terça-feira, 24 de setembro de 2019

P1166: VELHAS HISTÓRIAS DO JUVENAL AMADO / 1

Resolvemos repescar uma série de histórias produzidas pelo nosso camarigo Juvenal Amado e de há muito enterradas nos arquivos do blogue da Tabanca Grande. 

Pensamos que se justifica trazer à luz do dia textos que hoje muitos desconhecem e que mantém totalmente o seu interesse. 

O autor aceitou a nossa proposta, por isso iniciamos hoje esta série, com a devida vénia à Tabanca Grande, que editou estes textos há muuuito tempo...


Esta história é um pouco a história de todos os que embarcaram naqueles anos cinzentos.
Tão jovens, depressa envelhecemos interiormente.
Juvenal Amado

PELA CALADA DA NOITE

No campo militar de Sta. Margarida, o frio naquele mês de Novembro trespassava-me a ponto de me fardar com botas e tudo, depois deitar-me novamente.
Não foi pois com desgosto que disse adeus a CIME e ao seu comandante, o Coronel Maçanita.

Nunca tive dúvida de que seria mobilizado. Em pensamentos antecipados pensava em Moçambique, onde tinha já prestado serviço militar o meu irmão mais velho.
Talvez Angola, onde até tinha família. Mas…

Fui mandado regressar a Abrantes já sabendo que tinha sido mobilizado, não sabia ainda para onde.

Depressa me tiraram as duvidas… Guiné, esse nome tão temido.

Quando cheguei a casa com dois sacos verdes, a minha mãe olhou-me no cimo das escadas e perguntou-me num fio de voz: “Para onde?”

Senti-me tentado em dizer-lhe que ia para outro sítio qualquer. Não podia esconder-lhe e brinquei com o facto, tentando apagar o pânico que vi nos seus olhos. “Mãe, ainda vou fazer o IAO, depois ainda venho de férias e só depois embarco.”

Tentei fazer passar a ideia de que passaria o Natal e talvez para Fevereiro ou Março eu rumaria às terras da Guiné.

As férias passaram a correr - aliás quanto mais me aproximava da data de regresso a Abrantes, mais desejoso de partir estava. Era incapaz de estar naquele meio termo.


O meu pai e a minha mãe pediram-me que escrevesse sempre. Despedi-me: “Até para a semana, pois decerto venho passar o Natal a casa”, menti eu.


Entrei na Porta de Armas naquela madrugada escura e cinzenta. O vulto da 4 L verde-escuro foi ficando mais longe, mas sempre um braço se agitava num longo adeus.

Dobrei a esquina da caserna, esperei um pouco e voltei a espreitar. Lá estava a 4 L imóvel, talvez à espera que o tempo voltasse atrás e eu entrasse nela, de regresso a casa.

Penso que eles se aperceberam que o embarque já estava marcado e que não voltariam a ver-me tão cedo.

Foram poucos os dias que tivemos até à data do embarque, mas deu para cimentar algumas amizades que ainda duram.

Quando entrei na caserna ouvi chamar com aquela pronúncia do Norte: “Condutor, ó condutor, tens aqui lugar, traz as tuas coisas para a nossa beira.”

Na verdade nós já nos conhecíamos, pois tínhamos vindo do RI 6 do Porto para Abrantes no mesmo combóio, quando todos acabámos as nossas respectivas especialidades. O Ivo, ErmesindeLopes, Silva, Félix, Ferreira, Passos, Dias e o Leo, todos do Pelotão de Reconhecimento e Informação.


Assim fui adoptado pelo Pelotão e só mais tarde vim a conhecer os meus camaradas da ferrugem. Ainda ouvi bocas de que eu tinha desprezado o meu Pelotão. Na verdade, acabei por ir parar a outro abrigo, onde se arrumaram os camaradas das mais variadas especialidades, que não tinham tido lugar nos abrigos dos seus pelotões.

Mas voltando a Abrantes, todas as noites aquele grupo saía, bebíamos uns copos, só voltando para o quartel quando já estavam a fechar a Porta de Armas de vez.

