quarta-feira, 28 de outubro de 2020

P1256: AÇORDA MOLHADA...

                     ANIVERSÁRIO EM BISSAU

Há alguns dias atrás ocorreu o meu aniversário. Foi a 3 de Outubro.

Tendo chegado à Guiné em Novembro de 1970 e regressado em Novembro de 1972, fácil é perceber que passei os meus aniversários de 1971 e 72, ou seja os meus 23º e 24º aniversários, durante a comissão na Guiné e qualquer deles em Bissau.

Por estes dias li um artigo com algumas recordações do Carlos Pinheiro nas suas deambulações por Bissau e isso inspirou-me a repescar a recordação que se segue.

Não tenho a certeza em qual desses anos se passou o que a memória agora me despertou, creio ter sido em 71 mas é só um palpite, embora o ano seja irrelevante para o episódio.

Por essa altura já estava em “permanência” em Bissau, no “Centro de Escuta” (os meus seis meses de “mato” passados em Piche foram do início de Dezembro de 1970 ao final de Maio de 1971) e nessas ocupações funcionava em regime de turnos já que o serviço era contínuo.

Antes da ida para a Guiné, uma foto durante o estágio em Tancos, em 1971.
O Manuel Martinho à esquerda em cima, o Helder Sousa à direita em baixo


Pois no dia do meu aniversário fui com um dos meus amigos e camaradas de especialidade e do Serviço, um que na hora não estava de serviço tal como eu, um dos que costumo designar por “Ilustres TSF”, o Fur. Mil. Manuel Martinho, jantar ao “Solar do 10”.

Não foi na parte do “Salão Nobre”, aquele com aspecto mais sumptuoso, interior, com reposteiros escarlates, frequentado na maioria pelos oficiais da Marinha, mas sim no espaço anexo, tipo logradouro interior, ao ar livre, embora coberto, sem ser na totalidade, por uma espécie de toldos.

Recordo bem que o prato escolhido foi uma das especialidades de lá, uma “Açorda à Santa Teresinha”, a fazer lembrar uma “açorda de camarão” mas mais rica e com muitos pickles incorporados. Para acompanhar bebemos um “Dão Grão Vasco” tinto.

Bem, bebemos é uma força de expressão.

Em certa altura do jantar, aí a meio, começam a cair uns grossos pingos de chuva e em menos de nada já era o dilúvio que quem lá esteve se deve recordar. Aí ao terceiro pingo foi de imediato agarrar no prato e “zarpar” para debaixo de um alpendre, ficando na mesa a garrafa com rolha (vá lá, vá lá) mas os copos ficaram a transbordar e o vinho que na ocasião lá estava ficou bem baptizado.

O Manuel Martinho e o Hélder Sousa numa foto mais recente, num almoço de confraternização
na Ribeira do Porto, em 2015. Desta vez o vinho não parece ter sido baptizado...


Algum, pouco, tempo depois a chuvada passou, as mesas e cadeiras foram praticamente consideradas “operacionais” e ainda deu para acabar a açordinha…

Não se trata de uma lembrança de uma grande operação, emboscada, nomadização ou mesmo “golpe-de-mão”, mas espero que dê para alguns de nós se recordem dessas grandes e inopinadas chuvadas, que hoje tanta falta fazem.

Lá e cá!

Hélder Valério Sousa

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

P1255: UMA QUESTÃO DE PERSPECTIVA...

O nosso camarigo José Belo já aqui nos contou alguns encontros seus com a fauna que o rodeia no seu cantinho na Lapónia sueca. Quanto a histórias de experiências incríveis com os animais ditos "selvagens", como se pode calcular com tantas décadas de por ali andar, primeiro em longas férias, depois como reformado (feriante eterno!), são inúmeras – refere-nos ele - e algumas nem se atreve a contar pois ele próprio nunca nelas viria a acreditar... Mas deixa-nos hoje aqui mais uma história de um encontro imediato ocorrido numa das suas saídas.

LINCE XXL…

José Belo
De todos os contactos que ao longo dos anos tenho tido com a fauna local, só o meu encontro com a ursa com filhos poderia ter acabado menos bem. Já contei a história neste blogue, no Post 930. Mas, como se pode compreender, desde então nunca mais voltei a esquecer a espingarda em casa!...

