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segunda-feira, 27 de setembro de 2021

P1312: MAS TUDO ACABOU BEM...

                                         É UMA INJUSTIÇA!...

Talvez se recordem de haver, há muitos anos atrás, uma série de desenhos animados com o Calimero, um patinho preto que usava uma casca de ovo à laia de chapéu, e que passava o tempo a lastimar-se de tudo o que lhe acontecia: “É uma injustiça! É uma injustiça!”.

Foi um pouco assim com uma decisão das chefias que me fez sentir que não tinha sido tratado em plano de igualdade com outros meus camaradas.

Mas vamos começar pelo princípio: Iniciei a minha comissão na Guiné em Novembro de 1972 e, apenas quatro meses depois de lá ter chegado, fui recambiado para Lisboa para recuperar das mazelas sofridas na ejecção de um avião Fiat G-91 atingido por um míssil.

Naquele tempo a medicina aeronáutica ainda estava um pouco incipiente e o Hospital da Força Aérea ainda não existia. Assim, a minha recuperação passou pelo Serviço de Ortopedia do Hospital Militar (do Exército), que tratou razoavelmente da recuperação da minha perna partida. O mesmo não posso dizer de outros dois aspectos importantes que foram descurados: A recuperação da minha coluna, que tinha sofrido uma compressão de vértebras de 2 centímetros (perdi 2 cms de altura, que não recuperei…) e o apoio psicológico para ultrapassar o stress da situação vivida, agravado pela necessidade de me adaptar à ideia de voltar a operar no mesmo teatro de operações.


O "corpo do delito" - O Fiat G-91 5413 abatido em 25 de Março de 1973 na zona do Guileje
(Desenho do Paulo Moreno, créditos reservados)

O facto é que esses dois aspectos acabaram por ficar à minha conta no meu regresso á Guiné quatro meses depois – e se no primeiro caso pouco pude fazer para além de ver a coluna a piorar com o tempo, já a readaptação à actividade aérea foi ultrapassada com grande esforço da minha parte, sem nenhum acompanhamento profissional e dependendo unicamente de mim e da possível solidariedade dos outros camaradas.

No ano de 1973 acabei por não gozar férias, para compensar o tempo perdido na minha recuperação; e em 1974 as únicas férias que gozei na comissão acabaram por coincidir com o período revolucionário pós-25 de Abril… Tinha chegado a Lisboa em 22 de Abril de 1974…

Calculam o meu espanto quando, no regresso à Guiné, fui informado de que os meus três camaradas que se tinham igualmente ejectado, tinham “passado” pela Guiné para fazerem o desquite e encerrarem a sua comissão de serviço. Parece que a argumentação terá sido a dificuldade de adaptação dos pilotos à actividade aérea depois dos traumas psicológicos sofridos…

Naturalmente perguntei: “Então e eu?!...”. - “Ah, pois. Parece que consideraram que tu podias continuar, que já tinhas passado a parte difícil…” (Na altura eu já tinha feito cerca de mais 9 meses de comissão, fazendo das tripas coração e readaptando-me como possível às rotinas do dia-a-dia).

A irritação acabou por me passar. A actividade aérea passou a ser mais reduzida na fase final da minha comissão (depois do 25 de Abril), não passei por situações de grande risco e, chegado o termo da minha comissão, em meados de Agosto de 1974, pude regressar à metrópole com a satisfação do dever cumprido… e sem dever nada a ninguém…

Mas ainda hoje penso quais foram os critérios para um tratamento diferente entre pessoas que tinham passado pelo mesmo, e sem me ter sido transmitida uma palavra sequer sobre o assunto…

Miguel Pessoa

 

 

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

P1306: UM MODELO DE COMPARAÇÃO

                                  UM PIROPO...

Na Guiné, como “piloto da caça”, no dia-a-dia o meu relacionamento com o pessoal da linha da frente dos Fiat G-91 era algo reduzido, limitando-se ao período imediatamente antes do voo e após este, o que não se prestava a um conhecimento profundo do pessoal que nos apoiava. Talvez o facto de ser um oficial do quadro habituado a alguma reserva no relacionamento hierárquico tenha contribuído também para esse distanciamento.

