sexta-feira, 18 de outubro de 2019

P1173: VELHAS HISTÓRIAS DO JUVENAL AMADO / 2

Mais uma história do nosso camarigo Juvenal Amado...

A PEQUENA E ADORÁVEL MARIAMA

Abriu os olhos de espanto e de medo ao ver a minha Berliet, que entrava pela aldeia levantando nuvens de pó. Virou costas e correu no sentido contrário, abrigando-se nas pernas da mãe que, com alguma curiosidade, nos observava junto da sua cabana destruída.

Mariama era uma bajuda de palmo e meio. Tinha um tom de pele café com leite escuro, os olhos grandes e castanhos. O cabelo todo entrançado com amuletos nas pontas. Vestia uma blusa sem mangas e um pano fula enrolado à cintura. Um ronco, num dos tornozelos dos seus pés descalços, completava a vestimenta.

Parei a viatura, saltei dela com a minha arma e disse-lhe adeus, ao que ela respondeu escondendo-se, ainda mais, na roupa da mãe.


Bangacia após o ataque - 1
Íamos começar a reconstrução de Bangacia, que tinha sido destruída pelos guerrilheiros algum tempo atrás. Sempre achei que aquilo tinha sido um ataque por encomenda.

Assim, quando reconstruímos, fizemos algumas benfeitorias, entre as quais, casas mais espaçosas e telhados de zinco, em vez dos de capim (que tinham que ser mudados de vez em quando), posto médico e escola.

As alterações eram nitidamente do agrado da população. Fizeram-se vários grupos de construção. Sapadores, alguns elementos do Pel.Rec. que tinham conhecimentos de pedreiro e carpinteiro. Também vieram camaradas das Companhias Operacionais, onde pontuava o Saltinho como grupo mais numeroso.

Cada chefe de família tinha que produzir blocos de barro para utilizar na construção da nova casa, para a sua família. Assim, amassavam o barro de cor cinzenta com palha misturada, enchiam um molde e os blocos daí resultantes iam sucessivamente ficando ao sol, até se tornarem duros.

Eu e os outros condutores de Berliet acarretávamos os blocos para o local escolhido pelos seus donos. Escusado será dizer que era preciso pôr ordem nos carregamentos, pois todos queriam ser os primeiros. Assim sempre que não tinha coluna para qualquer lado, lá estava eu logo de manhã a transportar os tijolos de barro, hora para uns, hora para outros.


Bangacia após o ataque - 2
A Mariama espreitava sempre de longe. Eu acenava-lhe e, à hora do lanche, que fazíamos às 10 horas da manhã, oferecia-lhe com um gesto um pouco de pão. Acabava alguém por vir buscar para ela, mas ela nunca vinha.

Como tinha sempre doce da ração de combate, passei a levar-lhe. Mas pouco e pouco as outras crianças, que andavam sempre à nossa volta, foram-na trazendo mais para perto.

Passado algum tempo, mal eu chegava, vinha a correr dar-me mão. Levava-me ao pé da mãe, mulher de talvez vinte e poucos anos, com dois filhos e a nossa heroína.

A idade dela era difícil de descobrir, tendo em conta os filhos e a vida dura das mulheres da Guiné que rapidamente perdiam a sua juventude. O pai era mais velho e tinha outras mulheres, como era costume. A riqueza de um Homem Grande media-se pelo número de mulheres e cabeças de gado.

O nome por que eu era conhecido, fazia-lhes confusão uma vez que Amado era muito parecido com Amadu ou Mamadu. Quando eu o mencionava, os Homens Grandes faziam uma expressão de gozo, metiam a mão à frente da cara – “Heeeeeiiiiiiiiiiiiii nosso cabo é manga de calabanta!” (1). Pensavam que eu estava a gozar com eles.

Mas a Mariana, mal eu chegava, ouvia logo a vozita dela a chamar, “Almadu…. Almadu”, ainda complicou mais o nome. Vinha à procura das guloseimas que no fundo se resumiam a pão, latas de cavala e sardinha. Todo o dia andava comigo para cima e para baixo, em cima da viatura mandando nos outros garotos. Era a mais pequenita de todos.

Junto a um monte de tijolos utilizados
na reconstrução de Bangacia
A reconstrução seguia em bom ritmo. Faziam-se as paredes exteriores dividia-se por dentro em quatro salas iguais, punha-se o vigamento e por último o telhado.

