sexta-feira, 13 de setembro de 2019

P1163: COMPANHEIROS DE JORNADA


MASCOTES E ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO E/OU COMPANHIA
OS GATOS…

Helder Valério Sousa
Dado que esta recordação já foi anteriormente publicada no Blogue da “Tabanca Grande”, fará 10 anos, pareceu-me oportuno fazer uma “revisão” para a encurtar e, se possível, melhorar.

Como de costume, quando escrevo algo sobre os tempos vividos na Guiné, é motivado por vários elementos que vão aparecendo e que depois de os remoer, um pouco, acabam por me fazer lembrar das situações ou acontecimentos. Veio isto ao caso por, ao longo do tempo, terem sido publicados “posts” em que se falava de aves, pássaros vários, morcegos, “ui-uis” e quejandos e da quantidade e variedade de comentários que suscitou.

A propósito deles ficámos a saber de “pardais amestrados”, de convívios com morcegos, da admiração pelos jagudis (quase sempre confundidos com perus pelos periquitos…). Também já se tinham referido a cães que, por todas as tabancas, quartéis e aquartelamentos, eram muitas vezes a grande companhia para as solidões.

Até se fez referência a uma tresloucada acção de ‘matança’ de cães que, algures no mato (longe de Bissau, portanto) incomodavam quem não deviam… Igualmente sabemos de periquitos e outras aves que ajudavam a passar o tempo das ‘horas mortas’. Aqui e ali são também conhecidas as proximidades com aqueles animais que, na generalidade, referimos como macacos. E por aí fora.

Não me apercebi de coisas estranhas, mas possíveis, como ter como mascote ou companhia crocodilos, osgas, iguanas, grilos ou cobras (de várias espécies) mas não posso jurar que não os houvesse… Agora, o que mais me intriga, é a falta de referências aos gatos.

É que esses animais, sempre com o seu estilo particular, lá como cá e noutras partes por onde existem, estiveram presentes durante as nossas ‘comissões de serviço’.

Eu sei que falar de gatos pode parecer um pouco “abichanado” mas mesmo assim, se me permitirem, vou referir-me a eles.

E, para começar, apresento um poema que o nosso camarada Marques Lopes fez publicar na “Tabanca de Matosinhos”, no início de Agosto passado (2009), em homenagem a um seu amigo entretanto falecido fazia 6 meses, sendo esse o autor do poema e de seu nome Fernando Vale.

   O GATO

O gato é um felino
Aristocrata
Sempre usou laço
Nunca quis gravata

O gato é um felino
Snob
De trato fino
Até vaidoso

O seu andar?
Suave, silencioso
Independente
Misterioso

Nunca submisso
Mostra unhas
Também os dentes
Se em duelo
Tanto for preciso

Usa bigode
Destemido, soberbo
Sempre snobe
Não conhece o medo

O seu porte
A muitos humanos
Não agrada
Mas este felino
É um nobre
Capaz de ronronar
Ao exigir uma carícia
É snobe
Mantém sempre
A cabeça levantada
É nobre
Até mesmo quando caga

O gato é um felino
Aristocrata
Sempre usou laço
Nunca quis gravata

(Fernando Vale, 28.02.2008)

Ora acontece então que durante a minha permanência no “Centro de Escuta” os gatos foram a minha companhia, principalmente durante as longas noites de serviço e disso não posso, nem quero, esquecer-me.

Disse “durante a noite” porque tanto a “Morcona” como o “Kiki” só nesse período se deixavam ver. Não sei porquê, nunca me disseram nem consegui descobrir. Durante o dia desapareciam completamente das vistas e só depois do sol-posto apareciam. Houve também um outro, o “Caçador”, que era completamente diferente.

Eu e o "Caçador"
Esse dava-se a ver durante o dia e deixava-se agarrar. Chamei-lhe assim porque era um caçador nato, apanhava tudo o que podia, ratos, sapos, lagartos ‘paga-dez’, até cobras e víboras e depois muito vaidoso carregava as presas e vinha oferecer-me, numa espécie de deferência.

