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segunda-feira, 30 de outubro de 2023

P1427: À MODA DO "KAMBUTA"...

PEQUENO TEXTO ESCRITO NO CALÃO DA NOSSA ZONA

Cá o Manelito Netito da nha Abozita Ti Maribieira, sim o Soba Kambuta dos Dembos, só pra na iri sozinhun chatiou a Piquena Namorado Esposa pra elan o acumpanhari pra servir di GPS, pruqui eli já na vai lá sozinhun, bem continua Manelito antes que a pilha do xinês dê o pummmm e já foste.

Bein bamus lá, eu e a nha Piquena Namorado Esposa já há muito tempo que andávamos para irmos até há Tabanca do Centro para carregamos baterias, porque já há uns anos para cá que o destino e a nossa saúde nos tem trocado as voltas, porra Manelito, desenrola o novelo e desembuxa, tá bein! vou cuntinuari, ó pá querein lá saberi?

Aqui há uns tempuns, o mê primun qui moram aclá prós lados da Bouan Bistan tlifnoumi cum mau feitiun e a ralharmin cum amiassans e tudun, a dzermin, tás a óbirin! ó tu e a tu Piquenan Namoradan baun á nha Tabanca, ó snãun bou aí eu e lebu o mê cãum e eli mijati nas tuans pernans, e atãun eu cheiun do medun, e a trimerin cmu barans berdins, fiquein a pinsarin si dibian iri ó nãun.

Uns dians a seguirin cá recebi um tligraman, di queim haviam di serin, do mê cumpadrin HOMIM GRANDIN, o RÉGLE, já na sein bein, eu cá já na doun a kotan ca perdigotan, bein eli é um bum cumpadrin, caté é mê bezinhun, eli é donun da Tabanca, e cá eu soun o donun da nha Sanzala, o mê cumpadrin no tligraman só mi dezian assim, ó Cumpadrin Sobam Kambuta tásmi a óbiri? Vai á nha Tabanca do Centro qui temuns umans contans antigans pra fazerin e a justarin tás a óbirmim e mais na digun, dizinrascatim, teins aí a tuan capueiran dus passaruns di ferrun bein acabalun da abiouan da sextan feiran mas na ti isqueçans, di trazerin a tu Piquenan Namoradan pra serin tistimunham, nãun du Jiubáns nãun, bora lá Soba Kambuta bein atéa á Nha Tabanca na ti isqueçans, e cá o melgan, pican miolus cum medun di arripiarin na pudian dezerin nãun, e mains na digun pruqui a pilhan do xinês já está a chatiarin.

Meus amigos da Tabanca do Centro, não tenho palavras para escrever, para agradecer a atenção que tiveram comigo e com a Nha Piquena Namorada Esposa, eu já há uns anos que não participava, a saúde tem-nos sido madrasta, só consigo dizer e escrever, obrigado a todos/as e até qualquer dia, aqui ou noutro lado, está a ser difícil, desejo muita saúde, alegria, boa disposição, paz e amor nos vossos lares, para mim melhores dias virão, e dia 24 de Novembro lá estarei na CASA AMARELA mais uma vez.

Abreijos meus e da nha Piquena Namorada Esposa para todos/as.

"Manuel Kambuta dos Dembos"

 

sábado, 22 de dezembro de 2018

NATAL DE 2018

O Manel "Kambuta" Lopes e a sua "namorada" Hortense, como é habitual na época natalícia, 
enviaram-nos uma mensagem "desejando a todos os camarigos Tabanquenses, 
um feliz Natal e um ano 2019 recheado de boas surpresas".


sábado, 9 de dezembro de 2017

P975: O "KAMBUTA" FAZ PROVA DE VIDA...

