terça-feira, 23 de novembro de 2021

P1318: FIGURA DE DESTAQUE NOS U.S.A. MAS NÃO EM PORTUGAL...

               JOÃO RODRIGUES CABRILLO

Nos Estados Unidos da América, e mais propriamente ao longo de toda a costa do Pacífico, o navegador Cabrillo é figura histórica de destaque.

A sua nacionalidade é discutida entre português e espanhol. A coisa complica-se pelo facto de todas as descobertas por ele efectuadas ao longo de toda a costa americana do Pacífico (não se sabe bem até que ponto norte da mesma chegou antes de morrer) terem sido feitas ao serviço de Castela.

Na história norte americana ele está em paralelo com os grandes conquistadores como Cortez (Também andou pela américa central).

Existem estátuas e padrões em memória do mesmo em diversas cidades costeiras da Califórnia.

O nome de família "Cabrillo" existe nas Beiras, tanto Beira Alta como Baixa, existindo mesmo uma povoação que se diz de origem desta família.

Estranhamente em Portugal o seu nome não surge junto dos "descobridores" mais conhecidos.

Exemplos inumeráveis: Cabrillo Beach/Los Angeles; Cabrillo Museu e Aquário/San Pedro California;Caprillio Liceu/Long Beach Cal;Cabrillo auto estrada/California; Cabrillo Monumento /San Diego Cal.+Réplica fiel da Caravela San Salvador usada por Caprillo localizada no Museu Marítimo de San Diego/Cal.

 

João Rodrigues Cabrillo, ou Juan Rodriguez Cabrillo para os espanhóis, foi um soldado e explorador português ao serviço de Espanha. É famoso nos Estados Unidos por ter sido o primeiro europeu a explorar a costa norte-americana do Pacífico em 1542-1543.

Nacionalidade disputada, afirmando os espanhóis que sendo ele de família portuguesa terá no entanto nascido em Espanha (Palma Del Rio a 13 de Março de 1499) e ali sido educado.

Monumento a João Cabrillo
em Montalegre
No entanto mais de uma localidade das Beiras portuguesas afirma ter Cabrillo lá nascido, e que familiares com esse mesmo nome ainda por lá vivem. O que é no entanto certo é que este, de origens humildes, foi educado em Espanha.

Desde jovem se tornou um navegador de renome navegando para as Índias Ocidentais fazendo parte de uma grande armada de 30 navios e 2.500 soldados que colonizou a ilha de Cuba.

Em 1519 foi enviado para o México com a missão de aprisionar o então revoltado Herman Cortez que tinha desobedecido a ordens reais aquando da conquista dos Aztecas.

A missão foi mal sucedida pois Cabrillo juntou-se a Cortez no assalto e saque da capital azteca Tenochtitlán (Hoje Mexico City).

Depois da derrota dos Aztecas juntou-se á expedição militar de Pedro Alvaredo na área geográfica dos actuais México do Sul, Guatemala e El Salvador.

Em 1530 Cabrillo tornou-se extremamente rico com a exploração de minas de ouro na Guatemala. A partir de um porto na costa guatemalteca Cabrillo controlava as exportações e importações para Espanha, não só a partir da Guatemala como também de outras regiões do Novo Mundo.

Aplicou pesados impostos às populações locais e usou muitos dos habitantes masculinos como mineiros escravos nas suas minas de ouro. Ao mesmo tempo entregava os elementos femininos das populações como escravas dos soldados e marinheiros, quebrando deste modo, e conscientemente, todo o tecido social e familiar da vasta região.

Neste período terá tido uma companheira indígena da qual teve dois filhos.

Em 1532,já enormemente rico e famoso, voltou a Espanha onde se casou em Sevilha com Beatriz Sanchez de Ortega. Ela acompanhou-o de volta à Guatemala tendo o casal tido dois filhos.

Cabrillo foi então contratado pelo então Vice-Rei da Nova Espanha, António de Mendoza, para explorar a costa americana do Pacífico, na esperança de serem encontradas mais cidades ricas e, ao mesmo tempo, descobrir uma então mítica ligação do Pacífico ao Atlântico.

