quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

P1329: LEMBRANDO UM AMIGO JÁ DESAPARECIDO

UM ANO SE PASSOU, JOSÉ EDUARDO

Há pessoas que não nos deixam nunca!

Mudam apenas definitivamente a sua morada para o nosso coração.

Trazem tudo com elas, o passado, o presente e até o futuro.

E nós temos sempre um cantinho especial no nosso coração onde essas pessoas, familiares, amigos, se instalam e ali ficam a olhar para nós, de dentro de nós, sempre sorrindo para nós, dando-nos conselhos, mostrando-nos o que foi bom, o que é bom e o que há-de ser sempre bom.

Mudam-se para esse cantinho, de “armas e bagagem”, aconchegam-se bem para sentirem o amor e aconchegam-nos a nós, enchendo-nos de amor.

Há um ano que tenho a morar nesse cantinho o José Eduardo, mesmo de “armas e bagagem”, pois foram as “armas” que nos uniram, não numa guerra, mas numa paz que procurávamos todos os dias em que falávamos da guerra, e que ele já alcançou e eu espero alcançar um dia.

A saudade, coisa bem portuguesa, ao contrário do que muitos pensam, pelo menos para mim, é coisa boa, que me traz felicidade, paz, serenidade, ao trazer para o meu dia-a-dia aqueles que marcaram a minha vida de forma indelevelmente boa e dos quais o José Eduardo é, sem dúvida, um deles que preencheu a minha vida nestes últimos anos com toda a sua bondade, amor, educação e cultura fora do vulgar.

Não estou triste, estou feliz e em paz, até porque os dois juntos fomos nestes anos descobrindo caminhos de Deus, e eu, tenho a certeza de que, nos braços de Deus, o José Eduardo dá hoje por muito bem empregues todas as viagens para a Marinha Grande e todas as conversas (muitas delas como orações), que fomos tendo ao longo do tempo.

Aqui deixo algo que escrevi há poucos dias na página da sua filha Eduarda, minha muito querida amiga:

SAUDADE

A saudade

é um sentir português,

que vindo do coração,

nos envolve de tal modo,

que aquele que partiu,

se faz vivo em nós,

outra vez.


Até já, José Eduardo, e aninha-te bem no teu cantinho do meu coração, porque está muito frio, mas o calor do amor tudo aquece!

Marinha Grande, 26 de Janeiro de 2022

Joaquim Mexia Alves 

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

P1328: UM PORTUGUÊS POUCO CONHECIDO POR CÁ...

                https://www.historynet.com >Peter Francisco:American Revolucionary war hero

UM PORTUGUÊS NA AMÉRICA

Sobre ele o primeiro presidente Americano George Washington escreveu: 

“A contribuição de Peter Francisco foi fundamental para a vitória da revolução contra os britânicos.”

Na frase inscrita no monumento em honra deste português em New Bedford/Massachusetts está reproduzida uma outra citação de Washington :

“Um exército de um homem só”.

Entre outros, existem monumentos em sua memória na Carolina do Norte, Nova Jersey, Rhode Island e Virginia. Em 1976 foi emitido um selo na coleção bicentenária dos Estados Unidos com a figura de Peter Francisco e a citação “Um Soldado Extraordinário “.

O dia 16 de Março é o dia dedicado a este herói. É o dia da batalha de Guilford Courthouse em Greensboro, batalha em que Peter Francisco se salientou por feitos e coragem muito acima do normal. Matou onze soldados britânicos e acabou por sofrer ferimentos que quase lhe provocaram a morte. 

Nasceu nos Açores em 1760. Foi raptado quando tinha cinco anos tendo sido abandonado num porto do Estado da Virgínia em Junho de 1765.

Alistou-se no 10 Regimento da Virgínia para lutar na guerra da independência.

Torna-se célebre nas batalhas de Camden/1780 e Guilford Courthouse/1781. 

