segunda-feira, 2 de julho de 2018

P1039: RECORDANDO, MAIS DE 50 ANOS DEPOIS...


A NOITE MAIS LONGA DA RECRUTA… 
E NÃO SÓ…

Carlos Pinheiro 
Tínhamos assentado praça no dia 10 de Outubro de 1967 na EPC, em Santarém em conformidade com a Lei do Serviço Militar Obrigatório.

O país estava em guerra em três teatros de operações, envolvendo todos os meios humanos e materiais possíveis, Angola, Moçambique e Guiné. Mas também tinha tropas destacadas em Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe e até em Macau e em Timor, tudo isto depois do desastre da Índia, pelo que o destino da juventude daquele tempo estava traçado.

Na noite desse dia 10, depois de nos terem sido indicadas as instalações, nomeadamente a caserna com sessenta camas, mais uma do plantão, dois chuveiros, duas sanitas e meia dúzia de lavatórios, e de nos ter sido fornecido o fardamento, depois de termos ido ao refeitório tomar a 3ª refeição, fomos a esse mesmo refeitório passar uma parte importante do serão para aprendermos o que era a tropa. Foi uma conversa aberta e franca onde ficámos a saber, minimamente, quem é que mandava e quem é que tinha que obedecer.

Ficámos a saber também que o porta-voz do Comando do Grupo de Esquadrões era o Tenente Sentieiro, que ali fez todas as apresentações.

Ficámos saber que só podíamos sair do Quartel depois de sabermos bem todos os distintivos dos vários postos da hierarquia militar para evitar que fossemos fazer continência ao porteiro do Hotel Abidis, que tinha uma farda parecida com a de um Marechal.

Ficámos a saber que aquela coisa onde estávamos a depositar a cinza e as beatas dos cigarros – naquele tempo podia-se fumar em todo o lado – a servir de cinzeiro, de manhã, ao pequeno-almoço, era, como se fosse, uma chávena de Vista Alegre para o café com leite e ao almoço era, como se fosse, um copo de cristal para o vinho, para a água ou para a água com algum vinho.

Ficámos a saber que tínhamos que comer pão duro todos os dias porque, apesar da Escola receber todos os dias pão fresco da Manutenção Militar do Entroncamento, havia sempre dois dias de pão de reserva para evitar qualquer imprevisto que prejudicasse o nosso direito ao “casqueiro” diário.

Ficámos ali a saber que passávamos a ser um número e mais nada. Mas foi útil essa conversa.

Logo no dia 11, pela manhãzinha, pela fresca, formámos na parada e marchámos para a terraplanagem, no quartel Sede, onde começámos a tomar contacto com a vala, com as barreiras, com a ponte interrompida, com o galho, com o pórtico, com o slide, e acima de tudo com a lama constante e em todo o lado da tal terraplanagem.

Durante a recruta tivemos de tudo um pouco. Muitas instruções nocturnas pelo Monte do Zé Morto, pelas Ómnias, deslocações diárias pelos arredores da cidade, sempre a marchar com a cadência militar, fosse a subir a Calçada do Monte, fosse a caminho da Carreira de Tiro, fosse a caminho da Escola, a caminho do Campo da Feira, fosse para onde fosse.

Logo no terceiro dia de tropa, uma quinta-feira dia 13, fomos confrontados com uma situação tão inesperada como impensável. Estávamos, como disse, no terceiro dia de tropa. Tínhamos regressado da terraplanagem e tínhamos dez minutos para tomar banho, fazer a barba, fazer a cama e apresentarmo-nos impecavelmente fardados na Parada, mesmo que enlameados mas com as botas devidamente engraxadas e a luzir e os talabartes também a brilhar. 

Nesse entretanto, eis que um camarada nosso, que terá conseguido tomar banho, ao fardar-se em cima da cama terá dito, mais ou menos isto: Eh malta, ninguém faz as camas, não temos tempo, não somos escravos. Só que na Caserna estava um Cabo Miliciano, de Sargento de Dia, que trocou algumas palavras, mais ou menos azedas, com o tal instruendo. Mas tudo acabou, melhor ou pior, todos nos apresentámos na formatura dentro dos tais 10 minutos. Então, o Oficial porta-voz, dirigindo-se às forças em parada, ordenou que o tal instruendo saísse da formatura e acompanhasse o sargento da Guarda. E o nosso camarada lá foi e esteve preso até Domingo, em prisão particular, tendo na Segunda-feira saído à Ordem a sua detenção durante 18 dias, o que lhe deu 54 dias de dispensas cortadas, sendo assim impedido de ir a casa durante esse período. 

