sexta-feira, 31 de março de 2023
domingo, 26 de março de 2023
terça-feira, 21 de março de 2023
quarta-feira, 15 de março de 2023
sábado, 11 de março de 2023
segunda-feira, 6 de março de 2023
P1376: APOIO AOS COMBATENTES PORTUGUESES
COMO OS COMBATENTES PORTUGUESES SÃO TRATADOS
CarlosPinheiro
Falemos dos Combatentes Portugueses e da forma como sempre foram tratados.
Sem pretender fazer um tratado sobre os Combatentes, teremos que começar
pelo CEP - Corpo Expedicionário Português - que mobilizou, mal e
apressadamente, cerca de 100.000 soldados.
Portugal enviou dezenas de milhar de militares para Angola e principalmente
para Moçambique, que a Alemanha queria conquistar.
É certo que Portugal, como aliado da Inglaterra tinha apresado dezenas de
navios alemães nos nossos portos e essa terá sido uma das razões para que a
Alemanha atacasse Moçambique de forma feroz.
Morreram na guerra em Moçambique dezenas de milhar de militares
portugueses, a maior parte dor doença, na medida em que não iam preparados para
aqueles climas e os serviços de saúde eram exíguos; e quanto a armamento nem é
bom falarmos.
Entretanto, em 1917 foram também para França outros milhares de Soldados
portugueses, também sem condições, sem preparação e sem armamento conveniente e
foram mesmo carne para os canhões dos alemães enquanto viviam, ou sobreviviam
nas trincheiras.
Porque a miséria era muita em todos os aspectos, em 1921 foi criada a Liga
dos Combatentes chamada da 1ª Grande Guerra, a fim de auxiliar os
sobreviventes, especialmente os feridos e doentes, as viúvas e os órfãos, dada
a miséria que grassava no país.
Como a 1ª Grande Guerra nunca ficou bem resolvida, em 1939 rebentou a 2ª
que durou até 1945. Nessa não tomámos parte, apesar do país ter sofrido, fome e
miséria a rodos enquanto outros se encheram de dinheiro a custa do trabalho
escravo na pesquisa do dito volfrâmio que era vendido a peso de ouro aos dois
beligerantes.
Depois, em 1961 rebentaram as guerras de África que duraram até 1974, na
Guiné, em Angola e em Moçambique já depois da India se ter tornado
independente da Inglaterra em 1947 e ter começado a invadir os enclaves de
Dradá e Nagar Aveli em 1954 no chamada Estado da India Portuguesa e em 18
de Dezembro de 1961 ter invadido por terra, mar e ar os enclaves de Goa Damão e
Diu, prendendo todos os militares portugueses sobreviventes, porque ainda houve
alguns mortos portugueses apesar das nossas forças em nada se pudessem comparar
com as Forças Indianas. As nossas tropas foram presas e seguiram para campos de
concentração depois do Governador Vassalo e Silva não ter respeitado a Ordem de
Lisboa para que resistíssemos até ao último homem.
O regresso a Portugal desses militares aconteceria em Maio de 1962,
com uma ponte aérea de Goa para Carachi, no Paquistão. Daí, os militares foram
transportados em navios até Lisboa.
À chegada, foram chamados de traidores. Oito oficiais, incluindo o governador-geral,
foram demitidos como era a política da época, sem mais comentários.
Isto é um pequeno resumo, muito resumido, do que as nossas forças armadas
ali passaram até serem repatriadas como acima se refere,
Mas nessa altura já estavam em marcha as três Guerras de África, Guiné,
Angola e Moçambique. Também tínhamos tropas em Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe e
até em Macau e Timor. com as dificuldades inimagináveis, em territórios com
climas tórridos e escaldantes, sem estradas, sem pontes, sem pistas de aviação,
sem quartéis, sem nada.
Foram os nossos soldados, que para além de combaterem o inimigo, também
foram construindo algumas estradas, inventando algumas pontes e algumas pistas
de aviação, e construindo alguns barracões para servirem de quartéis, outros
aproveitando antigos celeiros que também passaram a servir de quartéis, onde normalmente
viviam cercados de arame farpado, muitas vezes cheios de minas e armadilhas,
para que se evitassem incursões indesejáveis.
Muitos viveram em abrigos subterrâneos cobertos por troncos imensos de
árvores e viveram tempos debaixo do chão. E o material de transportes, pelo
menos nos primeiros anos, eram as velhas GMC e os jipões da 2ª Grande Guerra.
Era a guerra.
A Liga dos Combatentes criada, foi organizada em 1921 e tem vários
serviços de apoio aos Combatentes mas ainda hoje vive com orçamentos
insignificantes; mesmo assim mantém dois Lares para Combatentes idosos - um em
Estremoz e outro no Porto - certamente com ajudas locais; recentemente,
abriu-se-lhe uma oportunidade de criar uma nova unidade no centro do País, mais
concretamente no Entroncamento, fruto da oferta da Câmara Municipal do
Entroncamento dum terreno para a construção de um Centro de Dia, de uma
Creche, de um Lar para Idosos e de uma Unidade de Cuidados Continuados. Como se
pode imaginar, uma obra de vulto que os Combatentes bem merecem e bem precisam.