Tudo começou pela “Morcona” que era a gata-mãe dos outros dois, em ninhadas diferentes. Quando cheguei á “Escuta” essa gata estava no forro da casa, tendo entrado para lá por essa ocasião por um buraquito, mas pelo qual já não podia sair.

Pensámos em deixá-la por lá, mas sempre havia o perigo de alguma incomodidade pelo cheiro e não só, e eu, aos poucos, fui tentando cativar a sua confiança, através da comida que lhe levava pelo alçapão de acesso existente na “Escuta”, o que acabei por conseguir. Traindo a sua confiança conquistada com tanto trabalho, consegui agarrá-la e fazê-la passar por esse alçapão, recuperando igualmente três pequenos gatitos.

A pose serena da "Morcona"
Inicialmente ficou ‘louca da vida’ mas acabou por não rejeitar as crias, as quais foram acondicionadas no que seria a chaminé da casa onde vivia que era contígua ao “Centro de Escuta”, de modo bem disfarçado e que lhe deu bastante privacidade.

Esta ninhada esteve na origem de um episódio bem caricato passado com o meu camarada Nélson Batalha (entretanto já falecido e que na época compartilhava o quarto comigo), e que foi o seguinte:

Por esses tempos era hábito, aos sábados, o Sr. Comandante do que viria a ser o Agrupamento de Transmissões, Tenente-Coronel Ramos, passar revista às instalações, incluindo-se aqui os alojamentos dos Sargentos, que muito se incomodavam com esse aparente atestado de menoridade (o Sr. Comandante ia ver se os quartos estavam bem arrumados e limpos…).

Nesse sábado o Nélson saiu de serviço às 7 da manhã e foi dormir para o quarto, preocupado com a existência da ninhada de gatos e com o que sairia da ‘vistoria’ rotineira.

Como fui eu que o substitui no serviço, estava na “Escuta” quando o Sr. Comandante e comitiva passaram por lá e procurando-me antecipar à continuação da visita à casa ao lado, onde era o nosso quarto e também a improvisada ‘maternidade’, fui lá ver se estava tudo bem camuflado (e estava!) e quis avisar o Nélson da iminente presença das chefias, só que a sua preocupação fez com que ele, estremunhado, gritasse bem alto:

- “Eh pá, tira-me daí esses cabrões!” - (é claro que ele se referia aos gatos, que achava serem da minha responsabilidade…)

Só que não houve tempo de intervalo suficiente entre o meu aviso e a presença dos ‘superiores’ que, como devem calcular, não tendo conhecimento da existência dos gatos (nem os viram, tal a camuflagem), ‘não tiveram dúvidas’ a quem aquele impropério se dirigia!

Como o Nélson estava nas ‘boas graças’ do Sr. Comandante por ter sido ferido e evacuado de Catió, em resultado de ferimentos ocorridos num ataque àquele aquartelamento e era um ‘bom cartaz’ demonstrando assim que o pessoal do STM também corria riscos, a coisa passou ‘à pala’ de o Nélson ainda estar um bocado ‘apanhado’ e com sobressaltos resultantes dos ferimentos…

O "Caçador", sempre atento
Pelas fotos que junto podem ver o porte altivo da “Morcona” e as expressões argutas do “Caçador”. Do “Kiki” não encontrei qualquer foto.

Peço desculpa por vos tomar tempo com estas coisas menores mas acho que também devem fazer parte do ‘levantamento’ que fazemos das nossas memórias, e a questão dos animais de companhia ou mascotes não são despiciendas, pois muitas vezes serviram para nos fazer sentir que ainda éramos humanos. 

No meu caso, e tratando-se de gatos, não posso dizer que eram as minhas mascotes ou animais de companhia, já que foi muito mais eles a escolherem-me do que eu a eles. Volto a utilizar (com a devida vénia) as palavras do Marques Lopes que cita Manuel António Pina em artigo do “Jornal de Notícias”, de que “nunca viu um gato a fazer habilidades num circo...”, para ilustrar bem o que se entende da ‘personalidade’ felina.