Mas esse nosso camarada aproveitou o tempo de semiclausura e preparou-se para ir fazer duas cadeiras que lhe faltavam, dum bacharelato, num Instituto qualquer em Lisboa. E fez as cadeiras e passou para o COM. Mais tarde foi parar à Guiné, como eu fui, como foi o tal Cabo Miliciano e também o porta-voz. Penso que nunca nos encontrámos todos na Guiné mas eu encontrei, separadamente, o nosso camarada, já como alferes Miliciano e o referido Cabo Miliciano, já como Furriel. Coisas da vida militar daqueles tempos.

Era tudo apurado. O do meio calçava 35 e andou em sapatilhas
a recruta toda porque não havia botas para ele. Mas foi apurado
Não foi só a última noite da recruta que foi longa, como lá mais para a frente referirei, mas ali tudo era longo. Os dias, as marchas, as noites, as instruções, especialmente na terraplanagem, as noites a engraxar as botas de sair e os talabartes para as revistas, sempre longas e rigorosas, o rigor da disciplina, a espera pelo fim-de-semana (quando havia) e só esse é que era sempre curto. A Cavalaria não era melhor nem pior do que as outras armas. Era diferente.

Um dia ao subirmos a Calçada do Monte, a descer ia o Major Duarte Silva, Director da Instrução, a conduzir o seu jeep Austin e porque o nosso Comandante de Pelotão não mandou olhar à esquerda, tivemos um fim-de-semana diferente. Ordem unida no Sábado das 10 às 12 e das 15 às 17 - e no Domingo o calendário repetiu-se.

Foi durante a recruta que aconteceu a tragédia das grandes inundações da grande Lisboa, concretamente no dia 25 de Novembro de 1967, onde morreram largas centenas de pessoas e ficaram desalojados alguns milhares. Não tivemos intervenção directa nesta tragédia, mas muitos dos nossos camaradas que viviam na zona de Alverca, Carregado, Vila Franca, foram atingidos por esta calamidade e chegaram com atrasos significativos naquele princípio de semana e contaram-nos episódios terríveis.

Nesse fim-de-semana, a Especialidade de Atiradores de Cavalaria, que tinha entrada no 3º Turno, estava na semana de campo e também sofreu as consequências daquela intempérie.

Também fizemos a nossa semana de campo com tempo horrível. Na primeira noite a água chegou a congelar nos cantis que tínhamos à cintura. Nunca montámos tenda porque o “inimigo” estava por ali. Passámos frio, mas frio a sério, tudo para lá da Chamusca. Sempre a pé, a marchar, a andar e até a correr.

Mas algo de diferente parecia estar guardado para o fim da recruta, e estava mesmo.
Foi na última noite. No dia seguinte era o Juramento de Bandeira, mas o meu pelotão teve que cumprir nessa noite mais uma instrução nocturna visto que tinha faltado, com a devida autorização, a uma dessas instruções, dias antes quando nos juntámos, com o Comandante do pelotão, o Aspirante Maciel, para festejarmos o aproximar do final da recruta. E as contas tinham que se acertar. Não podia haver um pelotão beneficiado e não fazer aquela instrução que estava no calendário. E nós fizemos. O pior foi o resto.

O meu pelotão no campo, mais propriamente nas Ómnias
Foto de autor desconhecido – Direitos reservados
A instrução correu bem dentro das normas estabelecidas e regressámos ao Destacamento da EPC, o nosso Quartel, já depois da uma da madrugada. Estava tudo em silêncio e nós respeitámos todos os que estavam a descansar. Porém, quando chegámos ao nosso “quarto particular” com 60 camas – dois pelotões – e nos preparávamos para descansar, verificámos que as nossas camas estavam todas armadilhadas, à espanhola, trabalho efectuado certamente pelos camaradas do outro pelotão.

