quinta-feira, 14 de novembro de 2019

P1182: REVISTA "KARAS" DE NOVEMBRO

Já estamos habituados a ver os três "Barões do K3" juntos nos nossos convívios (ou então não vem nenhum...). O José Manuel Quintas, Vitor Junqueira e José Pimentel de Carvalho resolveram desta vez reforçar o grupo com um assessor, o Pedro Quintas, que vemos aqui em conversa com o JERO.
Embora aqui apareça isolado, o Carlos Pinheiro vinha acompanhado de mais dois elementos do grupo de Torres Novas, o Alexandre Fanha e o Manuel Ramos. Faltou no grupo o Lúcio Vieira, que continua com problemas de saúde, e a quem desejamos rápidas melhoras.
Aqui os dois outros torrejanos que acompanharam o Carlos Pinheiro desde Torres Novas, o Manuel Ramos e o Alexandre Fanha.
A Giselda parece um pouco surpreendida. Não sabemos se será pela presença do Rui Marques Gouveia e da Teresa Vindeirinho, que já não apareciam há uns tempos...
Como habitualmente o Vitor Caseiro faz questão de cumprimentar todos os presentes. Aqui, foi a vez do JERO...
O grupo de Aveiro tem andado desfalcado do José Luís Malaquias nos últimos encontros. Parece haver uma promessa de este estar presente em Novembro... Vemos aqui o Carlos Prata, Carlos Augusto Pinheiro e Manuel Reis, a que se juntou o Carlos Manata.
O António Sousa parece estar recuperado das maleitas que impediram a sua presença durante vários convívios. Aqui, junto do António Nobre e do JERO.
Um friso de senhoras que são presença habitual: Isabel Gaspar, Hortense Mateus, Amélia Gonçalves e Giselda Pessoa.
Caras conhecidas neste grupo: António Nobre, António Frade, Almiro Gonçalves e José Jesus Ricardo.
O António Alves e o José Luís Rodrigues, presença habitual, junto ao grupo de Aveiro.
Mesmo não participando na refeição o Kambuta quis estar presente para confraternizar com o pessoal e colaborar na reportagem fotográfica. Aqui na companhia do amigo Agostinho Gaspar.
Um grupo de pessoal sorridente (a vida corre-lhes bem, pelos vistos...) - Almiro Gonçalves Giselda, JERO, Miguel Pessoa e Carlos Manata.
Já no local do almoço, o pessoal distribui-se pelas mesas, preferencialmente mantendo a integridade do grupo.
O Joaquim Sousa e o Joaquim Rolo, inscritos pelo Carlos Santos, junto de dois aveirenses, o Carlos Augusto Pinheiro e o Manuel Reis.
Do outro lado da mesa o Carlos Santos e o restante pessoal por ele inscrito, o Frederico Biel e o Mário Lourenço.
O Carlos Pinheiro e o Alexandre Fanha têm aqui a companhia do António Sousa, podendo ao fundo ver-se ainda o António Nobre e o seu acompanhante Augusto Soares.
O terceiro torrejano, Manuel Ramos, estava do outro lado da mesa, com o António João Duarte, também inscrito pelo Carlos Pinheiro. Ao fundo podemos ver ainda o José Jesus Ricardo e Esposa.
O Luís Branquinho Crespo tem aqui a companhia do Almiro Gonçalves e Amélia Gonçalves, vendo-se ainda ao fundo o Rui Marques Gouveia.
A família Gaspar é presença obrigatória, claro, ou não tivesse o Agostinho atingido as 79 presenças em 79 encontros efectuados - Um pleno! Aqui com o Miguel e a Isabel, habituais acompanhantes.
A D. Preciosa não deixa os créditos em mãos alheias e está sempre presente. Aproveitando a presença do Kambuta, o editor da revista lá vai aparecendo em alguma foto... vemo-lo junto da Giselda.
O António Alves encabeça a mesa junto de dois casais - o Luís Dias e Manuela Dias mais o António Frade e Helena Frade.
O Kambuta lá ia aguentando a fomeca, vendo passar o cozido debaixo do seu nariz... Esperamos que o aroma do petisco não lhe faça mal...
O JERO e o régulo da Tabanca Joaquim Mexia Alves fazem parte da mobília e apenas estão ausentes por motivos excepcionais.
O Carlos Manata e o Vitor Caseiro têm sido presença garantida nos nossos encontros. E desta vez o Vitor teve mesmo que dar uma ajuda nas contas, dada a ausência do Carlos Oliveira.
Fizemos uma montagem fotográfica para poder ter os três "Barões do K3" juntos na mesma imagem... Já que eles são inseparáveis...
Então o que é isso, Kambuta? A beber Cola?! Então e as ordens do médico?!
Enfim, o encontro estava no fim e era hora de se acertar as contas. Foram 42 presenças, um pouco melhor que o encontro anterior. A ver se conseguimos aumentar a fasquia no próximo convívio!