Neste momento em que escrevo, veio-me à memória um outro encontro menos agradável, desta vez com aquilo que então a mim me pareceu ser… um  enorme lince…
É uma história já antiga, pois ocorreu numa das primeiras vezes que aqui estive.

Pescam-se fantásticos salmões a bem poucas centenas de metros da casa. Eu (não como os timoratos pescadores das falésias lusitanas frente a ventos e mar revolto) recordo uma silenciosa e calmíssima manhã em que a superfície do lago a perder-se de vista não tinha um mínimo movimento.

Na margem, um grupo de enormes pedras serviam para calmamente me encostar enquanto segurava a cana de pesca.

Passado um bom par de horas (e um bom par de salmões) tenho uma estranha, mas forte, sensação de que alguém me está observando por de trás das costas.

Volto-me e vejo enorme lince (então a "alimária" pareceu-me gigantesca!!!) calmamente sentado, como gato caseiro, a cerca de dois metros acima da minha cabeça, no mesmo pedregulho em que eu apoiava as costas!

Durante  estes anos que se seguiram tenho encontrado bastantes linces por aqui, sendo os adultos nunca maiores do que um cão grande.

O gigantesco (!) lince, visto a dois metros acima da minha cabeça, mais não terá sido que... ilusão de perspectivas feita (para não lhe chamar... medo!)

Por aqui estes animais nunca atacam humanos, São mesmo dos mais difíceis de serem observados, tanto pelo seu camuflado  de inverno, como pela grande reserva que mostram quanto a aproximarem-se, principalmente quando os aqui indispensáveis cães estão envolvidos.

Causam estragos (económicos) por na Primavera matarem numerosas renas jovens, e no Inverno atacarem renas adultas.

O Estado sueco compensa estas perdas mediante pagamentos aos donos das manadas.
E, só à volta desta última frase poderia encher duas interessantes páginas sobre estes pagamentos estatais…

…E lá iríamos cair nas histórias de velhos à lareira!
Um abraço do
José Belo



quarta-feira, 14 de outubro de 2020

P1254: PARA RECORDAR... (PARTE 1)

BISSAU, CIDADE COLONIAL DOS ANOS 60/70

Uma publicação surgida há já dez anos no Blogue “Luís Graça & Camaradas da Guiné”, que agora reeditamos com algumas adaptações e que tem por base a extensa colecção de fotos disponibilizadas pelo nosso camarigo Agostinho Gaspar, em que podemos ver algumas zonas mais relevantes da cidade de Bissau nos já distantes anos 60/70 do século passado. Para os mais saudosistas recordarem…

Os bilhetes postais pertencem à edição “Foto Serra” da Colecção “Guiné Portuguesa”, que aqui publicamos com a devida vénia e um agradecimento especial ao Agostinho Gaspar, pela sua disponibilidade.

Vista aérea de Bissau, tendo em primeiro plano o Palácio do Governador 
e a Praça do Império.
Monumento ao Esforço da Raça, na Praça do Império.
Avenida Carvalho Viegas, local de grande comércio.
Praça Honório Barreto e Hotel Portugal.
Palácio do Governador e Câmara Municipal.
Vista parcial da cidade, vendo-se ao longe o Ilhéu do Rei.
Ponte-cais de Bissau, com o monumento a Diogo Cão em primeiro plano.
Avenida da República, vendo-se ao fundo o Palácio do Governador 
à direita a Catedral de Bissau.

Com a devida vénia à "Foto Serra" (autora das fotos), Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (que reproduziu as fotos em Post há 10 anos) e ao Agostinho Gaspar (que as comprou... e disponibilizou).
Os editores


quarta-feira, 7 de outubro de 2020

P1253: A PROPÓSITO DE UM RELÓGIO...

COMPRAS NA GUINÉ HÁ 50 ANOS


Carlos Pinheiro
O meu Seiko 5 (five) parou ao fim de 50 anos...

Comprei-o na Guiné, na Casa Costa Pinheiro, em Bissau, onde trabalhava no escritório nas minhas horas vagas.

Já não me lembro quanto dei por ele mas não era barato - mas era e foi muito bom durante estes cinquenta anos. Foi a peça que lá comprei que durou mais anos.Comprei lá também um transístor SONY que não sei quanto tempo durou porque um camarada apropriou-se dele enquanto eu estava a tomar o último banho da Guiné, poucas horas antes de seguir para o cais - de regresso a casa depois de 25 meses e 10 dias de Guiné.