Hélder Sousa (Fur. Mil Trms TSF)
Fotos: © Hélder Sousa (2009). Direitos reservados.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

P1161: "FORÇA, CARLOS!"


ALCUNHAS DO TEMPO DA VIDA MILITAR 
QUE NÃO ESQUECEM / 4

O “MASSA BRUTA”

JERO
Como é normal na vida militar procurei nos primeiros tempos depois do regresso da Guiné, “filhos da terra”…

De Alcobaça não havia ninguém mas havia um “vizinho” a cerca de 20 kms. O Carlos Agostinho Vieira, da Batalha, que tinha sido “ Cabo Quarteleiro”.

As suas funções tinham a ver com o stock de munições, com o bom funcionamento das armas (conservadas com “massa consistente) e, eventualmente, com mais algumas coisas de que já não me lembro.

O Carlos Vieira era um indivíduo muito alto, pouco falador, que caminhava um tanto curvado e com quem não era fácil manter uma relação cordial. Era “fechado” e vivia fechado no “buraco” onde se guardavam as armas e munições da Companhia.

Cada um é como cada qual e o Carlos desempenhava as suas funções a contento. Era um bom Cabo Quarteleiro, que só dava nas vistas por ser um grande calmeirão. E caminhar curvado. E ser calado “como o caraças”…

Até que um dia, melhor dizendo numa noite, deu nas vistas. E não foi pela melhor das razões…

Numa operação que envolvia dois pelotões que saíam do quartel de Binta por volta da meia-noite, no máximo silêncio e com ocultação de luzes, apareceu na altura da saída para o mato com um “petromax” aceso para perguntar ao Capitão Tomé Pinto se era preciso mais alguma coisa.

Foi de imediato repreendido e mandado desaparecer, e quando começou a responder que ”tinha pensado”… o comandante de Companhia disse-lhe logo que ele não estava ali para pensar mas… para cumprir ordens.

A malta da tropa é cruel e a partir daquela madrugada passou a ser conhecido como o “Massa Bruta”. Está-se mesmo a ver porquê…

Também é verdade que, à distância no tempo, me parece que o Carlos Vieira não se importava por aí além com a alcunha “sacana” que lhe calhou…

Regressámos da Guiné em Maio de 1966 e estive alguns anos sem o ver.

Melhor dizendo, em vinte e muitos anos encontrei-o 3 ou 4 vezes nas reuniões anuais da malta da Companhia, que fazíamos todos os anos no primeiro domingo de Maio, em Lisboa, com concentração frente à Estátua dos Restauradores.

Fixei-me na zona de Alcobaça onde exerci a minha actividade profissional na SPAL durante trinta e muitos anos.

Depois de casar não houve mais tempo para corridas e o trabalho, a vida sedentária e os dotes da minha mulher para a cozinha levaram-me num curto espaço de tempo a um “ganhar um peso”, que esteve a 3 quilos dos 3 dígitos.

Com pequenas oscilações mantive-me com 97 kgs, por alguns anos, mas por volta dos 35 anos voltei ao desporto por duas razões: para emagrecer e… para não passar o resto da vida a comer cozidos e grelhados.

Dos 35 até cerca dos 50 anos fui praticante diário de “jogging”, também conhecido entre os “malucos das corridas” como “alta manutenção”.

Foram os tempos das meias maratonas da Nazaré. Corri umas dez - nunca desisti - e fiquei sempre entre os primeiros 3 mil concorrentes…

Fazia os 21 quilómetros do percurso entre 1H45 e 2H00, obviamente com muito sacrifício, pois correr durante 21.097 metros “não é pera doce”…

A última meia-maratona que corri foi “tão comprida” que, depois dos 17 kms, não me lembrava de nada. Corri essa parte final do percurso em “autêntico transe”…

Mais tarde falei nisso ao meu médico que me disse para ter juízo: «Faça caminhadas e deixe-se de corridas».  Foi o veredicto que terminou com a minha carreira de meio-maratonista…

Chegou a altura de passar a espectador e há uns dez anos atrás fui (involuntário) protagonista de um facto invulgar, que resolvo agora partilhar .