sexta-feira, 1 de novembro de 2019

P1178: RECORDAÇÕES DOS TEMPOS DE BISSAU


 DIA DE TODOS OS SANTOS
1968 - BISSAU

Carlos Pinheiro
Era dia de Todos os Santos. Era dia 1 de Novembro de 1968. Estava no meu terceiro dia de Guiné. Tinha chegado no UÍGE em 28 de Outubro. Estava “adido” nos Adidos, em Brá, porque tinha ido em rendição individual e o meu Batalhão, o 1911, regressaria no mesmo barco onde eu tinha ido. Coisas da tropa. Só que, mesmo depois da comissão terminada e o barco ao largo à espera, mesmo assim, o 1911 estava numa operação especial no Sul. E o UÍGE lá esperou mais de uma semana.
Por tudo isto, estava “adido” nos Adidos, um quartel de passagem onde as condições, ou a falta delas, eram inimagináveis. Uma cama? O que era isso para os “periquitos” (1)? Comida? Tenham calma. Podem lá ir fora e andar “desenfiados” que ninguém dá pela vossa falta. Devem ainda trazer algum “patacão”(2) da Metrópole no bolso. Desenrasquem-se, era a ordem - e assim íamos fazendo, conforme podíamos.
Tudo ali estava de passagem, à espera de um destino. Para os que chegavam, era a espera da guia de marcha para o destino. Para os outros, os que já tinham terminado a comissão, era a espera do regresso desejado. Portanto, como não havia tanta coisa, camas era o que mais faltava. Não havia mesmo. A malta desenrascava-se a dormir em cima daquelas caixas da tropa que na Metrópole serviam para guardarmos, debaixo da cama, as nossas coisas e especialmente o farnel de casa e as botas de sair, as botas engraxadas. Ali, não. Ali serviam mesmo de cama.
A primeira noite foi horrível. Os mosquitos, aos milhares, dada a falta de higiene e de qualquer tipo de limpeza mais que evidente, e ainda por cima com as “bolanhas”(3)) ali à volta, sabiam escolher o sangue novo acabado de chegar. No outro dia ainda não havia feridas, mas tínhamos o corpo todo picado. Parecia que tínhamos rubéola. Havia portanto que arranjar um sítio para dormir e eu, à boa maneira portuguesa, acabei por ter sorte.
Ainda no cais, no dia anterior quando desembarquei, encontrei um conterrâneo, já “velhote” naquelas coisas da guerra. Era condutor na Companhia de Transportes. Tinha sido ele, e os seus camaradas que nos tinham transportado, na véspera, naquelas velhas GMC da 2.ª Grande Guerra, para os nossos destinos. Foi ele que no dia seguinte me procurou para me dizer que, provisoriamente, me arranjava uma cama, com mosquiteiro, na sua Companhia, no Quartel-General, em Santa Luzia. Foi uma pequena felicidade, já que a maior parte dos companheiros de viagem só muito mais tarde é que teve a tal cama com mosquiteiro. Sim, esta coisa do mosquiteiro era um pormenor mais que importante, porque assim os mosquitos não nos chegavam ao pelo.
Talvez por isso, talvez porque não conhecia ainda mais ninguém naquelas paragens, mas também com sentimento de agradecimento, convidei o meu amigo para um petisco nesse dia de Todos os Santos.