O general francês  Lafayette, que lutou como voluntário ao lado de Washington, ao referir-se a Pedro Francisco usava o termo “Luso” que acabou por ficar como a sua alcunha de guerra. O Marquês de Lafayette criou uma amizade para o resto da vida com Peter Francisco, e ao visitar a América depois da guerra fez sempre questão de ter Peter Francisco junto a si em todas as muitas cerimónias em que foi honrado.

O aspecto físico do Pedro Francisco era impressionante. Aos 16 anos já tinha um metro e noventa e oito de altura e pesava 118 quilos.

George Washington terá mandado forjar uma espada de 1,80m de propósito para ele.

Refere-se também que a capacidade física de Pedro Francisco lhe permitia transportar ao ombro algumas das pesadas armas de artilharia.

O que o tornou uma verdadeira lenda no exército americano foi o facto de, para impedir que um canhão da artilharia rebelde caísse em posse dos ingleses, separou-o das rodas e transportou-o nos seus braços até à nova linha de defesa americana.

O canhão era de um modelo muito usado (de 499 Kg.)!

E é precisamente transportando um canhão ao ombro que está representado no selo norte-americano que foi editado em sua honra.

Travis Bowman publicou em 2009 o livro “Hércules da Revolução”.

Um filme histórico de longa-metragem a ser distribuído nos Estados Unidos, Portugal e Brasil estará também planeado sob o título “Luso”.

Existe infindável documentação na Biblioteca do Congresso Norte Americano Sobre o soldado Peter Francisco.

Näo foi mais um soldado na guerra da independëncia mas sim… O SOLDADO!

Existem afinal duas versões quanto ao modo como apareceu na América.

Uma que refere ter sido raptado para posteriormente ser vendido como escravo. Outra diz que terá sido entregue pelos pais a um comandante de navio para aprender, e se tornar mais tarde um homem do mar.

Escreveu George Washington, depois da batalha de Guilford Courthouse, referindo-se a Peter Francisco:

"Sem ele teríamos perdido duas batalhas cruciais, talvez mesmo a guerra e com ela a nossa liberdade. Peter Francisco é verdadeiramente um Exército de um só homem".

Em 1950 investigadores, seus descendentes nos Estados Unidos, foram encontrar referências a Pedro Francisco nos registos baptismais da Ilha Terceira.

Filho de Luís e Maria Francisco, nascido a 9 de Julho de 1760 em Porto Judeu/Ilha Terceira/Acores.

A somar-se aos muitos monumentos existentes nos Estados Unidos dedicados a Peter Francisco, foi também erigida uma estátua em Porto Judeu em 2015, representando uma criança que olha o mar.

Depois da guerra foi proprietário de duas estalagens e respectivas tabernas e de uma plantação. Em 1819 recebeu uma pensäo vitalícia por parte do Congresso Americano.

De 1825 até à sua morte em 1831 serviu na posição honorífica de "Sergeant-in-Arms" do Palácio das Reuniões dos Delegados da Virgínia.

Foi sepultado com as mais altas honras militares no Shockoe Hill Cemetery em Richmond/Virgínia.

Algumas Associações de Luso-Americanos vieram a criar uma medalha em honra de Peter Francisco que é entregue a personalidades representativas. O primeiro a receber tal medalha foi o Presidente Kennedy.

Depois das primeiras heroicidades de Peter Francisco o General George Washington ter-lhe-á oferecido a promoção por distinção a Oficial.

Promoção que acarretava uma boa pensão para o resto da vida a somar-se às possibilidades de adquirir vastas terras e plantações a um preço simbólico.

Peter Francisco recusou, invocando como razões o facto de ser mais útil na primeira linha entre os camaradas soldados e por ter plena consciência de não ter recebido qualquer educação formal e escolar para tais cargos.

Todos os documentos existentes chegariam, não para um simples texto mas para um longo e interessante livro de aventuras incríveis mas... reais!

Livro que existe e está publicado nos Estados Unidos.

