quarta-feira, 5 de outubro de 2022

P1343: A QUEM POSSA INTERESSAR...

“DESPOJOS DE GUERRA” , NA SIC

Meus caros

Há já mais de um ano a SIC, através do trabalho da jornalista Sofia Pinto Coelho, preparou a apresentação de uma mini-série a que chamou "Despojos de Guerra", com 4 episódios, já prontos há bastantes meses, mas que as vicissitudes do conflito na Ucrânia levaram a adiar a sua exibição até agora.

Referiu-me agora a Sofia Pinto Coelho que esta mini-série vai finalmente ser apresentada, prevendo-se a sua exibição na SIC numa rubrica “Grande Reportagem” integrada no final do Jornal da Noite da SIC (cerca das oito e picos da noite) nas datas abaixo indicadas:

6OUT - Episódio sobre uma informadora da PIDE

13OUT - Episódio sobre um combatente africano DFA (Deficiente das Forças Armadas)

20OUT - Episódio que acharam suficientemente curioso para abordar uma conversa com a Giselda e Miguel Pessoa…

27OUT - Episódio sobre os Filhos do Vento - crianças que nasceram fruto das ligações de militares nossos a mulheres africanas.

Segundo a jornalista esta apresentação será antecedida de uma promoção prévia no canal SIC – de que não me dei ainda conta; mas, pelos vistos, tendo estado em banho-maria há largos meses, este projecto encontrou finalmente pernas para andar... E, como o primeiro episódio está previsto já para 5ª feira 6 de Outubro, aqui fica o aviso para quem possa estar interessado em ver.

Abraço

Miguel Pessoa


quinta-feira, 29 de setembro de 2022

P1342: JÁ VAI SENDO TEMPO...

                         RETOMAR OS NOSSOS CONVÍVIOS

Já vai longo o tempo que nos temos mantido afastados dos nossos convívios da Tabanca do Centro, sendo que o último almoço que nos reuniu foi realizado no já remoto mês de Fevereiro de 2020!

As condições que existiam então já não se verificam – o espaço cedido pela Paróquia de Monte Real não irá ser utilizado e as instalações de que a D. Preciosa dispõe dificilmente acolherão com segurança mais que 30 ou 40 comensais. E mesmo parte do pessoal que colaborava na casa teve que procurar outros meios de subsistência, devido a uma actividade mais limitada da D. Preciosa durante a pandemia.

Consideramos por isso que a continuidade da colaboração nos moldes anteriores será difícil de garantir, pelo que procurámos na zona outras alternativas, embora sabendo que será impossível conseguirmos os preços praticados nos nossos convívios de então.

Uma primeira hipótese que considerámos foi o restaurante Saloon na Quinta do Paul (Ortigosa), que nos garante um espaço óptimo para convívio, bom espaço de estacionamento para as viaturas e um ambiente agradável e seguro. E não fica longe de Monte Real e de Leiria. Claro que os preços propostos pelo restaurante (20€) fogem um pouco ao que estávamos habituados, mas também temos que reconhecer ter havido neste interregno um significativo aumento do custo de vida. E também será de referir que haverá um aumento da qualidade do local do convívio em relação ao anterior.


Restaurante Saloon

Amplo espaço interior
Espaço exterior muito agradável
Localização do restaurante na Quinta do Paul, não muito longe de Monte Real
Aqui fica então a proposta da restaurante Saloon, na Quinta do Paul:

À MESA - SALA EXCLUSIVA

ENTRADAS Á MESA

Quarteto de Frutas c/ Presunto

Selecção de Padaria: Broa

Espetadinha de Chouriço; Morcela e entremeadas

 SOPA (A ESCOLHER uma das SOPAS)

Creme de Legumes ou Canja de Aves

(*)PEIXE ou CARNE

Novilho Raça Marinhoa, batatinhas assadas e salteado de legumes

Entrecosto de Porco com molho de leitão, Saladas e Batata Assada

SOBREMESAS:

Tranche de Chocolate e Caramelo Salgado e apontamento de frutas

BEBIDAS:

Vinhos Quinta do Paul Branco e Tinto; Frisante Branco

Águas/Refrigerantes/Cerveja/Café/Chá

Por Pessoa 20€

Horas de permanência prevista 3h30 a 4 horas

(*) Selecionar um dos pratos

Temos ainda alguns contactos para apresentação de proposta por outra empresa, mas que não está ainda disponível de momento. Assim, tendo em consideração a proposta de almoço agora apresentada, cabe ao pessoal pronunciar-se sobre o interesse de avançarmos proximamente com um convívio nestes moldes, ressalvando que em qualquer momento poderemos seguir outro caminho, caso venha a ser encontrada uma opção mais atractiva para o nosso grupo.

Caso seja considerado um valor pesado para as bolsas do pessoal, poderíamos ainda considerar uma redução do número de convívios por ano – no anterior eram organizados 8 convívios por ano, este número poderia ser reduzido para 6, à média de um encontro a cada dois meses. Mas esta é uma opção que gostaríamos de evitar, pois o sistema anterior parecia estar a funcionar bem (Só não se faziam convívios nos meses de Julho, Agosto e Dezembro, por motivos óbvios, bem como no mês da realização do convívio anual da Tabanca Grande, em Maio ou Junho).

Ficamos pois à espera dos vossos comentários e sugestões, que podem deixar na caixa de comentários a este post:

     É aceitável para ti o valor de 20€ proposto pelo restaurante?

     Agrada-te o lugar proposto para o convívio?

     Aceitarias manter os 8 convívios por ano ou preferias uma redução do nº de encontros?

     Tens sugestões a apresentar sobre este assunto?

E não demorem a enviar-nos os vossos pareceres, pois seria interessante avançarmos já com um primeiro convívio nestes novos moldes, ainda este ano!

A Tabanca do Centro

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

P1341: LEMBRANDO O VELHO SISTEMA DE ENSINO...

                            AS VIRTUDES DO ENSINO

           EM TEMPOS REMOTOS

Há sempre uma necessidade reclamada por amigos para que se possa contribuir com textos tendo em vista alimentar as suas publicações. Nem sempre ocorre inspiração para recorrer à memória a fim de materializar recordações. Desta vez, depois de algum vazio mental, lembrei-me, já nem sei porquê, de um episódio, melhor dizendo, de uma sequência de episódios, que originaram situações que potenciaram consequências.

E por isso atrevo-me a pedir que depois de lerem, se lerem, me ajudem com as vossas opiniões, sobre que lições se podem tirar (se é que se podem tirar algumas) do conjunto das situações.

1.    - Vamos aos factos.

Depois de ter feito o Curso de Montador-Electricista (era assim que se designava) na Escola Industrial e Comercial de Vila Franca de Xira, terminado em 1964, fui para Lisboa, cidade grande, fazer as chamadas Secções Preparatórias para o possível ingresso no Instituto Industrial. Essa fase intermédia ocorreu na Escola Industrial Machado de Castro, nos anos letivos de 1964/65 e 1965/66. Os exames de admissão decorreram com aproveitamento e deste modo entrei no Instituto Industrial de Lisboa para o Curso de Eletrotecnia e Máquinas em Outubro de 1966.

2.    – Enquadramento social

Dois pequenos apontamentos para ajudar a complementar as situações e a focalizar as “cenas” na época.

Um desses apontamentos é para lembrar que o Ensino estava elitizado. Havia a via liceal e a via do chamado “ensino técnico”. Aos “liceais” estava aberta a via para a Universidade, nas suas várias vertentes, com os seus “cursos superiores”, enquanto que para os do “ensino técnico” era privilegiada a “via profissional”, ou seja, a entrada no mercado de trabalho para exercer uma profissão ou então, através dos “Institutos”, para almejar alcançar uma situação que seria sempre reconhecida como “cursos médios”.