Sempre que se atingia uma fase, assistia-se a estranhas negociações. Os Homens Grandes ofereciam galinhas para serem os primeiros a terem as casas prontas, mas à medida que viam a mesma a ficar concluída, começavam a esquecer-se das promessas.

Os Islamitas são bons negociadores. Então os camaradas diziam que não lhes acabavam a casa e mais, furavam-lhe os tectos todos. Com gestos simulavam um chuveiro, onde eles passariam a tomar banho. Com grande alarido as negociações começavam em cinco galinhas, mas por fim o Homem Grande só dava uma. E levava tempo a negociar.

Nós riamos pois para nós, naquele caso, era tudo uma brincadeira. Entretanto passei a ser recebido na casa da Mariama. Ela pedia-me tudo o que lhe diziam para pedir: “Almadu parte (2) peso”, “Almadu parte lata”, etc, etc... Na medida do possível lá lhe comprei uns chinelos coloridos, que ela nem para dormir os tirava.

A mãe torrava-me mancarra (3) numa panela de ferro e foi ali que provei a bianda (4) com molho da polpa que envolve a amêndoa da palmeira.

Um dia a mãe disse-me, mais por gestos que por fala, se eu queria “levar a Mariama no Lisboa”.  Eu ri-me, fiquei embaraçado e disse-lhe que não era possível.

A idade, para além das dores nas pernas e nas costas, traz também por vezes alguma sabedoria e hoje, quando penso neste episódio, vejo com clareza a mensagem daquela mãe.

Trazer a pequenita comigo era livrá-la da mutilação (5), da miséria, do analfabetismo e de uma esperança de vida que não ultrapassa os quarenta anos. A Mariama terá, se chegou à pré-adolescência, passado por essa prova cruel do Fanado, terá sido vendida por dois sacos de mancarra e um de cola, para ser a 2ª ou 3ª mulher de um homem bem mais velho.

A mãe não terá tido consciência do alcance total do seu pedido. Mas estava no seu instinto de mulher tentar um futuro diferente para a filha.

A reconstrução de Bangacia ficou pronta. Foi um prazer ver aquelas casas alinhadas, com arruamentos largos, os telhados brilhando ao sol.

Passei a ir menos vezes à povoação, embora lá fosse sempre que ia às Duas Fontes. Levava latas de conservas e pão, que trocava com os garotos por laranjas e mangas. Guardava sempre o melhor para a pequenina Mariama.

Um dia também me apareceu no quartel...

No momento que escrevo estas linhas, peço para que o destino lhe tenha reservado um futuro diferente dos milhões de Mariamas que na Guiné sofrem com a pobreza e possivelmente não acreditam que possa haver cura para os seus males.

Juvenal Amado
Ex-1.º Cabo Condutor
CCS/BCAÇ 3872
Galomaro 1972/74

Notas do autor:

(1) Malandro.
(2) Dá-me um escudo
(3) Amendoim.
(4) Arroz.
(5) “Fanado”: trata-se de uma prática horrível, onde se mutilam as meninas nos órgãos genitais. Por todo o Mundo Islâmico é praticado. Há no entanto algumas vozes de mulheres africanas, que fazem uma campanha muito corajosa contra esta prática, que as limita como mulheres inteiras, no pleno direito e uso, de todas as suas capacidades.


sexta-feira, 4 de outubro de 2019

P1169: UMA HISTÓRIA SURREAL...

ALCUNHAS DO TEMPO DA VIDA MILITAR 
QUE NÃO ESQUECEM / 5

O “ALCOBAÇA”

JERO

Memória de uma longa conversa com o meu conterrâneo José Peça, um “rapaz” do meu tempo!

Foi no dia 5 de Junho de 1963. Passava pouco do meio-dia. À distância do tempo recorda esse dia… ao minuto. Era Soldado Condutor (condutor auto rodas) da CCS do Batalhão 400 (BART 400). Pediram nessa altura “voluntários” para ir ajudar uma coluna do "392", de Baca, que estava a ser atacada quando vinha a meio caminho em direção a Bessa Monteiro.

