quarta-feira, 25 de janeiro de 2023
sexta-feira, 20 de janeiro de 2023
domingo, 15 de janeiro de 2023
segunda-feira, 9 de janeiro de 2023
sábado, 7 de janeiro de 2023
P1360: LEMBRANDO TRAGÉDIA ANTIGA
AS CHEIAS (ESTAS E AS OUTRAS)
segunda-feira, 2 de janeiro de 2023
P1359: LEMBRANDO ANTÓNIO LÚCIO VIEIRA
Enviado pelo nosso camarada Carlos Pinheiro:
Hoje partilho mais um poema do saudoso poeta António Lúcio Vieira, de Julho de 2016, que o Orlando Freitas me enviou há pouco. Para mim é mesmo inédito.
Um mail que o nosso grande amigo Lúcio me enviou em altura de maior perturbação, que por vezes passava pela sua agitada mente.
“Dos poemas que me tocaram mais, talvez pelas solitárias noites que por mim vão passando.
Já não é novo.
Trago-o aqui e
deixo-to, porque levei o diabo da noite tomado pela insónia. E lembrei-me
dele.
Não é nada importante: trata-se, tão só de um poema.
Nem é novidade em
mim: já escrevi outros, ao longo de outras noites. E nunca aconteceu nada
extraordinário.
Não é grave, como
vês.
Um abraço de bom dia, neste início de torreira que
para hoje se anuncia.”
ESTE MARTÍRIO DE VIVER A NOITE
a noite é sempre um tempo de vazios
conto as horas dos dias e quando a noite vem
sinto o fel da angústia de mais um dia
de menos um dia antes do dia de não ver mais noite
é de noite que me encontro em mim e me reflicto
num balanço de contas de um imenso rosário.
Não gosto da noite. Já gostei
quando antes a noite me falava das causas
me trazia o aconchego dos oásis
as luzes e os sons do vazio das horas gastas
os risos, os gestos, as pessoas
o nada de um dia onde quase nada tinha corpo e voz
tudo à noite, nessas noites, era maior e mais medonho
avolumavam-se então as sombras e os ritos
na noite de Lisboa o Américo dizia-me vamos à Chafarica
o Vum-Vum cantava chorando memórias da África-mãe
por entre espumas da cerveja que transbordava e partia ao rio
e o Américo dizia-me vamos, chega de noite
o Américo morreu há mais de um ano. De noite
restou no desvario o Mário Santillana
arrebatado lírico das noites
puro e comovente como as lágrimas cantadas do Vum-Vum
- sôdade/ sôdade/ dês nha terra S. Nicolau –
e era a dor da noite que só de noite se sente e se semeia
e a Lia Gama a santificar o Pessoa e a Sophia no D. Sebastião
e nós quase sem pudor a beber mais a noite dos segredos
do que os aromas, os mistérios e o rum dos rituais
mas doía porque era noite e de noite a dor é tão maior
que não cabe nas contas deve e haver da vida
nem no sangue que se derrama dos olhares
nem nas águas que dos beirais se soltam
que nos benzem os pecados da noite
e escrevem nas paredes as sombras dos mistérios e as setas
que nos dizem o caminho para o dia que se apressa
e depois a perene magia das ruas
o Américo não sabia quantas ruas da cidade conhecia
mas conhecia as ruas todas e os segredos e as mulheres de cada rua
e escrevia nelas, nas ruas e nas mulheres
os excessos das noites e as frustrações dos dias.
Morreu sem bem se encher de vida
a bem dizer sem quase dizer quanta vida bem viveu
e deixou-me assim órfão e tão vazio como as noites da Chafarica
quando o Vum-Vum chorava e calava o canto nos soluços
e o Mário parava de beber e da janela que se vira para a rua
onde o sol daí a pouco, intruso, nasceria
gritava às mulheres que das janelas acordavam:
vocês só agora acordaram e eu ainda não fechei os olhos desde que nasci
É por isso que a noite se insidia nos meus dias e me atormenta
é por isso que sempre regresso quando a noite cai
ao flagelador ritual do exorcismo das horas
entre as horas que acendem as noites e a luz
que da alvorada me descerra mais um dia
de martírios e de alma em sobressalto
até que o doce elixir de novo transborde e corra ao rio
e eu me deixe levar nesse caudal que procura o mar
enquanto a voz da Lia desflorava poemas e se derramava
dolente e embaladora pela calçada da rua
vazia, vazia, vazia
como são agora as amargas horas da noite - das noites -
onde cumpro o castigo de existir
António Lúcio Vieira
sábado, 31 de dezembro de 2022
quarta-feira, 28 de dezembro de 2022
P1357: O NOSSO PRÓXIMO ENCONTRO
Caros camaradas
Prosseguimos as nossas diligências no sentido de se encontrar a melhor proposta para a realização do próximo convívio da Tabanca do Centro, apontado para 25 de Janeiro de 2023.