Por outro lado, o ambiente na Esquadra dos AL-III era algo diferente, dada a coesão naturalmente desenvolvida entre a tripulação – pilotos, mecânicos de bordo, atiradores do heli-canhão e as enfermeiras paraquedistas, que complementavam a tripulação nas missões de evacuação.

Embora com as limitações decorrentes desse maior isolamento, os meus contactos no decorrer das missões foram proporcionando um maior conhecimento do pessoal da linha da frente, o que acabou por permitir uma maior aproximação aos mesmos fora das horas de serviço.

Lembro-me de, a convite de um deles, ter assistido a várias sessões de ensaio de uma “banda de garagem” constituída por mecânicos da FAP, e de em outras ocasiões ter participado em alguns convívios por eles organizados.

Como ponto forte deste tempo relembro a recepção que me foi feita à chegada à Base de Bissalanca, no regresso do hospital, comemorando o excelente trabalho desenvolvido por todos na minha recuperação na sequência do abate do meu avião.

Esse relacionamento mais informal que se foi desenvolvendo ao longo da minha comissão permitiu-me uma maior integração e aceitação no grupo, de tal modo que um dia recebi de um deles um piropo que terá constituído para o próprio a melhor apreciação que ele poderia fazer da minha pessoa: “O Senhor Capitão (*) é um tipo porreiro! Até parece miliciano!...”

Miguel Pessoa

(*) Embora em todas as minhas histórias da Guiné se fale sempre do Tenente Pessoa, a verdade é que os últimos oito meses da minha comissão os passei como Capitão, no período entre Novembro de 1973 e Agosto de 1974…

segunda-feira, 21 de junho de 2021

P1298: ARTIGO DE 13 DE JUNHO NO "CORREIO DA MANHÃ"

Com a devida vénia ao jornal Correio da Manhã, publicamos o artigo da jornalista Manuela Guerreiro saído na Revista de Domingo do dia 13 de Junho de 2021.

Esta não é a primeira versão que preparámos do referido artigo, mas temos que reconhecer que o trabalho do Carlos Vinhal, editor do Blogue "Luís Graça & Camaradas da Guiné", vulgo Tabanca Grande, é de longe superior ao que tínhamos inicialmente preparado, pelo que, dadas as relações amistosas entre os dois blogues. não temos qualquer pejo em aproveitar a excelente adaptação feita pelo nosso camarigo Carlos Vinhal, com um agradecimento especial para ele.

segunda-feira, 17 de maio de 2021

P1293: DO BAÚ DOS TESOURINHOS ESQUECIDOS...

UM AEROGRAMA ESPECIAL

Foi recentemente que, ao investigar o conteúdo de uma caixa há muito esquecida, encontrei este aerograma que no Natal de 1972 despachei para casa dos meus pais. Não me lembro de ter enviado muitos aerogramas à família; e neste, como poderão observar, também não são dadas notícias para os tranquilizar – limitei-me a utilizar algum jeito que tinha para o desenho e inventei um postal de Boas Festas que enviei para o meu irmão.

Solteiro e despreocupado na altura, reconheço hoje que não tive para com a família o cuidado de manter com eles um contacto que hoje, como pai preocupado com o bem-estar dos filhos, considero essencial para a minha paz de espírito. Mas erros são cometidos, e temos que viver com eles…

No destinatário  é curiosa a referência ao meu irmão como “Menino”, mas temos que ter em consideração que embora eu tivesse 26 anos, o meu irmão tinha menos 21 anos do que eu…

Só depois de rever o aerograma é que certos pormenores foram relembrados, tais como o código postal da casa dos meus pais em Benfica (Lisboa-4) e o código postal do SPM da Base de Bissalanca (SPM 0828).

Lamento a falta de qualidade do material apresentado, pois não me foi possível digitalizar o aerograma, tendo-me socorrido da máquina fotográfica para a sua reprodução. Mas não quis deixar de partilhar convosco esta lembrança...