Foi ele que escolheu o sítio. Aliás, eu ainda não conhecia nada. E assim, lá fomos até Safim, nos arredores de Bissau, onde se comiam umas ostras que eu ainda não sabia apreciar, mas também se comia um bocado de leitão e se bebiam umas “bazookas” da Metrópole ou até mesmo de Angola, a Cuca ou a Nocal, ou de Moçambique, a 2M, salvo erro.
A páginas tantas, como soe dizer-se, a meio do repasto, começa a passar por cima de nós uma série de helicópteros, movimentos esses a que eu não estava habituado e certamente por isso perguntei a que se devia tal bailado. E o meu amigo não se fez rogado:
- Havia “ronco”(4). Mas o que era “ronco”?
E ele lá me explicou. Havia “porrada” de certeza.
Mas nós lá fomos cumprindo a obrigação que nos tinha levado aquele sítio. A temperatura era elevada, a humidade era ainda maior. Havia portanto que refrescar o corpo com as bebidas frescas sem que notássemos que a mente ficava cada vez mais nublada.
Depois, lá voltámos ao quartel, a Santa Luzia, à procura do local do descanso. Mas qual descanso? Quando lá chegámos, de certo modo “alegres”, mandaram-nos calar porque a caserna estava cheia de feridos.
Feridos? Mas como? Foi como um balde água fria. O “calor” passou-nos de imediato. Caímos de imediato em nós. O que é que se tinha passado? Tinha sido só mais um caso. Dramático como muitos outros. Um “periquito”, talvez duma Companhia que tinha ido comigo no barco, ao subir para uma GMC na zona de Bula, a caminho do seu destino, deixou cair a sua bazuca armada e aconteceu um mar de dor e de sangue.
Nunca cheguei a saber quantos morreram, mas alguns acabaram ali a comissão que estavam a iniciar. Muitos feridos estilhaçados em tudo que foi sitio. Nos braços, nas pernas, tronco, na cabeça, onde calhou. Daí aquele bailado dos helicópteros.
No meio dos feridos, alguns eram condutores da Companhia de Transportes. Por isso, o Hospital, o HM 241, o Hospital Militar de Bissau onde se fizeram autênticos milagres durante toda a guerra, pediu aquela Unidade para recrutar pessoal para ir dar sangue. Voluntários apareceram de imediato, como era habitual.
O Unimog arrancou carregado, mas antes de chegar ao Hospital, despistou-se junto ao Bairro da Ajuda, já muito perto do Hospital. Mais feridos. Mais dor. Mais sangue. Mais sofrimento. Daí a razão de tantos feridos na caserna aquela hora. Eram os que estavam menos-mal. O Hospital estava cheio e teve que dar alta aos que inspiravam menos cuidados. Era a guerra na verdadeira acepção da palavra.
Foi assim o meu primeiro dia de Todos os Santos que passei na Guiné. Há dias que não se esquecem e aquele foi um deles.
Carlos Pinheiro
(1)  Militar recém-chegado à Guiné.
(2)  Dinheiro.
(3)  Terrenos pantanosos.
(4)  “Festa”, pancada, algo de anormal.