Na sequência do contacto com a gerência da Quinta do
Paul, na Ortigosa, recebemos agora a resposta que transcrevemos:
---------- Mensagem encaminhada de Gerência Quinta do Paul
Assunto: EMENTA AMIGOS Joaquim Mexia Alves 2 Quartas
Feiras 22
Para: Joaquim Alves
Votos de Santo Natal, Sr Joaquim M Alves
Os preços baixos serão sempre adversários da
qualidade.
Dispomos de um excelente serviço de Buffet a 18,5€ por
pessoa com bebidas. Único senão: Não é em sala exclusiva, no entanto temos a
possibilidade de reservar uma zona da sala com uma separação com cortinado.
O Buffet é comum, faça-nos uma visita e no local
avalia essa possibilidade.
O Almoço em sala exclusiva, não conseguimos valores
inferiores a 22€ por pessoa. Pressupondo saída cerca das 14h30/15horas
Os convidados também devem ter em conta que se
almoçarem em casa gastam 10€, ao almoçar fora só tem o custo da diferença ou
seja 12€.
Melhores Cumprimentos
Gerência Fernando Vieira Cardoso
Quinta do Paul
Consideramos que a opção Buffet parece ser interessante pois deixa a cada um a possibilidade de escolher a comida que mais lhe agradar. Tendo em consideração os preços propostos, um pouco elevados para o habitual nos nossos encontros, parece-nos sensato optar pela proposta de Buffet a 18,50€, com utilização de um cortinado para separar o grupo dos restantes clientes, dando-lhe alguma privacidade.
Gostariamos de saber a vossa opinião sobre esta
proposta que, embora um pouco cara, tem a seu favor uma perspectiva de boa
qualidade do serviço, ementa prática para o pessoal e facilidade de
estacionamento das nossas viaturas.
Ficamos a aguardar o vosso parecer, para o que poderão utilizar a caixa de comentários deste Post, ou enviando uma mensagem para tabanca.centro@gmail.com
Naturalmente convirá que os vossos pareceres nos cheguem
nos próximos dez dias, tendo em atenção a abertura das inscrições em 15 de
Janeiro próximo.
A Tabanca do Centro
P1356: DO RIBATEJO AO MAR
Uma descrição exemplar de uma zona da nossa Tabanca do Centro, pela pena do saudoso poeta António Lúcio Vieira, nosso camarada, que nos deixou em Junho de 2020.
NO CENTRO DE
PORTUGAL
Invulgarmente diverso e rico em atractivos turísticos é, indubitavelmente, todo o espaço, numa cintura de poucas dezenas de quilómetros, que circunscreve a periferia de Torres Novas.
Situada na fronteira entre a região
estremenha e o Ribatejo, erguendo-se numa paisagem única em Portugal, a uma
altitude que atinge os 678 m, distingue-se, na região, o Parque Natural das
Serras de Aire e Candeeiros, mais de dois terços do Maciço Calcário Estremenho,
no qual se englobam as duas serras que lhe dão o nome e abrange os municípios
de Alcobaça e Porto de Mós, no distrito de Leiria; Alcanena, Rio Maior,
Santarém, Torres Novas e Ourém, no distrito de Santarém.
Numa área bela e agreste, recheada
de escarpas, de grutas e algares, encontram-se, em profundos vales e encostas,
para além de uma vasta e diversa fauna e flora, muros de pedra solta, rústicas
aldeias de pedra, por onde, de quando em vez, deambulam praticantes de
desportos radicais, do montanhismo ao BTT, da espeleologia aos passeios
equestres.