Ao nível do ensino da engenharia isso traduzia-se a que as duas vertentes, a “universitária” e a “média” se materializavam no Instituto Superior Técnico (e Faculdades de Engenharia) e nos Institutos Industriais, sedo que essa separação elitizada projetava-se na Instituição Militar com os primeiros a integrar os Cursos de Oficiais Milicianos (o COM) e os outros os Cursos de Sargentos Milicianos (o CSM).

Outro pequeno apontamento é que pelos anos acima indicados, talvez ainda se lembrem, pois já são anos “do século passado”, havia um esforço de guerra governamental em terras africanas para defender da cobiça internacional aquelas terras e aquelas gentes que nos tinham sido legadas pelas gestas dos descobrimentos e que os nossos “antanhos” tinham desbravado e defendido para nós, “numa mão a Cruz, noutra a Espada”.

Para esse esforço foram mobilizados milhares de jovens. Aos que na época eram estudantes, era facultada a possibilidade de adiamento da incorporação nas Forças Armadas através de pedidos nesse sentido, com base no desenvolvimento dos estudos.

Aos jovens que frequentavam o Instituto Industrial, que para lá chegarem tinham tido, para além da 4ª Classe de escolaridade, 5 anos de Ensino Técnico e depois 2 anos das Secções Preparatórias, num total de 7 anos, mas que não tinham “equivalência funcional” aos 7 anos do Ensino Liceal, era também concedida a possibilidade de “pedido de adiamento” mas, para tal, o “aproveitamento escolar” deveria ser irrepreensível.  Havia umas quantas “cadeiras” que davam precedência a outras do ano seguinte e cuja falta implicava não se poder avançar e, consequentemente, ao nível do “aproveitamento” era considerado insuficiente para o fim pretendido.

3.    - Continuando então com os factos.

Este jovem que vos escreve, que até então tinha sido um aluno de razoável mérito, “distraiu-se” um pouco no meio da “cidade grande” e das suas solicitações, embora diariamente fizesse as viagens de comboio entre a casa familiar e a Escola. Como resultado disso, as notas da maior parte das disciplinas da 1ª Frequência desse ano letivo de 1966/67 foram o que se pode chamar “um desastre”. Após isso, e reganhando vontade, atirou-se a tentar recuperar o possível e aconselhado por um Professor de uma das cadeiras fulcrais, a Física, deixou-a “cair” para ter possibilidade e capacidade para outras. Assim fiz.

Não passei de ano na totalidade, pois algumas cadeiras ficaram para trás, mas como ainda não tinha chegado a idade da incorporação militar não houve consequências imediatas. Entrei então no meu segundo ano de presença no Instituto, ano letivo de 1967/68, embora a frequentar novamente cadeiras do 1º ano e, salvo erro, apenas duas já do 2º ano, as que não necessitavam de precedência e tinha tido aproveitamento.

Esse ano correu bem.

4.    – A situação “estranha”.

No ano seguinte, ano letivo de 1968/69, em que já tinha ido “às sortes” em Agosto 8e aprovado para todo o serviço), as coisas “complicaram-se” a partir de um acontecimento insólito. A cadeira de Matemática II tinha um professor na “teórica”, de nome “Vítor qualquer coisa”, mas por lá conhecido na gíria por “papá” já que tínhamos a “mamã”, esposa dele, a dar a “prática”. Diga-se então, em abono da verdade, que funcionava assim como uma “disciplina familiar”…

A “mamã” era uma pessoa de baixa estatura que contrastava fortemente com a altura física do “papá”, o que por vezes era motivo de piadinhas, mas o mais agravante era o facto de a senhora dar aulas a crianças do preparatório e algumas vezes não se dava conta de estar a leccionar no Instituto a “pessoas crescidas” e com recorrência, para chamar a atenção a qualquer coisa, recorria à expressão “então, meninos, tomem lá atenção a isto”, coisa que criava animosidades.