O José Peça ficou no quartel sentindo-se na obrigação de me explicar que “na tropa aprendeu cedo que não se devia ser voluntário” para nada. Saiu uma coluna comandada pelo Capitão Moura Borges para "ir dar uma mão" à tropa do "392", ajuda que tinha sido pedida por rádio.
Por volta das 3 da tarde soube o que tinha acontecido.

A cerca de 12 kms. de Bessa Monteiro, num local em que a “picada” estreitava devido a uma “garganta” da montanha a segunda viatura da coluna da CCS rebentou uma mina anticarro, não tendo conseguido chegar ao local da emboscada da "392". Tinham-se registado diversos mortos e feridos.

Lembra-se de os mortos terem chegado “feitos em bocados”. Havia a lamentar 3 mortos da CCS, entre os quais o Capitão Borges. E também havia mortos em Baca da CART 392. Constava que eram 4.

O “Alcobaça” - como era conhecido e tratado na sua companhia - ajudou no que lhe foi possível e, ainda assarapantado pela confusão do momento, lembra-se de passado algum tempo ter sido chamado pelo Comandante de Batalhão, Tenente-Coronel Alberto Ferreira de Freitas Costa.

“Alcobaça”, vai jantar e depois levas os mortos a Ambrizete”.
Nesta parte da narrativa o Zé Peça esclarece-me de algumas dúvidas.
Destino Ambrizete porquê?
Ambrizete ficava a 200 kms. mas tinha cemitério e uma Igreja onde se podiam fazer os funerais. Teria que fazer o percurso onde tinha ocorrido o rebentamento da mina e passar por Baca para transportar para o mesmo destino os outros mortos.

Entre diversos pormenores macabros em relação aos mortos da CCS o Zé Peça lembra-se ainda do que comeu na altura: “bacalhau com batatas”! Porque se lembra deste pormenor ?
Porque que era um "prato" de que muito gostava e não tinha conseguido "tocar na comida".
Algum tempo depois apresentou-se com a sua “GMC” junto ao Comando e carregaram-lhe, em maca, os 3 mortos.

O Tenente-Coronel entregou-lhe os galões do Capitão Borges e disse-lhe em voz baixa que os voltasse a colocar no corpo do Oficial quando tivesse chegado ao seu destino.

- “E quem vai comigo, meu Comandante?”

- “Ninguém. Vais sozinho pois já chegam os mortos que tivemos. Se houver outra mina só teremos mais uma baixa e não duas.”

O José Peça, que sabia que o Comandante de Batalhão tinha estima por si, sentiu um aperto "mitral" mas nada disse e subiu para a viatura. Pôs o motor a trabalhar e arrancou, seguido por duas viaturas com 2 secções. Lembra-se que uma das secções era comandada pelo Furriel Tavares. 

Eram umas seis da tarde. Ainda havia luz de dia mas pouco depois começou a escurecer. 
O “Alcobaça” não acendeu os faróis mas ligou os “olhos de gato” da “JMC”. Em marcha lenta, pois nalguns troços da “picada” os homens do Furriel Tavares seguiam apeados, chegaram ao local onde tinha rebentado a mina.

Foi muito difícil ultrapassar o "buracão", dificuldades que pouco depois aumentaram quando encontraram duas árvores abatidas na "zona de morte" da emboscada que a malta do "392" tinha sofrido.

Os “abatises” tiverem que ser serrados e removidos para a berma para a pequena coluna continuar o seu caminho. Foram horas de angústia que se prolongaram pela noite dentro.

Chegaram a Baca por volta das 4 da manhã. Aí o Zé Peça lembra-se de ter comido alguma coisa. Uma espécie de pequeno almoço. Tinham sido precisas cerca de 10 horas para percorrer 22 quilómetros!

Foram carregados os mortos da “392”- eram 3 e não 4 -  e a coluna “funerária” seguiu a caminho de Ambrizete.

Só, na sua cabine, nem uma vez o Zé Peça olhou para trás, para a sua ”carga”. Sentia um cheiro a morte e um zumbido de moscas… Foram horas e mais horas até Ambrizete. Só, com os seus pensamentos, o Zé Peça olhava para a “picada” atento a qualquer coisa… As sombras da noite foram clareando e quando o amanhecer chegou o seu ânimo melhorou um pouco…

Eram 5 da tarde quando chegou a Ambrizete. Tinham passado cerca de 23 horas desde que tinha saído de Bessa Monteiro! Os corpos começaram a ser descarregados e o “Alcobaça” apressou-se a pôr os galões no cadáver que lhe pareceu ser o do Capitão Borges. Os corpos estavam inchados, cobertos de pó, de moscas e… irreconhecíveis. O Zé Peça teve dúvidas mas… não conseguia olhar mais tempo os mortos.