Apresentamos um texto que nos foi enviado pelo nosso camarigo Manuel "Kambuta" Lopes, vítima de um acidente doméstico que o atirou para o Hospital e o impediu de estar presente no nosso último convívio. 
A convalescer em casa - e no estilo que já lhe conhecemos - o Manuel não quis deixar de agradecer o apoio que os amigos lhe proporcionaram. As imagens que enviou não sofreram qualquer alteração, para preservar a genuinidade dos seus sentimentos.
MP

AGRADECIMENTO

A muito custo consegui levantar-me da minha cama para fazer a minha obrigação – tirar duas ou três fotos e escrever algumas palavras de agradecimento.

Informo os meus queridos(as) e bons amigos(as) que felizmente já me encontro deitado na minha caminha, no meu simples e modesto lar.


Tive alta do Hospital Santo André, em Leiria, onde fui bem tratado, Vim para casa para recuperar, mas tenho noção e a certeza de que o meu caso é muito complicado, mas com sangue frio e toda a minha força de vontade de viver vou certamente superar mais este difícil obstáculo.

Do fundo do meu coração quero agradecer a todos os meus queridos e bons amigos – que são a minha «PURA FAMÍLIA» - tudo o que fizeram por mim neste terrível e difícil momento da minha vida. Falando com eles ao telemóvel ou pessoalmente eu ia esquecendo o terrível sofrimento, pois eles transmitiam-me toda a força e coragem de que precisava, o que muito me ajudou.


No momento do acontecimento, um acidente doméstico que me destruiu a prótese da anca direita e todo o fémur, a partir desse momento passou pela minha cabeça o pensamento que era o meu fim, era o triste momento de ir fazer companhia à minha filhinha. Deitado no cimento, ainda tive a lucidez para com a minha boca seca de tanta dor e sofrimento, contactar pelo telemóvel o meu querido amigo Manuel Mendes, contando-lhe o sucedido.

O Manuel é um Senhor que mantém dentro de si toda a bondade; é uma força da natureza inigualável, um Homem com H grande que soube acalmar-me e transmitir à minha esposa os melhores conselhos apontando-nos o melhor caminho para sair daquela terrível situação.

O Manuel Mendes - a quem trato por “Tio Mendes” - ainda teve a amabilidade, iniciativa e sangue frio para transmitir o sucedido pelo telemóvel aos meus queridos e bons amigos Bernardino Peixoto e Miguel Pessoa. Estes amigos tiveram a gentileza de informar todos os meus queridos e bons amigos que, de imediato, tentaram (e conseguiram!) ajudar-me por todos os meios ao seu alcance – contactos por telefone, por mail, comentários no blogue, visitas no hospital, ou incluindo-me nas suas preces.


Amigos, graças a todos vós estou no mundo dos vivos, fruto de toda a força, coragem e ânimo que me transmitiram. A todos vós agradeço do fundo do meu coração. Tudo o que me fizeram até este momento não tem preço.

Como disse, estou em casa a recuperar, mas a procissão só agora saiu da igreja, ainda não entrou no adro. Sei e tenho a certeza de que tenho pela frente um longo caminho, um trilho muito sinuoso cheio de obstáculos muito delicados e perigosos; mas com as forças transmitidas por todos estes bons e queridos amigos, nomeadamente os meus camaradas combatentes do Ultramar, vou certamente conseguir ultrapassar com êxito este obstáculo.

AMIGOS, EM FRENTE QUE ATRÁS VEM GENTE!..

Manuel Kambuta dos Dembos 

terça-feira, 24 de outubro de 2017

P960: UM DESABAFO DO KAMBUTA

El-Rei D.Dinis deve estar às voltas no túmulo,
revoltado com o que está a suceder…

UMA FICÇÃO MINHA, A CONDIZER COM A TRISTE REALIDADE, A DESTRUIÇÃO DAS MATAS NACIONAIS

Seguíamos os dois dentro do carro, eu e a Hortense, Estávamos então a entrar nas tristes matas nacionais, totalmente queimadas, cuja visão nos provocou fortes exclamações de pesar ao vermos tanta destruição.