Enfim, um português que não foi “oficial de aviário” apesar de ter participado de armas na mão numa Revolução.

José Belo

sábado, 8 de janeiro de 2022

P1327: AINDA A PROPÓSITO DO DIA DE REIS

                  O QUARTO REI MAGO

Há uma lenda que, sem fazer parte da Revelação, nos ensina o que Deus espera de nós. Dizem que houve um quarto Rei Mago, que também viu a estrela brilhar em Belém e decidiu segui-la. Como presente, pensou em oferecer ao Menino um baú cheio de pérolas preciosas.

No entanto, em seu caminho ele encontrou várias pessoas que estavam pedindo sua ajuda. Este Rei Mago assistiu-os com alegria e diligência, deixando a cada um deles uma pérola. Mas isso estava atrasando sua chegada e esvaziando seu baú. Ele encontrou muitos pobres, doentes, aprisionados e miseráveis, e não podia deixá-los sem supervisão. Ele ficou com eles pelo tempo necessário para aliviar a dor e depois partiu, no que foi novamente interrompido por outro desamparado.

Aconteceu que quando finalmente chegou a Belém os outros reis magos não estavam mais lá e o Menino Jesus fugira com seus pais para o Egipto, porque o rei Herodes queria matá-lo. O Rei Mago continuou procurando-o sem a estrela que o guiara antes.

Ele procurou, procurou e procurou... e dizem que ele passou mais de trinta anos viajando pela terra, procurando a criança e ajudando os necessitados. Até que um dia chegou a Jerusalém justamente no momento em que a multidão enfurecida exigia a morte de um pobre homem. Olhando-o, ele reconheceu algo familiar em seus olhos. Entre dor, sangue e sofrimento, pode ver em seus olhos o brilho daquela estrela. Aquele que estava sendo executado era a criança que ele havia procurado por tanto tempo.

A tristeza encheu seu coração, já velho e cansado pelo tempo. Embora ainda guardasse uma pérola na bolsa, era tarde demais para oferecê-la à criança que agora, transformada em homem, pendia de uma cruz. Ele havia falhado em sua missão. E sem mais para onde ir, ficou em Jerusalém para esperar a morte chegar.

Apenas três dias se passaram quando uma luz ainda mais brilhante do que mil estrelas encheram seu quarto. Foi o Ressuscitado que veio ao seu encontro! O Rei Mago, caindo de joelhos diante Dele, pegou a pérola que sobrara e estendeu-a a Jesus, que a segurou e carinhosamente e disse:

"Você não falhou. Pelo contrário, você me encontrou por toda a sua vida. Eu estava nu e você me vestiu. Eu estava com fome e você me deu comida. Eu estava com sede e você me deu de beber. Eu fui preso e você me visitou. Eu estava em todas as pessoas necessitadas que você assistiu no seu caminho. Muito obrigado por tantos presentes de amor! Agora você estará comigo para sempre, porque o céu é a sua recompensa!".

A história não requer explicação... Somos o quarto Mago e damos continuidade ao seu trabalho todas as vezes que ajudamos alguém ao longo dessa caminhada chamada vida.

(Tirado da Net, de autor desconhecido)

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

P1325: UMA ENCOMENDA BEM APRECIADA

Mais uma história do Juvenal Amado, publicada em Março de 2013 no Blogue "Luís Graça & Camaradas da Guiné" e agora recuperada, com a devida vénia ao autor e à Tabanca Grande.

AQUELAS POSTAS DE BACALHAU ERAM OURO!

O Caramba tinha recebido da terra uma encomenda. Enganaram-se os que pensaram que era uma coisa especial, que era o tesouro gastronómico alentejano. Na verdade a encomenda resumia-se a umas quantas postas de bacalhau salgado e seco, como era tradição cá na terra, em vez do liofilizado que recebíamos lá.

Aquilo para o Caramba era ouro puro e tratou de o guardar com mil cuidados. Começou logo a magicar como o iria fazer, sim porque aquilo não era um manjar qualquer, tinha que ter honras de iguaria fina.