Num dia de prova prática, ocorrida num dos pavilhões onde se davam aulas por falta de instalações apropriadas (um espaço retangular com o quadro ao fundo, a secretária da docente também, carteiras distribuídas em filas e porta de entrada num canto oposto ao quadro), a “mamã” começa a escrever no quadro o enunciado da prova, obviamente estando de costas para os alunos.

Acontece que aí na terceira ou quarta questão, enquanto a escrevia, a porta do fundo foi aberta e um aluno mais velho começou a dar em voz alta a solução para uma daquelas questões. Claro que houve algum “bruá” com o insólito da situação e eu também, entre outros, voltei a cabeça para trás para ver quem e donde vinha o “atrevimento”. Nesse instante a “mamã” também se virou e disse

- “arrume os seus papéis e saia!”.

Com o pressentimento que aquilo podia ser para mim perguntei ao colega que estava ao lado, que me disse que lhe parecia que sim. Olhei para a “mamã” que nesse momento estava com a cabeça voltada para baixo e continuei a procurar responder às questões. Voltei a ouvir

- “já lhe disse, arrume os papéis e saia!”.

Incomodado com a injustiça e com o “sangue na guelra” dos 19/20 anos, levantei-me e interpelei pouco amistosamente,

- “Isso é comigo?”

- “Sim, sim, saia!”

- “Mas, professora, eu não fiz nada, não era eu que falava, além disso já tenho estas questões resolvidas, porque é que tenho que sair?”

- “Porque eu mando!”

Revoltado com a situação, levantei-me e incorretamente (do ponto de vista “civilizacional”) cheguei perto da “mamã” e, literalmente, atirei, à bruta, com o papel onde estavam algumas respostas resolvidas, para cima da secretária e saí. É preciso que se diga, também em prol da verdade, que 4 ou 5 dos colegas presentes falaram em meu abono e fizeram também menção de abandonar a sala, mas consegui demovê-los a tal.

5.    – Consequências “quase” imediatas

Um pouco mais tarde, aquando da colocação das pautas com as classificações, verifiquei que no que me dizia respeito estava lá um provocador “8”, escrito por cima de número rasurado que, notava-se bem por o verniz corretor nem sequer disfarçar bem, que tinha dois dígitos. Estava ainda a tentar perceber/digerir o que se passava e as consequências do mesmo, quando vindo do corredor da secretaria aparece o “papá”. Na minha santa ingenuidade pergunto-lhe se não teria havido algum engano pois estava convicto de que no exame final ter tido um desempenho que esperava ser da ordem dos 14 ou 15 e afinal estava na pauta um 8.

Com a maior desfaçatez perguntou sibilinamente

- “qual é o seu número?”

ao que eu disse

- “8606” e ele replicou (mostrando assim conhecer bem a “estória”

- “ah, isso, é para ver se ganhas juízo para o ano!”.

Com esta situação, não foi possível mostrar que o aproveitamento era bom e como consequência fui chamado a incorporar o Exército, a meio de Julho de 1969 na EPC (Escola Prática de Cavalaria), em Santarém, para o 1º Ciclo do CSM.

6.    - Considerações

 É aqui que peço o vosso auxílio para tentar extrair conclusões deste emaranhado de acontecimentos e seus enquadramentos.

Valorizar o sistema de Ensino então vigente? O seu elitismo? A sua forma de aplicar pedagogia?

Por outro lado, é bem verdade que, por via dos acontecimentos, tive a oportunidade de contactar e conhecer tantas pessoas com as quais agora desenvolvo relações de amizade e respeito.

Então qual deverá ser o sentimento que devo privilegiar nestas recordações?

Hélder Sousa

Fur. Mil. Transmissões TSF

segunda-feira, 23 de maio de 2022

P1340: INTERROMPIDOS HÁ MAIS DE DOIS ANOS...

               CONVÍVIOS DA TABANCA DO CENTRO

Recentemente tenho sido contactado por vários camarigos perguntando pelo possível regresso dos nossos convívios da Tabanca do Centro.