Invariavelmente de manhã só me levantava após a visita de algum graduado e mesmo assim, quando ele virava costas deitava-me outra vez. Assim, passava o capitão, batia na cama com uma varinha e chamava: “Oh Zé das canas, então, não te levantas?”

Estas visitas já faziam parte do nosso dia-a-dia. Foi assim que uma manhã, o oficial de dia entrou com aquela desenvoltura dos Operações Especiais a gritar: “Está a levantar e quem não se levantar rapidamente leva uma porrada, que vai parar à Guiné!”

Chegou ao pé da minha cama e gritou-me: “Ó nosso cabo, dê cá já o seu número!”.
Sonolento e cheio de frio, respondi-lhe que só lho dava se ele o mandasse dourar.

O Alferes Armandino fingiu que não ouviu. Assim ele não tivesse ouvido a ordem que o levou ao encontro da morte mais os seus homens no dia 17 de Abril de 1972 na emboscada do Quirafo (*).


Mandam que nós arrumássemos as nossas coisas e despejássemos a caserna até às 22 horas. Para não haver dúvida, passam revista e fecham a porta à chave. Ali ficamos sentados nos sacos e mais bagagem, até cerca da meia-noite.

As Morris, Berliets e Unimogs começam a faina de nos acartar para Estação dos Caminhos de Ferro, no Rossio ao Sul do Tejo. É tudo feito pela calada da noite.

Metidos em comboio especial, só paramos em Lisboa em Sta. Apolónia ainda é noite. Já lá estão os transportes para nos levar até ao cais de Alcântara. Amanhece, mas é uma luz parda com névoa, que paira sobre o rio Tejo ali ao lado.

Uma cozinha de campanha distribui café com leite e pão para o pequeno almoço.

Angra do Heroísmo já espera por nós. A cidade acorda lentamente, mas mais um embarque, depois de 10 anos a ver partir barcos carregados de jovens, já não causa qualquer interesse nem curiosidade.



Não tinha avisado ninguém da data da partida, mas à última hora deu-me vontade de ter alguém a quem dar um abraço, que dissesse aos meus pais e irmãos que eu tinha embarcado bem. Telefonei ao meu tio Armando, que em 15 minutos já estava ao pé de mim. Veio com ele a minha prima. 

Conversámos, entreguei-lhe uma carta para ele meter nos correios, mas com a condição de não dizer que tinha estado comigo até a mesma chegar ao destino. Quando os meus pais receberam a carta, já estava com dois dias de mar alto...

Vem a ordem para se começar a embarcar por Companhias, olho em volta o nevoeiro que não deixa ver para além de duzentos metros.

Subo para o navio, fico a olhar para o cais onde se dão os últimos abraços, ainda se contêm as lágrimas.

Já estamos todos a bordo. 

O navio solta três vezes o urro das suas sirenes.

Um alarido percorre aquela mancha verde de soldados, já estamos afastados do cais. Um enorme e estrondoso silvo de assobios ecoa pelo cais, olho para esplanada do mesmo e vejo os lenços, a mole humana parece varrida por uma rajada, vão tombando aqui e ali as mães, irmãs e namoradas que tinham até ali resistido ao seu próprio drama.

O nevoeiro vai engolindo Lisboa, ainda se vê ou está gravado nos meus olhos aquela mancha cinzenta do cais com braços acenando.

Quando voltar a esse lugar, será de certo num dia mais feliz, mas nunca apagará da minha memória a enorme tristeza da partida.

Juvenal Amado
ex-1º Cabo Condutor
CCS /BCAÇ 3872

(*) -  Trágica  emboscada no Quirafo, em 17 de Abril de 1972, de que resultaram onze militares mortos e um desaparecido.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

P1163: COMPANHEIROS DE JORNADA


MASCOTES E ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO E/OU COMPANHIA
OS GATOS…

Helder Valério Sousa
Dado que esta recordação já foi anteriormente publicada no Blogue da “Tabanca Grande”, fará 10 anos, pareceu-me oportuno fazer uma “revisão” para a encurtar e, se possível, melhorar.

