sábado, 12 de outubro de 2019
terça-feira, 8 de outubro de 2019
P1170: 78º Encontro da Tabanca do Centro - Monte Real, 25 de Setembro de 2019
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Fotografias do Miguel Pessoa
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sexta-feira, 4 de outubro de 2019
P1169: UMA HISTÓRIA SURREAL...
ALCUNHAS DO TEMPO DA VIDA MILITAR
QUE NÃO ESQUECEM / 5
QUE NÃO ESQUECEM / 5
O “ALCOBAÇA”
| JERO |
Memória de uma
longa conversa com o meu conterrâneo José Peça, um “rapaz” do meu tempo!
Foi no dia 5
de Junho de 1963. Passava pouco do meio-dia. À distância do tempo recorda esse
dia… ao minuto. Era Soldado Condutor (condutor auto rodas) da CCS do Batalhão
400 (BART 400). Pediram nessa altura “voluntários” para ir ajudar uma
coluna do "392", de Baca, que estava a ser atacada quando vinha a
meio caminho em direção a Bessa Monteiro.
O José Peça
ficou no quartel sentindo-se na obrigação de me explicar que “na tropa aprendeu
cedo que não se devia ser voluntário” para nada. Saiu uma coluna comandada pelo
Capitão Moura Borges para "ir dar uma mão" à tropa do
"392", ajuda que tinha sido pedida por rádio.
Por volta das 3 da tarde soube o que tinha
acontecido.
A cerca de 12 kms. de Bessa Monteiro, num local
em que a “picada” estreitava devido a uma “garganta” da montanha a segunda
viatura da coluna da CCS rebentou uma mina anticarro, não tendo conseguido
chegar ao local da emboscada da "392". Tinham-se registado diversos
mortos e feridos.
Lembra-se de os mortos terem chegado “feitos em bocados”. Havia a lamentar 3 mortos da CCS, entre os quais o Capitão
Borges. E também havia mortos em Baca da CART 392. Constava que eram 4.
O “Alcobaça” - como era conhecido e tratado na
sua companhia - ajudou no que lhe foi possível e, ainda assarapantado pela
confusão do momento, lembra-se de passado algum tempo ter sido chamado pelo
Comandante de Batalhão, Tenente-Coronel Alberto Ferreira de Freitas Costa.
“Alcobaça”, vai
jantar e depois levas os mortos a Ambrizete”.
Nesta parte da narrativa o Zé Peça esclarece-me
de algumas dúvidas.
Destino
Ambrizete porquê?
Ambrizete
ficava a 200 kms. mas tinha cemitério e uma Igreja onde se podiam fazer os
funerais. Teria que fazer o percurso onde tinha ocorrido o rebentamento da mina
e passar por Baca para transportar para o mesmo destino os outros mortos.
Entre diversos pormenores macabros em relação aos mortos da CCS o Zé Peça lembra-se ainda do que comeu na altura: “bacalhau com batatas”! Porque se lembra deste pormenor ?
Porque que era um "prato" de que muito
gostava e não tinha conseguido "tocar na comida".
Algum tempo depois apresentou-se com a sua “GMC” junto ao Comando e carregaram-lhe, em maca, os 3 mortos.
Algum tempo depois apresentou-se com a sua “GMC” junto ao Comando e carregaram-lhe, em maca, os 3 mortos.
O Tenente-Coronel entregou-lhe os galões do Capitão Borges e disse-lhe em voz baixa que os voltasse a colocar no corpo do Oficial quando tivesse chegado ao seu destino.
- “E quem vai comigo, meu Comandante?”
- “Ninguém. Vais sozinho pois já chegam os mortos que tivemos. Se houver outra mina só teremos mais uma baixa e não duas.”
O José Peça, que sabia que o Comandante de Batalhão tinha estima por si, sentiu um aperto "mitral" mas nada disse e subiu para a viatura. Pôs o motor a trabalhar e arrancou, seguido por duas viaturas com 2 secções. Lembra-se que uma das secções era comandada pelo Furriel Tavares.
Eram umas seis da tarde. Ainda havia luz de dia mas pouco depois começou a escurecer.