Recebeu também instruções para tentar encontrar-se com Francisco Vasquez de Coronado, enviado por via terrestre desde o Atlântico em direcção ao Pacífico.

Cabrillo, inteligentemente, construiu com capital próprio a nau almirante da expedição navio San Salvador (Hoje reconstruído à escala exacta, assim como interiormente decorado, atraindo milhares de visitantes anuais).

Com o seu investimento de capital na construção do maior navio da expedição, tornado sua propriedade pessoal, colocou-se em óptima posição para beneficiar de possíveis ligações comerciais a serem estabelecidas, ou tesouros encontrados pela expedição.

A 24 de Junho de 1540 partiu do actual porto de Manzanilho/México com o seu navio almirante, acompanhado de dois outros, o Vitória e o San Miguel.

Quatro dias depois encontraram uma baía que forma um excelente porto de abrigo, actualmente denominada San Diego Bay.

Exploraram seguidamente as ilhas próximas da costa da Califórnia, Santa Cruz, Catalina e San Clemente.

Foram encontradas inúmeras pequenas localidades povoadas ao longo da costa, todas elas sem quaisquer riquezas (Curiosamente, os espanhóis só voltaram a estas áreas em 1769 (!), fazendo-se então acompanhar de soldados e missionários).

A exploração continuou rumo ao Norte tendo atingido um local que denominaram de Cabo de Pinos (actual Point Reyes).

Os fortes temporais do Outono obrigaram-nos a voltar para o Sul da costa até à Baía de Los Pinos (actual Monterey Bay).

Neste local da costa, e devido aos densos nevoeiros aí normais, não descobriram a entrada para a Baía da actual cidade de Säo Francisco (San Francisco Bay). Curiosamente, este erro devido às densas neblinas foi repetido por numerosos navegadores nos dois séculos seguintes.

A expedição regressou então a S.Miguel onde passou o Inverno. Na véspera de Natal foram atacados por guerreiros indígenas (Tongva). Procurando auxiliar os seus homens Cabrillo escorregou e caiu sobre algumas pedras pontiagudas.

Posteriormente o ferimento veio a criar cangrena, morrendo Cabrillo a 3 de Janeiro de 1543. Julga-se ter sido sepultado na ilha de Catalina.

A expedição voltou a navegar ao longo da costa e rumo ao Norte. Terá, segundo se julga, atingido a costa do actual Estado Norte-americano do Oregon. Regressaram à Natividad em Abril de 1543.

A expedição de Cabrillo não atingiu os objectivos de encontrar ricas cidades costeiras, a mítica passagem entre o Pacífico e o Atlântico, ou o encontro com o explorador terrestre Coronado. Obteve no entanto uma vastíssima área costeira norte-americana a partir do México. Esta área viria a ser efectivamente ocupada e colonizada pela Espanha dois séculos mais tarde.

E... mais um português famoso em muitos locais, menos em Portugal!

Para além da auto-estrada costeira da Califórnia, esta ponte tem o seu nome.

                                                                                                                                         José Belo

terça-feira, 16 de novembro de 2021

P1317: RIOS QUE FICARAM NA NOSSA MEMÓRIA

Recuperamos um texto do nosso camarigo Juvenal Amado, publicado no blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné há já uns aninhos (Julho de 2015), sendo por isso natural que muitos não o tenham ainda lido. Com a devida vénia ao autor e à Tabanca Grande, que o publicou.

                   A VIDA TAMBÉM CORRE COMO UM RIO

Na minha terra existem dois rios que se juntam, um vindo de Nascente e outro vindo de Poente formando assim um só rio denominado Alcobaça. São rios dóceis quase inexistentes, praticamente tapados por arbustos que crescem nos seu leitos e margens durante grande parte do ano, mas no entanto, não deixam de crescer e avolumar-se quando as chuvas caiem nalguns anos com maior precipitação sobre toda zona de Alcobaça.