Miguel Pessoa



PS - O Pateta que vai a pilotar o avião não foi escolhido por acaso - ele é a figura central do emblema do meu curso de pilotagem - "Turbilhões" - emblema esse que também foi desenhado por mim quatro anos antes...

segunda-feira, 26 de abril de 2021

P1290: AINDA O MARCELINO DA MATA

Com a devida vénia ao Boletim AFAP - Associação da Força Aérea Portuguesa - transcrevemos um texto recentemente publicado naquela Revista, que descreve os encontros e reencontros entre o conhecido Marcelino da Mata e o nosso camarigo Miguel Pessoa.

ENCONTROS E REENCONTROS

Conheci o Marcelino da Mata em circunstâncias muito especiais e talvez por isso difíceis de esquecer. Em 25 de Março de 1973, durante uma missão de apoio de fogo ao aquartelamento do Guileje, o meu avião foi abatido por um míssil SAM-7 Strela e eu fui forçado a ejectar-me em plena mata, no corredor do Guileje.

As peripécias que se seguiram a essa acção já foram descritas aqui e na revista da AFAP. O certo é que vinte horas depois da minha ejecção e passada uma noite de sobressalto, já começava a ter dúvidas sobre o êxito de uma eventual recuperação, agravado pela sensação de que pessoal presumivelmente pouco amistoso se aproximava do local onde me encontrava.

Comecei a divisar cabeças que se aproximam pelo meio da folhagem. Eram africanos, o que parecia confirmar as minhas piores previsões; tinham armamento e uniformes diferentes dos das tropas portuguesas. Sabiam o meu nome e diziam-me para ir com eles – o que, segundo alguns testemunhos no local, mereceu da minha parte uma resposta pouco educada… Pudera!

Apareceu então o que parecia ser o chefe - de barbicha e óculos - e disse-me que era o Marcelino da Mata. Convenhamos que na altura, "pira" de 4 meses da Guiné, embora conhecendo as referências do Marcelino, nunca tinha tido a oportunidade de estar com ele pessoalmente mas sabia que ele costumava levar cantis com Fanta e Coca-Cola. Pedi-lhe de beber, ao que ele anuiu, ficando assim por mim confirmada a identidade do meu interlocutor, o que mereceu da minha parte, de imediato, um efusivo cumprimento: "Ah granda Marcelino!".

A cena ainda se prestou a uma foto de grupo, em que a pose agressiva do Marcelino, de catana na mão, e o  meu ar enfiado, mais faziam parecer que eu tinha sido apanhado pelo inimigo…

A minha recuperação até ao local da evacuação por helicóptero não teve muito mais história para além das provocações que o pessoal mandava para o meio da mata e que me fazia sentir na iminência de ser envolvido numa fogachada de que, com uma perna partida e lesões na coluna, eu teria dificuldade em desenvencilhar-me…

Iriam passar vinte e dois anos até eu voltar a encontrar o Marcelino, curiosamente numa reunião de pessoal da FAP combatente da Guiné, realizada nas instalações da AFAP, o que deu ensejo a uma foto dos dois para comemorar o reencontro. Desta vez o Marcelino não exibia a catana da foto de 1973 – só se tivesse ido buscar uma faca à mesa da refeição…

Tivemos oportunidade de uns breves encontros em algumas das cerimónias do 10 de Junho junto ao Monumento dos Combatentes. Tive ainda ensejo de lidar com ele por mais tempo em dois ou três encontros a que o levei, de antigos combatentes da Guiné, encontros esses realizados em Monte Real.

Observei a satisfação que ele sentiu ao ver-se rodeado de combatentes que conheciam o seu percurso de vida ou o tinham até conhecido pessoalmente na Guiné e que quiseram confraternizar com ele. Foi compensador observar na sua cara o agrado que aquelas manifestações de carinho lhe provocaram.


Nos últimos anos de vida o Marcelino teve problemas de saúde vários que o levaram a ser internado e operado, De todas essas situações o vi sair com redobrado ânimo. O que me levou inclusive, após mais uma intervenção a que tinha sido sujeito, a dizer-lhe na galhofa “Ó Marcelino, é a primeira vez que vejo um tipo vir para ti de faca na mão, e tu não reagires!...”

Acaba finalmente por não resistir a um inimigo que tem flagelado no último ano  milhares de portugueses. Que, finalmente, descanse em paz!

Miguel Pessoa

 

sábado, 30 de maio de 2020

P1231: UMA RELÍQUIA COM 47 ANOS...