O “Alcobaça” não acendeu os faróis mas ligou os “olhos de gato” da “JMC”. Em marcha lenta, pois nalguns troços da “picada” os homens do Furriel Tavares seguiam apeados, chegaram ao local onde tinha rebentado a mina.
Foi muito difícil ultrapassar o "buracão", dificuldades que pouco depois aumentaram quando encontraram duas árvores abatidas na "zona de morte" da emboscada que a malta do "392" tinha sofrido.
Os “abatises” tiverem que ser serrados e removidos para a berma para a pequena coluna continuar o seu caminho. Foram horas de angústia que se prolongaram pela noite dentro.
Chegaram a Baca por volta das 4 da manhã. Aí o Zé
Peça lembra-se de ter comido alguma coisa. Uma espécie de pequeno almoço. Tinham
sido precisas cerca de 10 horas para percorrer 22 quilómetros!
Foram carregados os mortos da “392”- eram 3 e não 4 - e a coluna “funerária” seguiu a caminho de Ambrizete.
Só, na sua cabine, nem uma vez o Zé Peça olhou para trás, para a sua ”carga”. Sentia um cheiro a morte e um zumbido de moscas… Foram horas e mais horas até Ambrizete. Só, com os seus pensamentos, o Zé Peça olhava para a “picada” atento a qualquer coisa… As sombras da noite foram clareando e quando o amanhecer chegou o seu ânimo melhorou um pouco…
Eram 5 da tarde quando chegou a Ambrizete. Tinham passado cerca de 23 horas desde que tinha saído de Bessa Monteiro! Os corpos começaram a ser descarregados e o “Alcobaça” apressou-se a pôr os galões no cadáver que lhe pareceu ser o do Capitão Borges. Os corpos estavam inchados, cobertos de pó, de moscas e… irreconhecíveis. O Zé Peça teve dúvidas mas… não conseguia olhar mais tempo os mortos.
Perguntei-lhe se os corpos estavam identificados, se tinham as chapas metálicas de identificação que todos os militares traziam ao peito. Em consciência não se lembra… nem sabe responder.
![]() |
| O "Alcobaça" |
Não houve problemas no regresso a Bessa Monteiro. Quando chegou ao aquartelamento pensava que ia encontrar a malta toda em lágrimas. Foi recebido com gritos de satisfação – “Olha o “Alcobaça”!
Num grupo tocava-se acordeão e
dançava-se… Parecia que nada de anormal se tinha passado dois dias antes… O
“Alcobaça” percebeu que a guerra é mesmo assim. Ai dos que partem! Quem fica… come,
bebe, brinca... convencido que a acontecer alguma coisa de mau acontecerá aos
outros.
Fez o relatório verbal ao seu Comandante e não ocultou as dúvidas que teve quando colocou os galões do Capitão… num corpo que poderia não ser o “certo”. O seu Tenente-Coronel não o recriminou e explicou-lhe as razões da tal ordem cruel: «Segues sozinho porque já me chegam os mortos que tivemos.» O Zé Peça compreendeu e seguiu para a sua vida no quartel.
O nosso camarada termina a sua história com a voz
rouca.
Peço-lhe
algumas fotografias do seu tempo de Angola que, com a ajuda da sua mulher,
encontra passado algum tempo.
Passar uma
noite a conduzir… A morte marcou-lhe a vida!
JERO
segunda-feira, 30 de setembro de 2019
P1168: REVISTA "KARAS" DE SETEMBRO
Como habitualmente o Café Central foi palco da concentração do pessoal antes do almoço, desta vez com a esplanada um pouco menos preenchida, dada a afluência mais reduzida... mas animada, como de costume.
À chegada ao local deparámos com dois outsiders desta reunião... O Jaime Brandão - que supomos ter escritório por aquelas bandas, tal a frequência com que ali o encontramos... - e o imprescindível "Kambuta", que mesmo proibido pelo médico de mandar abaixo o cozido, não quis deixar de estar presente na concentração para confraternizar com os camaradas e ainda colaborar na preparação da reportagem fotográfica para a "Karas". Depois foi à vida, que isto de ficar a ver os outros a comer já era masoquismo a mais...
Uma cara nova surgiu pela mão do Agostinho Gaspar. Este seu amigo, Artur Rato, também combatente da Guiné, estava de férias em Portugal vindo dos EUA e teve a oportunidade de estar presente neste nosso convívio.