Tendo trocado impressões com o Miguel Pessoa, falei com a D. Preciosa para lhe perguntar da possibilidade de voltarmos aos nossos almoços de cozido à portuguesa em Monte Real.

Infelizmente informou-me que tal não seria possível, pois já tinha retirado o seu “equipamento” de cozinha, etc., do espaço onde normalmente aconteciam os nossos almoços.

O espaço que agora tem é muito pequeno e, sobretudo, sendo numa cave, não é de todo aconselhável para uma ocupação total (que nunca poderia exceder cerca de 30 pessoas), dada a situação que ainda decorre da pandemia do Covid.

Vamos procurar alternativas aqui na zona, mas é bem provável que os valores praticados até agora nesses almoços (11 euros) sejam impossíveis de manter.

Veremos o que podemos conseguir.

No entanto temos também que reflectir seriamente se já é aconselhável reunirmo-nos novamente em grande número.

Com efeito - e infelizmente - as notícias sobre o desenvolvimento da pandemia não são nada animadoras para já e, dadas as nossas “provectas idades”, todo o cuidado é pouco, para não causarmos alarmes às nossas famílias e a nós próprios.

Não é uma questão de medo. É uma questão de bom senso.

Estamos a procurar locais para a possibilidade de retornar aos convívios e assim que soubermos alguma coisa sobre locais e comida, faremos a proposta a todos para saber do vossa opinião e interesse.

Até lá, abraços fortes e amigos

Joaquim Mexia Alves

segunda-feira, 16 de maio de 2022

P1339: 25 ANOS DEPOIS DE ABRIL

ALVORAR

                                                                                Um poema do António Lúcio Vieira 

era quase alvor a liberdade

era quase a vida quase a voz

era um rio em cheia quase foz

brandos ventos feitos tempestade

++

e foi alevantado este meu povo

gente viva, erguida, agigantada

era um tempo velho feito novo

tempo aceso luz na alvorada

++

assim nasceu esta ânsia de nascer

de novo neste chão por amanhar

chão regado a pranto e a sofrer

chão de medos, chão de tanto esperar

++

e das noites algemadas de morrer

e das horas avisadas de acordar

que eu sou do povo que então quis saber

quanto de si o povo sabe dar

++

e sou também desta terra feita

de cravos, de soldados e canções

da pátria onde me deito e onde se deita

a gesta que moldou mil gerações

++

e sou o filho e sou também irmão

dessa gente que já vive na memória

sou da noite de escrever libertação

com a pena do poeta coração

e as musas de inventar a nova história

++

e era assim o dia a madrugar

no sangue e no fio de uma espada

esperança tanto sonho embainhada

olhos tanta noite a vigiar

++

e as lágrimas que correram tanto mar

e as vozes que rasgaram tanta estrada

e as armas onde a flor se viu plantada

não eram já as armas de matar

que o povo tem no peito e na raiz

a seiva da floresta libertada

++

aqui, e era Abril e era amar

estava a renascer o meu país

quando se alvorou a madrugada


                          António Lúcio Vieira

                25-4-1999 - 25 anos

segunda-feira, 9 de maio de 2022

P1338: AMIGOS DO PEITO

O Cafezinho foi um puto reguila, voluntarioso, sempre a armar confusão, mas todos nós miúdos gostávamos da sua liberdade e de o ter por perto. Era um valdevinos mas um líder, nem sempre pelas melhores razões. Tenho saudades dele, pois faz parte da minha juventude e dos tempos que já não voltam.

Juvenal Amado


O CAFEZINHO

Amparado pelo enfermeiro, o “Cafezinho” deu dois ou três passos titubeantes na recepção das urgências do hospital de Alcobaça.

Um penso na cabeça denuncia o traumatismo, do qual foi tratado pelos serviços daquela unidade hospitalar. Toda a gente o conhecia. Era uma figura simpática, que nos habituámos a ver passar numa pasteleira enorme, onde se gingava no selim para chegar com os pés aos pedais. Infelizmente o combustível da bicicleta era tinto normalmente.