Perguntei-lhe se os corpos estavam identificados, se tinham as chapas metálicas de identificação que todos os militares traziam ao peito. Em consciência não se lembra… nem sabe responder.

O "Alcobaça"
Tinha que sair dali bem depressa e foi para a “Pensão do Moço”. Conhecia o dono e lembra-se que foi para a cama bem cedo. Caiu na cama mas não conseguiu dormir nada de jeito. Teve pesadelos e viu, vezes sem conta, os “seus” mortos numa noite longa… que parecia não ter fim.

 
No dia seguinte atestaram-lhe a sua GMC com géneros. Carregou sacos de arroz, feijão, grão, batatas, conservas e barris de vinho. O Zé Peça lembra-se que sentia algum “conforto” com a carga que ia transportar. Carregava a tonelagem máxima e se “encontrasse” uma mina anticarro talvez não saltasse muito!

Não houve problemas no regresso a Bessa Monteiro. Quando chegou ao aquartelamento pensava que ia encontrar a malta toda em lágrimas. Foi recebido com gritos de satisfação – “Olha o “Alcobaça”!
 
Num grupo tocava-se acordeão e dançava-se… Parecia que nada de anormal se tinha passado dois dias antes… O “Alcobaça” percebeu que a guerra é mesmo assim. Ai dos que partem! Quem fica… come, bebe, brinca... convencido que a acontecer alguma coisa de mau acontecerá aos outros.

Fez o relatório verbal ao seu Comandante  e não ocultou as dúvidas que teve quando colocou os galões do Capitão… num corpo que poderia não ser o “certo”. O seu Tenente-Coronel não o recriminou e explicou-lhe as razões da tal ordem cruel: «Segues sozinho porque já me chegam os mortos que tivemos.» O Zé Peça compreendeu e seguiu para a sua vida no quartel.

O nosso camarada termina a sua história com a voz rouca.
Peço-lhe algumas fotografias do seu tempo de Angola que, com a ajuda da sua mulher, encontra passado algum tempo.
Passar uma noite a conduzir… A morte marcou-lhe a vida!