Também comprei uma máquina fotográfica FUJICA que durou ainda bastantes anos mas certamente por deficiência de uso também um dia parou mesmo de tirar retratos.

Mas o Seiko 5 deixou-me hoje ao fim de tantos anos.

A Casa Costa Pinheiro era talvez a maior casa comercial logo a seguir à Casa Gouveia da CUF. Importava de tudo e tudo vendia em quantidades impressionantes.

Eram os automóveis Toyota Corolla, os Crown, as carrinhas Hi-Lux e as Staut e acima de tudo os camiões Toyota que por cá nunca apareceram.

Eram os relógios Seiko - como facilmente do texto se pode deduzir - bem como todos o material Sony, desde os pequenos transístores até aos mais potentes gravadores profissionais (de fita como era uso naqueles tempos) e, claro, as máquinas fotográficas Fujica e respectivos acessórios mais os indispensáveis rolos.

Eram as motas e as motorizadas Suzuki que nessa altura começaram a superar a Honda.

Era o material de som Nivico, mas também o Garrard, para grandes salões e para profissionais.

Eram os produtos de beleza da Max Factor para as senhoras... a Colgate Palmolive que toda a gente usava nos quartéis - excepto nas operações no mato, claro - as esferográficas BIC que tantos milhares de aerogramas encheram de noticias, os tapetes da Issing Trading de Itália, que a malta comprava como recordação, eram os discos da Ansónia dos EUA, com os merengues a toda a prova, as porcelanas da Prago Export da Checoslováquia depois de ter também importado, em anos anteriores, os automóveis Skoda.

Enfim. Era uma casa muito grande se bem que não dava muito nas vistas, mas facturava muito bem.

Tantos milhares de letras ali preenchi referentes às vendas a prestações, especialmente dos carros e das motorizadas e motas. As letras ficavam em carteira e os juros ficavam em casa sem intervenção do BNU que na altura era o único Banco da Guiné.

Nas madrugadas em que o Boeing da TAP ia a Bissau e voltava para Lisboa, era o dia e a noite toda a fazer-se correio para os mais variados fornecedores por esse mundo fora e para as mais variadas companhias de seguros, porque parte importante das mercadorias perdia-se na viagem entre Lisboa e Bissau, sabe-se lá porquê. Mas as Companhias, depois do exame prévio na Alfandega e com a confirmação do Agente das seguradoras, garantiam a cobertura dos prejuízos.

E tudo isto para dizer que o meu Seiko 5 parou, ao fim destes 50 anos de vida e de trabalho sem parar... até que parou de vez. É a vida…

Carlos Pinheiro

 

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

P1252: PARA CONTRARIAR UMA CERTA LEVIANDADE...


O  BOATO

Juvenal Amado
O bom do Sardeira (1) tinha por missão ir às Duas Fontes (2), local a 6 km do quartel, com o Unimog, mais conhecido por burro do mato, encher o auto-tanque de água.

E assim durante muito tempo, logo de manhã, com uma Secção de homens armados, lá ia ele picada fora aproveitando para dar boleia às bajudas (3) que, nisto de andar de carro, estavam sempre prontas. Iam... e depois vinham.

O meu amigo Sardeira usava uns óculos que mais pareciam o fundo de duas garrafas, tal era a grossura das lentes. Mais tarde, no nosso primeiro almoço de confraternização, passados vinte anos, em Seia, reparei que ele não trazia os famosos óculos. Quando lhe perguntei por eles, com ar maroto respondeu-me que os tinha deitado fora, mal tinha saído do Niassa em Lisboa. Verdade ou não, não deixa de ser sempre tema de conversa e brincadeira entre nós, quando nos juntamos.

Unimog
Mas, voltando atrás no tempo, este nosso camarada ia encher o autotanque, duas vezes de manhã e duas vezes de tarde. Assim foram passando os meses e, não se tendo verificado quaisquer incidentes, ele foi abrandando o cuidado e, de vez em quando, pegava na viatura e lá ia ele direito às Duas Fontes, sem escolta.

Escusado será dizer que, em situação de guerra de guerrilha, esta atitude era uma tonteira - e era naturalmente assunto de conversa entre nós. Até que ele passou a ir mais vezes sem escolta do que com ela.

