Esta história ocorreu durante a
Especialidade (2.º Ciclo do CSM) e tem o mérito de, para além do anedótico da
situação, revelar a capacidade que havia de se gerarem laços de solidariedade e
de resistência, já prenunciadores da disposição que se ia aos poucos
alastrando, e também aborda (ao de leve) um outro aspecto que já foi também
aflorado num outro texto do Blogue, que é a situação de alguns elementos profissionais irem vivendo
e alimentando esquemas remuneratórios alternativos resultando
tal, muitas vezes, em prejuízo do pessoal comum.
Hélder Sousa
APRENDER A SER
SOLIDÁRIO:
UM SALAME DE CHOCOLATE ESPECIAL
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| Helder Valério Sousa |
A história que quero partilhar convosco teve
lugar durante o período do meu 2.º Ciclo de Instrução do CSM o qual, por ser da
Especialidade TSF, foi efectuado no então Batalhão de Telegrafistas (BT) à
Graça, em Lisboa, decorrendo do final de Setembro de 1969 a Janeiro de 1970.
Fui testemunha directa e parte interessada e
envolvida do acontecimento que a seguir relato, que se passou na segunda
quinzena de Outubro de 1969 (em plena época de eleições, lembram-se?) e relembro-o agora
principalmente para salientar e reforçar a ideia que a tomada de consciência de
cada vez mais elementos da nossa juventude questionando a guerra de África foi
sendo feita de modo progressivo e com base em situações com que se viam
confrontados, de que o episódio que se segue é um exemplo.
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O Mário Miguel Rodrigues e o Fernando Cruz
em Nampula |
Os dois personagens que acabaram por ser as
vítimas desta história foram o Fernando Cruz e o Mário Miguel Rodrigues que
foram Fur Mil Transmissões TSF em Nampula, Moçambique.
Ambos homens do norte, o
Cruz do Porto e o Mário de Barcelos, que foram músicos nos seus tempos de
juventude (o Cruz confessou-me que se encontra on de road again), são dois bons amigos, que
também seguem os Blogues e que, por via disso, conversando sobre tempos
passados, relembraram este episódio que agora passo então a relatar.
O que é que o poderá tornar interessante?
Antes do mais porque, estando eu já em
Bissau, portanto em 1971 ou 1972, não sei agora precisar, acabei ouvindo a
história, deturpada, como é natural, pois é sabido que quem conta um conto aumenta um ponto e
quem a relatava não sabia que eu tinha sido contemporâneo e que por tal poderia
fazer correcções ao seu relato, mas também não me dei ao trabalho de o
desdizer, já que tenho a ideia de que estava muito mais bem composta, romanceada e
bastante lisonjeira para toda a rapaziada do Curso, transformados em
verdadeiros heróis, contra as arbitrariedades e desmandos da hierarquia e seus
lacaios.
Além disso nem sempre havia disposição, mesmo
estando em Bissau, longe
do Vietnam, como o Luís Graça escreveu naquela carta dirigida ao
seu amigo e que já foi publicada no Blogue, não havia disposição, dizia eu,
para grandes discussões. Assim deixei passar as deturpações naquela época e já
nem me lembrava da história não fosse o Blogue e os amigos que o lêem.
Depois, porque para lá do caricato da
situação, podemos encontrar muitas coisas que devem merecer reflexão e até,
porque não, discussão sobre o que se perdeu ou não desde esses tempos, como
sejam a solidariedade, o espírito de grupo, a unidade contra situações
opressoras, bem assim como relembrar os tais desmandos que ocorriam muitas
vezes em nosso prejuízo e muitas mais em benefício dos prevaricadores.
O caso em questão aconteceu, porque já vinha
sendo hábito desaparecerem coisas das nossas mesas junto às camas e também dos
nossos armários, sendo a vítima principal o Mário Miguel Rodrigues que tinha
por norma comprar umas bolachas de chocolate que vinham em caixa metálica de
formato rectangular. Andávamos todos aborrecidos com a situação, que ocorria
por norma durante a nossa permanência nas aulas, num edifício distante da
caserna, e as desconfianças iam, naturalmente, para quem fazia a faxina ou a
supervisionava.
Deste modo, tiveram uma ideia para apanhar o ladrãozeco
e resolveram passar aos actos. Mas vou deixar o Cruz relembrar os factos.
Escreveu-me ele o seguinte:
“…quanto ao incidente na Graça, em Lisboa, as
bolachas eram roubadas do armário metálico e eu, numa hora de inspiração intestinal,
substitui as bolachas na caixa por um apropriado excremento e coloquei a mesma
na parte superior e exterior do armário. Ainda mais fácil do que quando as
guardava dentro dele e ao mesmo tempo evitava algum odor menos agradável que
ficasse no interior. Mas foi tiro e queda. Não me lembro da marca das bolachas
mas eram boas com certeza. Sei que a caixa era rectangular e do trabalho
complicado que foi acertar na dita sem danificar a mesma. Obra de arte! (hoje
talvez a pudesse expor em Serralves!!! ) Bem...