Antes de partir ainda houve tempo para uma foto do Kambuta com o amigo Almiro Gonçalves.
O "táxi de Aveiro" desta vez só trouxe três dos quatro sócios - o José Luís Malaquias ficou em parte incerta, com jeitinho ainda foi para as vindimas... Na foto os aveirenses presentes, Manuel Reis, Carlos Prata e Carlos Augusto Pinheiro.
Relativamente ao pessoal inscrito houve uma baixa de última hora a reportar - O JERO teve que resolver problemas pessoais inopinados, não podendo estar presente. Depois dum interregno grande, lamentamos não ter podido contar com a sua presença.
Do pessoal de Torres Nova já tínhamos conhecimento da ausência do Lúcio Vieira, ainda convalescendo de problemas de saúde que levaram ao seu internamento. Desejamos-lhe rápidas melhoras. Aqui, o trio remanescente - Manuel Ramos, Alexandre Fanha e Carlos Pinheiro - vendo-se ainda Raul Castro, que conseguiu uma aberta na sua preenchida agenda para confraternizar com os camaradas da Guiné.
O Carlos Santos e o Carlos Oliveira já nos habituaram a trazer consigo dois penduras, o Joaquim Rolo e o Joaquim Sousa. Vemos aqui os quatro, acompanhados pelo Carlos Pinheiro e Raul Castro.
A Giselda aproveitou o tempo razoável para trazer a sua T-Shirt da Tabanca do Centro. Provavelmente para o próximo convívio já terá que trazer uma roupinha mais aconchegada...
No meio de um aperitivo para o almoço ainda há tempo para uma conversa entre o Carlos Augusto Pinheiro e o Carlos Manata.
Raul Castro em conversa com o Vitor Caseiro. Será ainda conversa sobre as autarquias?
Como vai sendo hábito o Carlos Cordeiro surgiu acompanhado pelo José Salgueiro, por ele inscrito.
O Joaquim Espírito Santo Oliveira tem sido razoavelmente assíduo aos nossos encontros, embora não consiga bater o José Luís Rodrigues, que não falha um...
O Carlos Pinheiro e o Régulo da Tabanca Joaquim Mexia Alves põem a conversa em dia.
Os aveirenses (Carlos Augusto Pinheiro, Manuel Reis e Carlos Prata) e torrejanos (Alexandre Fanha, Manuel Ramos e Carlos Pinheiro) partilharam a mesma mesa, ainda com dois "intrusos" à mistura (José Luís Rodrigues e Carlos Manata).
Um casal sempre presente, o Almiro e Amélia Gonçalves. Do outro lado da mesa os amigos do costume, a família Gaspar (Agostinho, Isabel e Miguel), desta vez acompanhada pelo estreante Artur Rato, inscrito pelo Agostinho.
O Carlos Cordeiro e o José Salgueiro tiveram na mesa a companhia do regressado António Sousa, ultimamente apoquentado com problemas de saúde que o afastaram do nosso convívio durante largos meses. Agora, felizmente, a crise parece ter passado e o António Sousa mostrou-se razoavelmente recuperado. Esperamos que continue assim!
Um pormenor dos três de Aveiro presentes. Esperamos que recuperem rapidamente a companhia do José Luís Malaquias, desta vez ausente.
Dois que fazem parte da prata da casa, o Carlos Oliveira e o Carlos Santos, já nos habituaram à sua presença e têm sido peça importante no acerto de contas, no fim da refeição.
O José Luís Rodrigues junto do Carlos Manata, sendo que este último melhorou muito a sua assiduidade desde que deixou de viajar para a Venezuela...
O Vitor Caseiro tem reduzido a sua actividade como tesoureiro, passando o serviço para os seus ex-ajudantes Carlos Santos e Carlos Oliveira. Também, provavelmente já começava a ser tempo de se reformar... A seu lado o Joaquim Espírito Santo Oliveira, presença já habitual nos nossos convívios.
Prometeu ainda que dentro das
disponibilidades da sua vida futura, faria todos os esforços para estar nos
nossos encontros mensais em Monte Real.