Ao chegarmos junto da Ribeira de São Pedro deparámos com um casal já muito velhinho deitado no chão. Pensámos que tinham sido vítimas do fogo, por isso parámos o carro e eu tentei ver o que se passava.

Com os conhecimentos de enfer-magem adquiridos no decorrer da minha comissão em África, procurei de imediato socorrê-los. Abeirei-me dos dois corpos, repa-rando que estavam inanimados; logo tentei reanimá-los da melhor maneira possível. O velhinho casal lentamente começou a voltar ao normal, iniciando uma série de desabafos entrecortados com uns gemidos - «Ai, a minha linda mata toda queimada!» - exclamavam.

Calmamente fui-lhes fazendo perguntas, ao ponto de identificar o velho casal, posto o que chamei a Hortense perto de mim e segredei-lhe dizendo quem eram.

Com a nossa ajuda o casal lá acabou por se levantar, parecendo então que nos tinham reconhecido. O velhinho inesperadamente excla-mou, «Ai os meus primos, o Manel Kambuta dos Dembos e a esposa!».

Abraçámos-no os quatro mas não houve conversa para matar saudades. Eu só lhe fiz a pergunta - “Primo D.Dinis, depois de tantos séculos da vossa partida para o túmulo para um descanso merecido, depois de tanto terem trabalhado para bem da nossa Pátria, do nosso lindo Portugal, de terem mandado semear e plantar as lindas matas nacionais, afinal o que vos levou a voltar agora?”

O meu primo D. Dinis e a esposa, a minha prima Isabel de Aragão, responderam que estavam nos seus túmulos dormindo um sono profundo, quando tiveram um triste sonho que os fez acordar. E explicaram que uns criminosos sem coração, sem qualquer amor à pátria, tinham ateado o fogo e destruído as nossas lindas matas nacionais. O sonho era tão real que acordaram, e de tanto espernearem, rebentaram com o túmulo e saíram correndo como loucos só parando naquele local. E caíram no chão desmaiados ao verem tanta falsa liberdade, tanta má educação, tanta maldade, tanta falta de civismo, tanta falta de amor pelo País, tanta destruição.

E, digo eu, quem tem respon-sabilidades para resolver situações como a protecção das matas não tem feito muito por isso. E os incendiários ficam em liberdade, prontos para prosseguirem a sua nefasta acção.

No tempo da velha senhora, por muitos criticado, no entanto as matas mantinham-se sempre limpas, havia guardas florestais e casas da guarda. Quando tudo isso terminou, as matas nacionais ficaram abandonadas e à mercê destes criminosos.

O meu primo D. Dinis deu-me um forte abraço dizendo - “Primo Manuel Kambuta, és de uma geração de jovens que tudo fizeram na guerra do ultramar por amor ao nosso País, e que hoje se sentem revoltados com estas situações assim como eu me sinto. Peço-te que não te canses de escrever desabafando todas as verdades, que quem diz a verdade não merece castigo. Esta gentalha que anda a destruir o nosso País passará um dia a ser cinza e pó, não vai levar nada consigo, para quê tanta maldade, tantas destruições, roubos, fogos, mortes?”

O meu primo D. Dinis deu-me um último abraço de despedida - “Vou-me embora muito triste e desgostoso com tudo o que estou a ver, prefiro morrer outra vez e voltar para o meu túmulo; e prometo nunca mais voltar a um espaço que mandei semear e plantar com tanto amor e carinho”.

Esta minha ficção foi escrita com todo o respeito e dedicada ao nosso Rei D.Dinis, com muita mágoa pela destruição das matas que ele mandou semear e plantar para bem do seu e nosso amado País.

Manuel Kambuta dos Dembos


sábado, 25 de fevereiro de 2017

P886: UM AGRADECIMENTO DO MANUEL KAMBUTA

ESTE CONVÍVIO PARA MIM
FOI UMA TERAPIA
Este convívio de hoje, de Combatentes do Ultramar da Tabanca do Centro na minha linda Vila de Monte Real, para mim foi uma mais-valia, veio na melhor momento, posso afirmar que, para mim foi mais útil que muita medicação que tenho tomado, devolveu-me a alegria e a felicidade, que se tinha afastado de mim, que, me tinha virado as costas já há algum tempo por doença.

