sexta-feira, 20 de setembro de 2019
terça-feira, 17 de setembro de 2019
sexta-feira, 13 de setembro de 2019
P1163: COMPANHEIROS DE JORNADA
MASCOTES E ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO E/OU COMPANHIA
OS GATOS…
| Helder Valério Sousa |
Dado que esta recordação
já foi anteriormente publicada no Blogue da “Tabanca Grande”, fará 10 anos,
pareceu-me oportuno fazer uma “revisão” para a encurtar e, se possível,
melhorar.
Como de costume, quando
escrevo algo sobre os tempos vividos na Guiné, é motivado por vários elementos
que vão aparecendo e que depois de os remoer, um pouco, acabam por me fazer
lembrar das situações ou acontecimentos. Veio isto ao caso por, ao longo do
tempo, terem sido publicados “posts” em que se falava de aves, pássaros vários,
morcegos, “ui-uis” e quejandos e da quantidade e variedade de comentários que
suscitou.
A propósito deles
ficámos a saber de “pardais amestrados”, de convívios com morcegos, da
admiração pelos jagudis (quase sempre confundidos com perus pelos periquitos…).
Também já se tinham referido a cães que, por todas as tabancas, quartéis e
aquartelamentos, eram muitas vezes a grande companhia para as solidões.
Até se fez referência a
uma tresloucada acção de ‘matança’ de cães que, algures no mato (longe de
Bissau, portanto) incomodavam quem não deviam… Igualmente sabemos de periquitos
e outras aves que ajudavam a passar o tempo das ‘horas mortas’. Aqui e ali são
também conhecidas as proximidades com aqueles animais que, na generalidade,
referimos como macacos. E por aí fora.
Não me apercebi de
coisas estranhas, mas possíveis, como ter como mascote ou companhia crocodilos,
osgas, iguanas, grilos ou cobras (de várias espécies) mas não posso jurar que
não os houvesse… Agora, o que mais me intriga, é a falta de referências aos
gatos.
É que esses animais,
sempre com o seu estilo particular, lá como cá e noutras partes por onde
existem, estiveram presentes durante as nossas ‘comissões de serviço’.
Eu sei que falar de gatos pode parecer um pouco “abichanado”
mas mesmo assim, se me permitirem, vou referir-me a eles.
E, para começar,
apresento um poema que o nosso camarada Marques Lopes fez publicar na “Tabanca
de Matosinhos”, no início de Agosto passado (2009), em homenagem a um seu amigo
entretanto falecido fazia 6 meses, sendo esse o autor do poema e de seu nome
Fernando Vale.
O GATO
O gato é um felino
Aristocrata
Sempre usou laço
Nunca quis gravata
O gato é um felino
Snob
De trato fino
Até vaidoso
O seu andar?
Suave, silencioso
Independente
Misterioso
Nunca submisso
Mostra unhas
Também os dentes
Se em duelo
Tanto for preciso
Usa bigode
Destemido, soberbo
Sempre snobe
Não conhece o medo
O seu porte
A muitos humanos
Não agrada
Mas este felino
É um nobre
Capaz de ronronar
Ao exigir uma carícia
É snobe
Mantém sempre
A cabeça levantada
É nobre
Até mesmo quando caga
O gato é um felino
Aristocrata
Sempre usou laço
Nunca quis gravata
(Fernando Vale, 28.02.2008)
Ora acontece então que
durante a minha permanência no “Centro de Escuta” os gatos foram a minha
companhia, principalmente durante as longas noites de serviço e disso não
posso, nem quero, esquecer-me.
Disse “durante a noite”
porque tanto a “Morcona” como o “Kiki” só nesse período se deixavam ver. Não
sei porquê, nunca me disseram nem consegui descobrir. Durante o dia
desapareciam completamente das vistas e só depois do sol-posto apareciam. Houve
também um outro, o “Caçador”, que era completamente diferente.