Do nosso camarigo Joaquim Pinto Carvalho recebemos um mail em que dava a conhecer correspondência trocada
há cerca de 47 anos com a então sua namorada, mais tarde esposa, em que referia o contacto tido com
o famoso Marcelino da Mata e as histórias por ele contadas nessa ocasião, nomeadamente 
um resgate de um piloto da FAP perdido no meio das matas de Guileje. 
Aqui fica a história, que publicamos na data em que este nosso camarigo comemora mais um aniversário. 
Que os festejos sejam adequados às normas de contenção que a actual situação exige...
A Tabanca do Centro         

Joaquim Pinto Carvalho
Caro Miguel

Tomo  a liberdade de te  enviar um excerto duma carta que escrevi, há cerca de 47 anos, quando me encontrava na Guiné (Bedanda). Essa carta e o que nela descrevo ficou no esquecimento, por todo este tempo. Encontrei-a porque ando a recolher tudo o que escrevi durante o período em que estive na guerra para eventual publicação.

O relato dos “factos”, por quanto retive, foi-me feito directamente pelo próprio Marcelino da Mata.

Penso que, tomado como verdadeiro o depoimento, não defraudará a verdade histórica, mas poderás, ou não, confirmar. Também não é “essa” verdade o mais importante para mim, mas a leitura que nesse momento fiz do episódio. Para mim é um documento que, agora ao ler, me traz alguma emoção, mais que nostalgia, e que me é grato partilhar contigo. (...)

O excerto faz parte de uma carta que escrevi à então minha namorada, com quem vim a casar (doutra forma ter-se-ia provavelmente perdido este relato) e, por essa razão, envio-te uma reprodução da carta original. 

No entanto, para facilitar a leitura, abaixo transcrevo, na íntegra, esse meu relato, sem pretensões jornalísticos nem de exercício literária, mas que é genuíno, acredita! Se corresponde à factualidade e aos sentimentos pessoais que, em tais circunstâncias, procurei então perscrutar em quem não conhecia, logo me dirás!

O MARCELINO DA MATA

(Carta enviada pelo Joaquim Pinto Carvalho em 28 de Março de 1973)













Mas, deixando em paz os vingadores…"


Original da carta enviada em Março de 1973
Não sei se te surpreendi, nem sei se outros “camaradas”, ao tempo, fizeram igual… Há memórias que não podem ser esquecidas!

Fica um forte abraço, esperando que no meio desta “guerra” pandémica  tudo vos esteja a correr bem.

Joaquim Pinto Carvalho

Uma pequena (...) nota de rodapé, acrescentada pelo editor:

O texto apresentado está conforme a carta enviada pelo Joaquim Pinto Carvalho em 28 de Março de 1973, que quisemos manter. Mas será conveniente prestar alguns esclarecimentos sobre o que aqui é descrito. 

Na verdade não houve forças nossas no terreno a tentar recuperar o piloto no dia em que ele foi abatido. A primeira identificação do local em que ele se encontrava só ocorreu cerca das cinco da tarde, não havendo tempo disponível para efectuar o resgate (A noite iria cair muito rapidamente).

No dia seguinte foram posicionados dois grupos na orla da mata referenciada - um com 25 pára-quedistas chefiados pelo Cap. Norberto Bernardes e um segundo grupo com 25 pára-quedistas chefiados pelo Cap. Cordeiro, que acompanhavam o grupo de Operações Especiais do Marcelino da Mata (14 elementos).

Foi aliás o primeiro grupo que localizou os destroços do avião e recuperou o pára-quedas e o capacete do piloto. Foi depois mandado parar e estabelecer a segurança, avançando então os grupos do Cap. Cordeiro e do Marcelino da Mata para resgatar o piloto, entretanto localizado.

Quanto ao possível estado alucinado do piloto, não exageremos... embora já começasse a ter os platinados a falhar... E os insultos que ele mandou ao pessoal parecem totalmente justificáveis, quando os primeiros elementos da equipa de resgate com que se depara são africanos equipados com fardas cubanas e armados com Kalashnikovs...

O editor (que por sinal era o piloto em questão...)

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

P1160: IDEIAS PEREGRINAS...