Hoje, sim, na companhia dos bons amigos valeu a pena, foi o carregar das baterias para eu continuar a seguir o trilho da vida com alegria e felicidade.

Foi aqui na Tabanca do Centro que, um dia levado por um amigo Combatente, descobri o caminho certo para que encontrasse o verdadeiro Manel Kambuta dos Dembos que sempre tinha sido, mas que por infelicidade se encontrava perdido.

Assim que me levantei da cama e reparei que se aproximava a hora de ir para o convívio de Combatentes do Ultramar na Tabanca do Centro, senti algo estranho que se apoderou de mim, uma forte emoção e uma alegria imensa.

Ao chegar ao locar do encontro dos camarigos para o convívio, senti-me como peixe na água na companhia de todos estes meus amigos, que para mim fazem parte da minha verdadeira família.

Desde já lhes quero pedir desculpa e perdão por alguma falha minha, pois com tanta alegria e emoção minha talvez falhasse em algum momento. 

Também quero agradecer a todos pelo paciência que tiveram para me aturarem, com esta minha maneira de ser, irrequieto e falador, e pelo carinho que como sempre me recebem, a mim, à minha pequena Namorada / Esposa e ao meu Filhinho.

Um muito obrigado e abraços para todos, e, no dia 29 de Março, se Deus quiser, irão aturar-me outra vez! Tudo de bom para todos os meus bons amigos no geral.

Manuel “Kambuta” dos Dembos

domingo, 27 de novembro de 2016

P847: O SAGRADO TERÇO NEGRO

"QUERIDO FILHO, VAIS PARA A GUERRA, 
LEVA O MEU TERÇO"
Ainda guardo religiosamente o terço negro que a minha querida Mãe colocou no meu pescoço no momento que me despedi dela para ir para a guerra nos Dembos, norte de Angola, em 1973.

“Querida Mãe, já chegou o carro que me vai levar para o Quartel de Santa Margarida, para embarcar logo à tarde para Angola, tenho que ir embora. Mãe, por favor, não chore mais que não vale a pena, não me resolve nada, lembre-se só disto que lhe digo, quanto mais depressa eu for, mais depressa regresso”.

Naquele momento, os meus braços e os braços dela entrelaçaram-se num apertado abraço e os dois rostos uniram-se em beijos; resolvi separar-me da minha mãe:

“Minha querida Mãe, vou embora, tenho que ir, adeus e até ao meu regresso”.

As enrugadas mãos da minha Mãe prenderam-me por uns momentos e, chorando e soluçando, foi dizendo: “Meu querido filho, não consigo fazer nada para te livrar da maldita guerra, não posso ir no teu lugar…”


Foi então que tirou do seu pescoço o seu sagrado terço negro e o colocou no meu pescoço, pedindo-me por favor e do fundo do seu coração para eu o usar diariamente de noite e de dia, nos bons e maus momentos e na guerra; que o usasse até ao momento de eu lhe dar o beijo e abraço no meu regresso com a comissão terminada; para que eu, ao olhar e sentir aquele sagrado terço benzido, me recordasse que nele ia todo o amor que ela tinha pelo seu querido filho, que olhasse para ele e me recordasse da minha querida Mãe.

Tudo isso eu fiz, só o retirava do meu pescoço nas operações feitas pelas matas, para não o perder ao prender-se nas árvores ou no capim, mas, colocando-o no bolso.