No entanto há ainda que esclarecer os que nunca andaram por este “mundo” das “meias-maratonas” que há corredores e… “corredores”.

 Os que lutam para os primeiros lugares correm cada Km. em cerca de 3 minutos e os outros – os corredores do pelotão – percorrem cada km. em 5 ou 6 minutos.

Quer isto dizer que com meia hora de corrida há corredores que vão nos 10 kms de percurso e outros – como era o meu caso – que apenas tinham percorrido cerca de 5 kms.

Está claro que, à medida que aumentam os quilómetros, aumentam as distâncias entre os mais rápidos e os outros – os lentos ou, também conhecidos na gíria das corridas, como “os coxos”.

Na Meia-Maratona da Nazaré – que foi a corrida onde se registou o tal “facto invulgar” ,que irei descrever em pormenor - era normal os atletas da frente cruzarem-se com os mais atrasados, dado que o percurso da prova era de ida e volta.

Explicando melhor, a partida fazia-se da Nazaré (então com uma volta dentro da vila de cerca de 5 kms) para se ir até Famalicão (onde estava um bidão que assinalava o “retorno”) e voltava-se em direção à Nazaré, onde estava instalada a meta.

Um dos melhores lugares para apreciar a corrida e o esforço dos corredores era (e é) na Quinta Nova. Nesse local os da frente passavam (e passam) com cerca de 16,5 kms percorridos e cruzavam (cruzam) com a rapaziada da cauda do pelotão que levava (e leva) então cerca de 9,5 kms de prova ainda a caminho do bidão (de Famalicão).

Nesse ano de 1994 ou 1995 “plantei-me” no cruzamento da Quinta Nova para ver a corrida e para incitar especialmente o Carlos Pereira (que trabalhava comigo na SPAL). É que nesse ano o Carlos Pereira corria para ficar entre os 10 primeiros, pois “valia” então uma hora e sete minutos na distância.

Avistei o grupo da frente – que englobava uns 10 ou 12 corredores – e lá vinha ele.
Tentei ganhar maior visibilidade no local onde me encontrava, levantei os braços e gritei: - “Força, Carlos! Força, Carlos!”

Julgo que nem me viu nem me ouviu. O esforço é grande e a concentração de quem corre àquele ritmo é enorme.

Mas na altura dos meus gritos de incitamento ouvi uma voz do outro lado da estrada a gritar para mim: - “Eh, Oliveira!”

Olhei de imediato e reconheci a voz e a pessoa. Era o Carlos Vieira, da Guiné. O “Massa Bruta”...

O meu de grito de “Força, Carlos!”, tinha encontrado eco (noutro Carlos), que corria no outro lado da estrada, no pelotão dos “coxos”, ainda a caminho do bidão de retorno de Famalicão.


Fiquei de boca aberta e tão surpreendido como ele. Ou ainda mais... Vim depois a caminho da meta. Para cumprimentar o Carlos Pereira (o colega da SPAL), que já tinha chegado e obtido a sua melhor classificação de sempre: - o 3º lugar da classificação geral (com 1h06m59s).

Esperei mais um bom bocado mas não consegui localizar o Carlos Vieira, da Batalha, o meu camarada dos tempos da Guiné. São 3.000 atletas na zona de chegada e muita confusão à mistura...

Voltei para casa. Não podia deixar de pensar naquela coincidência levada da breca. Três mil indivíduos a correr, sei lá com quantos “Carlos” lá pelo meio e tinha acontecido aquele coincidência extraordinária numa fração de segundo.

Gritar por um “Carlos”, que via todos os dias e que nem para mim olhou, e responder-me outro “Carlos”, que já não via há uma série de anos. Qual o cálculo de probabilidades de isto acontecer!? Não faço a mínima ideia.