No alto da longa Serra de
Candeeiros, de onde se desfruta toda a vasta paisagem circundante, o visitante
pode sentir-se nas “nuvens” e reparar em cada pormenor de uma belíssima
paisagem, que se estende de Peniche ao Cabo da Roca e da Serra de Sicó a Torres
Vedras.
Naquele que é um dos maiores
reservatórios de água doce subterrânea de Portugal, reproduzem-se mais de
seiscentas espécies vegetais, (cerca de um quinto das espécies existentes em
Portugal) muitas das quais não se encontram em qualquer outro local do
planeta.
É neste rico e tão diversificado
território classificado, que se conservam as Marinhas de Sal, de Rio Maior,
importante jazida de sal-gema, em pleno sopé da Serra dos Candeeiros, a trinta
quilómetros do mar. Rodeadas de arvoredo e terras de cultivo, as Salinas riomaiorenses
(das poucas de origem não marinha existentes em Portugal) apresentam-se como
uma minúscula aldeia, com ruas de pedra e casas de madeira, onde se destacam
uns peculiares tanques de formas e dimensões irregulares, os quais, a partir de
meados da Primavera, se enchem de água salgada e dão origem a verdadeiras
pirâmides de sal.
Faça-se então uma ronda pela região
e comece-se pelas jazidas, com as marcas de trilhos de dinossauro, na antiga
“Pedreira do Galinha”, exactamente na linha de fronteira que separa o concelho
de Torres Novas do de Ourém. O Monumento Natural, posto a descoberto no extremo
oriental da Serra de Aire, na povoação de Bairro, em pleno Parque Natural das
Serras de Aire e Candeeiros, contém um importante registo fóssil do período Jurássico,
as marcas de alguns dos maiores seres que povoaram o planeta Terra: os
dinossáurios saurópodes, na laje calcária onde as pegadas de dinossáurios se
conservaram ao longo de 175 milhões de anos, podem ser observados cerca de 20
trilhos ou pistas, uma delas com 147m e outra com 142m de comprimento.
Escassos quilómetros adiante,
chega-se ao santuário mariano da Cova de Iria, na cidade de Fátima, que a
Igreja Católica designa por Altar do Mundo e que se assume como um dos locais
de peregrinação mais importante da Cristandade. Aí se diz ter Nossa Senhora
aparecido, em 13 de Maio de 1917, a três crianças que pastoreavam rebanhos.
Desde esse distante ano de 1917, não
mais cessaram de acorrer à Cova da Iria milhares e milhares de peregrinos,
oriundos de todo os continentes, fazendo do local, com a sua presença, um dos
lugares de oração mais concorridos do mundo.
Não muito distante daquele local de
peregrinação, abrem-se, aos olhos dos visitantes, as deslumbrantes grutas
naturais, ainda no maciço calcário do Parque Natural das Serras d’Aire e
Candeeiros. Presentes em todos os roteiros turísticos da Europa, as grutas de
S. António e de Alvados, nas proximidades, respectivamente das aldeias de Serra
de Santo António e de Alvados e a dos Moinhos Velhos, em Mira d’Aire (esta
última eleita, em 2010, como uma das Sete Maravilhas Naturais de Portugal)
todas abrigadas no rendilhado subsolo da serra de Santo António, constituem
outros dos aliciantes desta privilegiada região do centro do país.
Em terras de Ourém, uma antiga
fortificação muçulmana terá dado origem ao singular
castelo da cidade, já que se acredita ter sido a mesma reconstruída nos
primeiros tempos da monarquia, uma vez que remonta a 1178 a primeira referência
a um castelo de planta triangular no alto do monte.
Antiga residência dos Condes de
Ourém e muito ligado à figura de Nuno Álvares Pereira, o castelo, com os seus
invulgares torreões, erguidos em 1450, o paço dos condes e a antiga cidadela,
são igualmente motivos justificativos de uma visita.
Ainda no concelho oureense, na
margem esquerda do rio Nabão, a praia fluvial e os banhos quentes com águas
termais, indicadas para doenças de pele, fazem de Agroal um dos locais da
região mais procurados na época estival.
Integrados no mesmo perímetro
geoturístico, que abraça o concelho de Torres Novas, encontram-se a vasta
albufeira do Castelo do Bode, fonte de vida, espaço de lazer, cuja reserva de
água abastece parte de Lisboa, assim como alguns concelhos vizinhos do alto e
médio Ribatejo e na qual o turismo e os desportos aquáticos, servidos por
deslumbrante paisagem natural, encontram espaço particularmente privilegiado.