Para mim não foi fácil, no decorrer dos meses; ao olhar para o sagrado terço a imagem da minha querida Mãe desapareceu do meu pensamento. Ao escrever-lhe um aerograma pedi para ela me enviar uma foto sua, mas mesmo assim aquela imagem desaparecia.
Foram momentos muito tristes para mim, que recordo agora com os olhos rasos de lágrimas; mas o sagrado terço negro que a minha querida Mãe me colocou ao pescoço naquele dia, guardo-o religiosamente, pendurado na linda bandeira do meu País, por quem um dia jurei derramar o meu sangue até à ultima gota.

Hoje mesmo coloquei aquele sagrado terço no meu pescoço e senti o cheiro do rosto da minha querida Mãe, como o tinha sentido no momento em que mo tinha colocado naquele dia. Também senti o cheiro a sangue, suor e lágrimas derramado na guerra nos Dembos, norte de Angola.

Manuel Kambuta dos Dembos

domingo, 11 de outubro de 2015

P706: MEMÓRIAS DO KAMBUTA

JUNTO AO FORTIM DO DANGE, DEMBOS, ANGOLA
EM TEMPO DE PAZ ACONTECEU TRAIÇÃO


Na década de sessenta/setenta, de 1961 a 1975, tempo que durou a guerra do ultramar, os soldados que foram chamados e obrigados a entrar na guerra eram rapazes na flor da idade, obrigados a deixar para trás uma vida, e mais importante, a sua juventude, para se tornarem Homens com “H” grande, responsáveis - como se dizia, homens de barba rija – que, sofrendo, souberam dignificar com sangue, suor e lágrimas a sua linda Bandeira e o bom nome da sua Pátria, Portugal, e que entre si souberam criar dentro do seu peito uma amizade pura, respeitando o lema “Um por Todos e Todos por Um”.

A verdadeira e triste história que vou contar mostra como era cumprido esse lema “Um por Todos, Todos por Um”. Aconteceu depois do 25 de Abril de 1974, já quando se falava que a guerra tinha terminado e que passava a haver paz.

No Norte de Angola, nos Dembos, fazíamos as colunas pela estrada que ligava Luanda a Carmona - apelidada de estrada do café. A coluna era comandada pelos nossos militares, era a nossa tropa a proteger os camionistas assim como todos os veículos civis; havia por esse motivo controlo na zona protegida pelo meu Batalhão BART/6222/73 - no Piri, onde se encontrava uma Companhia nossa. Era uma altura em que os grupos dos partidos de libertação já tinham começado a deixar as matas e a aquartelar-se nas povoações.

Quando ninguém o imaginava aconteceu o pior junto ao Fortim do Dange, com duas viaturas militares nossas. Não recordo a que Quartel pertenciam mas, ou eram de Nambuangongo, ou de Santa Eulália, ou do Zemba. As viaturas dirigiam-se ao Quartel do PAD (*), na vila de Quibaxe, local onde se encontrava a minha companhia. Tinham como missão recuperar uma viatura que tinha sido reparada naquela unidade.

Os militares dessas Berliet aproveitaram para se incorporar na coluna desse dia, colocando-se na frente. Depois de já terem passado a ponte do rio Dange inesperadamente repararam que havia barro na estrada. Tinha chovido torrencialmente e a Berliet que ia à frente ao passar por aquela mancha de barro entrou em despiste e tombou, tendo os militares sido projectados pela mata fora.
Nesse momento, do outro lado da estrada rebentou uma granada perto da viatura tombada e dos militares espalhados pela mata, feridos. O rebentamento não causou ferimentos corporais a ninguém, felizmente, embora fosse intenção do IN causar danos, matar.

Do acidente não houve mortos, mas um ficou com uma perna partida, outro com um braço partido e os restantes com vários ferimentos, e aterrorizados.

O nosso quartel era o mais próximo; fomos por isso chamados, tendo-nos deslocado de imediato com o piquete e a ambulância em socorro dos acidentados. 

Ao chegarmos encontrámos um cenário aterrador; ainda hoje, ao recordar, custa-me muito, caiem-me as lágrimas por tudo o que presenciei - o sofrimento e os rostos aterrorizados dos militares e dos civis que integravam a coluna, estes últimos prontificando-se a fazer a protecção com as suas armas, utilizando para o efeito as armas dos militares feridos.