Nessas alturas as águas descem as encostas, engrossam ribeiros que por sua vez descarregam no rio Baça ou no Alcoa provocando cheias, prejuízos, inundações em habitações, interrompem estradas e caminhos, inundam os campos de cultivo que vão desde Mendalvo até aos campos da Fervença com as outrora famosas Termas da Piedade, aos do Valado dos Frades, Cela Nova e por fim à sua foz na Nazaré, onde o mar fica barrento durante o tempo em que duram as chuvas.


É uma atração ir à Cela Velha, e lá do alto, admirar os campos todos encharcados pelo então rio Alcobaça, onde desapareceram os canais de irrigação para a agricultura e por vezes só se vêm as árvores de fruto acima do nível das águas. Quando vivia na Av. Bernardino de Oliveira onde morei entre 1962 e 1980, o rio Baça, que nasce na localidade de Vimeiro, passava do lado de lá das casas e da estrada. Nessa altura inundava os terrenos e lembro-me bem da aflição dos moradores do pátio do Joaquim do Talho mesmo à entrada da minha rua, também popularmente conhecida por Portas de Fora, quando as águas o invadiam a ponto de pôr em risco as moradias ao nível térreo. Não podíamos ir à Fonte Nova, que para além de local de namoro para os/as alcobacenses, também tinha água corrente e servia de passeio no Verão para ir buscar água numas bilhas de barro, que a mantinham fresca.

Dizia-se que quem bebesse água daquela fonte ficaria para sempre ligado à outrora vila de Pedro e Inês e daí o poema da canção que Tavares Belo escreveu e a cantora Maria de Lurdes Resende imortalizou, que diz “Quem passa por Alcobaça/ Não passa sem lá voltar”.


O rio atravessa grande parte da hoje cidade, por baixo de algumas ruas e acabava por galgar por cima da ponte, invadir a Avª João de Deus, arrastando alguns carros, pois os muros que o apertavam acabavam por ceder. Também ali exercitei a pontaria com espingarda pressão-de-ar atirando às ratas, que eram quase do tamanho de coelhos bravos e quem sabe, se não devo a isso a boa nota que tive na carreira de tiro em Coimbra durante a recruta.

As águas do Baça também invadiam tumultuosas o próprio Mosteiro, onde os monges construíram no curso do rio uma extracção de água, apelidada de Mãe de Água. Este foi o ponto de partida de uma canalização de 3,2 km, na sua maior parte subterrânea, que abastecia o Mosteiro com água fresca e limpa.

O Rossio pagava a factura durante os Invernos mais rigorosos e ficava cheio de lama e pedras que desciam empurradas pelas águas desde a encosta da Vestiaria ou do Casal Pereiro galgando passeios e entrando nas lojas e acabando por engrossar caudal, que por vezes o rejeitava de tão espartilhado estar, que saía pelas grelhas dos biqueirões ou pelas pias de despejo das casas mais baixas .

Quanto ao rio Alcoa, nasce em Chiqueda, era também atracção quando o seu nascente rebentava nos Olhos de Água ou Poçoão e as rápidas cheias que provocava. No Verão tomava-se banho nalguns locais e as mulheres iam lavar a roupa disputando o sítio e enxotando a garotada. Aí rio tomava a alcunha do dono das terras por onde corria e passava a chamar-se rio Narciso, ou Aníbal, num local que fica perto da Junta Nacional dos Vinhos. Era à vontade do freguês.

O rio Tejo também está para sempre ligado às minhas visitas aos meus tios na rua da Saudade, onde através da janela da cozinha eu via o rio e os barcos que lá navegavam. Saborosas foram também as travessias até Cacilhas no cacilheiro e a esperança de ver algum golfinho. Mais tarde este rio ficou associado a momentos dolorosos como a partida do meu irmão para Moçambique e mais tarde, a minha própria partida para a Guiné.

Mas como era de prever, ao ir para a Guiné deixei para trás o rio da minha terra, mas os rios continuaram a fazer parte da minha experiência além-mar, embora não houvesse nenhum em Galomaro.

Naveguei cinco vezes no Geba, deliciei-me com a abundância de água no Corubal, que banhava o Saltinho.