Esta história já foi publicada há alguns anos no blogue "Luís Graça & Camaradas da Guiné" e, por dificuldade de acesso a alguns registos deste nosso blogue, não temos a certeza de que tenha sido igualmente publicada no blogue da Tabanca do Centro.

Mas, estando nós em época de "reprises" de verão - com que somos inundados nas nossas televisões - e calculando que muito do pessoal que nos lê afinal ainda não conhece esta história, arriscamo-nos a repescá-la, com a devida vénia à Tabanca Grande, que a editou em devido tempo.

Igualmente com a devida vénia ao blogue "Histórias da Guiné 71-74 A CCAÇ 3491 - Dulombi" (www.ccac34917174.blogspot.com), de onde reproduzimos as duas fotos que apresentamos.

Quanto ao autor, sabemos que ele concorda com a sua reprodução...
Os editores

PISTA DA ÉPOCA (COMO A FRUTA)

Miguel Pessoa
Lembro-me que nas Operações do Grupo Operacional 1201, na BA12, havia um arquivador muito prático onde estavam registados dados de todas as pistas existentes no território e que, para além das características específicas de cada uma (comprimento, largura, orientação, condições de utilização, limitações, etc.), incluía fotografias de cada pista, incluindo algumas tiradas à vertical das mesmas.

Estes dados eram de grande importância para o aviador, principalmente no início da comissão, quando ainda não tinha grande conhecimento do terreno. O número elevado de pistas existentes (cerca de sessenta), a falta de visibilidade horizontal durante uma época do ano e o facto de as pistas por vezes se sucederem num espaço de terreno relativamente curto podiam induzir em erro os menos experientes. Ninguém gosta de aterrar num determinado sítio e descobrir que o que queria é mais ao lado, principalmente quando a pista está afastada do aquartelamento e afinal não há qualquer segurança montada no local...

Vista aérea do quartel de Dulombi
Por isso era habitual passarmos pelas Operações para visualizar os sítios onde íamos pela primeira vez. Daí ser natural já termos por vezes um conhecimento virtual de determinada pista mesmo antes de lá ter ido - uma espécie de Flight Simulator da época...

Uma vez recebi uma incumbência curiosa; tratava-se de ir abrir ao tráfego aéreo a pista de Dulombi, isto é, comprovar que aquela pista estava em condições de poder ser utilizada pelos nossos DO-27. Fiquei curioso com esta missão, mas uma visualização das fotos da pista rapidamente me elucidou. Na tal fotografia feita à vertical da pista pude verificar que, ao contrário do que sucedia nos outros aeródromos, em que a placa de helicópteros surgia normalmente ao lado da pista, a uma distância de segurança [1], aqui essa placa surgia cravada no meio da pista, dividindo-a em duas partes mais ou menos iguais, uma para cada lado.

A placa de helicópteros durante um apoio a uma operação da FAP
em Madina do Boé, em Novembro de 1973
É natural que, tratando-se de duas construções de diferente tipo, uma em cimento e a outra em terra batida, a sua utilização intensa (que não seria no entanto o caso) e principalmente os efeitos da natureza podiam levar à degradação das duas junções e criar um degrau fatal para qualquer avião que ali tentasse aterrar. Assim, durante a época das chuvas, as águas que corriam ao lado da placa de helicópteros arrastavam as terras adjacentes deixando a placa saliente e impedindo a utilização da pista, dado que qualquer das tiras remanescentes (uma para cada lado, recorda-se) era insuficiente para o DO operar.

Portanto, todos os anos, depois de as chuvas terminarem, havia que proceder à recuperação da pista nas zonas adjacentes à placa, de modo a permitir a passagem dos aviões por cima desta sem sobressaltos.

A minha missão não teve problemas de maior, dado que as terras tinham sido repostas e a pista podia ser utilizada em segurança. Mas sempre me interrogava sobre o motivo por que tinha sido tomada esta opção (falta de espaço para a placa noutro local?) que tornava sazonal o uso daquela pista. É que, sabendo-se das dificuldades sentidas pelos nossos militares nas zonas mais isoladas, a pista de aterragem era sempre uma mais-valia que podia reduzir um pouco esse isolamento e limitar as carências daí resultantes.