A Giselda aproveitou o tempo razoável para trazer a sua T-Shirt da Tabanca do Centro. Provavelmente para o próximo convívio já terá que trazer uma roupinha mais aconchegada...
No meio de um aperitivo para o almoço ainda há tempo para uma conversa entre o Carlos Augusto Pinheiro e o Carlos Manata.
Raul Castro em conversa com o Vitor Caseiro. Será ainda conversa sobre as autarquias?
Como vai sendo hábito o Carlos Cordeiro surgiu acompanhado pelo José Salgueiro, por ele inscrito.
O Joaquim Espírito Santo Oliveira tem sido razoavelmente assíduo aos nossos encontros, embora não consiga bater o José Luís Rodrigues, que não falha um...
O Carlos Pinheiro e o Régulo da Tabanca Joaquim Mexia Alves põem a conversa em dia.
Os aveirenses (Carlos Augusto Pinheiro, Manuel Reis e Carlos Prata) e torrejanos (Alexandre Fanha, Manuel Ramos e Carlos Pinheiro) partilharam a mesma mesa, ainda com dois "intrusos" à mistura (José Luís Rodrigues e Carlos Manata).
Um casal sempre presente, o Almiro e Amélia Gonçalves. Do outro lado da mesa os amigos do costume, a família Gaspar (Agostinho, Isabel e Miguel), desta vez acompanhada pelo estreante Artur Rato, inscrito pelo Agostinho.
O Carlos Cordeiro e o José Salgueiro tiveram na mesa a companhia do regressado António Sousa, ultimamente apoquentado com problemas de saúde que o afastaram do nosso convívio durante largos meses. Agora, felizmente, a crise parece ter passado e o António Sousa mostrou-se razoavelmente recuperado. Esperamos que continue assim!
Um pormenor dos três de Aveiro presentes. Esperamos que recuperem rapidamente a companhia do José Luís Malaquias, desta vez ausente.
Dois que fazem parte da prata da casa, o Carlos Oliveira e o Carlos Santos, já nos habituaram à sua presença e têm sido peça importante no acerto de contas, no fim da refeição.
O José Luís Rodrigues junto do Carlos Manata, sendo que este último melhorou muito a sua assiduidade desde que deixou de viajar para a Venezuela...
O Vitor Caseiro tem reduzido a sua actividade como tesoureiro, passando o serviço para os seus ex-ajudantes Carlos Santos e Carlos Oliveira. Também, provavelmente já começava a ser tempo de se reformar... A seu lado o Joaquim Espírito Santo Oliveira, presença já habitual nos nossos convívios.
O Joaquim Mexia Alves nas
palavras que costuma dizer no fim de cada almoço, referiu desta vez o nosso camarada Raul
Castro.
Com efeito o Raul Castro era o
Presidente da Câmara Municipal de Leiria, cargo que deixou para se candidatar
nas próximas eleições à Assembleia da República.
Ao longo destes anos o Raul
foi presença assídua nos nossos encontros, precisamente por ser um combatente
da Guiné e não pelo cargo político que exerceu, embora nesse cargo tenha tido
sempre uma atenção e cuidado aos combatentes, participando nas homenagens e
diversos monumentos que foram sendo erigidos em honra e memória dos Combatentes
do Ultramar.
Referiu o Joaquim que durante
um jantar de homenagem ao Raul Castro recentemente realizado, este mencionou no discurso de
agradecimento, como parte da sua vida enquanto desempenhou as funções de
Presidente da Câmara, a Tabanca do Centro onde se vinha reunir com os seus
camaradas de armas combatentes.
Era portanto de inteira
justiça referi-lo e agradecer-lhe essa referência e sobretudo a amizade à
Tabanca do Centro e aos combatentes.
São poucos ou quase nenhuns os
governantes que se identificam com os combatentes ou os referem no desempenho
dos seus cargos, coisa que o Raul Castro sempre fez.
Nas palavras de agradecimento
o Raul Castro agradeceu obviamente a pequena homenagem e referiu que aqueles
almoços eram importantes para ele, pois só entre os seus camaradas de armas
podia (podíamos) falar de tudo aquilo que vivemos e que os outros não conseguem
perceber.