O Geba era uma artéria viva e indispensável ao reabastecimento da zona Leste e navegava-se até ao Xime ou até Bambadinca. Em Bafatá era majestoso e dava beleza à cidade.

Havia porém rios pequenos, daqueles que nós nos esquecemos que existem, pois eram insignificantes durante quase todo o ano, até que chegavam as chuvas e se tornavam num bico de obra.

Havia um desses rios no caminho para Cancolim, que nos deu como se pode chamar água pelas barbas, quando tentávamos abastecer a Companhia 3489. Mal começava a chover, o malvado engrossava e corria rápido por baixo de uma pequena ponte, que tinha parte do tabuleiro danificado por uma mina com que o IN a tentou destruir. Só tínhamos lugar para as rodas das viaturas passarem e, quando a águas submergiam a ponte, nós deixávamos de ver o trilho.

Era então preciso que os camaradas que iam fazer a escolta, dessem as mãos uns aos outros e assim com água pelo peito, indicarem-nos por onde podíamos passar. Não era fácil para eles nem para nós. Eu tirava as botas e as cartucheiras não fosse o diabos tecê-las.

Depois de passarmos, mais atascanço menos atascanço, lá chegávamos a Cancolim e começávamos a fazer contas de cabeça a respeito do regresso, pois o problema do rio estava lá à nossa espera, a não ser que entretanto as águas baixassem, facilitando assim o nosso regresso.

Uma vez o rio encheu de tal forma que não houve nada a fazer e as mercadorias tiveram que ser passadas em botes e carregadas em viaturas do lado de lá.

Como se pode ver, os rios foram uma constante na minha vida, mas a melhor experiência com eles, foi a minha viagem do Xime para Bissau quando o 3872 em Março de 1974 foi rendido. Pudera, era a peluda que se aproximava à medida que nós embarcámos e descemos aquele rio barrento, de cor acinzentada, na direcção de Bissau.

Cantávamos então: Galomaro/Tem mais encanto / Na hora da despedida, com música de uma conhecida balada de Coimbra logo seguida de Cheira bem / Cheira a Lisboa...

Juvenal Amado

terça-feira, 9 de novembro de 2021

P1316: O VELHO CONTO DO VIGÁRIO...

 OS VIGARISTAS E A GUERRA DO ULTRAMAR

A história do Juvenal sobre o “conto do vigário” - aqui contada recentemente - fez-me lembrar um episódio que aconteceu comigo, já passada mais de uma dezena de anos depois de ter saído da Guiné.

Quem me conhece bem, sabe que por detrás desta aparência de “bruto”, está um sujeito grande, (em tamanho, claro), mas muito sensível, de lágrima fácil, sobretudo no que diz respeito a certas coisas que me tocaram e deixaram mais “frágil”, como a guerra da Guiné.

Ora um dia (finais dos anos oitenta), quando era administrador das Termas de Monte Real, estava a sair do Hotel depois de almoço e fui abordado por um sujeito que me perguntou se eu era o Alferes Mexia Alves que tinha estado na Guiné.

Disse-lhe que sim e o homem, pouco mais novo do que eu, apresentou-se pelo nome - que não recordo - dizendo que tinha sido soldado de uma das Companhias (não me lembro qual) do meu Batalhão 3873.

Olhei para ele e não o reconheci, mas achei isso perfeitamente natural, até porque mesmo que fosse da minha Companhia seria difícil lembrar-me, a menos que fosse do meu Pelotão.

Conversámos um bocado e o sujeito deu mostras de conhecer o que tínhamos passado na guerra, bem como alguns pormenores da minha vida na Guiné, (comandar tropas africanas, Mato Cão, Mansoa, etc.), e outras coisas mais.

Ganha a confiança, contou-me uma história da sua vida pessoal depois da sua vinda da Guiné, história triste mas perfeitamente plausível, que, claro, “derreteu” o meu coração.

Obviamente precisava de dinheiro e eu preparava-me para lho dar, talvez 5 contos naquela altura, quando um dos porteiros do Hotel, que tem praticamente a minha idade e esteve em Angola na guerra, se aproxima e pergunta ao sujeito se ele não tinha estado num dos cafés de Monte Real a fazer perguntas sobre mim, etc., etc.