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| Eu e o "Caçador" |
Esse dava-se a ver
durante o dia e deixava-se agarrar. Chamei-lhe assim porque era um caçador
nato, apanhava tudo o que podia, ratos, sapos, lagartos ‘paga-dez’, até cobras
e víboras e depois muito vaidoso carregava as presas e vinha oferecer-me, numa
espécie de deferência.
Tudo começou pela
“Morcona” que era a gata-mãe dos outros dois, em ninhadas diferentes. Quando
cheguei á “Escuta” essa gata estava no forro da casa, tendo entrado para lá por
essa ocasião por um buraquito, mas pelo qual já não podia sair.
Pensámos em deixá-la por
lá, mas sempre havia o perigo de alguma incomodidade pelo cheiro e não só, e
eu, aos poucos, fui tentando cativar a sua confiança, através da comida que lhe
levava pelo alçapão de acesso existente na “Escuta”, o que acabei por
conseguir. Traindo a sua confiança conquistada com tanto trabalho, consegui
agarrá-la e fazê-la passar por esse alçapão, recuperando igualmente três
pequenos gatitos.
![]() |
| A pose serena da "Morcona" |
Inicialmente ficou
‘louca da vida’ mas acabou por não rejeitar as crias, as quais foram
acondicionadas no que seria a chaminé da casa onde vivia que era contígua ao
“Centro de Escuta”, de modo bem disfarçado e que lhe deu bastante privacidade.
Esta ninhada esteve na
origem de um episódio bem caricato passado com o meu camarada Nélson Batalha (entretanto
já falecido e que na época compartilhava o quarto comigo), e que foi o
seguinte:
Por esses tempos era
hábito, aos sábados, o Sr. Comandante do que viria a ser o Agrupamento de
Transmissões, Tenente-Coronel Ramos, passar revista às instalações,
incluindo-se aqui os alojamentos dos Sargentos, que muito se incomodavam com
esse aparente atestado de menoridade (o Sr. Comandante ia ver se os quartos
estavam bem arrumados e limpos…).
Nesse sábado o Nélson
saiu de serviço às 7 da manhã e foi dormir para o quarto, preocupado com a
existência da ninhada de gatos e com o que sairia da ‘vistoria’ rotineira.
Como fui eu que o
substitui no serviço, estava na “Escuta” quando o Sr. Comandante e comitiva
passaram por lá e procurando-me antecipar à continuação da visita à casa ao
lado, onde era o nosso quarto e também a improvisada ‘maternidade’, fui lá ver
se estava tudo bem camuflado (e estava!) e quis avisar o Nélson da iminente
presença das chefias, só que a sua preocupação fez com que ele, estremunhado,
gritasse bem alto:
- “Eh pá, tira-me daí
esses cabrões!” - (é claro que ele se referia aos gatos, que achava serem
da minha responsabilidade…)
Só que não houve tempo
de intervalo suficiente entre o meu aviso e a presença dos ‘superiores’ que,
como devem calcular, não tendo conhecimento da existência dos gatos (nem os
viram, tal a camuflagem), ‘não tiveram dúvidas’ a quem aquele impropério se
dirigia!
Como o Nélson estava nas
‘boas graças’ do Sr. Comandante por ter sido ferido e evacuado de Catió, em
resultado de ferimentos ocorridos num ataque àquele aquartelamento e era um
‘bom cartaz’ demonstrando assim que o pessoal do STM também corria riscos, a
coisa passou ‘à pala’ de o Nélson ainda estar um bocado ‘apanhado’ e com
sobressaltos resultantes dos ferimentos…
![]() |
| O "Caçador", sempre atento |
Pelas fotos que junto podem ver o porte altivo da “Morcona” e as expressões argutas do “Caçador”. Do
“Kiki” não encontrei qualquer foto.