Prometeu que fosse qual fosse
o cargo que ocupasse depois das eleições, não se esqueceria dos combatentes que
fazem parte óbvia da sua vida.
quarta-feira, 25 de setembro de 2019
terça-feira, 24 de setembro de 2019
P1166: VELHAS HISTÓRIAS DO JUVENAL AMADO / 1
Resolvemos repescar uma série de histórias produzidas pelo nosso camarigo Juvenal Amado e de há muito enterradas nos arquivos do blogue da Tabanca Grande.
Pensamos que se justifica trazer à luz do dia textos que hoje muitos desconhecem e que mantém totalmente o seu interesse.
O autor aceitou a nossa proposta, por isso iniciamos hoje esta série, com a devida vénia à Tabanca Grande, que editou estes textos há muuuito tempo...
Esta história é um pouco a história de todos os que embarcaram naqueles
anos cinzentos.
Tão jovens, depressa envelhecemos
interiormente.
Juvenal Amado
PELA CALADA DA NOITE
No campo militar de Sta. Margarida, o frio naquele mês de Novembro trespassava-me a ponto de me fardar com botas e tudo, depois deitar-me novamente.
Não foi pois com desgosto que disse adeus a CIME e ao seu comandante, o Coronel Maçanita.
Nunca tive dúvida de que seria mobilizado. Em pensamentos antecipados pensava em Moçambique, onde tinha já prestado serviço militar o meu irmão mais velho.
Talvez Angola, onde até tinha família. Mas…
Depressa me tiraram as duvidas… Guiné, esse nome tão temido.
Quando cheguei a casa com dois sacos verdes, a minha mãe olhou-me no cimo das escadas e perguntou-me num fio de voz: “Para onde?”
Senti-me tentado em dizer-lhe que ia para outro sítio qualquer. Não podia esconder-lhe e brinquei com o facto, tentando apagar o pânico que vi nos seus olhos. “Mãe, ainda vou fazer o IAO, depois ainda venho de férias e só depois embarco.”
Tentei fazer passar a ideia de que passaria o Natal e talvez para Fevereiro ou Março eu rumaria às terras da Guiné.
As férias passaram a correr - aliás quanto mais me aproximava da data de regresso a Abrantes, mais desejoso de partir estava. Era incapaz de estar naquele meio termo.
O meu pai e a minha mãe pediram-me que escrevesse sempre. Despedi-me: “Até para a semana, pois decerto venho passar o Natal a casa”, menti eu.
Entrei na Porta de Armas naquela madrugada escura e cinzenta. O vulto da 4 L verde-escuro foi ficando mais longe, mas sempre um braço se agitava num longo adeus.
Dobrei a esquina da caserna, esperei um pouco e voltei a espreitar. Lá
estava a 4 L imóvel, talvez à espera que o tempo voltasse atrás e eu entrasse
nela, de regresso a casa.
Penso que eles se aperceberam que o embarque já estava marcado e que não voltariam a ver-me tão cedo.
Penso que eles se aperceberam que o embarque já estava marcado e que não voltariam a ver-me tão cedo.
Foram poucos os dias que tivemos até à data do embarque, mas deu para cimentar algumas amizades que ainda duram.
Quando entrei na caserna ouvi chamar com aquela pronúncia do Norte: “Condutor, ó condutor, tens aqui lugar, traz as tuas coisas para a nossa beira.”
Na verdade nós já nos conhecíamos, pois tínhamos vindo do RI 6 do Porto para Abrantes no mesmo combóio, quando todos acabámos as nossas respectivas especialidades. O Ivo, Ermesinde, Lopes, Silva, Félix, Ferreira, Passos, Dias e o Leo, todos do Pelotão de Reconhecimento e Informação.
Assim fui adoptado pelo Pelotão e só mais tarde vim a conhecer os meus camaradas da ferrugem. Ainda ouvi bocas de que eu tinha desprezado o meu Pelotão. Na verdade, acabei por ir parar a outro abrigo, onde se arrumaram os camaradas das mais variadas especialidades, que não tinham tido lugar nos abrigos dos seus pelotões.
Mas voltando a Abrantes, todas as noites aquele grupo saía, bebíamos uns copos, só voltando para o quartel quando já estavam a fechar a Porta de Armas de vez.