Por mim achava que umas postas de bacalhau não mereciam tanta deferência, mas o Caramba era um homem que gostava das coisas da terra, que cultivava a sua ruralidade e que fazia questão de não esconder as suas origens. Contava ele que ainda moço ia com o pai para o negócio da compra e venda de fruta, com um naco de pão, umas azeitonas britadas, um dente de alho e uma posta de bacalhau demolhada, que depois passava pelas brasas feitas num intervalo do seu labor.

Eu, oriundo de operariado urbano que nem quintal tinha, apreciava quando ele falava da sopa de beldroegas, do licor de poejo, dos coentros, do gaspacho, as caldeiradas de peixe da barragem, da sopa de cação, enfim, coisas que eu não conhecia mas que quando regressei tive oportunidade de saborear nas inúmeras vezes que com ele privei.

Ele chegava a trazer do Alentejo as ervas aromáticas e mais o necessário para fazermos os petiscos em minha casa na Boavista de Alcobaça, para onde eu fui viver depois de casar. Visitava-me então amiúde quando vinha carregar fruta da região, que depois transportava para os mercados do baixo Alentejo e Algarve.

Porta de Armas de Galomaro

Mas voltemos ao “fiel amigo” que o pai lhe tinha mandado.

O destino do manjar foi uma pun..ta de bacalhau que ele preparou dentro de uma das terrinas de aço inox quem eram usadas no refeitório. Era o que se podia chamar uma grande tachada.

Nessa noite a partir das oito horas da noite, ele, eu e o Aljustrel estávamos de reforço à porta de armas no primeiro de cinco, que tínhamos apanhado por castigo - e foi mesmo ali que fizemos as honras ao dito.

Está claro que não comemos sozinhos; alguns camaradas que regressavam do Regala bem como um ou dois furriéis, a troco de um rodada de cerveja, também se associaram na terrina. Mais tarde até o Santos, que estava preso, ajudou a acabar com ela e de caminho ficou de reforço connosco até de manhã.

Na sua qualidade de preso, todo dia enfiando num pequeno cubículo no abrigo STM, onde mal cabia uma pequena mesa e dois beliches, ao Santos não lhe custou nada ficar de reforço por nós, que bem bebidos não nos aguentávamos com os olhos abertos. Quando começou a raiar o dia chamou-nos e foi-se enfiar na sua cela, onde se preparou para apanhar mais um dia naquilo que poderia chamar-se “frigideira”, tal era o calor dentro daquelas quatro paredes.

Por esperteza o Santos era soldado básico. Natural de Grijó, passava o dia às ordens do tenente Raposo, nem arma tinha distribuída. Não me lembro do que ele fez mas sei que levou uma porrada com prisão agravada pelo Comando-Chefe, passando assim duas vezes pelo encarceramento. Está claro que quem estava de serviço à porta de armas à noite lhe abria a porta para ele vir para o fresco, e por vezes, quando era levado à casa de banho, passava pela cantina para beber uma bem fresca. Tudo isto nas barbas do nosso comandante e mais oficiais do quadro, de onde podia haver problemas. Dos milicianos nós não tínhamos medo neste caso.


Fica aqui mais um apontamento onde as figuras centrais foram o nosso camarada João Caramba e o Santos dois amigos que já nos deixaram.

Voltando à figura do Caramba, uma das minhas passagens por sua casa, estava ele de convalescença de uma intervenção cirúrgica e por isso já com muitos dos problemas que a partir de certa altura o foram afligindo. Brincamos com a velhice que se ia apoderando de nós e à minha pergunta de como estava, respondeu-me, com um ar maroto, apontando para a televisão onde se passava uma cena de amor entre uma bonita mulher e um homem, assim com alguma filosofia e fino humor:

- “Ora, vamos indo não fazendo nada e para aqui estamos vendo o que outros estão fazendo…”

Dito isto, fez com a boca um trejeito trocista para que não houvesse dúvidas ao que se estava a referir.

