ALCUNHAS DO TEMPO DA VIDA MILITAR
QUE NÃO ESQUECEM / 1
Já
passaram mais de 50 anos e não esqueci algumas das alcunhas de “rapazes” que
passaram dois anos na Guiné integrados na “minha” C.Caç. 675. E como tenho nos
meus arquivos alguns “testemunhos” desses velhos tempos posso de vez em quando
“mergulhar” fundo no passado “sem perder o pé”…
Posto
isto vamos a factos.
No
longínquo dia 4 de Julho de 1964 dois grupos de combate da C.Caç. 675 saem para
o mato, no Norte da Guiné, e têm um tremendo “baptismo de fogo”, que incluiu um
ataque bem sucedido a uma tabanca inimiga e duas emboscadas no itinerário de
regresso ao quartel, de que resultam vários feridos graves e um ligeiro.
A
evacuação para o Hospital de Bissau foi feita por dois helicópteros e, no segundo
- no meio de alguma confusão - seguiu também o “Salvação”, ferido numa perna e
nas costas por estilhaços de granada, feridas no entanto superficiais e que não
teriam justificado a sua evacuação.
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| O Salvação |
Quando
“a poeira assentou” tivemos informações via rádio dos feridos que inspiravam
mais cuidado e nos dias seguintes a vida no aquartelamento teve alguma acalmia,
esperando-se que o “Salvação” regressasse `”às lides” nos dias mais próximos.
Esta palavra (as lides) tinha alguma razão de ser pois o rapaz era de Salvaterra
de Magos,uma terra de touros e toureiros.
Cabe
aqui e agora dizer que o “Salvação” tinha físico de artista de cinema e cuidava
bastante do seu aspecto. Tinha apanhado um grande cagaço na segunda emboscada
do “célebre” dia 4 - ele e muitos outros, com o autor destas linhas incluído -
e aproveitou a sua estadia em Bissau para, além de tratar dos ”arranhões” dos estilhaços,
cuidar dos dentes, de quistos sebáceos, de calos cutâneos, da neurose de
compensação, da goteira do cotovelo, da prevenção para picadas de mosquitos e
mosca tsé-tsé, de perturbações causadas pelo calor, de alopecia, de
sonambulismo, da falta de apetite depois de comer, etc., etc.
Quando
apareceu na Companhia uns dois meses depois já quase que ninguém o conhecia.
Daí para frente o Condutor-Auto nº. 2572/63 Francisco Augusto da Costa Salvação
só passou a ser conhecido por “São e Salvo” ou “Salvação”. Pegou melhor o
“Salvação”, até porque condizia com o apelido. E de apelido a al(cu)nha foi só
um passo... Até porque quem tem (cu) tem medo e o “Salvação, regressou são e
salvo à Metrópole em 8 de Maio de 1966!
Chega
agora a vez do “Sorna”, um jovem nascido e criado na Costa da Caparica, com a
especialidade de atirador (Soldado nº. 2227/63, Henrique Manuel Pereira
Cambalacho) e com uma doença congénita de “preguicite aguda”. Dormir era com
ele e rapidamente começou a ser conhecido na Companhia como o
"Sorna". Com alguma esperteza e matreirice à mistura conseguiu passar
ao fim de pouco tempo a “ajudante” da Cantina e ficou dispensado de patrulhas
no mato, que eram as partes mais desagradáveis da “especialidade” de atirador.
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| O guarda-redes “Sorna”, assinalado por um círculo, com os habituais titulares da equipa de futebol da CCaç.675, apadrinhada pelo Cap. Tomé Pinto. |
Como
era normal ao tempo nos “intervalos da guerra” havia malta que jogava futebol e
nesse grupo de predestinados para o “desporto-rei” fazia parte o “Sorna” que,
para não se cansar muito, jogava a guarda-redes que, como é sabido, é o lugar
mais parado numa equipa de futebol.
Não
era bom nem mau, antes pelo contrário, mas um dia fez uma defesa tão aparatosa
que acabou... no Hospital de Bissau! Mas até lá chegar... é que foi o cabo dos
trabalhos.
Ainda
hoje não se sabe se o “Sorna” defendeu a bola sem querer, se levou com a bola
na cara ou se bateu com a cabeça na trave e... mordeu a língua! Das duas... três.
O que é certo é que não foi golo e o que é ainda mais certo é que mordeu a
própria língua violentamente. Saiu em braços – não em ombros - e quando meia
hora mais tarde o “Sorna” ,deitado na sua cama, começou a pedir ajuda por
sinais, porque já não conseguia falar... os vizinhos da camarata não lhe
ligaram nenhuma.
O
rapaz começara a ficar roxo e, quando finalmente o médico e o enfermeiro da
Companhia foram alertados para o seu estado, a língua já estava tão inchada que
o “Sorna” corria riscos de asfixia. E para obviar a males maiores o médico
fez-lhe uma traqueotomia, com os meios disponíveis na Enfermaria do
aquartelamento. Quando o infortunado «guarda-redes» estabilizou foi evacuado de
helicóptero para o Hospital de Bissau. Passou um mau bocado mas... voltou ao
Quartel menos “Sorna”.
Mas
a alcunha ficou e... mais ninguém lha tirou! Aqui está um caso em que a
primeira função das alcunhas (a identificação) não ajudou nada. És “Sorna” e
quando estás doente a sério... ninguém acredita! Está claro que esta situação
complicada nunca teria acontecido com o “Salvação”...
Faz
tempo...
JERO
PS - E em breve vos trarei mais alcunhas...



