Peço desculpa por vos
tomar tempo com estas coisas menores mas acho que também devem fazer parte do
‘levantamento’ que fazemos das nossas memórias, e a questão dos animais de
companhia ou mascotes não são despiciendas, pois muitas vezes serviram para nos
fazer sentir que ainda éramos humanos.
No
meu caso, e tratando-se de gatos, não posso dizer que eram as minhas mascotes
ou animais de companhia, já que foi muito mais eles a escolherem-me do que eu a
eles. Volto a utilizar (com a devida vénia) as palavras do Marques Lopes que
cita Manuel António Pina em artigo do “Jornal de Notícias”, de que “nunca viu
um gato a fazer habilidades num circo...”, para ilustrar bem o que se entende
da ‘personalidade’ felina.
Hélder Sousa (Fur.
Mil Trms TSF)
segunda-feira, 9 de setembro de 2019
terça-feira, 3 de setembro de 2019
P1161: "FORÇA, CARLOS!"
ALCUNHAS DO TEMPO DA VIDA MILITAR
QUE NÃO ESQUECEM / 4
QUE NÃO ESQUECEM / 4
O “MASSA BRUTA”
| JERO |
De
Alcobaça não havia ninguém mas havia um “vizinho” a cerca de 20 kms. O Carlos
Agostinho Vieira, da Batalha, que tinha sido “ Cabo Quarteleiro”.
As
suas funções tinham a ver com o stock de munições, com o bom funcionamento das
armas (conservadas com “massa consistente) e, eventualmente, com mais algumas
coisas de que já não me lembro.
O
Carlos Vieira era um indivíduo muito alto, pouco falador, que caminhava um
tanto curvado e com quem não era fácil manter uma relação cordial. Era
“fechado” e vivia fechado no “buraco” onde se guardavam as armas e munições da
Companhia.
Cada
um é como cada qual e o Carlos desempenhava as suas funções a contento. Era um
bom Cabo Quarteleiro, que só dava nas vistas por ser um grande calmeirão. E
caminhar curvado. E ser calado “como o caraças”…
Até
que um dia, melhor dizendo numa noite, deu nas vistas. E não foi pela melhor
das razões…
Numa
operação que envolvia dois pelotões que saíam do quartel de Binta por volta da
meia-noite, no máximo silêncio e com ocultação de luzes, apareceu na altura da
saída para o mato com um “petromax” aceso para perguntar ao Capitão Tomé Pinto
se era preciso mais alguma coisa.
Foi
de imediato repreendido e mandado desaparecer, e quando começou a responder que
”tinha pensado”… o comandante de Companhia disse-lhe logo que ele não estava
ali para pensar mas… para cumprir ordens.
A
malta da tropa é cruel e a partir daquela madrugada passou a ser conhecido como
o “Massa Bruta”. Está-se mesmo a ver porquê…
Também
é verdade que, à distância no tempo, me parece que o Carlos Vieira não se
importava por aí além com a alcunha “sacana” que lhe calhou…
Regressámos
da Guiné em Maio de 1966 e estive alguns anos sem o ver.
Melhor
dizendo, em vinte e muitos anos encontrei-o 3 ou 4 vezes nas reuniões anuais da
malta da Companhia, que fazíamos todos os anos no primeiro domingo de Maio, em
Lisboa, com concentração frente à Estátua dos Restauradores.
Fixei-me
na zona de Alcobaça onde exerci a minha actividade profissional na SPAL durante
trinta e muitos anos.
Depois
de casar não houve mais tempo para corridas e o trabalho, a vida sedentária e os
dotes da minha mulher para a cozinha levaram-me num curto espaço de tempo a um “ganhar
um peso”, que esteve a 3 quilos dos 3 dígitos.
Com
pequenas oscilações mantive-me com 97 kgs, por alguns anos, mas por volta dos
35 anos voltei ao desporto por duas razões: para emagrecer e… para não passar o
resto da vida a comer cozidos e grelhados.
