sexta-feira, 10 de julho de 2026

P1601: RECORDAÇÕES DA GUINÉ

FIM DE TARDE EM MATO CÃO

O calor quase te sufoca.

O suor escorre-te pela cara, pelos braços, fruto de uma humidade insuportável.

Sentes-te dentro de uma estufa, só que esta é aberta a um horizonte sem fim, à visão de uma bolanha que ondeia ao sabor do vento.

E, no entanto, é já fim de tarde.

O sol vai-se escondendo por detrás de uma mata cheia de segredos e a sua luz avermelha ainda mais a terra vermelha que cobre todo o espaço onde estás sentado, num cadeirão de palha.

As fogueiras à entrada das tabancas vão-se acendendo, e os cheiros quentes do óleo de dendê da comida dos militares guineenses, vão-te enchendo de saudades de um bom refogado em azeite da tua terra.

Olhas mais ao longe, para além do pequeno planalto onde agora permaneces, e sentes, apesar de tudo, um bem-estar inexplicável, talvez fruto daqueles que ao teu lado vão contando histórias, que não ouves, mas sentes.

Por uma qualquer razão, que nem sequer te dás ao trabalho de discernir, a guerra está parada no teu pensamento, e agora apenas pretendes viver e desfrutar do pouco que tens, ali naquele sítio esquecido de todos, e basta-te uma cerveja fresca de uma velha arca a petróleo, para te sentires bem melhor do que muitos que por aquele território de África penam.

Vêm-te ao pensamento imagens de casa lá longe, a milhares de quilómetros, mas afasta-las de imediato, para fazeres um sorriso e um aceno de cabeça a algo que te perguntaram, mas tu nem sequer ouviste, envolvido que estás naquele momento de paz inexplicável.

A noite cai, e sabes que rapidamente vais ficar na escuridão, porque ali, naquele “buraco” como lhe chamam os teus camaradas de armas, não há gerador, não há luz, não há nada, afinal.

Acendem-se uns petromax, (mais ou menos escondidos para não chamarem a atenção do escuro da mata), e também uns candeeiros improvisados, feitos de garrafas de cerveja vazias, com um qualquer óleo e um pavio, que vai ardendo sem se queimar.

Também tu vais ardendo de saudades, mas com a tua maneira de ser, não te importas, porque neste momento nada podes fazer para matar tais saudades.

Olhas um pouco mais à frente de onde estás sentado e ris-te ao ver um buraco no chão que deveria ser um poço de água, fruto de uma mente de militar “superior” que se lembrou de mandar fazer um poço no cimo de um tão pequeno planalto.

Ouves a voz do Geba que, no sopé do planalto, vai correndo para o mar.

Se fosse tempo de macaréu a voz do Geba seria bem mais ruidosa.

O dia chegou ao fim e são horas de te enfiares no abrigo onde tens cama, envolvida num mosquiteiro, (que naquela terra os mosquitos são aviões de combate), e deitas-te empapado em suor, para dormires mais uma noite com um olho aberto.

Amanhã será um novo dia, ou melhor, será menos um dia na contagem de regresso a casa.

Que Deus nos proteja e nos faça regressar a bom porto.

Joaquim Mexia Alves

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

P1575: ALGO MUITO NOSSO

                                               A SAUDADE

A saudade é coisa boa, mas que ao mesmo tempo faz doer o coração. 

Acho que só nós Portugueses sabemos bem o que é a saudade.

Claro que outros povos sentem talvez a mesma coisa, só não conseguiram foi dar-lhe um nome onde tudo coubesse, como a nossa saudade.

Na nossa saudade cabe tudo.

Cabe o sentimento de ausência, a força do amor, a ternura do momento, o carinho experimentado, a alegria do conhecimento, a intimidade da amizade, a força da entrega, a presença invisível, a lágrima que é chorada, o sorriso do reencontro, a delicadeza da memória, a tristeza do não estar, o silêncio da recordação, a vida que foi vivida, a partida, a chegada, o abraço interminável, o não saber, o existir, o viver, o tudo e o nada, o ter presente quem está ausente.

Realmente a saudade é um sentimento muito Português, porque só os Portugueses partem e chegam sem nunca saírem de Portugal.

Joaquim Mexia Alves   

sábado, 24 de janeiro de 2026

P1572: COM INTERESSE PARA OS COMBATENTES

            NOVA LEGISLAÇÃO DE COMPARTICIPAÇÃO

                               NAS FARMÁCIAS

Para aqueles/as que tenham o estatuto de pensionista e de Antigo Combatente, informamos que entrou em vigor a nova legislação de comparticipação nas farmácias, que poderão conhecer no ficheiro que juntamos.

sábado, 17 de janeiro de 2026

P1570: LEMBRANDO OS PRIMÓRDIOS

        16º ANIVERSÁRIO DA TABANCA DO CENTRO

 Caros Camarigos

O 110º Encontro da Tabanca do Centro, a realizar em 30 de Janeiro, é também a comemoração do 16º aniversário dos nossos encontros, pois o primeiro teve lugar no dia 27 de Janeiro de 2010.

Assim sendo esperamos que todos se disponibilizem para estarmos juntos nesse dia, comemorando este aniversário.

O tempo vai passando e os anos vão aumentando a passos largos, por isso, mais do que nunca, devemos juntar-nos para fazermos festa recordando o que passámos, o que vivemos e, sobretudo, aqueles que connosco estiveram e já nos deixaram, guardando-os assim nas nossa memórias e nos nossos corações.

Sabemos bem que só nós Combatentes conseguimos perceber as nossas histórias, os nossos medos, as nossas bravatas, enfim, tudo aquilo que vivemos e ainda de quando em vez se trona presente em noites mal dormidas.

Cá vos esperamos pois, no dia 30 de Janeiro, para fazermos a festa juntos.

Abraços dos

Miguel Pessoa e Joaquim Mexia Alves