Juvenal Amado

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

P1323: CONTO DE NATAL 2021

               OS PÃES E OS PEIXES

Ali estava na sua sala, sentado, completamente só na noite de Natal, pois os filhos estavam longe e desinteressados da sua vida, a mulher já tinha falecido e a vida madrasta tinha-o deixado apenas nos níveis de sobrevivência, sendo aquela casa o único bem que ainda possuía, não sabia por quanto tempo.

Levantou-se e foi à cozinha ver o que haveria para comer na Ceia de Natal. Riu-se interiormente ao pensar em Ceia de Natal, ele que não tinha nada, ter uma qualquer refeição que se assemelhasse sequer a uma ceia, quanto mais a uma Ceia de Natal!

Abriu a caixa do pão e viu que tinha dois pãezitos (já um pouco duros) e numa caixa no frigorifico vazio, um carapau frito que já nem sabia de quando era.

Riu-se novamente, mas agora ruidosamente e disse alto, sabendo que ninguém o ouviria: Agora o que me fazia falta era Jesus Cristo para abençoar estes pães e este peixe e, assim, com certeza não faltaria abundância para uma verdadeira Ceia de Natal.

Pegou nos pães e no peixe, num copo de água e foi sentar-se na sala para comer então a sua paupérrima Ceia de Natal.

Apesar da escassez e de tudo o que estava a passar, a tristeza profunda que lhe causava esta Natal sozinho e sem nada, benzeu-se e agradeceu a Deus pelo pouco que tinha porque, apesar de tudo, haveria outros que nem isso teriam com certeza.

Pegou num pão, partiu-o e, quando se preparava para o começar a comer, bateram à porta.

Pôs o pão de lado, levantou-se e foi abrir a porta.

Era um casal seu vizinho com uma caixa grande nas mãos e que lhe disseram: Ó vizinho, sabemos que está sozinho e com dificuldades. Nós também estamos sozinhos, mas graças a Deus ainda temos que nos chegue e assim lembramo-nos de nos fazermos convidados para passar o Natal em sua casa, pois sabíamos que se o convidássemos o vizinho não iria a nossa casa. Deixa-nos entrar?

Embora envergonhado, abriu a porta e deixou-os entrar dizendo: Mas eu não tenho nada para comer! Tenho apenas uns pãezitos e um peixe!

Eles responderam: Não se preocupe. Trazemos aqui nesta caixa um bom peru assado e recheado, com os seus acompanhamentos, que irá servir de Ceia de Natal a todos nós.

Sem palavras, com a voz embargada, agradeceu e sentaram-se à mesa.

Mas, mais uma vez, bateram à porta e ele lá se levantou para ir abrir.

Desta vez era um casal bem mais jovem, com o seu filho ainda criança, seus vizinhos também, e que lhe disseram: Sabíamos que estava sozinho, que se o convidássemos para nossa casa não iria, por isso viemos fazer-lhe companhia nesta noite de Natal. Espero que não leve a mal e nos deixe entrar.

Bem, pensou ele, se já cá estão uns porque não deixar entrar estes também.

Foram entrando e entregando umas caixas dizendo que eram bolos para adoçar a noite.

E, novamente, lá se sentaram todos à mesa. Ele, já bem mais disposto, perguntou alto se mais alguém bateria à porta.

Ainda não tinha acabado de falar e novamente tocam à porta.

Desta vez era um vizinho, só como ele, mas que vivia bem, e lhe disse: Pensei para mim que estando sozinho e o vizinho também, faria mais sentido vir bater à sua porta, fazer-me convidado e assim fazermos companhia um ao outro. Trago aqui umas garrafas de vinho para acompanhar o que houver para comer.

Espantado, admirado, deixou-o entrar e finalmente sentaram-se à mesa, que agora se apresentava bem guarnecida com o peru e os seus acompanhamentos, diversos bolos e vinho que chegava à vontade para todos.