Pequeno, com ar teatral, abriu os braços e num gesto de quem está num palco cantou com voz pastosa, “Tuudo ééé preciso nasss passagens deeesta vidaaaaa!!”

O seu nome era José, a alcunha ganhou-a quando foi preso, por contrabandear café durante a guerra civil espanhola. Uns tiveram sorte, ele teve pouca. O filho, que o esperava fora da sala, abananou a cabeça e disse: - “Pois, e agora cantas…”

Todos nos rimos e o Cafezinho aproveitou para tentar logo vender lotaria aos presentes.

Vendedor de jogo de lotaria, era um autêntico vendedor de jogo branco. Eu próprio junto numa sociedade, lhe comprei sempre o mesmo número durante uns anos. Era o 25209, nunca deu nada, até terminações foram poucas. Comecei antes da tropa e só abandonei quando saí da empresa em 1980.

Mas a estória que quero contar é a do filho Zé Café, sim, o mesmo que o esperava naquele dia.

Andámos na escola primária até à quarta classe, embora ele fosse mais velho que eu. Era o que se pode chamar um pardal de calções, fazia toda a espécie de tropelias e arcou com muitas que ele não fez. Uma fisga era uma arma infalível nas suas mãos. Escolhia as pedras com todo o cuidado e voltava da caça com inúmeros pardais á cintura.
Era visita frequente do posto da polícia. Quando não havia culpado à vista logo alguém se lembrava do Cafezinho.

Um dia também fui parar à esquadra, por me ter envolvido à pancada com ele, coisa de que me arrependi de imediato, pois levei uma carga de pancada no jardim junto ao campo de ténis. Quem jogava ténis naquele tempo era uma meia dúzia de colunáveis da terra, que pagavam aos putos para lhes apanharem bolas. Ora aí estava um bom ponto de discórdia, entre a canalha miúda.

Entretanto saímos da escola e fomos trabalhar, cada um seguiu uma adolescência diferente.

Voltámos a tornar-nos mais íntimos quando, feita a minha recruta no CICA 4, sou enviado para o RI6 na Senhora da Hora, na cidade do Porto. Lá estava ele quase pronto, pois era da incorporação anterior. Eu, o Zé Lourenço, que fez a recruta comigo e o Zé Café tornámo-nos inseparáveis. Vínhamos a casa de fim de semana, no regresso o Cafezinho arranjava-nos boleia nas camionetas dos porcos do senhor Manel Inácio. O cheiro agarrava-se a nós o resto da semana.

Quando chegávamos à porta do quartel por volta das três da manhã, já íamos munidos do jornal para em cima dele nos deitarmos, junto ao muro até abrirem a Porta de Armas.

Cafezinho foi o nosso cicerone pelo Porto fora. Alguns bares na Praça da Batalha e a feira do palácio de Cristal, eram normalmente o nosso destino.

Aí o Cafezinho dava show. Nas barracas de brindes com a espingarda, era cada tiro cada gaio. Era de frente, de lado de costas, ou com um espelho não falhava um tiro. Juntava um monte de gente só para o verem disparar.

Nós três quotizávamo-nos e só ele é que atirava. No fim de cada sessão, lá vinha a prenda entregue de mau modo pelo dono da barraca, que via o negócio ser pouco rentável com gente como nós.

Um dia, quando estava a dar-nos uma garrafa de ginja, que tínhamos ganho, perguntou-nos com um ar agastado se nós nunca mais éramos mobilizados. Respondemos-lhe em ar de gozo, que já tinha passado o nosso número mecanográfico e que íamos acabar a tropa ali mesmo no Porto.

Bem, o Zé Café foi para Moçambique, o Zé Lourenço para Angola e eu para a Guiné.

Quando regressámos cada um foi à sua vida, embora quando nos encontrávamos, havia sempre dois dedos de conversa a relembrar.

