dispunha no entanto de
dinheiro para avançar com uma compra a pronto, pelo que teria que me contentar
com uma oportunidade que surgisse. E ela veio de um familiar que, através dos
seus conhecimentos, conseguia arranjar-me um carrinho com 3 anos de uso e que,
convenientemente, poderia adquirir sem entrada inicial e com 35 prestações
mensais de um conto de réis cada uma…
Avancei destemidamente com a compra e
vi-me proprietário de um Hillman Imp, um carrinho inglês simpático mas que
fugia à moda dos Minis que então grassava. Tinha um motor traseiro e tracção
traseira, ao contrário dos Minis, que tinham motor e tracção dianteiros e um
comportamento bastante diferente.
Na altura a minha preocupação era outra,
pois ainda não tinha tirado a carta de condução… Assim, vi-me restringido ao
uso do carro dentro da Base, enquanto aguardava o exame de condução, a fazer no
Centro de Instrução de Condução Auto, na Base de Tancos, fazendo entretanto umas
tantas aulas de condução numa Escola de Condução em Lisboa e ganhando mais
alguma experiência no jipe do Oficial de Dia, quando estava de serviço…
Finalmente, no início de 1969 lá fui
fazer o exame de condução, o qual decorreu sem problemas de maior pois já tinha
adquirido entretanto uma experiência razoável. E, porque poucos dispunham ainda
de carro próprio, foi uma mais valia a juntar ao ainda reduzido parque
automóvel dos tirocinantes.
E nos meses seguintes o grupo lá se
juntava para umas passeatas fora das horas de serviço, que não raras vezes
descambava numas corridinhas por montes e vales, a ver quem chegava mais
depressa… E tive a oportunidade de receber desse meu camarada uns ensinamentos
na arte de fazer piões, o que me levou a rapidamente ter que substituir os
pneus traseiros – que por já serem recauchutados (moda da altura) rapidamente
foram perdendo o piso…
E porque o parque automóvel era
reduzido, várias vezes foram acordar-me para dar boleia a uns tantos famintos
ávidos de uma ceia aconchegante. E lá seguíamos para um restaurante em Algés, “O
Relento”, para mandar abaixo o bife à moda da casa… E como a noite ainda era
uma criança ainda seguíamos para a Serra de Sintra para fazer a rampa da Pena…
Como o meu Imp era menos potente e não
tinha a primeira velocidade sincronizada, o meu camarada AM seguia à frente,
que era mais rápido. Já a descer era eu que saía primeiro, que tinha os travões
mais fracos… e talvez fosse mais maluco…
Lembro-me com alguma saudade desses
tempos, pois o carrinho proporcionou-me bons momentos. Com a tampa do motor
ligeiramente levantada para melhor arrefecimento e o vidro traseiro levantado (à
laia de aileron traseiro…) era garantido o cheirinho da gasolina dentro do
carro, o que dava um ambiente muito racing…
E com o aproximar do fim do curso de
pilotagem outras ideias foram surgindo, o que me levou a considerar a
possibilidade de trocar o Hillman Imp por um novo carro, mais potente. Mas isso
será tema de uma próxima história, que irei aqui contar…
Miguel Pessoa
domingo, 19 de agosto de 2018
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