Invariavelmente de manhã só me levantava após a visita de algum graduado e mesmo assim, quando ele virava costas deitava-me outra vez. Assim, passava o capitão, batia na cama com uma varinha e chamava: “Oh Zé das canas, então, não te levantas?”
Estas visitas já faziam parte do nosso dia-a-dia. Foi assim que uma manhã, o oficial de dia entrou com aquela desenvoltura dos Operações Especiais a gritar: “Está a levantar e quem não se levantar rapidamente leva uma porrada, que vai parar à Guiné!”
Chegou ao pé da minha cama e gritou-me: “Ó nosso cabo, dê cá já o seu número!”.
Sonolento e cheio de frio, respondi-lhe que só lho dava se ele o mandasse dourar.
O Alferes Armandino fingiu que não ouviu. Assim ele não tivesse ouvido a ordem que o levou ao encontro da morte mais os seus homens no dia 17 de Abril de 1972 na emboscada do Quirafo (*).
Mandam que nós arrumássemos as nossas coisas e despejássemos a caserna até às
22 horas. Para não haver dúvida, passam revista e fecham a porta à chave. Ali ficamos sentados nos sacos e mais bagagem, até cerca da meia-noite.
As Morris, Berliets e Unimogs começam a faina de nos acartar para Estação dos Caminhos de Ferro, no Rossio ao Sul do Tejo. É tudo feito pela calada da noite.
As Morris, Berliets e Unimogs começam a faina de nos acartar para Estação dos Caminhos de Ferro, no Rossio ao Sul do Tejo. É tudo feito pela calada da noite.
Metidos em comboio especial, só paramos em Lisboa em Sta. Apolónia ainda é noite. Já lá estão os transportes para nos levar até ao cais de Alcântara. Amanhece, mas é uma luz parda com névoa, que paira sobre o rio Tejo ali ao lado.
Uma cozinha de campanha distribui café com leite e pão para o pequeno almoço.
O Angra do Heroísmo já espera por nós. A cidade acorda lentamente, mas mais um embarque, depois de 10 anos a ver partir barcos carregados de jovens, já não causa qualquer interesse nem curiosidade.
Não tinha avisado ninguém da data da partida, mas à última hora deu-me
vontade de ter alguém a quem dar um abraço, que dissesse aos meus pais e irmãos
que eu tinha embarcado bem. Telefonei ao meu tio Armando, que em 15 minutos já
estava ao pé de mim. Veio com ele a minha prima.
Conversámos, entreguei-lhe uma
carta para ele meter nos correios, mas com a condição de não dizer que tinha
estado comigo até a mesma chegar ao destino. Quando os meus pais receberam a
carta, já estava com dois dias de mar alto...
Vem a ordem para se começar a embarcar por Companhias, olho em volta o nevoeiro
que não deixa ver para além de duzentos metros.
Subo para o navio, fico a olhar para o cais onde se dão os últimos abraços, ainda se contêm as lágrimas.
Já estamos todos a bordo.
O navio solta três vezes o urro das suas sirenes.
Um alarido percorre aquela mancha verde de soldados, já estamos afastados do
cais. Um enorme e estrondoso silvo de assobios ecoa pelo cais, olho para
esplanada do mesmo e vejo os lenços, a mole humana parece varrida por uma
rajada, vão tombando aqui e ali as mães, irmãs e namoradas que tinham até ali
resistido ao seu próprio drama.
O nevoeiro vai engolindo Lisboa, ainda se vê ou está gravado nos meus olhos aquela mancha cinzenta do cais com braços acenando.
O nevoeiro vai engolindo Lisboa, ainda se vê ou está gravado nos meus olhos aquela mancha cinzenta do cais com braços acenando.
Quando voltar a esse lugar, será de certo num dia mais feliz, mas nunca apagará da minha memória a enorme tristeza da partida.