Como de costume, quando escrevo algo sobre os tempos vividos na Guiné, é motivado por vários elementos que vão aparecendo e que depois de os remoer, um pouco, acabam por me fazer lembrar das situações ou acontecimentos. Veio isto ao caso por, ao longo do tempo, terem sido publicados “posts” em que se falava de aves, pássaros vários, morcegos, “ui-uis” e quejandos e da quantidade e variedade de comentários que suscitou.

A propósito deles ficámos a saber de “pardais amestrados”, de convívios com morcegos, da admiração pelos jagudis (quase sempre confundidos com perus pelos periquitos…). Também já se tinham referido a cães que, por todas as tabancas, quartéis e aquartelamentos, eram muitas vezes a grande companhia para as solidões.

Até se fez referência a uma tresloucada acção de ‘matança’ de cães que, algures no mato (longe de Bissau, portanto) incomodavam quem não deviam… Igualmente sabemos de periquitos e outras aves que ajudavam a passar o tempo das ‘horas mortas’. Aqui e ali são também conhecidas as proximidades com aqueles animais que, na generalidade, referimos como macacos. E por aí fora.

Não me apercebi de coisas estranhas, mas possíveis, como ter como mascote ou companhia crocodilos, osgas, iguanas, grilos ou cobras (de várias espécies) mas não posso jurar que não os houvesse… Agora, o que mais me intriga, é a falta de referências aos gatos.

É que esses animais, sempre com o seu estilo particular, lá como cá e noutras partes por onde existem, estiveram presentes durante as nossas ‘comissões de serviço’.

Eu sei que falar de gatos pode parecer um pouco “abichanado” mas mesmo assim, se me permitirem, vou referir-me a eles.

E, para começar, apresento um poema que o nosso camarada Marques Lopes fez publicar na “Tabanca de Matosinhos”, no início de Agosto passado (2009), em homenagem a um seu amigo entretanto falecido fazia 6 meses, sendo esse o autor do poema e de seu nome Fernando Vale.

   O GATO

O gato é um felino
Aristocrata
Sempre usou laço
Nunca quis gravata

O gato é um felino
Snob
De trato fino
Até vaidoso

O seu andar?
Suave, silencioso
Independente
Misterioso

Nunca submisso
Mostra unhas
Também os dentes
Se em duelo
Tanto for preciso

Usa bigode
Destemido, soberbo
Sempre snobe
Não conhece o medo

O seu porte
A muitos humanos
Não agrada
Mas este felino
É um nobre
Capaz de ronronar
Ao exigir uma carícia
É snobe
Mantém sempre
A cabeça levantada
É nobre
Até mesmo quando caga

O gato é um felino
Aristocrata
Sempre usou laço
Nunca quis gravata

(Fernando Vale, 28.02.2008)

Ora acontece então que durante a minha permanência no “Centro de Escuta” os gatos foram a minha companhia, principalmente durante as longas noites de serviço e disso não posso, nem quero, esquecer-me.

Disse “durante a noite” porque tanto a “Morcona” como o “Kiki” só nesse período se deixavam ver. Não sei porquê, nunca me disseram nem consegui descobrir. Durante o dia desapareciam completamente das vistas e só depois do sol-posto apareciam. Houve também um outro, o “Caçador”, que era completamente diferente.

Eu e o "Caçador"
Esse dava-se a ver durante o dia e deixava-se agarrar. Chamei-lhe assim porque era um caçador nato, apanhava tudo o que podia, ratos, sapos, lagartos ‘paga-dez’, até cobras e víboras e depois muito vaidoso carregava as presas e vinha oferecer-me, numa espécie de deferência.

Tudo começou pela “Morcona” que era a gata-mãe dos outros dois, em ninhadas diferentes. Quando cheguei á “Escuta” essa gata estava no forro da casa, tendo entrado para lá por essa ocasião por um buraquito, mas pelo qual já não podia sair.