Nós, meio a sério meio a brincar, dizíamos-lhe: - “Qualquer dia ainda te lixas!” - e ele respondia a gozar que éramos medricas e que não havia perigo nenhum.

O tempo foi passando. Um dia lá vinha ele a chegar do seu passeio, o Caramba gritou-lhe que ele estava a forçar a sorte. Ele riu-se e disse que não havia azar, ao que o Caramba retorquiu:

Galomaro
- “Ah, pois, vai ter com o Narciso das transmissões que ele diz-te o que a Maria Turra (4) disse sobre apanhar o condutor da água de Galomaro à mão!”

O Sardeira mudou de cor e num riso um bocado amarelo, ainda disse: - “Estás a gozar!”

Caramba muito sério, na sua forma falar de alentejano dos quatro costados, retorquiu:
- “Não se está vendo? Andas brincando com a sorte!”

À custa desta conversa fartámo-nos de rir, mas a mentira passou a ser uma verdade e nenhum de nós se desmanchou junto dele…

A estória correu o quartel e à boa maneira de quem conta um conto, acrescenta um ponto, a peta alastrou.

O que é certo é que o camarada passou a querer mais segurança e nunca mais lá foi buscar o precioso líquido, sozinho...

Juvenal Amado
Ex-1.º Cabo Condutor
CCS/BCAÇ 3872
_______

Notas do Juvenal:

(1) O primeiro encontro entre nós, passado vinte anos, deveu-se em grande parte ao trabalho desenvolvido pelo Sardeira que, a par com o Alfredo Chapinhas, fizeram um trabalho notável para que o almoço se realizasse. Ele veio de propósito encontrar-se comigo em Alcobaça, para que eu fornecesse os números de telefone dos camaradas que ainda estavam em contacto comigo.

(2) Duas Fontes: local onde abastecíamos de água perto de Bangacia. Era um local que inspirava confiança, mas não podemos esquecer que essa mesma confiança custou a vida a seis camaradas do Batalhão antigo, que ali foram emboscados.
Bangacia foi também destruída por um ataque durante a nossa comissão. Nós reconstruímos a povoação com ordenamento tipo Baixa Pombalina, com escola, posto médico - e o PAIGC nunca mais atacou. Deve ter considerado que era uma coisa boa a manter para quando a paz chegasse. E tinham toda a razão…

(3) Bajudas (para quem ainda não sabe…): nome dado às moças solteiras da Guiné.

(4) A “Maria Turra era a Amélia Araújo, locutora da “Rádio Libertação” (estação pró-PAIGC que a nossa tropa por vezes sintonizava), angolana de origem, casada com o militante e dirigente politico do PAIGC, José Araújo, que até ao 14 de Novembro de 1980 foi um dos altos responsáveis do PAIGC na Guiné.


quarta-feira, 23 de setembro de 2020

P1251: RECORDAÇÕES DOS TEMPOS DE BISSAU


PEDAÇOS HISTÓRICOS PERDIDOS NA GUINÉ 
EM 1969
Só o facto de estarmos em guerra, só o facto de estarmos em África, mas também pelo facto das comunicações da altura não serem nada, nem de perto nem de longe, do que hoje dispomos, leva-me a relatar alguns factos, mais ou menos históricos, que não presenciámos, que não testemunhámos por estarmos forçadamente ausentes do nosso cantinho, da nossa família, dos nossos amigos, mas dos quais nunca duvidámos uma vez que, mesmo à distância, lá nos chegaram, dias mais tarde, ecos desses mesmos factos, que hoje são mesmo históricos por razões diversas.
Imagem retirada do Site da RTP, com a devida vénia
Logo no início do ano de 1969 foi lançado na RTP, a única televisão da época, um programa que foi marcante para a altura. 
Tratou-se do ZIP ZIP, um programa de Raul Solnado, Fialho Gouveia e Carlos Cruz que apareceu, certamente “permitido” pela primavera Marcelista, uma vez que Salazar tinha caído da cadeira no ano anterior e Marcelo já governava. 
Segundo rezam as crónicas, foi um programa audaz para a época, mas a malta do meu tempo que estava na guerra, perdeu-o pura e simplesmente.