Na ambulância seguiram os mais necessitados - os feridos mais graves - sendo os restantes transportados para a nossa enfermaria em viaturas civis.

Foi então que percebemos as causas do acidente. Os elementos do grupo IN daquela zona, para mostrarem a sua força aos grupos rivais de outros Partidos, colocaram, metidos e cobertos com o barro, uns engenhos artesanais em aço, tipo aranha, com várias bases em bicos afiados. 

Resultou daí o rebentamento dos pneus, o que fez com que a Berliet se despistasse, sem que o condutor pudesse fazer algo para o evitar. Para agravar a situação lançaram então uma granada para causar danos aos nossos soldados e civis.

Na enfermaria o trabalho foi todo feito sem olhar a esforços pelo nosso médico e por nós, enfermeiros, tendo também participado o enfermeiro do PAD. Aos dois militares com a perna e braço partidos foi-lhes aplicado gesso, tendo sido evacuados para o hospital militar de Luanda. Os outros feridos ligeiros foram todos socorridos por nós; o pior de tudo era o trauma que todos eles apresentavam, pois, nada tinha previsto tal acontecimento. Na nossa cabeça reinava a paz e não a guerra - era o que nos transmitiam a todos nós militares no norte de Angola.

Tudo aquilo foi muito doloroso para aqueles nossos camaradas. O alferes e o furriel das duas viaturas queriam regressar ao seu quartel e o nosso médico aconselhou que eles passassem a noite na nossa enfermaria. Nós enfermeiros, sem regatear, para haver mais espaço juntámos as camas, onde a muito custo os deitámos um por um.

O mais traumatizado, que precisava de mais atenção, era o enfermeiro dos acidentados; ofereci-lhe a minha cama, onde o deitei e amarrei cuidadosamente com os lençóis, tendo passado a noite toda sentado numa cadeira na enfermaria, de vigia aos nossos camaradas que sofriam. A muito custo lá adormeceram mas, durante a noite um levantou-se aterrorizado a gritar, eu tentei calmamente deitá-lo mas ele caiu na cama inanimado. 

Chamei então o médico, que o socorreu, tendo-o colocado a soro; aconselhou-me a vigiá-lo de perto, pois estava sob o efeito do que se tinha passado. A situação deste camarada acabou afinal por não melhorar, tendo que ser também evacuado para o hospital militar de Luanda.

Durante a noite alguns destes camaradas, perturbados por sonhos ou pesadelos, gritaram em altos gritos de terror, o que me levou a tentar ajudar a acomodá-los, aconchegando-os nas camas com as mantas. Ainda hoje choro ao recordar aquele cenário de sofrimento, mas, sinto um fiozinho de satisfação no meu peito pelo meu dever cumprido - o que fiz foi feito de coração aberto, para bem dos meus camaradas, combatentes como eu.

No dia seguinte depois do almoço já se encontravam um pouco mais calmos; o nosso pessoal foi escoltá-los ao quartel deles, sendo que muitos não recordavam o que tinha acontecido.

A amizade que une esta geração sofredora soube criar entre si laços de companheirismo e solidariedade que irão durar até ao último momento da sua vida. Estes rapazinhos, que as circunstâncias transformaram rapidamente em Homens com H grande, não precisam que os tratem por heróis, mas sim que os respeitem e que lhes dêem o que merecem, que é a devida atenção.

Manuel “Kambuta dos Dembos” Lopes

(*) DAP - Grupo de apoio de  militares com especialidade de mecânicos - auto, electricistas-auto, que davam apoio aos batalhões da zona, neste caso na zona dos Dembos, Quibaxe.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

P695: KAMBUTA - A RECEPÇÃO AOS "MAÇARICOS"

FUI PARA A GUERRA PARA OS DEMBOS,
NORTE DE ANGOLA, EM 1973.
REGRESSEI EM 1975 - PARECE QUE FOI ONTEM

Já lá vão 42 anos, parece que foi ontem.
Recordo com alegria e satisfação tudo o que já lá vai, pois fui daqueles Combatentes que foram para a guerra do ultramar na década sessenta/setenta que tiveram a felicidade de ir e voltar com vida, o que não aconteceu a muitos que tombaram por lá. E a outros que já tombaram por cá e não podem contar as suas histórias como eu e outros companheiros.