Dos
35 até cerca dos 50 anos fui praticante diário de “jogging”, também conhecido
entre os “malucos das corridas” como “alta manutenção”.
Foram
os tempos das meias maratonas da Nazaré. Corri umas dez - nunca desisti - e
fiquei sempre entre os primeiros 3 mil concorrentes…
Fazia
os 21 quilómetros do percurso entre 1H45 e 2H00, obviamente com muito
sacrifício, pois correr durante 21.097 metros “não é pera doce”…
A
última meia-maratona que corri foi “tão comprida” que, depois dos 17 kms, não
me lembrava de nada. Corri essa parte final do percurso em “autêntico transe”…
Mais
tarde falei nisso ao meu médico que me disse para ter juízo: «Faça caminhadas e
deixe-se de corridas». Foi o veredicto que terminou com a minha
carreira de meio-maratonista…
Chegou
a altura de passar a espectador e há uns dez anos atrás fui (involuntário)
protagonista de um facto invulgar, que resolvo agora partilhar .
No
entanto há ainda que esclarecer os que nunca andaram por este “mundo” das “meias-maratonas”
que há corredores e… “corredores”.
Os que lutam para os primeiros lugares correm
cada Km. em cerca de 3 minutos e os outros – os corredores do pelotão –
percorrem cada km. em 5 ou 6 minutos.
Quer
isto dizer que com meia hora de corrida há corredores que vão nos 10 kms de
percurso e outros – como era o meu caso – que apenas tinham percorrido cerca de
5 kms.
Está
claro que, à medida que aumentam os quilómetros, aumentam as distâncias entre
os mais rápidos e os outros – os lentos ou, também conhecidos na gíria das
corridas, como “os coxos”.
Na
Meia-Maratona da Nazaré – que foi a corrida onde se registou o tal “facto
invulgar” ,que irei descrever em pormenor - era normal os atletas da frente
cruzarem-se com os mais atrasados, dado que o percurso da prova era de ida e
volta.
Explicando
melhor, a partida fazia-se da Nazaré (então com uma volta dentro da vila de
cerca de 5 kms) para se ir até Famalicão (onde estava um bidão que assinalava o
“retorno”) e voltava-se em direção à Nazaré, onde estava instalada a meta.
Um
dos melhores lugares para apreciar a corrida e o esforço dos corredores era (e
é) na Quinta Nova. Nesse local os da frente passavam (e passam) com cerca de
16,5 kms percorridos e cruzavam (cruzam) com a rapaziada da cauda do pelotão
que levava (e leva) então cerca de 9,5 kms de prova ainda a caminho do bidão
(de Famalicão).
Nesse
ano de 1994 ou 1995 “plantei-me” no cruzamento da Quinta Nova para ver a
corrida e para incitar especialmente o Carlos Pereira (que trabalhava comigo na
SPAL). É
que nesse ano o Carlos Pereira corria para ficar entre os 10 primeiros, pois
“valia” então uma hora e sete minutos na distância.
Avistei
o grupo da frente – que englobava uns 10 ou 12 corredores – e lá vinha ele.
Tentei
ganhar maior visibilidade no local onde me encontrava, levantei os braços e
gritei: - “Força, Carlos! Força, Carlos!”
Julgo
que nem me viu nem me ouviu. O esforço é grande e a concentração de quem corre
àquele ritmo é enorme.
Mas
na altura dos meus gritos de incitamento ouvi uma voz do outro lado da estrada
a gritar para mim: - “Eh, Oliveira!”
Olhei
de imediato e reconheci a voz e a pessoa. Era
o Carlos Vieira, da Guiné. O “Massa Bruta”...
O
meu de grito de “Força, Carlos!”, tinha encontrado eco (noutro Carlos), que
corria no outro lado da estrada, no pelotão dos “coxos”, ainda a caminho do
bidão de retorno de Famalicão.