O sujeito começou a “trocar os pés pelas mãos” e muito rapidamente se percebeu que não me conhecia de lado nenhum, que não tinha estado em guerra nenhuma e que no fundo tinha sabido que eu era um dos proprietários das Termas e foi para os cafés fazer perguntas sobre mim.

Aí soube que eu era um “gajo porreiro”, que tinha estado na Guiné e tudo o mais que lhe foram dizendo sobre mim e de que ele depois se serviu para construir a história que me ia levando à certa.

Safou-se de levar dois pares de murros por estarmos mesmo à saída do Hotel!

E por aqui me fico, depois de ter feito figura de urso!!!

Joaquim Mexia Alves

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

P1315: UM FILHO DE PORTUGUESES DESCONHECIDO EM PORTUGAL...

                             JOHN DOS PASSOS

Quando estudei nos States fui surpreendido pelo desconhecimento em Portugal de alguns descendentes de portugueses por lá famosos.

A um nível intelectual  muito elevado existiu, por exemplo, o JOHN RODRIGO DOS PASSOS, conhecido nos meios culturais Norte-Americanos como John D'os Passos.

Nasceu em 14 Janeiro de 1896 em Chicago/Illinois e faleceu a 28 de Setembro de 1970 em Baltimore/Maryland. Filho de um rico advogado de origem portuguesa, graduou-se na Universidade de Harvard em 1916.

Serviu como condutor de ambulâncias na Primeira Guerra Mundial e, em resultado das suas experiências escreveu em 1921 um amargo romance contra a guerra intitulado "Os 3 Soldados".

No pós guerra viajou como correspondente de imprensa. Esteve em Espanha e outros países europeus adquirindo então um forte sentido histórico de observação social. Foi um período que acentuou algumas das suas simpatias radicais.

Com o passar dos anos, gradualmente, o seu subjectivismo  tornou-se num realismo objectivo mais vasto e abrangedor.


Considerado um dos maiores novelistas da "Geração Perdida" do pós guerra norte-americano, a sua reputação como historiador social e crítico da "qualidade da vida" americana surge com o best-seller que foi a sua trilogia -"U.S.A".

Nesta trilogia é posto em destaque a imagem dos Estados Unidos como sendo realmente duas nações. Uma de ricos e privilegiados, e outra, a dos pobres, sem qualquer poder e representação política. Foi uma muito importante e divulgada obra literária que espelhava toda uma época

Depois de alguns outros romances e intervenções em acontecimentos políticos da época escreveu uma nova trilogia em 1939-1943-1949 - "District of Columbia" - ainda que menos ambiciosa que a anterior.

Nesta verifica-se a sua desilusão com os movimentos laborais norte-americanos; com as políticas radicais na generalidade e o liberalismo característico do modelo político do "New Deal".

Não será de estranhar que o governo da ditadura portuguesa não se sentisse "confortável" em divulgar este intelectual que era um forte crítico  das ditaduras Ibéricas.

É no entanto de lamentar que o Portugal democrático posterior não tenha divulgado a trilogia "USA" como seria merecido.

José Belo

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

P1314: LENDAS DE MONTE REAL - 2

          LENDA DO FORNO DA CAL

Segundo reza a lenda, quando o Rei D. Diniz e a Rainha Santa Isabel viviam em Monte Real, por altura da plantação do Pinhal de Leiria, tinha o Rei alguns amores secretos para os lados de Leiria, nomeadamente, em Amor.

Andando a Rainha desconfiada com as saídas constantes do seu esposo, mandou que um seu criado seguisse o Rei e seus pajens a fim de saber para onde ele ia.

No caminho que o Rei utilizava entre Monte Real e Amor, havia uma Ermida e, um pouco mais adiante, um forno de cozer a cal.

O Rei, apercebendo-se que vinha a ser seguido pelo criado da rainha, ao passar no forno da cal, deu ordens àqueles que ali trabalhavam para agarrarem e meterem dentro do forno um cavaleiro que vinha um pouco mais atrás.