Foi no longínquo ano de 1973, mas bem próximo na minha memória. A nossa companhia desembarcou no aeroporto de Luanda às nove horas da manhã, fomos colocados em Berliets que nos esperavam e que nos levaram para o Grafanil. Eu era um rapazinho nascido e criado numa aldeia rural do Vale do Lis, habituado a viver e crescer na aldeia, nos campos e pinhais e que não trocava a sua aldeia por nenhuma cidade do mundo. Afinal, mal conhecia a minha cidade de Leiria. Lisboa, essa, só de passagem quando fui para o aeroporto para embarcar para Angola.

Assim que desembarcámos e ao passarmos pelas ruas da cidade de Luanda em direcção ao Grafanil, tanto eu como a maioria dos meus camaradas íamos pasmados e de boca aberta ao vermos tanta beleza - uma cidade nova em tudo e muito linda, muito colorida, com as lindas acácias e lindos e perfeitos prédios, uma cidade maravilhosa onde se viam muitas pessoas brancas e negras, estas em maior número.

Passámos quatro dias no Grafanil. Havia ali um cinema e um bar onde podíamos comprar bebidas; foi aí que conheci e comecei a beber groselha e coca-cola.

A primeira lição que aprendi em Angola foi logo no primeiro dia, à tardinha, ali no bar do Grafanil. Aproximei-me de uma enorme árvore com suculentos frutos. Antes de apanhar um para provar não o quis fazer sem me esclarecer pois não sabia quem era o dono. Ia a passar um militar negro com a farda de camuflado já muito velha e fiz-lhe esta pergunta «Ó preto, sabes dizer-me que árvore é esta? E será que estes frutos são bons para comer? Se forem, posso apanhar um?»

O soldado negro parou, ouviu as minhas perguntas e calmamente respondeu «Meu amigo, vê-se bem que és maçarico e ninguém te ensinou o mais importante, saber falar com as pessoas de outra cor. Não te preocupes, amigo, eu vou ensinar-te. Olha, trata a pessoa de outra cor por Patrício. Este nome aqui em Angola quer dizer que somos da mesma cor. Queres ver como vou tratar aquele branco?” Ele chamou um soldado branco velhinho por Patrício, e entenderam-se; tomei consciência de que era a primeira lição que eu aprendia na minha comissão.

Ainda deu para ir com os meus colegas a pé conhecer algumas ruas e avenidas e as praias de Luanda e a bela e maravilhosa baía. Gostei. Chegou então o dia de partirmos com destino a Quibaxe, que ficava a duzentos quilómetros de distância. Para meu espanto o nosso transporte foi em camionetas de taipais altos que por cá eram utilizadas para transportar porcos e vacas… Fizemos o percurso em velocidade lenta; tendo saído de madrugada chegámos a Quibaxe à noite; mantivemo-nos em pé durante todo o trajecto, encostados aos taipais e de arma em punho, seguindo as ordens do nosso Comandante.

Lembro que passámos ao Caxito, ao Úcua, onde páramos. Fiquei muito triste e perturbado ao ver crianças e idosos negros falando o português a pedir a nossa ração de combate, dizendo que tinham fome. Pensei no momento «Então, afinal diz-se que Angola é Portugal, mas em Portugal nunca vi isto! Que guerra é esta com toda esta gente com fome a pedir comida?».