JERO


segunda-feira, 30 de setembro de 2019

P1168: REVISTA "KARAS" DE SETEMBRO

Como habitualmente o Café Central foi palco da concentração do pessoal antes do almoço, desta vez com a esplanada um pouco menos preenchida, dada a afluência mais reduzida... mas animada, como de costume.
À chegada ao local deparámos com dois outsiders desta reunião... O Jaime Brandão - que supomos ter escritório por aquelas bandas, tal a frequência com que ali o encontramos... - e o imprescindível "Kambuta", que mesmo proibido pelo médico de mandar abaixo o cozido, não quis deixar de estar presente na concentração para confraternizar com os camaradas e ainda colaborar na preparação da reportagem fotográfica para a "Karas". Depois foi à vida, que isto de ficar a ver os outros a comer já era masoquismo a mais...
Uma cara nova surgiu pela mão do Agostinho Gaspar. Este seu amigo, Artur Rato, também combatente da Guiné, estava de férias em Portugal vindo dos EUA e teve a oportunidade de estar presente neste nosso convívio.
Antes de partir ainda houve tempo para uma foto do Kambuta com o amigo Almiro Gonçalves.
O "táxi de Aveiro" desta vez só trouxe três dos quatro sócios - o José Luís Malaquias ficou em parte incerta, com jeitinho ainda foi para as vindimas... Na foto os aveirenses presentes, Manuel Reis, Carlos Prata e Carlos Augusto Pinheiro.
Relativamente ao pessoal inscrito houve uma baixa de última hora a reportar - O JERO teve que resolver problemas pessoais inopinados, não podendo estar presente. Depois dum interregno grande, lamentamos não ter podido contar com a sua presença.
Do pessoal de Torres Nova já tínhamos conhecimento da ausência do Lúcio Vieira, ainda convalescendo de problemas de saúde que levaram ao seu internamento. Desejamos-lhe rápidas melhoras. Aqui, o trio remanescente - Manuel Ramos, Alexandre Fanha e Carlos Pinheiro - vendo-se ainda Raul Castro, que conseguiu uma aberta na sua preenchida agenda para confraternizar com os camaradas da Guiné.
O Carlos Santos e o Carlos Oliveira já nos habituaram a trazer consigo dois penduras, o Joaquim Rolo e o Joaquim Sousa. Vemos aqui os quatro, acompanhados pelo Carlos Pinheiro e Raul Castro.
A Giselda aproveitou o tempo razoável para trazer a sua T-Shirt da Tabanca do Centro. Provavelmente para o próximo convívio já terá que trazer uma roupinha mais aconchegada...
No meio de um aperitivo para o almoço ainda há tempo para uma conversa entre o Carlos Augusto Pinheiro e o Carlos Manata.
Raul Castro em conversa com o Vitor Caseiro. Será ainda conversa sobre as autarquias?
Como vai sendo hábito o Carlos Cordeiro surgiu acompanhado pelo José Salgueiro, por ele inscrito.
O Joaquim Espírito Santo Oliveira tem sido razoavelmente assíduo aos nossos encontros, embora não consiga bater o José Luís Rodrigues, que não falha um...
O Carlos Pinheiro e o Régulo da Tabanca Joaquim Mexia Alves põem a conversa em dia.
Os aveirenses (Carlos Augusto Pinheiro, Manuel Reis e Carlos Prata) e torrejanos (Alexandre Fanha, Manuel Ramos e Carlos Pinheiro) partilharam a mesma mesa, ainda com dois "intrusos" à mistura (José Luís Rodrigues e Carlos Manata).
Um casal sempre presente, o Almiro e Amélia Gonçalves. Do outro lado da mesa os amigos do costume, a família Gaspar (Agostinho, Isabel e Miguel), desta vez acompanhada pelo estreante Artur Rato, inscrito pelo Agostinho.
O Carlos Cordeiro e o José Salgueiro tiveram na mesa a companhia do regressado António Sousa, ultimamente apoquentado com problemas de saúde que o afastaram do nosso convívio durante largos meses. Agora, felizmente, a crise parece ter passado e o António Sousa mostrou-se razoavelmente recuperado. Esperamos que continue assim!
Um pormenor dos três de Aveiro presentes. Esperamos que recuperem rapidamente a companhia do José Luís Malaquias, desta vez ausente.
Dois que fazem parte da prata da casa, o Carlos Oliveira e o Carlos Santos, já nos habituaram à sua presença e têm sido peça importante no acerto de contas, no fim da refeição.
O José Luís Rodrigues junto do Carlos Manata, sendo que este último melhorou muito a sua assiduidade desde que deixou de viajar para a Venezuela...
O Vitor Caseiro tem reduzido a sua actividade como tesoureiro, passando o serviço para os seus ex-ajudantes Carlos Santos e Carlos Oliveira. Também, provavelmente já começava a ser tempo de se reformar... A seu lado o Joaquim Espírito Santo Oliveira, presença já habitual nos nossos convívios.
O Joaquim Mexia Alves nas palavras que costuma dizer no fim de cada almoço, referiu desta vez o nosso camarada Raul Castro.
Com efeito o Raul Castro era o Presidente da Câmara Municipal de Leiria, cargo que deixou para se candidatar nas próximas eleições à Assembleia da República.
Ao longo destes anos o Raul foi presença assídua nos nossos encontros, precisamente por ser um combatente da Guiné e não pelo cargo político que exerceu, embora nesse cargo tenha tido sempre uma atenção e cuidado aos combatentes, participando nas homenagens e diversos monumentos que foram sendo erigidos em honra e memória dos Combatentes do Ultramar.
Referiu o Joaquim que durante um jantar de homenagem ao Raul Castro recentemente  realizado, este mencionou no discurso de agradecimento, como parte da sua vida enquanto desempenhou as funções de Presidente da Câmara, a Tabanca do Centro onde se vinha reunir com os seus camaradas de armas combatentes.
Era portanto de inteira justiça referi-lo e agradecer-lhe essa referência e sobretudo a amizade à Tabanca do Centro e aos combatentes.
São poucos ou quase nenhuns os governantes que se identificam com os combatentes ou os referem no desempenho dos seus cargos, coisa que o Raul Castro sempre fez.
Nas palavras de agradecimento o Raul Castro agradeceu obviamente a pequena homenagem e referiu que aqueles almoços eram importantes para ele, pois só entre os seus camaradas de armas podia (podíamos) falar de tudo aquilo que vivemos e que os outros não conseguem perceber.
Prometeu que fosse qual fosse o cargo que ocupasse depois das eleições, não se esqueceria dos combatentes que fazem parte óbvia da sua vida.
Prometeu ainda que dentro das disponibilidades da sua vida futura, faria todos os esforços para estar nos nossos encontros mensais em Monte Real.