Juvenal Amado
ex-1º Cabo Condutor
CCS /BCAÇ 3872
(*) - Trágica emboscada no Quirafo, em 17 de Abril de 1972, de que resultaram onze militares mortos e um desaparecido.
sexta-feira, 20 de setembro de 2019
terça-feira, 17 de setembro de 2019
sexta-feira, 13 de setembro de 2019
P1163: COMPANHEIROS DE JORNADA
MASCOTES E ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO E/OU COMPANHIA
OS GATOS…
| Helder Valério Sousa |
Dado que esta recordação
já foi anteriormente publicada no Blogue da “Tabanca Grande”, fará 10 anos,
pareceu-me oportuno fazer uma “revisão” para a encurtar e, se possível,
melhorar.
Como de costume, quando
escrevo algo sobre os tempos vividos na Guiné, é motivado por vários elementos
que vão aparecendo e que depois de os remoer, um pouco, acabam por me fazer
lembrar das situações ou acontecimentos. Veio isto ao caso por, ao longo do
tempo, terem sido publicados “posts” em que se falava de aves, pássaros vários,
morcegos, “ui-uis” e quejandos e da quantidade e variedade de comentários que
suscitou.
A propósito deles
ficámos a saber de “pardais amestrados”, de convívios com morcegos, da
admiração pelos jagudis (quase sempre confundidos com perus pelos periquitos…).
Também já se tinham referido a cães que, por todas as tabancas, quartéis e
aquartelamentos, eram muitas vezes a grande companhia para as solidões.
Até se fez referência a
uma tresloucada acção de ‘matança’ de cães que, algures no mato (longe de
Bissau, portanto) incomodavam quem não deviam… Igualmente sabemos de periquitos
e outras aves que ajudavam a passar o tempo das ‘horas mortas’. Aqui e ali são
também conhecidas as proximidades com aqueles animais que, na generalidade,
referimos como macacos. E por aí fora.
Não me apercebi de
coisas estranhas, mas possíveis, como ter como mascote ou companhia crocodilos,
osgas, iguanas, grilos ou cobras (de várias espécies) mas não posso jurar que
não os houvesse… Agora, o que mais me intriga, é a falta de referências aos
gatos.
É que esses animais,
sempre com o seu estilo particular, lá como cá e noutras partes por onde
existem, estiveram presentes durante as nossas ‘comissões de serviço’.
Eu sei que falar de gatos pode parecer um pouco “abichanado”
mas mesmo assim, se me permitirem, vou referir-me a eles.
E, para começar,
apresento um poema que o nosso camarada Marques Lopes fez publicar na “Tabanca
de Matosinhos”, no início de Agosto passado (2009), em homenagem a um seu amigo
entretanto falecido fazia 6 meses, sendo esse o autor do poema e de seu nome
Fernando Vale.
O GATO
O gato é um felino
Aristocrata
Sempre usou laço
Nunca quis gravata
O gato é um felino
Snob
De trato fino
Até vaidoso
O seu andar?
Suave, silencioso
Independente
Misterioso
Nunca submisso
Mostra unhas
Também os dentes
Se em duelo
Tanto for preciso
Usa bigode
Destemido, soberbo
Sempre snobe
Não conhece o medo
O seu porte
A muitos humanos
Não agrada
Mas este felino
É um nobre
Capaz de ronronar
Ao exigir uma carícia
É snobe
Mantém sempre
A cabeça levantada
É nobre
Até mesmo quando caga
O gato é um felino
Aristocrata
Sempre usou laço
Nunca quis gravata
(Fernando Vale, 28.02.2008)
Ora acontece então que
durante a minha permanência no “Centro de Escuta” os gatos foram a minha
companhia, principalmente durante as longas noites de serviço e disso não
posso, nem quero, esquecer-me.
Disse “durante a noite”
porque tanto a “Morcona” como o “Kiki” só nesse período se deixavam ver. Não
sei porquê, nunca me disseram nem consegui descobrir. Durante o dia
desapareciam completamente das vistas e só depois do sol-posto apareciam. Houve
também um outro, o “Caçador”, que era completamente diferente.
![]() |
| Eu e o "Caçador" |
Esse dava-se a ver
durante o dia e deixava-se agarrar. Chamei-lhe assim porque era um caçador
nato, apanhava tudo o que podia, ratos, sapos, lagartos ‘paga-dez’, até cobras
e víboras e depois muito vaidoso carregava as presas e vinha oferecer-me, numa
espécie de deferência.