De repente lembrou-se do que tinha dito alto na cozinha quando estava sozinho, de que o que precisava era de Jesus Cristo para abençoar a comida e assim haver abundância na sua mesa.

Soltou uma gargalhada e contou a todos os outros o que tinha acontecido, o que tinha dito e como via ali a multiplicação dos “pães e dos peixes” e também dos amigos.

Riram-se todos com alegria, rezaram um Pai Nosso em acção de graças e a criança disse toda contente: Hoje é mesmo Natal!!! O Menino Jesus está mesmo aqui connosco!!!

Monte Real, 22 de Dezembro de 2021

Joaquim Mexia Alves

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

P1322: UM PIRA AGUERRIDO

25 DE DEZEMBRO DE 1973

Naquele dia 25 de Dezembro de 1973 a actividade aérea na BA-12 estava reduzida ao mínimo dos mínimos, apenas as missões de Alerta, para evacuações de DO-27 e AL-III e a parelha dos Fiat G-91, para uma eventual saída de apoio-fogo.

A meio dessa manhã meti-me na minha Yamaha 200 e lá fui, estrada fora, do Largo do Liceu Honório Barreto, onde morava, até à Base da Bissalanca. A minha tarefa para essa tarde estava bem definida, ia entrar de Alerta ao Fiat G-91 a partir das 13:00 e até ao pôr do sol.

Um almoço muito ligeiro no Bar dos pilotos, ainda vinha cheio de fatias douradas, sonhos, bolo-rei e muitas outras iguarias, o resultado de uma noite de consoada passada em casa das minhas vizinhas do andar de baixo, as enfermeiras paraquedistas. Até tinham sido amigas, sabendo da minha paixão por automóveis e em especial por Porsches, no meio de muitos sorrisos malandrecos tinham-me oferecido um 911 da Dinky Toys, à escala 1/43.
Porsch 911 S 2.2 1970 - Escala 1:43

Era Dia de Natal, Feriado, a “Paz entre os homens de boa vontade”, mais uma série de frases feitas, talvez, nesse dia, a guerra tivesse uma pausa. A primeira missão aconteceu por volta das 14:00. No sistema sonoro do Grupo a mensagem a chegar: - “Alerta aos Fiats”.

Corrida às Operações para saber mais alguns detalhes. A solicitação era para Gadamael, lá no Sul, junto à fronteira com a Guiné Conacri. Recolha do capacete e das fitas da Martin-Baker, quase tudo o resto ficou esquecido no armário, o anti-g, o mae-west e o respectivo equipamento de sobrevivência. No bolso do fato de voo, o que sempre me acompanhava, uma bússola e um espelho, se me apeasse e em caso de necessidade, podia tentar indicar a minha posição. 

Uma corrida até à Linha da Frente, o condutor do Jeep a buzinar, os mecânicos a correrem, a tirarem as tampas que protegiam as aeronaves, uma rápida entrada nos aviões de alerta.

Quinze minutos depois já estávamos a sobrevoar a zona. Tinham sido atacados, dos lados da fronteira, com morteiro 120mm.

De acordo com a descrição dos militares do Aquartelamento, as granadas tinham caído longe do arame mas sempre em aproximação, como se alguém estivesse a tentar regular o tiro. À nossa chegada tinham-se calado.
Guiné > Região de Tombali > Gadamael > Vista aérea de Gadamael Porto nos finais do ano de 1971.
© Foto do Cor Art Ref António Carlos Morais da Silva.

Largámos os foguetes algures. Já há algum tempo que não usava as metralhadoras, o seu calibre era inócuo para quem, na floresta, se pudesse abrigar atrás de uma qualquer palmeira. Para além disso, as placas para-fogo junto à saída dos canos estavam completamente rachadas, bem à vista de todos, com umas feias e atabalhoadas soldaduras, quais cicatrizes. Por causa dessas anomalias, um piloto já se tinha ejectado - no momento de disparar as armas o painel das metralhadoras saltara fora.