Foto retirada da Wikipédia, com a devida vénia
Outro facto histórico de nível mundial desse período aconteceu exactamente no dia 20 de Julho de 1969. 
Foi a chegada do primeiro homem à Lua que a Televisão terá transmitido em directo e a que nós não tivemos oportunidade de assistir. Ouvimos falar, lemos nos jornais com alguns dias de atraso, mas não presenciámos o facto e o feito. É caso para dizer que lemos e ouvimos, mas não vimos.
Também perdemos outro acontecimento, marcante para a história de Portugal, que ocorreu no dia 27 de Julho de 1969. 

Foto retirado do Site Fotos Sapo,
com a devida vénia
Foi a morte de António de Oliveira Salazar cujo funeral nacional foi efectuado de comboio de Lisboa para a sua terra natal, Vimieiro, Santa Comba Dão, tendo o país ficado de luto durante três dias. 

Até na Guiné esse luto foi garantido com a bandeira nacional a meia haste. Mas não presenciámos, só ouvimos falar, mais nada, para além de sentirmos mais algum rigor nas prevenções militares naqueles dias.

Outro facto importante para a época e que a história regista e a que nós não assistimos e muito menos participámos, foram as Eleições legislativas de 1969
As primeiras que se realizaram com Marcelo no Governo, precisamente no dia 26 de Outubro daquele ano e onde concorreram, para além da União Nacional, o partido do Governo, a CEUD Comissão Eleitoral de Unidade Democrática, a CDE Comissão Democrática Eleitoral e a CEM Comissão Eleitoral Monárquica. 
Soubemos depois que a União Nacional elegeu todos os 120 Deputados naquela espécie de acto eleitoral, como mandavam as regras da época, a bem da nação, a bem da evolução na continuidade.
Cada um à sua maneira, foram factos perdidos devido à situação que estávamos a viver, no auge da guerra, quando os mísseis já eram uma arma dos nossos opositores no terreno.

Em contrapartida, para além do facto de estarmos na guerra, muitos sofrerem o horror dos combates e dos ataques, da fome e da sede, muitos morrerem na flor da idade e muitos outros terem ficado estropiados no corpo e no espírito, ganhámos o privilégio de podermos passar a consumir Coca-Cola, importada directamente de Inglaterra e até de Moçambique, bebida esta que na Metrópole era proibida. 

Aliás, já que estamos a falar de privilégios, na Guiné também podíamos beber água Perrier e Vichy vindas de França e até leite da Holanda da Twin Girls, uma vez que era difícil a entrada naquelas terras de águas ou leite da Metrópole. Vá-se lá saber porquê.

Relatar estes acontecimentos passados tantos anos, denota algum saudosismo, mas também serve para lembrar que a guerra deixou marcas das mais variadas estirpes. Hoje, nada disto aconteceria. Ou melhor aconteceria, acontece tudo, mas todo o mundo, Iraque ou Afeganistão, por exemplo, estaria informado no momento, em directo, em todas as televisões.
Carlos Pinheiro



quarta-feira, 16 de setembro de 2020

P1250: O VERDADEIRO REI DAS FLORESTAS ESCANDINAVAS


O ALCE

José Belo
O símbolo, aqui por todos aceite como sendo o mais representativo dos suecos,  é sem dúvida o Alce (alce, em sueco, diz-se älg; em inglês, moose).

Numa área 14 vezes superior à portuguesa e com o mesmo número de população, compreende-se que vastas extensões do território nada mais tenham que florestas, lagos, rios e uma riquíssima fauna selvagem.
Em quantidade, dispersão - e não menos em tamanho - os alces ocupam o primeiro lugar.
Existem, segundo cuidadosas estatísticas estatais, entre 300.000 a 400.000 alces nas florestas suecas. Em cota anual 100.000 são abatidos, tanto para consumo da carne como para manter um nível saudável entre esta espécie. A cota de 100.000 não é escolhida ao acaso mas antes por se ter em conta que em média nascem cerca de 100.000 alces no ano seguinte.