Começou então a barafunda. Cabeçalho para ali, cabeçalho para acolá, alguns iam-se abrindo e espalhando a palha pelo chão, mas eis quando um desses cabeçalhos bate num pequeno vaso de flores que havia por cima da cama do Plantão, e o tal vaso partiu-se. Foi uma chatice. O Plantão levantou-se, fardou-se e desceu as escadas e foi participar o sucedido ao Oficial de Dia. Passado pouco tempo, com a confusão a complicar-se, já com colchões a voarem e a palha a espalhar-se cada vez mais pelo chão da caserna, entra o Oficial de Dia, que ordenou que os responsáveis se apresentassem imediatamente na Parada. 

A barafunda acabou, mas ninguém se mexia para se apresentar na Parada. Então, três voluntários encheram-se de coragem e lá foram. Mas o Oficial exigiu que eles fossem buscar os outros responsáveis, porque aquilo que tinha visto não era “trabalho” só de três instruendos. E assim, dos tais sessenta, viemos trinta e seis em cuecas, uns descalços, outros em botas e foi-nos tirado o número para não haver mais confusões. Voltámos à caserna e lá limpámos impecavelmente aquilo que parecia um palheiro mal organizado. Quando nos deitámos já seriam mais de quatro da matina e a Alvorada tocou á hora regimental.

O dia começou como habitualmente com a formatura geral, a toque de caixa para o pequeno-almoço; de seguida subimos á caserna para nos barbearmos e fazermos a higiene pessoal possível, visto que só havia dois chuveiros para sessenta homens e o tempo estava cronometrado - como acontecia todos os dias.

Aula técnica na Parada do Destacamento da EPC
com o Comandante do Pelotão, aspirante Maciel,
a supervisionar os resultados
Mas à hora marcada, lá estávamos devidamente fardados e equipados na Parada, com os talabartes e as botas a brilhar, com o grande capacete na cabeça e a companheira Mauser á mão, a aguardar ordens.

E então o Porta-voz do Comando do Grupo dos dois Esquadrões – trezentos e sessenta homens –  lá deu os avisos da praxe, salientando - e passo a citar de memória - “que este era o dia mais solene da vossa vida militar pelo que estão autorizados a ir almoçar fora com a família, com as noivas, as mulheres ou as namoradas, à excepção daqueles trinta e seis “gabirus” que ficam detidos até novas ordens”.

Nós, os tais trinta e seis, ficámos detidos (detenção particular) – naquele dia e nos dois dias seguintes - para não esquecermos onde nos tínhamos metido.

Entretanto, o pior estava para vir. Fomos de férias, por volta das vésperas do Natal desse ano de 1967, e regressámos no dia 4 de Janeiro de 1968, para sabermos a especialidade que nos caberia em sorte e a Unidade para onde iríamos. Mas de facto o pior estava para vir. Nesse dia soubemos que a maior parte da malta – 201 em 360 – tinha chumbado no CSM e passado para o Contingente Geral. E eu fui um deles.

Mais tarde, já na Guiné – no ano de 1970, em data que não posso precisar, mas de certeza ainda no 1º semestre - encontrei no Cais o Capitão Carvalho de Andrade que tinha sido Comandante do Grupo de Esquadrões na minha recruta em Santarém em 1967. Conheci-o à distância, e com a devida vénia prestei-lhe a devida continência, a que ele correspondeu  dizendo-me que lhe parecia que me conhecia de qualquer lado. 

Respondi-lhe que também o conhecia, mas sabia de onde era. Então ele perguntou-me de imediato – estava a ver as minhas divisas de Cabo – se eu tinha sido um dos lixados do 4º Turno de 67 de Santarém. Claro que lhe respondi que sim, que tinha sido um dos 201 que tinham chumbado. Então, com o vagar que havia, pois estávamos à espera dum barco que nunca mais chegava - penso que era o Carvalho Araújo- disse-me que tudo aquilo tinha acontecido porque teria havido um erro na classificação das pautas de tiro e o Comandante, porque o Tiro dependia da Direcção de Arma de Infantaria, não quis pedir a revisão das provas pelo que os chumbos calharam quase todos a Santarém, onde só estavam 360 instruendos, ao passo que no CISM em Tavira e no RI5 nas Caldas da Rainha estariam cerca de 1.200, em cada lado, e onde os chumbos não teriam chegado às duas dezenas. Era a tropa a funcionar no seu melhor…

Porque as conversas são como as cerejas, aproveito para recordar que o Capitão Carvalho de Andrade que acima referi, morreu na Guiné em 25 de Julho de 1970, num desastre do helicóptero, que vinha a voar em linha – eram três helis - e que caiu no Rio Mansoa devido a um tornado. Naquele helicóptero vinham quatro Deputados à Assembleia Nacional - Dr. James Pinto Bull, Dr. José Pedro Pinto Leite, Dr. Leonardo Coimbra e José Vicente de Abreu que também morreram nesse acidente assim como a tripulação do Heli.