Tudo calmo, o pessoal do Aquartelamento satisfeito. Regressámos a Bissalanca com a sensação da ajuda ter ficado um tudo ou nada… incompleta. 

Depois de aterrado fui à Secção Fotográfica da Base, quase paredes meias com a Esquadra. Toda aquela zona do Sul da Guiné estava devidamente cartografada e fotografada. Com base no que me haviam dito (morteiro de 120mm e ataque do lado da fronteira), analisei as fotos, tentando descobrir todos os locais possíveis para bases de morteiros de 120mm. No meio de toda aquela floresta encontrei quatro clareiras que se ajustavam ao requisito. Informação em reserva, a ser utilizada numa futura missão na área.

O período de alerta quase a terminar, já me estava a ver de regresso à Yamaha e ao Largo do Liceu, o altifalante do Grupo a transmitir um novo aviso: - “Alerta aos Fiat”.

Outra vez Gadamael. Nova corrida, os mecânicos a apontarem-me uma outra vez o 5437, o avião de alerta, uma outra vez abastecido com os tip-tanks e foguetes. Fiz-lhes sinal para uns outros aviões, uma parelha que estava estacionada ali mesmo ao lado, cada avião com duas bombas de 750 libras, ainda nos cavaletes, mas prontas a serem instaladas. Aqueles mecânicos eram super eficientes, em quinze minutos o armamento foi devidamente acoplado aos aviões e a parelha ficou pronta para voo.
Bissau, 1969 - G-91 R4

Outros quinze minutos e já estávamos de novo na zona. Os do Aquartelamento a confirmarem-me que era outra vez o fdp do 120mm. Apontei a duas das clareiras que tinha identificado nas fotos e, num passe meio esticado, larguei uma bomba em cada uma delas. Depois disse ao meu asa para fazer o mesmo às duas outras clareiras, o que ele, capitão periquito, executou na perfeição.

Um parêntesis para os menos familiarizados com assuntos aeronáuticos; na aviação e independentemente de hierarquias, o mais experiente vai à frente.

Continuando, as bombas de 750 libras eram bem potentes. Ainda a recuperar do passe e sentíamo-las a explodir, o avião até estremecia. Umas outras características, eram bem fuseladas e, ao rebentarem, faziam um enorme cogumelo de pó e detritos, talvez uns vinte metros de altura.

Bombardeamento executado. Ao verificarmos a área para ver se havia alguma reacção de Strelas, descobrimos algo de estranho. No meio de todo aquele verde da floresta havia três rebentamentos castanhos de uns quinze a vinte metros de envergadura e um outro, enorme, uma densa fumarada escura que, no mínimo, deveria ter mais de cinquenta metros de altura.
Algo devia ter explodido lá em baixo, o capitão periquito acabara de fazer o seu primeiro “alvo”.

Regressámos. O voo tinha durado apenas uma meia hora. Como Chefe da Parelha lá tive de ir fazer o respectivo relatório.
Poderia ter escrito três Pings e um Pong, ou, mais de acordo com a sequência da ocorrência, Ping, Ping, PONG, Ping. Não iam perceber. Optei pelas palavras habituais, “Gadamael, junto à fronteira, quatro bombas de 750 lbs, resultados desconhecidos”.
A noite a chegar, o período do Alerta terminado, fomos à nossa vida.

Só semanas mais tarde e através de um relatório da PIDE viemos a saber o resultado daquele grande rebentamento. Uma das bombas fizera explodir as munições que o PAIGC tinha escondido na floresta, para, à noite, irem despejar sobre o Aquartelamento. Pelo menos nessa noite os de Gadamael devem ter dormido descansados.

Outros pensamentos positivos, nunca mais chamei “Pira” ao Capitão Pira.