Acontece que o criado da rainha, por ser muito religioso, entrou na Ermida e ali assistiu à missa que decorria nesse momento.

Algum tempo depois, o Rei mandou um dos seus criados ao forno para perguntar se as ordens de El-Rei haviam sido cumpridas.

Os trabalhadores responderam que não, mas que seriam de imediato cumpridas e, sem mais, meteram o criado do Rei no forno, que assim foi queimado como sendo o criado da Rainha.

Ainda hoje, ao local onde existia a ermida se chama “Ermida” e o forno se chama “Forno da Cal”.

Joaquim Mexia Alves

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

P1313: A PROPÓSITO DE CERTAS CONTROVÉRSIAS

 

À laia de prefácio, diz-nos o Zé Belo, autor do texto:

Relendo atentamente (!) o texto que cuidadosamente escrevi, em parte alguma encontro algo de ofensivo, tanto para Portugal como para os nossos heróis da Guiné que… foram muitos!

Aponto unicamente páginas “negras” de alguns dos mais medalhados na busca de um justo (!) contraste com medalhados que não recorrerem a procedimentos criminosos à luz do Direito Internacional e suas Convenções, devidamente assumidas por Portugal desde há muito.

Ao considerar-se “fracturante” o separar-se “o trigo do joio “ mais não é que um atestado de algo profundamente errado na sociedade envolvente.

Um tipo de auto censura para não nos tonarmos inconvenientes.

E as auto censuras, sob mais ou menos discretas pressões sociais, definem tipos de sociedades não evolutivas.

José Belo

HERÓIS… E HERÓIS

Tendo em conta a duração da guerra e o número de militares nela envolvidos nos 3 teatros de operações, foram muitos os actos de heroísmo nela praticados.

Como em todas as guerras alguns procedimentos criminosos terão existido mas, pelo seu número e frequência, não foram representativos.

No caso da Guiné, elementos nativos integrados nas forças militares portuguesas salientaram-se pela sua extraordinária coragem pessoal e dedicação no cumprimento das missões que lhes foram atribuídas.

São inúmeros os militares portugueses que a eles devem a vida.


Infelizmente entre alguns dos medalhados, acções do maior heroísmo são acompanhadas por  frequentes procedimentos dentro de uma área que legalmente se pode considerar abrangida por sevícias ou mesmo crimes de guerra.

Não só sevícias, a seu modo justificáveis por praticadas no calor dos combates, como também praticadas a “frio” e em situações “resguardadas”.

O contraste com a generalidade do procedimento do PAIGC para com os prisioneiros portugueses foi marcante. Considerados pelo PAIGC como prisioneiros de guerra, foram tratados de acordo com as Convenções Internacionais.

O governo português não querendo caracterizar a situação na Guiné como uma situação de guerra recusava-se a aplicar tais Convenções aos seus prisioneiros o que permitiu uma impunidade quanto ao tratamento dos mesmos.

Impunidade que levou ao “desaparecimento” da maioria deles às mãos da polícia política, das milícias e tropas especiais formadas por naturais da Guiné.

O facto de estes actos  serem praticados por naturais da Guiné ao serviço de Portugal sobre outros guinéus, não deverá levar a considerá-los menos graves, sob o perigo de uma “graduação” não aceitável por profundamente racista nos seus fundamentos.

No contexto do Direito Internacional referente aos conflitos armados, englobando as leis das Convenções de Haia e Genebra, Portugal sempre se referenciou como um país respeitador das mesmas.

Especificamente, a Convenção de Genebra define normas para as leis internacionais relativas ao Direito Humanitário Internacional que mais não são que um conjunto de normas que procuram limitar os efeitos dos conflitos armados tanto no respeitante a indivíduos como às populações não combatentes.

Tendo em conta as numerosas violações destas regras por alguns dos mais representativos (e díspares) países da cena internacional, alguns mais “pragmáticos” têm dificuldade em aceitar a existência de uma “moral internacional” apoiada em princípios jurídicos.