As buscas duraram vários dias, com trabalho exaustivo de forças da Marinha, tendo sido recuperados só dois corpos, sendo um do Dr. Leonardo Coimbra e o outro do Capitão de Cavalaria Carvalho de Andrade. O seu corpo esteve em câmara ardente passados uns dias na Sé de Bissau, onde eu tive oportunidade de lhe prestar as minhas últimas homenagens.

Três dias depois da tragédia do Heli, em 28 de Julho de 1970, morre Salazar. As atenções da Comunicação Social, apesar de nunca terem sido muito activas, porque a censura escondia tudo e mais alguma coisa que se referisse à guerra, aos mortos e aos acidentes, mesmo assim passam para segundo plano o impacto com o desastre da Guiné e creio que foi mais um assunto que caiu no esquecimento.

Para terminar, eu, que só queria contar a história da noite mais longa da minha recruta, acabei por me esticar desde o 4º trimestre de 1967 até ao último de 1970. Aliás, sempre foram mais de 38 meses de tropa, dos quais mais de 25 na Guiné.

O meu pedido de desculpas a quem teve a coragem e a paciência suficientes para ler todo este escrito. Obrigado.
Carlos Pinheiro



terça-feira, 26 de junho de 2018

P1036: REVISTA "KARAS" DE JUNHO

Como habitualmente os editores do blogue chegam cedo e aproveitam para definir estratégias para os próximos tempos. O Miguel Pessoa e o Joaquim Mexia Alves vão pondo a conversa em dia, observados pela Giselda, Agostinho Gaspar e família, Manuel da Ponte e José Luís Rodrigues.
Um friso de algumas das senhoras que habitualmente marcam presença nos nossos convívios - Mª Helena Frade, GIselda Pessoa, Isabel Gaspar, Hortense Mateus, Amélia Gonçalves e Emília Ferreira. O Miguel Gaspar está lá no meio para compor o ramalhete...
O José Salgueiro iniciou a sua participação nos nossos encontros por mero acaso, tendo estado presente no convívio anterior. Pelos vistos gostou e repetiu a presença, agora com o reforço do Carlos Cordeiro, que trouxe a reboque. Vemos os dois na conversa com o Manuel "Kambuta" Lopes e com o António Sousa, que o "apadrinhou"no convívio anterior.
O Joaquim Espírito Santo Oliveira, Abílio Vieira Marques e Joaquim Caneira não serão dos mais assíduos, mas têm aparecido com regularidade. Em fundo, o Manuel da Ponte, Agostinho Gaspar (totalista com 69 presenças!) e o Carlos Santos.
Embora se vejam com regularidade os amigos Manuel Lopes e Almiro Gonçalves aproveitam sempre para pôr a conversa em dia. De pé, o Manuel Mendes e o José Salgueiro.
O número mais reduzido de inscritos permitiu uma pose mais descontraída da foto de grupo, no acesso ao salão. E é provável que nem estejam aqui todos os participantes...
O José Salgueiro integrou-se na mesa dos casais Lopes e Ferreira, com o Miguel Pessoa a rondar, para confirmar que o "Kambuta"se estava a portar bem...
Presenças bem conhecidas: O Carlos Manata, Joaquim Caneira, José Luís Rodrigues e Manuel da Ponte.
Quando aparece, o Constantino Antunes costuma trazer consigo o Carlos Aberto Santos. Já o Benjamim Mira Dinis, que costuma acompanhar o Manuel Frazão Vieira, na ausência deste procurou outros companheiros de jornada. Aqui com o estreante Carlos Cordeiro, trazido pelo José Salgueiro.
Dois casais habituais nos nossos encontros - António e Helena Frade e Almiro e Amélia Gonçalves.
O Rui Marques Gouveia contou desta vez com a presença da habitual acompanhante, Teresa Vindeirinho. E o Joaquim Espírito Santos Oliveira confraterniza com o Frederico Biel, inscrito pelo Carlos Santos.
O José Luís Rodrigues e O Manuel da Ponte representam os extremos nas inscrições para os nossos encontros - são um dos primeiros e um dos últimos a inscrever-se...
E o Luís Branquinho Crespo partilha a mesa com o Agostinho Gaspar e família.
O Diamantino Ferreira e o José Salgueiro. E algo interessante deve estar a ser dito pelo Vitor Caseiro, dada a expressão da Giselda...
O que terá sucedido para se ver esta expressão sorridente do casal Pessoa? Já o António Sousa e o Manuel Mendes dedicam toda a sua atenção ao petisco...
O Agostinho Gaspar. Luís Branquinho Crespo, Abílio Vieira Marques e Carlos Manata. E, claro, o Manuel Kambuta Lopes mais a "namorada" Hortense.
Na mesa do Régulo da Tabanca, o dito cujo mais o Carlos Santos e o JERO. JERO que inclusive serve de suporte à arte fotográfica do "Kambuta".