Quanto ao consumo da carne, as receitas tradicionais, que se perdem na noite dos tempos, muito para além dos Vikings, são fantásticas.
Um animal adulto pesa cerca de 700 quilos, tem mais de 2 metros de altura média e cerca de 3,5 metros de comprimento. Tem pernas muito altas que lhe permitem deslocar-se com relativa facilidade quando a neve é profunda.
Um adulto é maior que um cavalo. Os cornos,que, ao contrário das renas, só os machos têm, crescem em média 2,5 centímetros por dia (!). Atingem enorme dimensões quando os animais têm entre os 6 e os 12 anos.
Colocados em cima da cabeça de um tão alto animal ainda o tornam maior à vista.
Deslocam-se com facilidade 30 quilómetros por dia. Ao correrem podem atingir os 60 km/hora.
Tendo uma aparência  pacífica, são bastante agressivos quando as fêmeas acompanham crias, ou quando são surpreendidos na floresta.
Quando se dão contactos, e ao contrário do que se poderia esperar - tendo em conta os enormes cornos (mais usados para combate entre machos) - é com as longas patas frontais que escouceiam, rápida e violentamente em típico movimento de "bicicleta". Com isto procuram atirar ao solo o homem, cão, ou lobo, para depois o pisarem com os seus 700 quilos.

Quanto ao urso,  procuram dentro do possível evitar o contacto. São os ursos que os buscam (de preferência animais velhos ou doentes). Devido ao peso dos ursos, são os cornos a arma então usada como defesa.

Ao imaginar-se um animal maior,  mais alto e mais encorpado que um cavalo, a inesperadamente escoucear com as patas da frente (!) compreende-se que alguns destes encontros sejam fatais para os humanos (*).

Não são estes encontros que em geral causam  as mortes, mas sim os resultantes de acidentes de viação quando os alces procuram, durante a noite, atravessar estradas. 

E estes acidentes, mortais para os humanos dentro das viaturas, são muitos. Nas estatísticas oficiais é apresentado o número de humanos mortos em tais acidentes no ano de 2017 como de 7.300 (!). Em média, em anos anteriores, os números são semelhantes.

Parece impossível mas torna-se ainda mais grave ao considerar-se as estatísticas que mostram que a cada morto por acidente correspondem mais de seis casos com consequências clínicas graves do tipo 
paralisias, cegueira, etc,etc,etc.

O cinzento acastanhado da cor da pele destes animais torna-os muito difícil de ver nas escuras, enevoadas e cheias de nevões noites escandinavas,mesmo com os potentes faróis que aqui se usam.

Em outro detalhe interessante,os olhos dos alces, ao contrário da maioria dos animais selvagens frente aos faróis de um carro, não reflectem a luz dos mesmos.
As longas pernas do animal colocam-no, em colisões a alta velocidade, não à altura dos para-choques ou mesmo do motor, mas sim à altura do para-brisas contra o qual os 700 quilos são violentamente atirados, penetrando grande parte do corpo no veículo.
É por tudo isto que (para curiosidade e espanto dos turistas que visitam a Suécia vindos de automóvel) ao longo de todas (!) as auto estradas suecas,e de ambos os lados das mesmas,corre uma vedação em rede grossa com mais de 3 metros de altura para deste modo procurar evitar, pelo menos nas auto-estradas, este tipo de acidentes mortais.
Tendo em conta a área da Suécia e estando a mesma coberta de auto-estradas, pode-se calcular o custo desta rede de protecção.

De qualquer modo estas "alimárias" sempre encontram maneira de enganar a rede, sejam elas junto a saídas da auto estrada, bombas de gasolina ou restaurantes, isto mesmo que as aberturas sejam mínimas.

É certo que os lusitanos já estarão a pensar que os sacanas dos suecos não querem mesmo que se entre nas auto-estradas sem se pagar!... Mas aqui elas são gratuitas... 
Ou, a ser-se mais concreto, a sua manutenção é paga pelos cidadãos ao Estado, anualmente, através dos impostos.

Mas, e com saudade do meu querido Portugal, pergunto-me :
Quantos metros de rede seriam retirados todas as noites para fazer capoeiras na minha santa terrinha?

Um grande abraço
José Belo

(*) Dêem uma saltada ao Youtube....Älg på Svanvik ....(também funciona com o teclado portuguës Alg pa Svanvik). Poderão aí ver como o alce procura escoucear o cäo com as patas fronteiras.
Num outro video colocado junto com o nome de Älgen på Utby  pode-se ver um alce calmamente a comer maçãs num quintal. É pena que não mostrem o que acontece aos alces horas depois de comerem as maçãs,quando estas fermentam no estômago do animal e o álcool lhes provoca bebedeiras que os fazem movimentar-se como um Chaplin Bêbedo!)