terça-feira, 24 de setembro de 2019

P1166: VELHAS HISTÓRIAS DO JUVENAL AMADO / 1

Resolvemos repescar uma série de histórias produzidas pelo nosso camarigo Juvenal Amado e de há muito enterradas nos arquivos do blogue da Tabanca Grande. 

Pensamos que se justifica trazer à luz do dia textos que hoje muitos desconhecem e que mantém totalmente o seu interesse. 

O autor aceitou a nossa proposta, por isso iniciamos hoje esta série, com a devida vénia à Tabanca Grande, que editou estes textos há muuuito tempo...


Esta história é um pouco a história de todos os que embarcaram naqueles anos cinzentos.
Tão jovens, depressa envelhecemos interiormente.
Juvenal Amado

PELA CALADA DA NOITE

No campo militar de Sta. Margarida, o frio naquele mês de Novembro trespassava-me a ponto de me fardar com botas e tudo, depois deitar-me novamente.
Não foi pois com desgosto que disse adeus a CIME e ao seu comandante, o Coronel Maçanita.

Nunca tive dúvida de que seria mobilizado. Em pensamentos antecipados pensava em Moçambique, onde tinha já prestado serviço militar o meu irmão mais velho.
Talvez Angola, onde até tinha família. Mas…

Fui mandado regressar a Abrantes já sabendo que tinha sido mobilizado, não sabia ainda para onde.

Depressa me tiraram as duvidas… Guiné, esse nome tão temido.

Quando cheguei a casa com dois sacos verdes, a minha mãe olhou-me no cimo das escadas e perguntou-me num fio de voz: “Para onde?”

Senti-me tentado em dizer-lhe que ia para outro sítio qualquer. Não podia esconder-lhe e brinquei com o facto, tentando apagar o pânico que vi nos seus olhos. “Mãe, ainda vou fazer o IAO, depois ainda venho de férias e só depois embarco.”

Tentei fazer passar a ideia de que passaria o Natal e talvez para Fevereiro ou Março eu rumaria às terras da Guiné.

As férias passaram a correr - aliás quanto mais me aproximava da data de regresso a Abrantes, mais desejoso de partir estava. Era incapaz de estar naquele meio termo.


O meu pai e a minha mãe pediram-me que escrevesse sempre. Despedi-me: “Até para a semana, pois decerto venho passar o Natal a casa”, menti eu.


Entrei na Porta de Armas naquela madrugada escura e cinzenta. O vulto da 4 L verde-escuro foi ficando mais longe, mas sempre um braço se agitava num longo adeus.

Dobrei a esquina da caserna, esperei um pouco e voltei a espreitar. Lá estava a 4 L imóvel, talvez à espera que o tempo voltasse atrás e eu entrasse nela, de regresso a casa.

Penso que eles se aperceberam que o embarque já estava marcado e que não voltariam a ver-me tão cedo.

Foram poucos os dias que tivemos até à data do embarque, mas deu para cimentar algumas amizades que ainda duram.

Quando entrei na caserna ouvi chamar com aquela pronúncia do Norte: “Condutor, ó condutor, tens aqui lugar, traz as tuas coisas para a nossa beira.”

Na verdade nós já nos conhecíamos, pois tínhamos vindo do RI 6 do Porto para Abrantes no mesmo combóio, quando todos acabámos as nossas respectivas especialidades. O Ivo, ErmesindeLopes, Silva, Félix, Ferreira, Passos, Dias e o Leo, todos do Pelotão de Reconhecimento e Informação.