segunda-feira, 28 de outubro de 2019

P1176: UM CENÁRIO NOVO


Neste texto - há muito publicado no blogue “Luís Graça e Camaradas da Guiné” e agora recuperado para a Tabanca do Centro - descrevo a minha chegada a Bissau no navio da marinha mercante Ambrizete, em rendição individual, bem como as primeiras impressões da cidade, dos seus lugares mais afamados e da sua fauna humana.


A CHEGADA À GUINÉ E AS
REALIDADES DE UM NOVO MUNDO…

Helder Valério Sousa
A minha partida para a Guiné ocorreu cerca das 22 horas do dia 3 de Novembro de 1970, quando o velho Ambrizete rumou à foz do Tejo com destino a Bissau, navegando com uma inclinação de 7º para estibordo motivada por uma qualquer má distribuição da carga (constituída, para além de géneros alimentícios, por material de guerra diverso e sobressalentes para manutenção).

A viagem correu bem, com mar sem causar problemas (vaga larga, como nos explicaram), gozando aqui e ali da companhia dos peixes voadores que faziam questão de acompanhar e, aparentemente, rivalizar com o navio.

A aproximação à costa da Guiné deu-se pela madrugada do dia 9 de Novembro, com todas as sensações que têm sido descritas por outros camaradas, como a visualização da linha do que parecia ser uma mata cerrada, o bafo quente e húmido de lá emanado, os sons e os silêncios, tudo isto ainda mais ampliado pelo facto de estar a nascer o sol em contra-luz em relação à nossa posição.

Durante a madrugada tínhamos ultrapassado o Carvalho Araújo,  que seguia carregado de militares mas que nos disseram ter tido um conjunto de problemas (fogo a bordo?) que o fazia navegar muito lentamente. Deste modo, todos aqueles que seguiam no Ambrizete (6 militares, todos Furriéis de Transmissões, 3 TPF (transmissões por fios) e 3 TSF (eu, o Nélson Batalha e o Manuel Martinho)) desembarcámos a meio da manhã desse dia 9, enquanto que o desembarque do pessoal do Carvalho Araújo só ocorreu no dia seguinte, dia 10 de Novembro, dia de S. Martinho, o que nos fez ficar com velhice acrescida em relação a todos os que viajaram naquele barco, nomeadamente os nossos camaradas de curso e especialidade, Furriéis Milicianos Eduardo Pinto, Luís Dutra Figueiredo, António Calmeiro e José Manuel Fanha, sendo que, como era sabido, "a velhice era um posto"!

O episódio do desembarque teve algo que me marcou e que me deixou de pé atrás, como se costuma dizer...


Devido à tal situação do posicionamento relativo dos dois barcos que estavam a chegar ao cais de Bissau, o Ambrizete ficou um tanto ancorado ao largo para dar a primazia ao Carvalho Araújo, razão pela qual a passagem dos passageiros do barco para terra foi feita por intermédio de pequenas embarcações do tipo que lá se usavam para fazer as cambanças, mas que no nosso imaginário eram pirogas dirigidas por nativos, sendo aí o primeiro contacto (desconfiado) com os naturais.

Quando o barquito manobrava na aproximação à rampa, estando nós naturalmente a um nível mais baixo do que aqueles que se encontravam no cais, um dos militares presentes procurou saber se "algum de vós é o Furriel Hélder Sousa?". Após a confirmação de que era eu mesmo, o militar em causa, que eu vinha substituir, e que já andava desesperado pela demora da minha chegada (não esquecer que oficialmente parti a 23 de Outubro, embora só o tenha feito realmente em 3 de Novembro e, sendo das Transmissões, ele sabia que eu já tinha embarcado) começa aos saltos e aos gritos de “É ele!, é ele!, é ele!", o que fez aumentar a minha preocupação sobre onde me vinha meter para suscitar tanta alegria pela partida...

Hoje já não me lembro do seu nome, ele que fez tanta questão em me acompanhar em todas as voltas que foi necessário dar para me apresentar no Quartel, de me levar a uns amigos de Vila Franca que me tinham guardado um lugar para ficar, de me levar a almoçar à messe de sargentos, etc. A imagem que tenho é a de um macaquinho aos saltos (era o que me parecia, já que o via de baixo para cima e ele estava acocorado), feliz da vida por ter encontrado o seu pira e safar-se dali o mais depressa possível, provavelmente na viagem de regresso do Carvalho Araújo.

Depois das apresentações fiquei a saber que os Comandantes da Companhia de Transmissões e do STM (Serviço de Telecomunicações Militares) eram respectivamente os Capitães Cordeiro e Oliveira Pinto (excelentes pessoas), que eram cunhados e contemporâneos da minha (nossa) passagem pelo B.T., no Quartel da Graça, quando fazíamos a especialidade, o 2º Ciclo do C.S.M., e eles eram Tenentes a fazer o tirocínio para capitães, período de alguma agitação pois ocorreu no último trimestre de 1969, quando tiveram lugar as chamadas Eleições de 69.

Igualmente o 1º Sargento que supervisionava o STM em Bissau e que nos iria instruir - preparando-nos para as tarefas que teríamos que desempenhar quando fossemos destacados para os postos no interior - era meu velho conhecido, já que tinha sido ele a orientar o meu estágio da especialidade em Tancos, na EPE (meu e do Manuel Martinho que também foi para a Guiné, bem como do Miguel Rodrigues que foi para Angola, salvo erro, e do Fernando Marques que ficou cá em Portugal, na CHERET).