Continuo a pensar que este incitamento para “forças” desencontradas acontecerá uma vez na vida. Mas que aconteceu… aconteceu!

E a fotografia não é montagem. Foi tirada por mim umas frações de segundo depois do meu grito de incitamento.

Tempos depois encontrei o meu camarada da Guerra da Guiné. A quem contei a história.

E o Carlos da SPAL que me desculpe mas o meu grito de incitamento - o “Força, Carlos!”- passou a ser mesmo só para o meu ex-camarada da Guiné.
JERO


quinta-feira, 29 de agosto de 2019

P1160: IDEIAS PEREGRINAS...


Esta história já foi publicada há alguns anos no blogue "Luís Graça & Camaradas da Guiné" e, por dificuldade de acesso a alguns registos deste nosso blogue, não temos a certeza de que tenha sido igualmente publicada no blogue da Tabanca do Centro.

Mas, estando nós em época de "reprises" de verão - com que somos inundados nas nossas televisões - e calculando que muito do pessoal que nos lê afinal ainda não conhece esta história, arriscamo-nos a repescá-la, com a devida vénia à Tabanca Grande, que a editou em devido tempo.

Igualmente com a devida vénia ao blogue "Histórias da Guiné 71-74 A CCAÇ 3491 - Dulombi" (www.ccac34917174.blogspot.com), de onde reproduzimos as duas fotos que apresentamos.

Quanto ao autor, sabemos que ele concorda com a sua reprodução...
Os editores

PISTA DA ÉPOCA (COMO A FRUTA)

Miguel Pessoa
Lembro-me que nas Operações do Grupo Operacional 1201, na BA12, havia um arquivador muito prático onde estavam registados dados de todas as pistas existentes no território e que, para além das características específicas de cada uma (comprimento, largura, orientação, condições de utilização, limitações, etc.), incluía fotografias de cada pista, incluindo algumas tiradas à vertical das mesmas.

Estes dados eram de grande importância para o aviador, principalmente no início da comissão, quando ainda não tinha grande conhecimento do terreno. O número elevado de pistas existentes (cerca de sessenta), a falta de visibilidade horizontal durante uma época do ano e o facto de as pistas por vezes se sucederem num espaço de terreno relativamente curto podiam induzir em erro os menos experientes. Ninguém gosta de aterrar num determinado sítio e descobrir que o que queria é mais ao lado, principalmente quando a pista está afastada do aquartelamento e afinal não há qualquer segurança montada no local...

Vista aérea do quartel de Dulombi
Por isso era habitual passarmos pelas Operações para visualizar os sítios onde íamos pela primeira vez. Daí ser natural já termos por vezes um conhecimento virtual de determinada pista mesmo antes de lá ter ido - uma espécie de Flight Simulator da época...

Uma vez recebi uma incumbência curiosa; tratava-se de ir abrir ao tráfego aéreo a pista de Dulombi, isto é, comprovar que aquela pista estava em condições de poder ser utilizada pelos nossos DO-27. Fiquei curioso com esta missão, mas uma visualização das fotos da pista rapidamente me elucidou. Na tal fotografia feita à vertical da pista pude verificar que, ao contrário do que sucedia nos outros aeródromos, em que a placa de helicópteros surgia normalmente ao lado da pista, a uma distância de segurança [1], aqui essa placa surgia cravada no meio da pista, dividindo-a em duas partes mais ou menos iguais, uma para cada lado.

A placa de helicópteros durante um apoio a uma operação da FAP
em Madina do Boé, em Novembro de 1973
É natural que, tratando-se de duas construções de diferente tipo, uma em cimento e a outra em terra batida, a sua utilização intensa (que não seria no entanto o caso) e principalmente os efeitos da natureza podiam levar à degradação das duas junções e criar um degrau fatal para qualquer avião que ali tentasse aterrar. Assim, durante a época das chuvas, as águas que corriam ao lado da placa de helicópteros arrastavam as terras adjacentes deixando a placa saliente e impedindo a utilização da pista, dado que qualquer das tiras remanescentes (uma para cada lado, recorda-se) era insuficiente para o DO operar.