António Martins de Matos

Nota: Texto do António Matos já publicado há um ano no blogue "Luís Graça & Camaradas da Guiné" e agora recuperado, com a devida vénia ao autor e à Tabanca Grande, que o publicou.

domingo, 19 de dezembro de 2021

P1321: DESPEDINDO-ME DE UM GRANDE AMIGO

                     ADEUS E ATÉ JÁ, JAIME!

Partiu hoje um dos maiores amigos que tive na minha vida!

As histórias com o Jaime Brandão são inúmeras desde garotos, passando pela Guiné, pela dita revolução e até aos dias de hoje.

Por causa da nossa amizade passei fins de tarde quase contínuos na BA5, mormente na Esquadra dos Falcões, e por isso mesmo me foi concedido algo único na minha vida: um voo de A7.

Claro que, embora houvesse outros “candidatos” amigos que me queriam levar, não poderia deixar de ser o Jaime a dar-me esse raro prazer, quase impossível a civis.

Foi um dia memorável.

Tal como o dia em que, envolvido na primeira Operação Militar na Guiné, no segundo mês da minha chegada, com o camuflado ainda a “cheirar a goma”, desembarco no quartel de Portogole e quando estou a subir a rampa para as instalações vejo o Jaime vir direito a mim a sorrir e abraçando-me com toda força.

Perguntei-lhe como era possível ao que ele me respondeu a sorrir que sabia que eu estava envolvido naquela Operação e que ia desembarcar em Portogole para passar a noite e como vinha de regresso a Bissau, declarou que tinha a porta aberta do DO27 e que tinha de aterrar em Portogole.

As histórias são inúmeras, (de dia ou de noite), e todas elas são memórias fantásticas que me trazem agora lágrimas aos olhos

O Jaime era um homem franco, honesto, sério, que não pedia licença para dizer o que pensava e sentia, mesmo que isso lhe acarretasse incompreensões ou mesmo problemas.

Amigo do seu amigo, levava a amizade muito a sério, tão a sério que não se coibia de me dizer algo que eu fizesse mal, como eu lhe dizia também a ele.

É assim a amizade verdadeira!

Mas tinha também um humor muito especial e vivemos momentos hilariantes ao longo de todo este tempo que Deus nos deu de amizade verdadeira e vivida.

Muitas vezes as nossas conversas eram quase um monólogo tal a identidade de pensamento e opinião que tínhamos os dois.

Em bom e antigo português era quase um: “se um diz mata o outro diz esfola”!

Espero, (fazendo humor), que no Céu haja cerveja, porque ele tem que ter uma esplanada onde a beber esperando por mim e por muitos mais que nos faziam companhia.

Pouco apreciador do cozido que habitualmente nos era servido nos nossos convívios, isso limitou a sua presença à mesa connosco. Mas não deixou de estar presente por várias vezes, satisfazendo-se com a sopinha do cozido ou, numa situação pontual, com uma feijoada vegetariana trazida de propósito de Lisboa pela sua camarada e amiga Giselda.
Há homens que nunca fizeram nada por Portugal e são recordados como se o tivessem feito.

O Jaime foi voluntário para a Força Aérea, serviu o seu país na Guiné e em Portugal, serviu o seu país na sua profissão como civil, lutou por um país melhor do que o “politicamente correcto”, e ninguém, com certeza desta gente que nos governa terá uma palavra para ele, o que ele, julgo eu, até agradece.

Envolvo a sua família, mulher, filhas, netos, irmãs e irmão no meu estreito e muito amigo abraço, sem palavras que as não tenho para dizer.

Estou profundamente triste, embora acredite que aos homens bons como o Jaime, Deus tem sempre junto de Si, mas isso ainda não mitiga a saudade imensa que já sinto em mim.

Como dizemos em Monte Real, pelo menos no tempo em que eramos garotos, quando as pessoas se encontram: Adeus!

Eu digo-te, Jaime meu querido amigo, adeus e até já!

Marinha Grande, 18 de Dezembro de 2021

Joaquim Mexia Alves