Mas, com todas as reconhecidas limitações, é a única forma de defesa dos verdadeiramente mais desprotegidos, sejam eles prisioneiros de guerra, populações civis em áreas de combates, ou refugiados.

Uma nítida demarcação entre valores civilizacionais e a lei do mais forte.

 José Belo

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

P1312: MAS TUDO ACABOU BEM...

                                         É UMA INJUSTIÇA!...

Talvez se recordem de haver, há muitos anos atrás, uma série de desenhos animados com o Calimero, um patinho preto que usava uma casca de ovo à laia de chapéu, e que passava o tempo a lastimar-se de tudo o que lhe acontecia: “É uma injustiça! É uma injustiça!”.

Foi um pouco assim com uma decisão das chefias que me fez sentir que não tinha sido tratado em plano de igualdade com outros meus camaradas.

Mas vamos começar pelo princípio: Iniciei a minha comissão na Guiné em Novembro de 1972 e, apenas quatro meses depois de lá ter chegado, fui recambiado para Lisboa para recuperar das mazelas sofridas na ejecção de um avião Fiat G-91 atingido por um míssil.

Naquele tempo a medicina aeronáutica ainda estava um pouco incipiente e o Hospital da Força Aérea ainda não existia. Assim, a minha recuperação passou pelo Serviço de Ortopedia do Hospital Militar (do Exército), que tratou razoavelmente da recuperação da minha perna partida. O mesmo não posso dizer de outros dois aspectos importantes que foram descurados: A recuperação da minha coluna, que tinha sofrido uma compressão de vértebras de 2 centímetros (perdi 2 cms de altura, que não recuperei…) e o apoio psicológico para ultrapassar o stress da situação vivida, agravado pela necessidade de me adaptar à ideia de voltar a operar no mesmo teatro de operações.


O "corpo do delito" - O Fiat G-91 5413 abatido em 25 de Março de 1973 na zona do Guileje
(Desenho do Paulo Moreno, créditos reservados)

O facto é que esses dois aspectos acabaram por ficar à minha conta no meu regresso á Guiné quatro meses depois – e se no primeiro caso pouco pude fazer para além de ver a coluna a piorar com o tempo, já a readaptação à actividade aérea foi ultrapassada com grande esforço da minha parte, sem nenhum acompanhamento profissional e dependendo unicamente de mim e da possível solidariedade dos outros camaradas.

No ano de 1973 acabei por não gozar férias, para compensar o tempo perdido na minha recuperação; e em 1974 as únicas férias que gozei na comissão acabaram por coincidir com o período revolucionário pós-25 de Abril… Tinha chegado a Lisboa em 22 de Abril de 1974…

Calculam o meu espanto quando, no regresso à Guiné, fui informado de que os meus três camaradas que se tinham igualmente ejectado, tinham “passado” pela Guiné para fazerem o desquite e encerrarem a sua comissão de serviço. Parece que a argumentação terá sido a dificuldade de adaptação dos pilotos à actividade aérea depois dos traumas psicológicos sofridos…

Naturalmente perguntei: “Então e eu?!...”. - “Ah, pois. Parece que consideraram que tu podias continuar, que já tinhas passado a parte difícil…” (Na altura eu já tinha feito cerca de mais 9 meses de comissão, fazendo das tripas coração e readaptando-me como possível às rotinas do dia-a-dia).

A irritação acabou por me passar. A actividade aérea passou a ser mais reduzida na fase final da minha comissão (depois do 25 de Abril), não passei por situações de grande risco e, chegado o termo da minha comissão, em meados de Agosto de 1974, pude regressar à metrópole com a satisfação do dever cumprido… e sem dever nada a ninguém…

Mas ainda hoje penso quais foram os critérios para um tratamento diferente entre pessoas que tinham passado pelo mesmo, e sem me ter sido transmitida uma palavra sequer sobre o assunto…

Miguel Pessoa

 

 

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

P1311: ENGANANDO OS INCAUTOS...

           O CONTO DO VIGÁRIO E A GUERRA COLONIAL

Há gente capaz de tudo.