Claro que a Liga não tem meios para tão grande como útil obra, e ter-se-á
candidatado a Fundos da UE, parece que ao PARES, mas exigiram-lhe um projecto
da obra. Porém, esse projecto custará cerca de 150.000 Euros e parece não haver
dinheiro para o projecto, até porque não há certeza de que o financiamento seja
garantido.
Aliás, a Liga na sua Revista de Dezembro de 2022, no seu Editorial do
Presidente General Chito Rodrigues, denuncia claramente esta situação, que põe
em risco a construção de uma unidade polivalente para os Combatentes na sua
fase final da vida terrena. Mas não se conhecem respostas ou comentários do
poder instituído, o que é lamentável, para quem deu o melhor da sua juventude
ao serviço de Portugal
É assim que os Combatentes são tratados. Aliás já estão habituados a serem
bem tratados com a esmola de 70 ou 100 Euros anuais que normalmente recebem em
Outubro, sujeita a impostos.
E está tudo bem e ninguém diz nada.
Não temos dinheiro para ajudar os nossos que precisam, mas mesmo assim
vamos ajudando outros lá longe, que também precisam, é certo, mas para os nossos
não há nada.
É triste, mas é o que temos.
Carlos
Pinheiro
Sócio nº
143620 da Liga dos Combatentes
quarta-feira, 1 de março de 2023
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023
P1373: DO ANTÓNIO LÚCIO VIEIRA
Enviado pelo nosso camarada Manuel Frazão Vieira:
“A minha singela homenagem ao nosso companheiro António Lúcio Vieira, de
Torres Novas, que tão cedo nos deixou.
Foi poeta,
dramaturgo, argumentista, investigador e jornalista.
Dos muitos
poemas que escreveu, permitam-me apresentar o Lúcio como um poeta maior. Um
poeta sem "os privilégios dos arautos ou arengadas penaches".
De tantos que
me ofereceu e li, destaco:
ANDA, VAMOS AO
PASSADO
Anda, dá-me a tua mão. Vamos recordar.
Soltemos o olhar sobre os
campos da nossa infância
quando o meu avô domava a
terra e eu, alheio, o seguia
e sabia que me esperavas
ao chegar do Peral.
Anda, olha, ali é o
cabeço das mil aventuras. O mágico Lavradio
onde sonhávamos heróis e
olhávamos o futuro inda tão longe.
Tu apenas tão ausente e
eu sem saber que existe um futuro.
Que esse mistério do
futuro não se vislumbra assim tão longe.
Como catedral,
constrói-se pedra a pedra, ânsia a ânsia.
Só os dias, neste
percorrer quotidiano sem regresso,
se adivinham com certeza
e exatidão.
Vamos, anda. Olha ali a
escola, a minha matriz, no cume do outeiro;
o pejo da bata, sacola e
calção e aquele apelo feiticeiro
do deus das palavras que
me abriam mundos e me levavam
já então me levavam ao
mundo de outros mundos.
Além, um pouco abaixo,
janelas viradas à Arrangela, era a tua escola.
As meninas de batinha
branca e lacinho cor-de-rosa no cabelo.
Lembro-me, calçavas
soquetes de garridas cores e rias
rias de nós quando
passavas e os nossos olhos
rendidos, seguiam os teus
passos.
Anda, dá-me a tua mão.
Não te percas agora nesta
romagem ao rio já navegado.
Em silêncio. É melhor
olharmos em silêncio e escutar a música do tempo.
Sabes, ainda voga em mim
um tenaz desassossego
um anseio de galgar o
espanto desses dias
e nem tu sabias que
aqueles meus silêncios me vinham do apelo
trazidos pelos ventos da
serra, vindo das Sílfides
aquelas deusas que nos
chamam longe e nos querem perto.
E eu fui.
Não deixes a minha mão.
Só agora lhe sinto o benigno calor
da sã fraternidade dos
teus gestos e tanto, tanto dos teus passos.
Íamos ao rio: ainda te
lembras. Na Ascensão lanchávamos na relva.
E havia aquelas grutas de
mistério onde o rio nasce
e eu tão senhor de mim,
leviano, me afoitava.
Agora ris. Não, espera,
não deixes já a minha mão.
Depois de tanto palmilhar
as sete partidas agora estou aqui.
E é quase um bálsamo
sentir esse morno calor da tua mão na minha.
Vim para te ver. Mudaste.
São apenas os meus olhos que o dizem.
No resto, no silêncio,
ainda és sempre tu
quando me esperavas ao
voltar das aulas na carreira da tarde.
Acho que andarilhei uma
eternidade. Deixá-lo.
Neste quase silêncio das
nossas palavras recordo amores passados
lavo-me das paixões, dos
ódios e das mil utopias não cumpridas.
Cumpro agora a promessa
que te fiz nesse tão longe:
Um dia, menina-irmã,
voltarei, para viajarmos
de mãos dadas ao passado
destas acanhadas ruas
onde, como irmãos,
crescemos sem dar conta
e aos recantos das
memórias onde os nossos dias nos amaduraram.
Agora já posso olhar-te e
dar-te a mão.
Como um rio os passos
nunca voltam ao princípio.
Não desesperes, minha
irmã de infâncias e de sonhos:
Algures há uma foz onde o nosso mar nos aguarda roído de saudades.
(in António Lúcio Vieira, "25 POEMAS DE DORES E AMORES")”