Fiquei
de boca aberta e tão surpreendido como ele. Ou ainda mais... Vim depois a
caminho da meta. Para cumprimentar o Carlos Pereira (o colega da SPAL), que já
tinha chegado e obtido a sua melhor classificação de sempre: - o 3º lugar da
classificação geral (com 1h06m59s).
Esperei
mais um bom bocado mas não consegui localizar o Carlos Vieira, da Batalha, o meu
camarada dos tempos da Guiné. São 3.000 atletas na zona de chegada e muita
confusão à mistura...
Voltei
para casa. Não podia deixar de pensar naquela coincidência levada da breca. Três
mil indivíduos a correr, sei lá com quantos “Carlos” lá pelo meio e tinha
acontecido aquele coincidência extraordinária numa fração de segundo.
Gritar
por um “Carlos”, que via todos os dias e que nem para mim olhou, e responder-me
outro “Carlos”, que já não via há uma série de anos. Qual
o cálculo de probabilidades de isto acontecer!? Não
faço a mínima ideia.
Continuo
a pensar que este incitamento para “forças” desencontradas acontecerá uma vez
na vida. Mas que aconteceu… aconteceu!
E
a fotografia não é montagem. Foi tirada por mim umas frações de segundo depois
do meu grito de incitamento.
Tempos
depois encontrei o meu camarada da Guerra da Guiné. A quem contei a história.
E
o Carlos da SPAL que me desculpe mas o meu grito de incitamento - o “Força,
Carlos!”- passou a ser mesmo só para o meu ex-camarada da Guiné.
JERO
quinta-feira, 29 de agosto de 2019
P1160: IDEIAS PEREGRINAS...
PISTA DA ÉPOCA (COMO A
FRUTA)
| Miguel Pessoa |
Estes
dados eram de grande importância para o aviador, principalmente no início da comissão,
quando ainda não tinha grande conhecimento do terreno. O número elevado de
pistas existentes (cerca de sessenta), a falta de visibilidade horizontal durante
uma época do ano e o facto de as pistas por vezes se sucederem num espaço de
terreno relativamente curto podiam induzir em erro os menos experientes.
Ninguém gosta de aterrar num determinado sítio e descobrir que o que queria é
mais ao lado, principalmente quando a pista está afastada do aquartelamento e
afinal não há qualquer segurança montada no local...
| Vista aérea do quartel de Dulombi |
Por
isso era habitual passarmos pelas Operações para visualizar os sítios onde
íamos pela primeira vez. Daí ser natural já termos por vezes um conhecimento virtual de determinada
pista mesmo antes de lá ter ido - uma espécie de Flight Simulator da época...
Uma
vez recebi uma incumbência curiosa; tratava-se de ir abrir ao tráfego aéreo a pista de Dulombi, isto é, comprovar que aquela pista estava em condições de poder ser
utilizada pelos nossos DO-27. Fiquei curioso com esta missão, mas uma
visualização das fotos da pista rapidamente me elucidou. Na tal fotografia
feita à vertical da pista pude verificar que, ao contrário do que sucedia nos
outros aeródromos, em que a placa de helicópteros surgia normalmente ao lado da
pista, a uma distância de segurança [1], aqui
essa placa surgia cravada no meio da pista, dividindo-a em duas partes mais ou
menos iguais, uma para cada lado.
| A placa de helicópteros durante um apoio a uma operação da FAP em Madina do Boé, em Novembro de 1973 |
É
natural que, tratando-se de duas construções de diferente tipo, uma em cimento
e a outra em terra batida, a sua utilização intensa (que não seria no entanto o
caso) e principalmente os efeitos da natureza podiam levar à degradação das
duas junções e criar um degrau fatal para qualquer avião que ali tentasse
aterrar. Assim, durante a época das chuvas, as águas que corriam ao lado da
placa de helicópteros arrastavam as terras adjacentes deixando a placa saliente
e impedindo a utilização da pista, dado que qualquer das tiras remanescentes
(uma para cada lado, recorda-se) era insuficiente para o DO operar.
