O CARECA, O
SABIDÃO, O CURTIDO, O HOMEM
QUE TINHA
JOGADO EM TODOS OS CLUBES
DO RIO DE
JANEIRO
Corria o ano 72,estava em em Bissum/Naga, e recordo ter
lido num jornal desportivo (“A Bola”) um artigo duma mordacidade fabulosa que me fez rir sem parar até ficar sem fôlego
e com as lágrimas a soltarem-se em catadupa...
E não fui só eu, aos que estavam comigo aconteceu a
mesmíssima coisa.
Era comum naquele tempo os jogadores de nomeada
percorrerem os clubes descendo de escalão consoante a idade ia avançando, usando
cada vez mais a ronha e vários tipos de habilidades para se perpetuarem no
"métier"...
O jogo estava para começar e era de importância vital
para a equipa da casa que não poderia perder pois desceria de divisão...
Inicia-se o encontro e a determinada altura um jogador
forasteiro entrou a driblar na área e fez um golo de belo efeito...
O árbitro não podia anulá-lo...
O tempo vai passando e a equipa da casa, que não
poderia perder, ia ficando desorientada com os seus jogadores a cometerem
faltas sobre faltas que o árbitro na maioria das vezes ignorava...
O capitão abeirando-se do árbitro disse-lhe: - Como é sr. árbitro?
O capitão era o único elemento da equipa que tinha
estado num jantar/reunião com dois dirigentes do clube e o árbitro do jogo, no
dia que antecedera o dérby...
O árbitro disse-lhe:
- Atire-se para o chão...
O tempo ia passando, o capitão entra na área adversária
e de repente, sem intervenção de nenhum jogador da outra equipa, joga-se no
chão com algum aparato...
Trrrriu, Trrrriu ...
O jogo parou e para espanto de todos, menos do capitão
caído, o árbitro assinalou grande penalidade...
Chovem os protestos fora e dentro do campo, mas o
árbitro, inflexível, assinala o castigo máximo e mostra vários cartões amarelos
a jogadores forasteiros protestantes...
Bola na marca e surge o careca, o sabidão, o curtido, o
homem que tinha jogado em todos os clubes do Rio de Janeiro para proceder à
marcação do castigo máximo...
Parte para a bola, dispara… e bola para fora...
Ouve-se um enorme bruá, e entretanto o tempo vai
passando com a equipa da casa numa aflição tamanha...
Os adeptos roem as unhas e assobiam os falhanços dos
seus jogadores...
Atingem-se os dez minutos finais e o capitão da equipa
da casa abeira-se de novo do árbitro dizendo-lhe: - Como é sr. árbitro ?
- Atire-se para o chão! segredou-lhe...
Ouvem-se algumas gargalhadas na bancada da própria
equipa visitada...
Trrrrrriu, trrrrrrriu...
O árbitro corre para a marca da grande penalidade...
desta vez os protestos da equipa forasteira já são bastante ténues...
O homem do apito coloca a bola na marca da grande
penalidade, e o careca, o sabidão, o curtido que tinha jogado em todos os
clubes do Rio de Janeiro, foi ajeitar mais um bocadinho a chincha...
Recua, parte para a bola e dispara...
Desta vez foi para o lado contrário e novamente para
fora a uns bons dois metros do poste...
Ouve-se um bruá ainda maior os assistentes roem as
unhas, gritam, esbracejam, gesticulam...
O desânimo é a expressão comum em todos os rostos, dos
jogadores aos adeptos...
- Então sr. árbitro ?
- Atire-se para o chão, ordena-lhe o juiz...
Ainda a uns bons três a quatro metros da linha
delimitadora da grande área forasteira, o capitão da casa estatelou-se...
Trrrrriu, trrrrrrrrrrrrrriu.
Uma
estridente apitadela do árbitro e
a equipa forasteira já nem protesta, ao ponto de ser um seu jogador a ir
colocar a bola no local de marcação...
Apresta-se o careca, o sabidão, o curtido, o homem que
tinha jogado em todos os clubes do Rio de Janeiro para marcar a penalidade, quando
o árbitro grita:
- Não, esse não!
É que a equipa da casa comprara o árbitro mas a
forasteira subornara o careca, o sabidão, o curtido, o homem que jogara em
todos os clubes do Rio de Janeiro...
Manuel
Maia
