Pensámos em deixá-la por lá, mas sempre havia o perigo de alguma incomodidade pelo cheiro e não só, e eu, aos poucos, fui tentando cativar a sua confiança, através da comida que lhe levava pelo alçapão de acesso existente na “Escuta”, o que acabei por conseguir. Traindo a sua confiança conquistada com tanto trabalho, consegui agarrá-la e fazê-la passar por esse alçapão, recuperando igualmente três pequenos gatitos.

A pose serena da "Morcona"
Inicialmente ficou ‘louca da vida’ mas acabou por não rejeitar as crias, as quais foram acondicionadas no que seria a chaminé da casa onde vivia que era contígua ao “Centro de Escuta”, de modo bem disfarçado e que lhe deu bastante privacidade.

Esta ninhada esteve na origem de um episódio bem caricato passado com o meu camarada Nélson Batalha (entretanto já falecido e que na época compartilhava o quarto comigo), e que foi o seguinte:

Por esses tempos era hábito, aos sábados, o Sr. Comandante do que viria a ser o Agrupamento de Transmissões, Tenente-Coronel Ramos, passar revista às instalações, incluindo-se aqui os alojamentos dos Sargentos, que muito se incomodavam com esse aparente atestado de menoridade (o Sr. Comandante ia ver se os quartos estavam bem arrumados e limpos…).

Nesse sábado o Nélson saiu de serviço às 7 da manhã e foi dormir para o quarto, preocupado com a existência da ninhada de gatos e com o que sairia da ‘vistoria’ rotineira.

Como fui eu que o substitui no serviço, estava na “Escuta” quando o Sr. Comandante e comitiva passaram por lá e procurando-me antecipar à continuação da visita à casa ao lado, onde era o nosso quarto e também a improvisada ‘maternidade’, fui lá ver se estava tudo bem camuflado (e estava!) e quis avisar o Nélson da iminente presença das chefias, só que a sua preocupação fez com que ele, estremunhado, gritasse bem alto:

- “Eh pá, tira-me daí esses cabrões!” - (é claro que ele se referia aos gatos, que achava serem da minha responsabilidade…)

Só que não houve tempo de intervalo suficiente entre o meu aviso e a presença dos ‘superiores’ que, como devem calcular, não tendo conhecimento da existência dos gatos (nem os viram, tal a camuflagem), ‘não tiveram dúvidas’ a quem aquele impropério se dirigia!

Como o Nélson estava nas ‘boas graças’ do Sr. Comandante por ter sido ferido e evacuado de Catió, em resultado de ferimentos ocorridos num ataque àquele aquartelamento e era um ‘bom cartaz’ demonstrando assim que o pessoal do STM também corria riscos, a coisa passou ‘à pala’ de o Nélson ainda estar um bocado ‘apanhado’ e com sobressaltos resultantes dos ferimentos…

O "Caçador", sempre atento
Pelas fotos que junto podem ver o porte altivo da “Morcona” e as expressões argutas do “Caçador”. Do “Kiki” não encontrei qualquer foto.

Peço desculpa por vos tomar tempo com estas coisas menores mas acho que também devem fazer parte do ‘levantamento’ que fazemos das nossas memórias, e a questão dos animais de companhia ou mascotes não são despiciendas, pois muitas vezes serviram para nos fazer sentir que ainda éramos humanos. 

No meu caso, e tratando-se de gatos, não posso dizer que eram as minhas mascotes ou animais de companhia, já que foi muito mais eles a escolherem-me do que eu a eles. Volto a utilizar (com a devida vénia) as palavras do Marques Lopes que cita Manuel António Pina em artigo do “Jornal de Notícias”, de que “nunca viu um gato a fazer habilidades num circo...”, para ilustrar bem o que se entende da ‘personalidade’ felina.

Hélder Sousa (Fur. Mil Trms TSF)
Fotos: © Hélder Sousa (2009). Direitos reservados.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

P1161: "FORÇA, CARLOS!"