Portanto, todos os anos, depois de as chuvas terminarem, havia que proceder à recuperação da pista nas zonas adjacentes à placa, de modo a permitir a passagem dos aviões por cima desta sem sobressaltos.

A minha missão não teve problemas de maior, dado que as terras tinham sido repostas e a pista podia ser utilizada em segurança. Mas sempre me interrogava sobre o motivo por que tinha sido tomada esta opção (falta de espaço para a placa noutro local?) que tornava sazonal o uso daquela pista. É que, sabendo-se das dificuldades sentidas pelos nossos militares nas zonas mais isoladas, a pista de aterragem era sempre uma mais-valia que podia reduzir um pouco esse isolamento e limitar as carências daí resultantes.

                                                 Miguel Pessoa




[1]   Tratando-se de uma construção em cimento, muitas vezes saliente do chão cerca de um palmo, podia ser um obstáculo intransponível se se perdesse o controlo do avião e ele embicasse na direcção da placa (normalmente por causa dos ventos, pontualmente também me chegaram a aparecer à frente vacas e cães, durante a aterragem...). Pelo menos lembro-me de um DO-27 imobilizado sobre os dois cotos que tinham sido o trem de aterragem, no meio de uma placa de helicópteros, devido à perda de controlo do avião durante a descolagem. Já não cheguei a ver lá o avião, mas as marcas deixadas pelos cotos no cimento ainda eram bem visíveis...

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

P1159: A PACIÊNCIA TEM LIMITES...

Aproveitando a disponibilidade do nosso camarigo Helder Valério Sousa para ver publicados neste blogue alguns textos da sua lavra anteriormente editados pela Tabanca Grande, resolvemos avançar com a recuperação de algum desse material publicado em devido tempo na Tabanca Grande mas que hoje se vê “tapado” por material editado posteriormente, não sendo por isso do conhecimento de uma boa parte dos leitores deste nosso blogue.

Além disso os leitores não serão necessariamente os mesmos…

Por esses motivos avançámos com a publicação deste primeiro texto recuperado, com a devida vénia ao Hélder Sousa, seu autor, e aos editores da Tabanca Grande, que o publicaram.
Os editores

A BAZUCA EM RAJADA

Helder Valério Sousa
Esta história tem os seguintes considerandos iniciais.
A sua lembrança foi motivada por um comentário do Alberto Branquinho a uma minha história anterior, em que ele sublinha que a sua insistência em negar-se a “falar de si ou do seu umbigo” tem como alvo “aqueles que falam/escrevem só e sempre sobre o seu próprio umbigo”. Acho que o compreendo!

Por outro lado tive sempre a tentação de reagir a um artigo publicado num Poste da Tabanca Grande, que é uma espécie de carta escrita pelo Luís Graça a um seu amigo (o Tony Levezinho) transformando-o em interlocutor imaginário daquilo que observou durante uma estadia em Bissau quando, durante algum tempo, esteve “desenfiado” do “Vietnam”.

Para além de considerar essa carta muito interessante, pelo seu conteúdo, pelos pressupostos, até por referir algumas situações ou episódios que eu, ao tempo, “vivia” cá na chamada “Metrópole”, e também para além de retratar, com bastante azedume, aliás, alguma da “fauna” de Bissau, há lá um aspecto que eu próprio testemunhei mais tarde, provando que, nesse capítulo, pouco ou nada se alterou entre o “tempo” do Luís e o meu “tempo”.

Refiro-me ao facto “as tropas especiais” normalmente se “pavonearem” por Bissau, nos períodos em que por lá andavam. Mas, em termos de “exageros de actividade operacional”, também havia, e muito, quem gostasse de contar as suas histórias, as suas aventuras, os seus actos inigualáveis de heroísmo, sempre mais, maiores e mais ousados que o do “contador” antecedente.