Do passado medieval da região,
emergem, próximo do perímetro militar de Tancos, o romântico castelo de
Almourol, cofre de lendas, encimando pequena ilha rochosa no leito do Tejo e o
Convento de Cristo, sobranceiro à bela cidade de Tomar, ambos seculares legados
dos cavaleiros Templários, cuja sede da ordem Gualdim Paes aquartelou na cidade
do Nabão.
De deslumbre em deslumbre, parte-se
à descoberta, ali mesmo ao lado, do Parque temático de Astronomia, do Centro de
Ciência Viva, do enlace dos rios Tejo e Zêzere, do horto e da Casa de Camões,
tudo ali na romântica e cativante vila de Constância, a quem o poeta Vasco de
Lima Couto chamou “vila-poema”; do aprazível oásis, constituído pela cativante
praia fluvial, rodeada por espaços verdes, estruturas de apoio e restauração,
parques de campismo e infantil, de um outro moderno Centro de Ciência Viva e de
um exemplar Observatório dos Morcegos, na aprazível região de Olhos d’Água,
junto à nascente do rio Alviela, em Alcanena.
A nordeste, à beira da N1 e já
próximo da costa atlântica, ergue-se o Mosteiro de Santa Maria da Vitória,
vulgarmente conhecido por Mosteiro da Batalha, caracterizado pela singularidade
das suas capelas inacabadas: as Capelas Imperfeitas.
Um pouco abaixo, depara-se o
visitante com o majestoso e romântico Mosteiro de Alcobaça, oficialmente
designado por Real Abadia de Santa Maria de Alcobaça; morada dos eternos
amantes Pedro e Inês. Ambos os monumentos são jóias histórico-arquitectónicas e
autênticas páginas vivas do passado de Portugal.
Mais para oeste, estendida no regaço
da Pederneira abre-se, na costa marítima, a enseada da típica praia da Nazaré,
a mais bela e romântica, a mais cantada das praias de Portugal. Lugar eleito
pelos amantes do surf, cavaleiros das gigantescas ondas que fazem daquela
privilegiada zona atlântica o cartaz turístico-desportivo mais divulgado no
mundo entre os amantes da modalidade.
A Feira Nacional da Agricultura e do
Ribatejo, em Santarém e a do Cavalo, pelo S. Martinho, na vizinha e
característica Golegã, a Festa da Bênção do Gado, na vila de Riachos, no
concelho torrejano e a dos Tabuleiros, em Tomar, a Festa dos Rios, na
encantadora Constância, que o Tejo e o Zêzere abraçam; o Festival da Enguia, na
aldeia torrejana de Boquilobo, berço do lendário Humberto Delgado, tal como a
Feira Nacional dos Frutos Secos, que há muitos anos tem lugar na torrejana
cidade almondina, são outros tantos eventos de legítimo destaque, nesta
multifacetada e tão bafejada região do centro do país.
Na cidade ferroviária de
Entroncamento abrem-se, entretanto, as páginas da história do comboio em
Portugal, no Museu e na Rotunda das Locomotivas, da Fundação do Museu Nacional
Ferroviário.
Servida pela mais estratégica rede
rodoferroviária nacional, através da qual se parte para a Europa, ou dela se
chega e onde, no espaço de escassos quilómetros, que se estendem por uma nesga
de terra, aqui se descobre e se desfruta de um mundo de cativantes atractivos,
onde os ecos da História, as belezas naturais, os costumes, a aventura e o
laser, a fauna e a flora, a gastronomia, o artesanato e as tradições religiosas
e profanas, os monumentos e a actividade turístico-desportiva, se conjugam para
fazer deste pequeno rincão, do centro de Portugal, um museu vivo, um manual de
História, de estórias e de lendas, um caleidoscópio de belezas e visões e
sabores, um pequeno mundo, afinal, onde tudo se oferece e se desfruta.
Um pedaço de Portugal, tão diverso,
mágico e cativante, como um bazar oriental, tão deslumbrante e colorido e tão
singular, que nenhuma outra região do país o iguala.
António Lúcio Vieira ©
23-3-2015



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