ALCUNHAS DO TEMPO DA VIDA MILITAR 
QUE NÃO ESQUECEM / 4

O “MASSA BRUTA”

JERO
Como é normal na vida militar procurei nos primeiros tempos depois do regresso da Guiné, “filhos da terra”…

De Alcobaça não havia ninguém mas havia um “vizinho” a cerca de 20 kms. O Carlos Agostinho Vieira, da Batalha, que tinha sido “ Cabo Quarteleiro”.

As suas funções tinham a ver com o stock de munições, com o bom funcionamento das armas (conservadas com “massa consistente) e, eventualmente, com mais algumas coisas de que já não me lembro.

O Carlos Vieira era um indivíduo muito alto, pouco falador, que caminhava um tanto curvado e com quem não era fácil manter uma relação cordial. Era “fechado” e vivia fechado no “buraco” onde se guardavam as armas e munições da Companhia.

Cada um é como cada qual e o Carlos desempenhava as suas funções a contento. Era um bom Cabo Quarteleiro, que só dava nas vistas por ser um grande calmeirão. E caminhar curvado. E ser calado “como o caraças”…

Até que um dia, melhor dizendo numa noite, deu nas vistas. E não foi pela melhor das razões…

Numa operação que envolvia dois pelotões que saíam do quartel de Binta por volta da meia-noite, no máximo silêncio e com ocultação de luzes, apareceu na altura da saída para o mato com um “petromax” aceso para perguntar ao Capitão Tomé Pinto se era preciso mais alguma coisa.

Foi de imediato repreendido e mandado desaparecer, e quando começou a responder que ”tinha pensado”… o comandante de Companhia disse-lhe logo que ele não estava ali para pensar mas… para cumprir ordens.

A malta da tropa é cruel e a partir daquela madrugada passou a ser conhecido como o “Massa Bruta”. Está-se mesmo a ver porquê…

Também é verdade que, à distância no tempo, me parece que o Carlos Vieira não se importava por aí além com a alcunha “sacana” que lhe calhou…

Regressámos da Guiné em Maio de 1966 e estive alguns anos sem o ver.

Melhor dizendo, em vinte e muitos anos encontrei-o 3 ou 4 vezes nas reuniões anuais da malta da Companhia, que fazíamos todos os anos no primeiro domingo de Maio, em Lisboa, com concentração frente à Estátua dos Restauradores.

Fixei-me na zona de Alcobaça onde exerci a minha actividade profissional na SPAL durante trinta e muitos anos.

Depois de casar não houve mais tempo para corridas e o trabalho, a vida sedentária e os dotes da minha mulher para a cozinha levaram-me num curto espaço de tempo a um “ganhar um peso”, que esteve a 3 quilos dos 3 dígitos.

Com pequenas oscilações mantive-me com 97 kgs, por alguns anos, mas por volta dos 35 anos voltei ao desporto por duas razões: para emagrecer e… para não passar o resto da vida a comer cozidos e grelhados.

Dos 35 até cerca dos 50 anos fui praticante diário de “jogging”, também conhecido entre os “malucos das corridas” como “alta manutenção”.

Foram os tempos das meias maratonas da Nazaré. Corri umas dez - nunca desisti - e fiquei sempre entre os primeiros 3 mil concorrentes…

Fazia os 21 quilómetros do percurso entre 1H45 e 2H00, obviamente com muito sacrifício, pois correr durante 21.097 metros “não é pera doce”…

A última meia-maratona que corri foi “tão comprida” que, depois dos 17 kms, não me lembrava de nada. Corri essa parte final do percurso em “autêntico transe”…

Mais tarde falei nisso ao meu médico que me disse para ter juízo: «Faça caminhadas e deixe-se de corridas».  Foi o veredicto que terminou com a minha carreira de meio-maratonista…

Chegou a altura de passar a espectador e há uns dez anos atrás fui (involuntário) protagonista de um facto invulgar, que resolvo agora partilhar .

No entanto há ainda que esclarecer os que nunca andaram por este “mundo” das “meias-maratonas” que há corredores e… “corredores”.

 Os que lutam para os primeiros lugares correm cada Km. em cerca de 3 minutos e os outros – os corredores do pelotão – percorrem cada km. em 5 ou 6 minutos.