Antes de chegarmos à Pedra Verde, a coluna de camionetas de transporte de gado parou. Um oficial avisou para termos muita atenção, que a todo o momento podíamos sofrer uma emboscada. Nenhum de nós sabia o que era uma emboscada… e logo todos nós ali metidos em gaiolas de porcos e vacas…
Mesmo ao passarmos junto da Pedra Verde ouvimos um tiro, ali bem pertinho de nós. Toda a coluna parou, ninguém se mexeu. Alguém foi perguntar-nos se tínhamos sido nós - não tinha sido ninguém da nossa malta, tinha sido na mata… e lá seguimos viagem.

Ao passarmos junto duma enorme Sanzala de nome Quesso, mesmo à beirinha da estrada, fiquei muito feliz e contente e com outra impressão diferente à que trazia na minha cabeça, ao ver no meio da Sanzala num alto mastro a minha linda e amada Bandeira. Ali estava representado o meu País, Portugal. Afinal aquele povo era tão português como eu.

Ao chegarmos ao Piri foi o fim da macacada. Estavam algumas Berliets carregadas de soldados em altos berros e cantorias, com muitos cartazes e uma improvisada câmara de televisão... Eram os soldados da companhia que íamos render que tinham vindo ali ao controlo para nos receberem e nos escoltarem até Quibaxe,

Foi um tormento até chegarmos ao Quartel… Para nós, que não estávamos preparados, foi uma cena um bocado revoltante para mim. Ainda recordo os cânticos que eles entoavam - e que nós, afinal, viríamos a utilizar mais tarde quando, no fim do nosso tempo, fomos rendidos por novos maçaricos…

«Maçaricos já chegaram, ai ai ai que coisa boa, fazem cá operações, fazem cá operações, e nós vamos para Lisboa»
«Ó maçarico, trabalha agora, olha a velhice que se vai embora, que se vai embora, que se vai embora»
«Ora vai para a mata, ó meu malandro, por tua causa é que eu aqui ando, é que eu aqui ando, é que eu aqui ando»

Mas nem tudo foi mau, todos nós debaixo de uma tremenda carrega de nervos, eu só pensava «Mas afinal que mal fiz eu para estar a receber esta palhaçada? Ai minha mãe, por favor vem buscar-me, isto é só gente doida».

Ao chegarmos em frente ao Quartel de Quibaxe fomos obrigados a dar a volta de honra por toda a vila, a servir de palhaços, mas finalmente lá entrámos no grande e maravilhoso Hotel 5 Estrelas que iria ser a nossa casa durante toda a nossa comissão.
Assim que entrámos à porta de armas passou a reinar finalmente a calma e o sossego; tudo serenou, desembarcámos das pocilgas dos porcos que não deixaram saudades a ninguém e fomos recebidos pelo Comandante velhinho e por todos os “veteranos”. 

Os velhinhos militares tentavam encontrar no meio da nossa malta conterrâneos seus. Eu encontrei um amigo de uma aldeia vizinha, que por sinal veio a ensinar-me o ABC daquela guerra e de toda aquela zona que eu desconhecia, o que me permitiu levar a bom termo uma comissão sem grandes percalços.

A noite chegou e a hora do tacho também. Fomos todos - velhinhos e maçaricos - para o refeitório Foi uma festa de arromba, comida boa e à farta com direito a baile, feito com um conjunto musical da Sanzala do Banza Quibaxe, que faziam inveja a qualquer um de cá da Metrópole. 

Os velhinhos, para nos animarem e para esquecermos a praxe que tínhamos levado, fizeram-nos uma surpresa. Foram às sanzalas vizinhas, convidaram as raparigas para participarem no baile, onde todas elas deram festival. Fizeram amizades com todos nós, maçaricos, agarraram-nos e ensinaram-nos a dançar merengue. Foi lindo, e no final cada um de nós ficámos a saber quem passava a ser a nossa lavadeira para toda a nossa comissão.

Foi em 1973, mas parece que foi ontem. Recordo esses momentos com alegria e satisfação.


Manuel “Kambuta dos Dembos” Lopes