                                                 Miguel Pessoa




[1]   Tratando-se de uma construção em cimento, muitas vezes saliente do chão cerca de um palmo, podia ser um obstáculo intransponível se se perdesse o controlo do avião e ele embicasse na direcção da placa (normalmente por causa dos ventos, pontualmente também me chegaram a aparecer à frente vacas e cães, durante a aterragem...). Pelo menos lembro-me de um DO-27 imobilizado sobre os dois cotos que tinham sido o trem de aterragem, no meio de uma placa de helicópteros, devido à perda de controlo do avião durante a descolagem. Já não cheguei a ver lá o avião, mas as marcas deixadas pelos cotos no cimento ainda eram bem visíveis...

sexta-feira, 26 de abril de 2019

P1131: ESTAREMOS A ABRANDAR?...

UMA TENDÊNCIA… OU UMA COINCIDÊNCIA?

O número de presenças nos nossos convívios tem variado muito ao longo do tempo, estando pendente da disponibilidade, disposição e saúde do pessoal e das condições meteorológicas do momento. Um novo factor poderá ter surgido ainda no convívio acabado de realizar - a proximidade de um feriado e a possibilidade de uma ponte a sugerir um fim de semana bem alargado.

As estatísticas não permitem estabelecer grandes regras. Mas, da análise das presenças ao longo dos últimos quatro anos (é já uma boa amostragem) vemos que houve um pico de assiduidade no 2º semestre de 2016 e 1º semestre de 2017, e que os convívios em que realizámos os nossos almoços antecipados de Natal foram por norma os mais concorridos.

Em compensação, houve um decréscimo de presenças nos convívios mais recentes. Por coincidência, o convívio agora realizado foi o que teve menor número de participantes nestes últimos quatro anos, com 35 presenças...

Pilhas mais fracas no pessoal, tempo menos acolhedor e por isso menos convidativo para grandes deslocações, outros compromissos importantes (o apoio dos avós aos mais pequenos parece ser cada vez mais solicitado...)?

Bom, esperamos que seja apenas uma "crise" momentânea e que estes nossos convívios possam continuar a proporcionar aos camaradas da Guiné (e a outros que se lhes juntam) bons momentos de confraternização.

Miguel Pessoa

quinta-feira, 4 de abril de 2019

P1120: UMAS GARRAFAS BEM VESTIDAS...

OS "AVENTAIS" DO PAULO MORENO

Na última revista "Karas" falávamos mais uma vez da garrafa de espumante que o Paulo Moreno prepara para oferecer ao Miguel Pessoa na data do aniversário do seu estampanço nas matas do Guileje. Pensámos ser interessante  ver em mais pormenor os "aventais" - sempre diferentes - que o Paulo costuma preparar para vestir a garrafa de espumante, não vá ela constipar-se...


Descobrimos que são poucas as fotos de pormenor que temos dos ditos aventais, o que nos leva a pensar reparar essa falha proximamente. Mas, para já, ficam as imagens que temos de alguns dos aventais oferecidos pelo Paulo, um trabalho por ele feito com carinho e consideração, que naturalmente agradecemos.

Miguel Pessoa

sábado, 1 de setembro de 2018

P1051: OS MEUS CARROS DE SOLTEIRO – 3


UM CLÁSSICO… QUE AINDA MEXE?

Miguel Pessoa
Nos textos anteriores referi-vos a aquisição dos meus dois primeiros carros, o Hillman Imp e o NSU TT 1200. Vou hoje falar-vos da terceira e última aquisição que fiz nesta minha fase de solteiro. E, acreditem ou não, a escolha foi feita através de uma fotografia, como se faz nos casamentos por correspondência!

Estávamos em Junho de 1970 e já tinha garantida uma estadia prolongada no Hospital Militar, na Estrela, na sequência do acidente em que tinha destruído o meu segundo carro, o malogrado NSU TT. A recuperação da fractura do colo do fémur ir-me-ia manter acamado por um período de dois meses, com a perna direita em tracção com 4,5 kgs de pesos para permitir a calcificação da zona da fractura.