Quer isto dizer que com meia hora de corrida há corredores que vão nos 10 kms de percurso e outros – como era o meu caso – que apenas tinham percorrido cerca de 5 kms.

Está claro que, à medida que aumentam os quilómetros, aumentam as distâncias entre os mais rápidos e os outros – os lentos ou, também conhecidos na gíria das corridas, como “os coxos”.

Na Meia-Maratona da Nazaré – que foi a corrida onde se registou o tal “facto invulgar” ,que irei descrever em pormenor - era normal os atletas da frente cruzarem-se com os mais atrasados, dado que o percurso da prova era de ida e volta.

Explicando melhor, a partida fazia-se da Nazaré (então com uma volta dentro da vila de cerca de 5 kms) para se ir até Famalicão (onde estava um bidão que assinalava o “retorno”) e voltava-se em direção à Nazaré, onde estava instalada a meta.

Um dos melhores lugares para apreciar a corrida e o esforço dos corredores era (e é) na Quinta Nova. Nesse local os da frente passavam (e passam) com cerca de 16,5 kms percorridos e cruzavam (cruzam) com a rapaziada da cauda do pelotão que levava (e leva) então cerca de 9,5 kms de prova ainda a caminho do bidão (de Famalicão).

Nesse ano de 1994 ou 1995 “plantei-me” no cruzamento da Quinta Nova para ver a corrida e para incitar especialmente o Carlos Pereira (que trabalhava comigo na SPAL). É que nesse ano o Carlos Pereira corria para ficar entre os 10 primeiros, pois “valia” então uma hora e sete minutos na distância.

Avistei o grupo da frente – que englobava uns 10 ou 12 corredores – e lá vinha ele.
Tentei ganhar maior visibilidade no local onde me encontrava, levantei os braços e gritei: - “Força, Carlos! Força, Carlos!”

Julgo que nem me viu nem me ouviu. O esforço é grande e a concentração de quem corre àquele ritmo é enorme.

Mas na altura dos meus gritos de incitamento ouvi uma voz do outro lado da estrada a gritar para mim: - “Eh, Oliveira!”

Olhei de imediato e reconheci a voz e a pessoa. Era o Carlos Vieira, da Guiné. O “Massa Bruta”...

O meu de grito de “Força, Carlos!”, tinha encontrado eco (noutro Carlos), que corria no outro lado da estrada, no pelotão dos “coxos”, ainda a caminho do bidão de retorno de Famalicão.


Fiquei de boca aberta e tão surpreendido como ele. Ou ainda mais... Vim depois a caminho da meta. Para cumprimentar o Carlos Pereira (o colega da SPAL), que já tinha chegado e obtido a sua melhor classificação de sempre: - o 3º lugar da classificação geral (com 1h06m59s).

Esperei mais um bom bocado mas não consegui localizar o Carlos Vieira, da Batalha, o meu camarada dos tempos da Guiné. São 3.000 atletas na zona de chegada e muita confusão à mistura...

Voltei para casa. Não podia deixar de pensar naquela coincidência levada da breca. Três mil indivíduos a correr, sei lá com quantos “Carlos” lá pelo meio e tinha acontecido aquele coincidência extraordinária numa fração de segundo.

Gritar por um “Carlos”, que via todos os dias e que nem para mim olhou, e responder-me outro “Carlos”, que já não via há uma série de anos. Qual o cálculo de probabilidades de isto acontecer!? Não faço a mínima ideia.

Continuo a pensar que este incitamento para “forças” desencontradas acontecerá uma vez na vida. Mas que aconteceu… aconteceu!

E a fotografia não é montagem. Foi tirada por mim umas frações de segundo depois do meu grito de incitamento.

Tempos depois encontrei o meu camarada da Guerra da Guiné. A quem contei a história.

E o Carlos da SPAL que me desculpe mas o meu grito de incitamento - o “Força, Carlos!”- passou a ser mesmo só para o meu ex-camarada da Guiné.
JERO