Portanto,
todos os anos, depois de as chuvas terminarem, havia que proceder à recuperação
da pista nas zonas adjacentes à placa, de modo a permitir a passagem dos aviões
por cima desta sem sobressaltos.
A
minha missão não teve problemas de maior, dado que as terras tinham sido
repostas e a pista podia ser utilizada em segurança. Mas sempre me interrogava sobre
o motivo por que tinha sido tomada esta opção (falta de espaço para a placa
noutro local?) que tornava sazonal o uso daquela pista. É que, sabendo-se das
dificuldades sentidas pelos nossos militares nas zonas mais isoladas, a pista
de aterragem era sempre uma mais-valia que podia reduzir um pouco esse
isolamento e limitar as carências daí resultantes.
[1] Tratando-se de uma construção em cimento, muitas
vezes saliente do chão cerca de um palmo, podia ser um obstáculo intransponível
se se perdesse o controlo do avião e ele embicasse na direcção da placa (normalmente
por causa dos ventos, pontualmente também me chegaram a aparecer à frente vacas
e cães, durante a aterragem...). Pelo menos lembro-me de um DO-27 imobilizado
sobre os dois cotos que tinham sido o trem de aterragem, no meio de uma placa
de helicópteros, devido à perda de controlo do avião durante a descolagem. Já
não cheguei a ver lá o avião, mas as marcas deixadas pelos cotos no cimento
ainda eram bem visíveis...
sexta-feira, 23 de agosto de 2019
P1159: A PACIÊNCIA TEM LIMITES...
Aproveitando
a disponibilidade do nosso camarigo Helder Valério Sousa para ver publicados neste blogue alguns textos da sua lavra anteriormente editados pela Tabanca
Grande, resolvemos avançar com a recuperação de algum desse material publicado
em devido tempo na Tabanca Grande mas que hoje se vê “tapado” por material
editado posteriormente, não sendo por isso do conhecimento de uma boa parte dos
leitores deste nosso blogue.
Além
disso os leitores não serão necessariamente os mesmos…
Por
esses motivos avançámos com a publicação deste primeiro texto recuperado, com a
devida vénia ao Hélder Sousa, seu autor, e aos editores da Tabanca Grande, que
o publicaram.
Os
editores
A BAZUCA EM RAJADA
A sua lembrança foi motivada por um comentário do Alberto Branquinho a uma minha história anterior, em
que ele sublinha que a sua insistência em negar-se a “falar de si ou do seu
umbigo” tem como alvo “aqueles que falam/escrevem só e sempre sobre o seu
próprio umbigo”. Acho que o compreendo!
Por outro lado tive
sempre a tentação de reagir a um artigo publicado num Poste da Tabanca Grande, que é uma espécie
de carta escrita pelo Luís Graça a um seu amigo (o Tony Levezinho)
transformando-o em interlocutor imaginário daquilo que observou durante uma
estadia em Bissau quando, durante algum tempo, esteve “desenfiado” do
“Vietnam”.
Para além de
considerar essa carta muito interessante, pelo seu conteúdo, pelos
pressupostos, até por referir algumas situações ou episódios que eu, ao tempo,
“vivia” cá na chamada “Metrópole”, e também para além de retratar, com bastante
azedume, aliás, alguma da “fauna” de Bissau, há lá um aspecto que eu próprio
testemunhei mais tarde, provando que, nesse capítulo, pouco ou nada se alterou
entre o “tempo” do Luís e o meu “tempo”.
Refiro-me ao facto “as
tropas especiais” normalmente se “pavonearem” por Bissau, nos períodos em que
por lá andavam. Mas, em termos de “exageros de actividade operacional”, também
havia, e muito, quem gostasse de contar as suas histórias, as suas aventuras,
os seus actos inigualáveis de heroísmo, sempre mais, maiores e mais ousados que
o do “contador” antecedente.