Para me entreter ia pensando na possibilidade de adquirir um novo carro e, vendo o meu entusiasmo, o meu Pai não quis deixar de me apoiar e movimentou-se junto de conhecidos numa primeira prospecção do mercado. Liso como estava, e ainda a pagar as prestações dos dois carros (…), não era muito esquisito com o que podia arranjar, embora preferisse um carro “com pinta”, mesmo já com alguns anos de uso. E assim posicionaram-se dois candidatos, um Mercedes 190 SL descapotável e um Alfa-Romeo Giulietta Sprint Veloce, de que o meu Pai teve o cuidado de obter umas fotos, para eu analisar… e decidir.

Finalmente, já a caminho da recuperação, decidi-me pelo Alfa-Romeo, um modelo com 9 anos de idade mas com razoável aspecto. Contei para isso com o apoio do meu Pai, que me emprestou os 35 contos necessários para a transacção. E no dia da minha saída do Hospital, ainda armado de canadianas, lá tinha o Alfa à porta para me levar para casa!

E falo das canadianas porque tinha havido um cuidado muito especial do meu médico alertando-me para a necessidade de uma cuidadosa recuperação para evitar sequelas. Por isso durante um período razoável, embora guiando o carro, transportava sempre as canadianas comigo para os percursos a pé. E mesmo quando ia para as discotecas só as largava para dançar…

O carro era um modelo 2+2, com lugares apertados atrás, mas cheguei a levar 5 ou 6 ocupantes no carro… Tinha alguns requintes de carro fino, com estofos em cabedal e uma posição de condução espectacular, a que se juntavam algumas mazelas do uso, tal como a 2ª velocidade que por vezes arranhava quando entrava; o travão de mão posicionado por baixo do tablier, à esquerda do volante, também não era muito prático. O escape era ruidoso, como era hábito ter naquele tempo, e o depósito de gasolina, enorme (80 litros), tinha já em suspensão muita porcaria, o que originava que acima dos 150 km/hora o carro podia engasgar-se por entupimento dos carburadores… E os dois carburadores Weber duplos também não eram muito poupados, o que me levava a fazer médias de 10 litros aos cem…

Lembro-me da cara dos funcionários das bombas ao atestarem o carro e da sua preocupação, depois de metidos os primeiros 50 litros, de olharem para baixo do carro a ver se havia alguma fuga pois não acreditavam que pudesse levar tanta gasolina!

Foram mais as coisas boas que as más e devo dizer que este carro me deixou muitas saudades, tendo-me acompanhado durante dois anos nas viagens que fazia de e para a Ota e posteriormente de e para Monte Real, e em todas as passeatas que fui fazendo ao longo desse período.

O carro acabou por ter um fim prematuro nas minhas mãos quando na viagem final de Monte Real para Lisboa, a poucos dias do embarque para a Guiné, o motor se finou quando percorria as rectas de Rio Maior a 130 Kms/hora. Trazido por reboque para Lisboa e dispondo eu de pouco tempo para grandes decisões, acabei por vender o carro como salvado ao meu mecânico, por 6 contos…

A história poderia acabar aqui, pois entrei então numa fase da minha vida em que optei por não ter carro nenhum… até casar. Mas, curiosamente, no ano de 2010, tendo visitado na FIL a Feira de Carros Clássicos, no meio de todas as máquinas em exposição deparei com uma foto bastante ampliada de um Alfa-Romeo em tudo semelhante ao que eu tinha tido… e mais espantado fiquei ao ver a matrícula (GF-83-27), precisamente a matrícula do meu antigo carro!

Só posso imaginar que algum apreciador da marca tenha resolvido investir na recuperação total do carro – e por aquilo que se pode apreciar nas fotos fê-lo com algum cuidado, devolvendo-lhe a cor vermelha original (no meu tempo o carro era côr de laranja), colocando-lhe os retrovisores do modelo original e certamente tendo considerado muitos outros pormenores que a foto não deixa perceber.

Presumo aqui que o carro rodava ainda 50 anos depois do seu fabrico (!) e que uma recuperação destas não é posta de parte de ânimo leve por um apaixonado pelos carros clássicos, pelo que tenho a certeza que ele andará ainda por aí, embora de mansinho, devido à idade…

Ah! E tenho a ideia de que quando embarquei para a Guiné já tinha acabado de pagar os três carros!

Miguel Pessoa