Com um esquema bem urdido, bem montado, acercam-se das pessoas que na sua vida simples nunca pensam que o diabo pode estar atrás da porta e, zás, são enganadas por vezes com coisas, de tão simples e credíveis, que ninguém se atreve a pôr em causa.

Penso que o conto do vigário é a trafulhice em que quase toda a gente pensa que nunca cai. Mas estamos enganados e lá vem o dia em que baixamos a guarda, abrimos as defesas e, pronto, somos enganados pela mais estapafúrdia das encenações.

Uns são enganados pela sua ambição, outros são enganados pela sua noção de solidariedade e outros pelas suas fraquezas, pelo seu amor aos que estão longe. Tudo serve para enganar os incautos.

Veio este assunto à lembrança pois também alguém da minha família foi em tempos enganado, quando a mentira fez tocar as campainhas do seu desvelo, da sua preocupação quando eu estava a cumprir o meu tempo militar na Guiné.

Um dia, lá para o fim de ‘73, apresentou-se em casa dos meus pais um individuo praticamente da minha idade, que se apresentou como meu amigo, igualmente a cumprir comissão comigo na Guiné.

Pobre coração da minha mãe - deu um salto, franqueou as portas e bebeu avidamente o que ele dizia. Que me conhecia muito bem, que eu mandava cumprimentos e que também lhe tinha transmitido alguns pedidos de coisas que pretendia que ele me levasse.

A minha mãe estava sozinha em casa e ofereceu-lhe almoço, ao que ele disse que não tinha tempo pois ia apanhar o comboio no Valado dos Frades para Lisboa, de forma a embarcar novamente para a Guiné. A minha mãe foi recolher o que ele dizia que eu lhe tinha pedido, embora estranhando pois nunca lhes pedia nada nas cartas, lá arranjou meias, cuecas e mais que ele inventou, juntou alguns chouriços,  uma garrafa de ginja David Pinto,  pois sabia bem a saudade que tinha desses petiscos.

Aproveitou para me mandar umas fotos a cores de um rolo, que tinha mandado para ser revelado e deu-lhe o dinheiro todo que tinha em casa, pois também eu o tinha solicitado. Está claro que não deu muito, pois era coisa que não abundava lá em casa, mas deu-lhe o que lhe fazia falta,  de certo.

Já que ele não podia almoçar, fez-lhe um farnel para ele comer no comboio e, ala que se faz tarde, ele foi-se embora.

Tudo isto se passou de manhã e, quando o meu pai chegou a casa para almoçar, ela contou-lhe ainda toda eufórica o que se tinha passado, pois não era todos os dias que se tinha contacto com um amigo do filho, que lhe tinha ido dar de viva voz noticias suas. Ele disse-lhe logo, “Já foste enganada!”.

Foram logo à praça dos táxis, onde perguntaram pelo sujeito; logo o taxista,  até nosso vizinho, se apresentou como tendo sido ele a ir levá-lo, acrescentando que o dito tinha deixado esquecido um embrulho no banco de trás, que não sabia de quem era.

O que já se temia, ficou logo ali comprovado.

A minha mãe fartou-se de chorar, apesar das tentativas do meu pai para minorar a importância do acontecido. As cuecas e meias voltaram para a respectiva gaveta, o resto desapareceu, como também desapareceu o dinheiro…

Costuma-se desejar, quando nos enganam com dinheiro, que o patacão lhes sirva para o médico ou para a farmácia. Fraca, forte ou inútil a vingança, mas que parece que nos conforta, à falta de uma justiça mais imediata e vigorosa.

É que na maioria dos casos é aquela que se consegue arranjar…

Veio-se depois a saber que não foi só a minha mãe enganada pelo individuo que explorou os sentimentos e as saudades de quem tinha os filhos longe.

Crime e Castigo é uma obra de Fiódor Dostoiévski e conta a história de um criminoso que não consegue viver com o sentimento de culpa pelo crime que cometeu. Era bom que isso acontecesse aos criminosos, o Mundo seria um lugar muito melhor de se viver sem dúvida nenhuma.

Juvenal Amado