Sempre tive alguma
dificuldade em entender porque deveriam ser “heróis” aqueles que tinham (têm)
como mérito o “saberem matar muito, destruir muito”, em detrimento daqueles que
“salvaram, construíram, ajudaram, muito ou pouco”. Certamente será um problema
meu, que passará com o tempo... ou então, não!
Foi então a junção
destas duas lembranças, “os que falavam de si” e os que exageravam até à
náusea, que me fez recordar este pequeno episódio.
Num daqueles dias em que a paciência estava esgotada, vá lá agora lembrar-me porquê, em que não havia paciência para aturar as fanfarronices, as idiotices desbocadas, o exacerbamento do ego de alguns daqueles elementos da “fauna” de Bissau, estando no bar de Sargentos de Santa Luzia, depois do almoço, deixei-me estar na roda de “heróis” que contavam as suas façanhas.
Como disse, a
paciência não era muita e depois de ouvir três ou quatro episódios em que
haviam sempre emboscadas com, invariavelmente, dois bigrupos (não sei porquê,
mas isto dos dois bigrupos era infalível, parecia o Juca Chaves a parodiar o
Gary Cooper), em que os personagens “contadores da história” acabavam por ser o
elemento decisivo para a resolução do problema e em que em resultado da sua
acção os elementos do IN caíam que nem tordos, a fazer lembrar os filmes de
“faroeste” com os índios a serem dizimados às dúzias, não me contive e disse
que também tinha uma história parecida para contar.
Então eu disse que
também se tinha passado comigo uma situação semelhante às que eles tinham
estado a contar, que tinha ocorrido numa coluna em que vinha inserido, pouco
depois do K3 (era sempre bom referir estes locais de respeito), a qual caiu
numa emboscada medonha, eram pelo menos dois bigrupos, talvez até três, e em
que a rapaziada ficou tão surpreendida que saltámos dos “unimogs” e alguns até
abandonaram os seus equipamentos.
Os “gajos” estavam em
cima da gente, a coisa estava feia e eu, que até nem era nada dado a actos de
heroísmo, nem sei o que me passou pela cabeça, saltei do chão, agarrei na
bazuca que tinha ficado em cima da viatura, coloquei-a junto à cintura,
enfrentei os gajos fazendo a “menina” cantar… rá tá tá tá tá tá tá tá, rá tá tá
tá tá tá tá tá,. Com esta minha intervenção os tipos assustaram-se, a nossa
malta ganhou ânimo e conseguimos abortar a emboscada com poucos feridos e
causando inúmeras baixas ao IN.
Propuseram-me um
louvor e colocaram-me na “Escuta”. Era por isso que agora eu estava lá.
Aí eu disse: Ai não? E
porquê? Na minha história dispara, sim senhor! Então vocês podem contar as
histórias como querem, com as invenções que entendem, e eu não posso? Pois
estão enganados, na minha história há uma bazuca que dispara em rajada e vai
ficar sempre assim, porque essa é a minha verdade, vocês fiquem com as vossas!
Passem bem!
Após esta saída de
cena, houve desmobilização geral. Alguns ainda pretenderam empertigar-se um
bocado, sentindo-se ofendidos na sua honra, pela dúvida lançada quanto à
veracidade das suas histórias, mas foi sol de pouca dura pois começaram a
discutir entre eles, cada qual desmentindo os outros.
Reconheço que foi uma
atitude pouco conciliadora e certamente injusta para com aqueles que na verdade
enfrentaram reais situações mas, como disse, a paciência tem limites e, também
em boa verdade, aquelas conversas já enjoavam. Mas foi quase “remédio santo”
pois durante bastante tempo não houve bigrupos…
E pronto, esta
história já está!
Um abraço para toda a
Tabanca!
Hélder Sousa
Fur. Mil. Transmissões
TSF
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