quinta-feira, 21 de junho de 2018

P1034: NÃO ESTÃO ESQUECIDOS...


MORTOS POR FUZILAMENTO NA GUINÉ

JERO
O PAICG prometeu tratá-los com humanidade. Portugal acreditou, pagou-lhes seis meses de ordenado e pediu-lhes que entregassem as armas. Ainda que renitentes, os 27 mil militares guineenses do Exército português aceitaram. Mal as autoridades portuguesas abandonaram o país, logo o novo poder executou os primeiros.

Mortes reconhecidas na sinceridade das certidões de óbito: “Faleceu por fuzilamento”, diziam. As autoridades guineenses pós-Luís Cabral falam em 500 mortos. O jornal “Nô Pintcha” chegou a publicar uma lista de nomes. Mas os sobreviventes calculam que pelo menos um milhar terá comparecido diante do pelotão de fuzilamento - alguns em aeroportos e campos de futebol, diante das populações.

Apetece-me começar por dizer que este triste e trágico tema, que em termos pessoais desde sempre incluímos na chamada “descolonização exemplar”, foi há muito esquecido…

Como um amigo e ex-militar do “quadro” me disse quando lhe referi “os falecidos por fuzilamento” há coisas que… não interessa lembrar. E é melhor esquecer !

No que me diz respeito - e por diversas razões – não consigo “apagar” das minhas memórias da guerra do Ultramar a história dos fuzilamentos da Guiné. E já lá vão mais de 50 anos…mas ainda restam testemunhos credíveis.

Socorrendo-me de textos de Eduardo Dâmaso e Adelino Gomes recordamos que “… ainda a comissão executiva do PAIGC não tinha ocupado as cadeiras do poder, em Bissau, no Outono de 1974, e já alguns dos mais destacados militares africanos do contingente português na Guiné começavam a ser fuzilados.

 O destino dos cerca de 27 mil guineenses que faziam parte do contingente português na província, à data de 25 de Abril de 1974, começou por ser objecto de discussão no primeiro encontro entre as delegações de Portugal e do PAIGC, em Maio e Junho desse mesmo ano, mas não consta nem do texto principal nem dos anexos do chamado acordo de Argel, através do qual a antiga potência colonial reconheceu o Estado da Guiné-Bissau.

Todavia, foi num desses encontros das delegações de Portugal, integrada por Mário Soares, Almeida Santos, Jorge Campinos e o general Almeida Bruno, com a do PAIGC, representado por Pedro Pires e José Araújo, que a questão foi abordada.”

O General Almeida Bruno por diversas vezes recordou publicamente que levava indicações claras de Spínola: “Ninguém tocava nos africanos, não só nos oficiais e sargentos do Batalhão de Comandos, como nos comandantes das milícias, que tinham cerca de 20 mil homens com insígnias e uniformes próprios”. Intenções rapidamente desmentidas pelo vertiginoso curso dos acontecimentos.

Para o General Almeida Bruno, resulta claro que o PAIGC aceitou a integração daqueles militares. Ou na vida militar ou na vida civil. “Mas o que aconteceu não foi isso e o PAIGC fuzilou barbaramente a maioria dos meus oficiais africanos do batalhão de Comandos”.

O General Almeida Bruno conseguiu fazer sair do país Marcelino da Mata, o mais lendário de todos os combatentes africanos.

As companhias africanas e os soldados milícias constituíam uma potencial terceira força que alguma falta de tacto poderia fazer emergir de um momento para o outro.