Sempre tive alguma dificuldade em entender porque deveriam ser “heróis” aqueles que tinham (têm) como mérito o “saberem matar muito, destruir muito”, em detrimento daqueles que “salvaram, construíram, ajudaram, muito ou pouco”. Certamente será um problema meu, que passará com o tempo... ou então, não!

Foi então a junção destas duas lembranças, “os que falavam de si” e os que exageravam até à náusea, que me fez recordar este pequeno episódio.

Num daqueles dias em que a paciência estava esgotada, vá lá agora lembrar-me porquê, em que não havia paciência para aturar as fanfarronices, as idiotices desbocadas, o exacerbamento do ego de alguns daqueles elementos da “fauna” de Bissau, estando no bar de Sargentos de Santa Luzia, depois do almoço, deixei-me estar na roda de “heróis” que contavam as suas façanhas.

Como disse, a paciência não era muita e depois de ouvir três ou quatro episódios em que haviam sempre emboscadas com, invariavelmente, dois bigrupos (não sei porquê, mas isto dos dois bigrupos era infalível, parecia o Juca Chaves a parodiar o Gary Cooper), em que os personagens “contadores da história” acabavam por ser o elemento decisivo para a resolução do problema e em que em resultado da sua acção os elementos do IN caíam que nem tordos, a fazer lembrar os filmes de “faroeste” com os índios a serem dizimados às dúzias, não me contive e disse que também tinha uma história parecida para contar.

Tendo em conta a minha atitude normalmente reservada, ficaram admirados que tivesse alguma coisa a revelar, mas dispuseram-se a ouvir.

Então eu disse que também se tinha passado comigo uma situação semelhante às que eles tinham estado a contar, que tinha ocorrido numa coluna em que vinha inserido, pouco depois do K3 (era sempre bom referir estes locais de respeito), a qual caiu numa emboscada medonha, eram pelo menos dois bigrupos, talvez até três, e em que a rapaziada ficou tão surpreendida que saltámos dos “unimogs” e alguns até abandonaram os seus equipamentos.

Os “gajos” estavam em cima da gente, a coisa estava feia e eu, que até nem era nada dado a actos de heroísmo, nem sei o que me passou pela cabeça, saltei do chão, agarrei na bazuca que tinha ficado em cima da viatura, coloquei-a junto à cintura, enfrentei os gajos fazendo a “menina” cantar… rá tá tá tá tá tá tá tá, rá tá tá tá tá tá tá tá,. Com esta minha intervenção os tipos assustaram-se, a nossa malta ganhou ânimo e conseguimos abortar a emboscada com poucos feridos e causando inúmeras baixas ao IN.
Propuseram-me um louvor e colocaram-me na “Escuta”. Era por isso que agora eu estava lá.

Como calculam, após alguns breves instantes de perplexidade e de estupefacção (não se esqueçam que isto se passa no Bar, após o almoço…) um dos ouvintes diz: “Eh pá, mas a bazuca não dispara em rajada!”

Aí eu disse: Ai não? E porquê? Na minha história dispara, sim senhor! Então vocês podem contar as histórias como querem, com as invenções que entendem, e eu não posso? Pois estão enganados, na minha história há uma bazuca que dispara em rajada e vai ficar sempre assim, porque essa é a minha verdade, vocês fiquem com as vossas! Passem bem!

Após esta saída de cena, houve desmobilização geral. Alguns ainda pretenderam empertigar-se um bocado, sentindo-se ofendidos na sua honra, pela dúvida lançada quanto à veracidade das suas histórias, mas foi sol de pouca dura pois começaram a discutir entre eles, cada qual desmentindo os outros.

Reconheço que foi uma atitude pouco conciliadora e certamente injusta para com aqueles que na verdade enfrentaram reais situações mas, como disse, a paciência tem limites e, também em boa verdade, aquelas conversas já enjoavam. Mas foi quase “remédio santo” pois durante bastante tempo não houve bigrupos…

E pronto, esta história já está!
Um abraço para toda a Tabanca!
Hélder Sousa
Fur. Mil. Transmissões TSF