Assim fui adoptado pelo Pelotão e só mais tarde vim a conhecer os meus camaradas da ferrugem. Ainda ouvi bocas de que eu tinha desprezado o meu Pelotão. Na verdade, acabei por ir parar a outro abrigo, onde se arrumaram os camaradas das mais variadas especialidades, que não tinham tido lugar nos abrigos dos seus pelotões.

Mas voltando a Abrantes, todas as noites aquele grupo saía, bebíamos uns copos, só voltando para o quartel quando já estavam a fechar a Porta de Armas de vez.

Invariavelmente de manhã só me levantava após a visita de algum graduado e mesmo assim, quando ele virava costas deitava-me outra vez. Assim, passava o capitão, batia na cama com uma varinha e chamava: “Oh Zé das canas, então, não te levantas?”

Estas visitas já faziam parte do nosso dia-a-dia. Foi assim que uma manhã, o oficial de dia entrou com aquela desenvoltura dos Operações Especiais a gritar: “Está a levantar e quem não se levantar rapidamente leva uma porrada, que vai parar à Guiné!”

Chegou ao pé da minha cama e gritou-me: “Ó nosso cabo, dê cá já o seu número!”.
Sonolento e cheio de frio, respondi-lhe que só lho dava se ele o mandasse dourar.

O Alferes Armandino fingiu que não ouviu. Assim ele não tivesse ouvido a ordem que o levou ao encontro da morte mais os seus homens no dia 17 de Abril de 1972 na emboscada do Quirafo (*).


Mandam que nós arrumássemos as nossas coisas e despejássemos a caserna até às 22 horas. Para não haver dúvida, passam revista e fecham a porta à chave. Ali ficamos sentados nos sacos e mais bagagem, até cerca da meia-noite.

As Morris, Berliets e Unimogs começam a faina de nos acartar para Estação dos Caminhos de Ferro, no Rossio ao Sul do Tejo. É tudo feito pela calada da noite.

Metidos em comboio especial, só paramos em Lisboa em Sta. Apolónia ainda é noite. Já lá estão os transportes para nos levar até ao cais de Alcântara. Amanhece, mas é uma luz parda com névoa, que paira sobre o rio Tejo ali ao lado.

Uma cozinha de campanha distribui café com leite e pão para o pequeno almoço.

Angra do Heroísmo já espera por nós. A cidade acorda lentamente, mas mais um embarque, depois de 10 anos a ver partir barcos carregados de jovens, já não causa qualquer interesse nem curiosidade.



Não tinha avisado ninguém da data da partida, mas à última hora deu-me vontade de ter alguém a quem dar um abraço, que dissesse aos meus pais e irmãos que eu tinha embarcado bem. Telefonei ao meu tio Armando, que em 15 minutos já estava ao pé de mim. Veio com ele a minha prima. 

Conversámos, entreguei-lhe uma carta para ele meter nos correios, mas com a condição de não dizer que tinha estado comigo até a mesma chegar ao destino. Quando os meus pais receberam a carta, já estava com dois dias de mar alto...

Vem a ordem para se começar a embarcar por Companhias, olho em volta o nevoeiro que não deixa ver para além de duzentos metros.

Subo para o navio, fico a olhar para o cais onde se dão os últimos abraços, ainda se contêm as lágrimas.

Já estamos todos a bordo. 

O navio solta três vezes o urro das suas sirenes.

Um alarido percorre aquela mancha verde de soldados, já estamos afastados do cais. Um enorme e estrondoso silvo de assobios ecoa pelo cais, olho para esplanada do mesmo e vejo os lenços, a mole humana parece varrida por uma rajada, vão tombando aqui e ali as mães, irmãs e namoradas que tinham até ali resistido ao seu próprio drama.

O nevoeiro vai engolindo Lisboa, ainda se vê ou está gravado nos meus olhos aquela mancha cinzenta do cais com braços acenando.

Quando voltar a esse lugar, será de certo num dia mais feliz, mas nunca apagará da minha memória a enorme tristeza da partida.

Juvenal Amado
ex-1º Cabo Condutor
CCS /BCAÇ 3872

(*) -  Trágica  emboscada no Quirafo, em 17 de Abril de 1972, de que resultaram onze militares mortos e um desaparecido.