Tudo começou pela
“Morcona” que era a gata-mãe dos outros dois, em ninhadas diferentes. Quando
cheguei á “Escuta” essa gata estava no forro da casa, tendo entrado para lá por
essa ocasião por um buraquito, mas pelo qual já não podia sair.
Pensámos em deixá-la por
lá, mas sempre havia o perigo de alguma incomodidade pelo cheiro e não só, e
eu, aos poucos, fui tentando cativar a sua confiança, através da comida que lhe
levava pelo alçapão de acesso existente na “Escuta”, o que acabei por
conseguir. Traindo a sua confiança conquistada com tanto trabalho, consegui
agarrá-la e fazê-la passar por esse alçapão, recuperando igualmente três
pequenos gatitos.
![]() |
| A pose serena da "Morcona" |
Inicialmente ficou
‘louca da vida’ mas acabou por não rejeitar as crias, as quais foram
acondicionadas no que seria a chaminé da casa onde vivia que era contígua ao
“Centro de Escuta”, de modo bem disfarçado e que lhe deu bastante privacidade.
Esta ninhada esteve na
origem de um episódio bem caricato passado com o meu camarada Nélson Batalha (entretanto
já falecido e que na época compartilhava o quarto comigo), e que foi o
seguinte:
Por esses tempos era
hábito, aos sábados, o Sr. Comandante do que viria a ser o Agrupamento de
Transmissões, Tenente-Coronel Ramos, passar revista às instalações,
incluindo-se aqui os alojamentos dos Sargentos, que muito se incomodavam com
esse aparente atestado de menoridade (o Sr. Comandante ia ver se os quartos
estavam bem arrumados e limpos…).
Nesse sábado o Nélson
saiu de serviço às 7 da manhã e foi dormir para o quarto, preocupado com a
existência da ninhada de gatos e com o que sairia da ‘vistoria’ rotineira.
Como fui eu que o
substitui no serviço, estava na “Escuta” quando o Sr. Comandante e comitiva
passaram por lá e procurando-me antecipar à continuação da visita à casa ao
lado, onde era o nosso quarto e também a improvisada ‘maternidade’, fui lá ver
se estava tudo bem camuflado (e estava!) e quis avisar o Nélson da iminente
presença das chefias, só que a sua preocupação fez com que ele, estremunhado,
gritasse bem alto:
- “Eh pá, tira-me daí
esses cabrões!” - (é claro que ele se referia aos gatos, que achava serem
da minha responsabilidade…)
Só que não houve tempo
de intervalo suficiente entre o meu aviso e a presença dos ‘superiores’ que,
como devem calcular, não tendo conhecimento da existência dos gatos (nem os
viram, tal a camuflagem), ‘não tiveram dúvidas’ a quem aquele impropério se
dirigia!
Como o Nélson estava nas
‘boas graças’ do Sr. Comandante por ter sido ferido e evacuado de Catió, em
resultado de ferimentos ocorridos num ataque àquele aquartelamento e era um
‘bom cartaz’ demonstrando assim que o pessoal do STM também corria riscos, a
coisa passou ‘à pala’ de o Nélson ainda estar um bocado ‘apanhado’ e com
sobressaltos resultantes dos ferimentos…
![]() |
| O "Caçador", sempre atento |
Pelas fotos que junto podem ver o porte altivo da “Morcona” e as expressões argutas do “Caçador”. Do
“Kiki” não encontrei qualquer foto.
Peço desculpa por vos
tomar tempo com estas coisas menores mas acho que também devem fazer parte do
‘levantamento’ que fazemos das nossas memórias, e a questão dos animais de
companhia ou mascotes não são despiciendas, pois muitas vezes serviram para nos
fazer sentir que ainda éramos humanos.
No
meu caso, e tratando-se de gatos, não posso dizer que eram as minhas mascotes
ou animais de companhia, já que foi muito mais eles a escolherem-me do que eu a
eles. Volto a utilizar (com a devida vénia) as palavras do Marques Lopes que
cita Manuel António Pina em artigo do “Jornal de Notícias”, de que “nunca viu
um gato a fazer habilidades num circo...”, para ilustrar bem o que se entende
da ‘personalidade’ felina.
Hélder Sousa (Fur.
Mil Trms TSF)
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