O Zé Cafezinho foi atropelado em Lisboa, esteve entre a vida e a morte, pois ficou todo migado. Nunca mais largou as canadianas, não conseguiu continuar a trabalhar na Crisal e o seu sustento foi buscá-lo à venda de jogo da lotaria, concessão que era do pai. Após a morte do pai a mesma ficou para ele. Continuei a comprar o tal número, que entretanto já não eram os mesmos do inicio a associar-se.

Passados uns anos saí de Alcobaça e a morte dele acabou por me passar ao lado. Fiquei espantado quando falei nele e me disseram que ele tinha falecido.

25209. Amanhã vou fazer uma aposta e vou utilizar os mesmos números. Talvez em vésperas de também eu engrossar o fundo de desemprego, vá buscar um pouco de sorte que o Zé Café tentou vender e nunca a teve para ele.

Juvenal Amado

Obs:  Um texto do Juvenal Amado publicado em 25 de Janeiro de 2010, que reproduzimos com a devida vénia ao autor e ao blogue “Luís Graça & Camaradas da Guiné”, que o publicou.

segunda-feira, 4 de abril de 2022

P1337: LEMBRANDO UM COMPANHEIRO JÁ DESAPARECIDO

Diz-nos o nosso camarada Carlos Pinheiro: “Há dias em que saio para a vida com uma necessidade enorme de semear poemas. Deixo-vos aqui mais um belo poema do saudoso poeta António Lúcio Vieira, nosso camarada, que nos deixou em Junho de 2020”.

                         SINA

Vês, lá longe, já lá vem lá longe.
Visto daqui parece uma visão por entre brumas
bate-lhe o sol na espuma da proa
e a luz salpica no ar, crepita e cintila.
Há gente no cais acenando braços e lenços
como que a dizer-lhe que é ali o lar.
Sobe o sol no espaço e ateia o dia.
Prenhes de vento as velas arrastam navegantes
ávidos de cais cansados de náuseas e tédios.
 
Lá vem, já lá vem.
Nas pedras musgosas do molhe vem o mar e volta
na amurada assomam olhares e rasgam-se os risos
e as vozes que chegam dos nautas perfilados nas vergas
trazem com o vento a solidão dos dias como se fossem almas
salgadas por todos os mares em todas as viagens.
 
A brisa da manhã lança ao cais um odor marinho
que o casco guardou dos outros mares e de outras memórias.
Lê-se ali o livro breve de tantos segredos
tantos cais de aportar e tantas tantas as procelas.
Nas velas nos mastros e quilhas escreveu-se o mural da epopeia.
Cada baía era uma alcova cada cais foi um lar de alentos
cada oceano uma estrada de galgar distâncias
um adamastor de gelar os corações e as veias.
 
Na longa travessia dos sentidos a voz dos mares dorme nos porões.
O navio atracou mas já sonha partir. Partir.
Soltar amarras e voltar aos mistérios às tormentas e aos medos.
Ao mar.
Curtir o corpo na aventura da viagem desde há muito destinada.
Ao mar que nele se fizeram os homens desta terra
que por ele se abriu o mundo à passagem de flâmulas e ouros;
do mar onde nasceram as vozes cantadas da saudade. Fados.
Ao mar que as águas em volúpia já se roçam pela quilha.
 
Ao mar. Nasceu-nos no berço este fadário de enfrentar tormentas
entre tantos cais de sarar refregas.
Quantos mais cabos a sul ainda para dobrar.
Quantas Calecutes ainda por destino. Quanto naufrágio anunciado.
 
No cais os lenços voltarão. E voltarão. As âncoras já sobem.
Soltam-se as amarras. Soam as sinetas. Ao mar.
Corre-nos nas veias um sangue salgado. E uma espuma nos olhos
e há um sopro de maresia nas vozes que murmuram: espera por mim.
 
Rasga-se o destino na proa do navio.
E vai um povo inteiro ali silente com a marinhagem.

Nos porões que hão-de voltar inchados de futuro.
 
Sina diz o povo ser o nome desta saga que se teme não ter fim.


                                                                                         António Lúcio Vieira 
                                                                                                       13.09.2016