O camarada que fui substituir deixou-me depois aos cuidados dos meus conterrâneos vilafranquenses, Furriéis Milicianos José Augusto Gonçalves e Vitor Ferreira, o primeiro deles meu colega da Escola Industrial e o outro das tertúlias do Café A Brasileira, mais parceiro que adversário das partidas de bilhar. Ambos estavam integrados nas Transmissões (nessa ocasião ainda estava em criação o futuro Agrupamento de Transmissões) e arranjaram um espaço para me acomodar no quarto que compartilhavam nas instalações para sargentos em Santa Luzia, juntamente com outro Furriel, de apelido Pechincha. Este último tinha estado colocado numa Companhia de Caçadores Nativos e estava agora destacado numa repartição qualquer do Q.G..

Levaram-me a jantar à Meta (já li algumas referências nos Blogues mas não me parece que lhe tenham dado o relevo que de facto tinha naqueles finais de 1970). Era um lugar muito frequentado, com uma zona de Bar, zona de restauração e uma enorme pista de slot-cars (minicarros eléctricos), muito maior que as que conhecia cá na Metrópole e que era palco de acesas e renhidas disputas de competição dos vários miniaceleras que por lá iam gastando o seu tempo e dinheiro.

Após o jantar, uma voltinha para desmoer e reconhecer os vários locais de interesse, SolmarSolar dos 10Ronda, o inevitável Café do Bento (5ª Rep.), a casa Espada (das ostras) na rua paralela à marginal, o Pelicano.

Aqui no Pelicano, quando para me integrar saboreava a minha Coca Cola com uísque (era um privilegiado, já tinha tido a oportunidade de beber aquela coisa quando em 1968 estivera em França, Bélgica e Inglaterra), tive contacto directo com mais algumas das realidades do mundo onde estava a entrar...

O primeiro foi a sensação estranha de estar ali na esplanada a ouvir embrulhar lá longe, do outro lado do grande e largo Geba. Diziam que era em Tite, ou Fulacunda ou qualquer outro nome que para mim naquela ocasião não assumia personalidade. Mais tarde já não era assim, os nomes passaram a ter depois uma identidade própria; acho mesmo que havia até uma espécie de hierarquia, no que respeita à forma como eram identificados pelas dificuldades de vida que lhes eram inerentes. 

Estar ali a ouvir os rebentamentos abafados pela distância e a ver alguns clarões deu logo um arrepiozinho na espinha, com aquele misto de temor e de ansiedade que nessas ocasiões nos assaltam, mas também com um pensamento de solidariedade e angústia pela impotência de quem só pode assistir e não intervir.

O segundo contacto foi mais do género de constatar a degradação moral que a permanência em situações daquelas podia produzir em espíritos mais fracos. Já se falava do que acontecia no Vietnam com os soldados americanos consumindo droga para resolver os seus problemas mas ali no Pelicano não foi esse o caso. Tratou-se apenas do facto de que em determinado momento um desgraçado qualquer acercou-se da mesa onde estávamos e procurou vender-nos uma fotos "de gajas nuas". 

É claro que recusámos mas fui depois esclarecido de que não se tratava de "gajas" mas sim de "uma gaja", a própria mulher dele, a quem ele (diziam que era um fulano já bastante apanhado do clima) enviava fotos que tirava a si mesmo sem roupa e pedindo que ela lhe enviasse fotos do mesmo jeito, que ele depois reproduzia e tentava vender.

Fiquei bastante impressionado com aquela demonstração prática da alienação a que o clima de guerra e o consequente improviso da vivência podiam produzir em seres humanos e jurei a mim mesmo que haveria de sair da Guiné são de cabeça e mais determinado em contribuir para as mudanças inevitáveis que haveriam de ocorrer na nossa sociedade.
Hélder Valério Sousa
Ex-Furriel Mil Transmissões TSF

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Fotos 3, 4 e 5 -  © Agostinho Gaspar. Todos direitos reservados