Nós fomos para as aulas e nessa mesma manhã
perto da hora do rancho o Sargento A quis
saber quem tinha colocado a caixa em cima do armário. Claro que na altura
ninguém se acusou e só eu e o Mário Miguel sabíamos do facto e fomos
disfarçando como podíamos.
O tipo (acho que era um Cabo RD) levantou a tampa e, sem ver o conteúdo, pois já era hábito sacar as bolachas, meteu a mão e... sujou os dedinhos...
Chamou o Sargento, alegou que tinha ido lá porque
cheirava mal, que andava a ver se a camarata tinha sido limpa e que nunca tinha
roubado bolachas etc., etc. O Sargento leva a novidade ao Capitão.
O Capitão,
de que neste momento não sei o nome, quando mais tarde nos inquiriu, quis saber
quem foi, começou com um ar muito sério, riu, gozou com o assunto, que nunca
tinha tido um caso semelhante, de tal forma que cheguei a pensar que estava
safo. Perante a pressão do Sargento A - que
era um cara de pau - acabámos por levar 3 dias de detenção por autoridade do
Comandante Ca FT/BT (Companhia Formação Transmissões/Batalhão Telegrafistas) em
31 Outubro 1969 “por haver
introduzido dejectos na camarata infringindo os n.ºs 4 e 9 do Art.º 4 do RDM”.
Esta brincadeira fez com que ficasse de
faxina às latrinas pelo menos durante uma semana. Ainda hoje me lembro bem de
lavar aqueles poleiros e os azulejos com ácido de baterias (o detergente da
época para as pôr a brilhar) e admiro-me como alguns gajos têm tão
fraca pontaria, mesmo sendo ele cego... E o buraco não era tão pequeno
assim...! Acho que o Miguel apanhou castigo igual.
O Capitão deu uma descasca no RD, acreditou que as
bolachas estavam a ser repetidamente roubadas mas, perante os factos e falta de
provas de roubos anteriores, só eu e o Miguel nos lixámos. O Cabo ficou
conhecido pelo Cabo da
merda...
Mas nós só nos acusámos como autores materiais e cúmplices
do sucedido na aproximação do fim-de-semana, porque havia os camaradas casados,
o Reis e o Marques, que queriam
muito ir a casa e enquanto não aparecessem os infractores não
havia fim-de-semana para ninguém, ficavam todos no quartel a fazer serviços.
Não me lembro bem quanto tempo durou a nossa resistência (eu e o Miguel
discutimos a situação várias vezes até chegarmos a uma decisão), mas perante o
quadro que se apresentava e num espírito de camaradagem assumimos a autoria e o
fim-de-semana foi radioso para todos... menos para nós.
Levei tudo na maior. Afinal três dias passam
depressa. E ainda nos divertimos com o truque de deixar cair as moedas no muro
do Quartel que era contornado pelo passeio exterior e pela abertura na vedação
ficar a ver as pessoas na parte de fora a procurar no chão pelas moedas que
achavam tinham deixado cair! Por vezes não controlávamos o riso e lá vinha
palavrão como moeda de troca.
Só o toque a detidos a horas inesperadas e a
lenga-lenga que tínhamos de dizer ao Oficial de Dia... “apresenta-se o Soldado Miliciano n.º 18489568
que se encontra detido... blá, blá, blá...” não era música para os
meus ouvidos nem a letra era agradável.
O estar detido não impediu que fosse
várias vezes comer qualquer coisa (o bitoque lisboeta) tomar café e beber uns
copos na tasca que ficava mesmo em frente da porta de armas. Os Sargentos que
estavam na porta normalmente eram compreensivos e os Oficiais eram milicianos e
nós não íamos fugir. Ser TSF era outra coisa!...”
Desta história o que eu quero ressaltar são,
essencialmente, duas coisas:
- A solidariedade (cumplicidade) que se
conseguiu gerar entre nós, um grupo de jovens que só se conheciam há apenas 5
semanas, que, eventualmente, teriam as suas rivalidades, pois faziam-lhes crer
que a posição relativa numa lista de classificação podia ser motivo para
uma não mobilização.
De facto isso aconteceu para os 2 primeiros classificados que eram os 2 que eram
casados na altura, lá os conseguimos colocar aí) e que aguentaram sem vacilar,
sem bufar,
todas as pressões para que houvesse denúncia dos delinquentes;
- A situação de relativa (chamemos-lhe assim…)
corrupção, com o Sargento A a gerir os serviços a matar (dizia-se)
e portanto com os seus homens
de mão sempre prontos para o que fosse preciso e protegidos
quanto bastasse, com o tal Cabo RD em serviço
permanente e que obviamente mereceu todo o empenho do A em sua defesa junto
do Capitão.
Perante os factos e com a impossibilidade de provar
que tinha havido roubos anteriormente e que tinham sido efectuados pelo
mesmo faxineiro, o Capitão não tinha outra alternativa, face aos regulamentos, senão aplicar a tal porrada.
E a vida continuou, nós mais fortes e
solidários e em plena época de eleições, as eleições de 1969!
Um abraço!
Hélder Sousa
Fur Mil Trms TSF
Com a devida vénia ao Blogue "Luís Graça & Camaradas da Guiné",
de onde repescámos este texto, ali publicado há muuuitos anos...