A questão preocupou, como é de calcular, os representantes locais do MFA, nas semanas que se seguiram ao golpe de Estado.

Logo após o 25 de Abril, os militares guineenses que combateram o PAIGC começaram a dar sinais de inquietação.

Necessitados de garantir um processo sem sobressaltos os representantes locais do novo poder em Lisboa procuraram obter do  PAIGC o compromisso de que nenhuma represália seria exercida sobre guineenses que haviam integrado as forças portuguesas.

Tarefa tanto mais complexa quanto muitos dos militares mais graduados pareciam não ter entendido ainda o sentido dos ventos da História. “Nós, os futuros coronéis, queremos que o nosso general Spínola venha cá fazer-nos a entrega da Guiné”, disse por estas palavras, ou outras de significado semelhante, um oficial nativo ao comandante de uma das unidades operacionais.

Os dados disponíveis para reconstituir objectivamente como tudo começou e se desenvolveu são ainda pouco seguros. Há quem se recuse a falar e os que o fazem confundem muitas vezes as datas e parecem afectados por um grande ódio ao PAIGC.

Sabe-se que muitos dos soldados e oficiais, ao apresentarem-se em Janeiro nos quartéis das FARP, foram mandados para a embaixada de Portugal em Bissau, onde, minutos depois, blindados os dispersaram.

O então chefe do Estado-Maior do Exército do PAIGC, Umarú Djaló apareceu junto à embaixada portuguesa num dos blindados e gritou-lhes: “Deviam ter vergonha por estar ali a pedir alguma coisa, deviam de ter vergonha de ter sido comandos!”

Os que não abandonaram o país cruzando a fronteira para o Senegal, viram-se pouco depois e uma vez mais confrontados com o PAIGC, que logo após o golpe de 11 de Março, em Lisboa, lançou uma gigantesca operação de limpeza entre os ex-soldados comandos e milícias.

“Acusaram-nos de querermos fazer um golpe. Sem armas? Os soldados portugueses controlaram a entrega das armas. Mas, ainda que houvesse desconfianças, onde estavam as provas? E mata-se sem julgamento?” - perguntava-se muito anos depois.

Mansoa, Bissorã (antiga Teixeira Pinto), Bula e Cachungo foram localidades onde ocorreram muitas das execuções.

Em termos públicos “os assassinatos acabaram com o golpe de 14 de Novembro de 1980”, liderado pelo presidente e antigo guerrilheiro Nino Vieira. “Mas, secretamente, continuaram”, acusam muitos, calculando em mais de mil os assassinados”. Se continuaram depois do golpe de Nino Vieira, não se sabe, mas, que persistiram até muito próximo dele, isso é certo.

Malan Sissé
E terminamos com uma nota pessoal sobre o Guia Malan Sissé (foto do ex-Alferes Belmiro Tavares) em 1965.

"Depois da 'Revolução de Abril' e da Independência da Guiné, Malan Sissé, também conhecido em Binta por Malan Griffon Sissé, foi morto (sem qualquer sombra de julgamento) no Senegal onde se refugiara, tentando fugir ao destino que lhe traçaram.

Mais recentemente tem participado nos nossos convívios João Turé um dos sobrinhos do malogrado Malan, o nosso grande e saudoso guia, que a Companhia de Caçadores 675 guarda na memória como um dos nossos mortos em combate.

Aqui fica mais uma distante memória da chamada “descolonização exemplar”.
JERO    


terça-feira, 12 de junho de 2018

P1031: EM ALCANENA, NO PRÓXIMO DIA 23 DE JUNHO

Diz-nos o nosso camarigo António Lúcio Vieira:

"A minha editora parece apostada em matar-me precocemente (talvez com a ideia que, depois de morto, o livro se venda melhor)...
Estou, obviamente a gracejar. Desta vez (e depois do orgulho que foi ter feito a apresentação na histórica Casa-Memória de Camões, em Constância e da importância que revestiu a apresentação na Feira do Livro, em Lisboa) é com um prazer redobrado que irei apresentar o livro a Alcanena, onde há milénios nasci. Será o primeiro dos meus livros a ser apresentado na minha "casa-berço".

Aqui vão, anexos, o Cartaz e o Convite. Pode ser que alguém da rapaziada se lembre de aparecer.


Um abraço do 
Lúcio Vieira"

Para quem tiver disponibilidade de por ali passar...
A Tabanca do Centro