terça-feira, 3 de setembro de 2019

P1161: "FORÇA, CARLOS!"


ALCUNHAS DO TEMPO DA VIDA MILITAR 
QUE NÃO ESQUECEM / 4

O “MASSA BRUTA”

JERO
Como é normal na vida militar procurei nos primeiros tempos depois do regresso da Guiné, “filhos da terra”…

De Alcobaça não havia ninguém mas havia um “vizinho” a cerca de 20 kms. O Carlos Agostinho Vieira, da Batalha, que tinha sido “ Cabo Quarteleiro”.

As suas funções tinham a ver com o stock de munições, com o bom funcionamento das armas (conservadas com “massa consistente) e, eventualmente, com mais algumas coisas de que já não me lembro.

O Carlos Vieira era um indivíduo muito alto, pouco falador, que caminhava um tanto curvado e com quem não era fácil manter uma relação cordial. Era “fechado” e vivia fechado no “buraco” onde se guardavam as armas e munições da Companhia.

Cada um é como cada qual e o Carlos desempenhava as suas funções a contento. Era um bom Cabo Quarteleiro, que só dava nas vistas por ser um grande calmeirão. E caminhar curvado. E ser calado “como o caraças”…

Até que um dia, melhor dizendo numa noite, deu nas vistas. E não foi pela melhor das razões…

Numa operação que envolvia dois pelotões que saíam do quartel de Binta por volta da meia-noite, no máximo silêncio e com ocultação de luzes, apareceu na altura da saída para o mato com um “petromax” aceso para perguntar ao Capitão Tomé Pinto se era preciso mais alguma coisa.

Foi de imediato repreendido e mandado desaparecer, e quando começou a responder que ”tinha pensado”… o comandante de Companhia disse-lhe logo que ele não estava ali para pensar mas… para cumprir ordens.

A malta da tropa é cruel e a partir daquela madrugada passou a ser conhecido como o “Massa Bruta”. Está-se mesmo a ver porquê…

Também é verdade que, à distância no tempo, me parece que o Carlos Vieira não se importava por aí além com a alcunha “sacana” que lhe calhou…

Regressámos da Guiné em Maio de 1966 e estive alguns anos sem o ver.

Melhor dizendo, em vinte e muitos anos encontrei-o 3 ou 4 vezes nas reuniões anuais da malta da Companhia, que fazíamos todos os anos no primeiro domingo de Maio, em Lisboa, com concentração frente à Estátua dos Restauradores.

Fixei-me na zona de Alcobaça onde exerci a minha actividade profissional na SPAL durante trinta e muitos anos.

Depois de casar não houve mais tempo para corridas e o trabalho, a vida sedentária e os dotes da minha mulher para a cozinha levaram-me num curto espaço de tempo a um “ganhar um peso”, que esteve a 3 quilos dos 3 dígitos.

Com pequenas oscilações mantive-me com 97 kgs, por alguns anos, mas por volta dos 35 anos voltei ao desporto por duas razões: para emagrecer e… para não passar o resto da vida a comer cozidos e grelhados.

Dos 35 até cerca dos 50 anos fui praticante diário de “jogging”, também conhecido entre os “malucos das corridas” como “alta manutenção”.

Foram os tempos das meias maratonas da Nazaré. Corri umas dez - nunca desisti - e fiquei sempre entre os primeiros 3 mil concorrentes…

Fazia os 21 quilómetros do percurso entre 1H45 e 2H00, obviamente com muito sacrifício, pois correr durante 21.097 metros “não é pera doce”…

A última meia-maratona que corri foi “tão comprida” que, depois dos 17 kms, não me lembrava de nada. Corri essa parte final do percurso em “autêntico transe”…

Mais tarde falei nisso ao meu médico que me disse para ter juízo: «Faça caminhadas e deixe-se de corridas».  Foi o veredicto que terminou com a minha carreira de meio-maratonista…

Chegou a altura de passar a espectador e há uns dez anos atrás fui (involuntário) protagonista de um facto invulgar, que resolvo agora partilhar .

No entanto há ainda que esclarecer os que nunca andaram por este “mundo” das “meias-maratonas” que há corredores e… “corredores”.

 Os que lutam para os primeiros lugares correm cada Km. em cerca de 3 minutos e os outros – os corredores do pelotão – percorrem cada km. em 5 ou 6 minutos.

Quer isto dizer que com meia hora de corrida há corredores que vão nos 10 kms de percurso e outros – como era o meu caso – que apenas tinham percorrido cerca de 5 kms.

Está claro que, à medida que aumentam os quilómetros, aumentam as distâncias entre os mais rápidos e os outros – os lentos ou, também conhecidos na gíria das corridas, como “os coxos”.

Na Meia-Maratona da Nazaré – que foi a corrida onde se registou o tal “facto invulgar” ,que irei descrever em pormenor - era normal os atletas da frente cruzarem-se com os mais atrasados, dado que o percurso da prova era de ida e volta.

Explicando melhor, a partida fazia-se da Nazaré (então com uma volta dentro da vila de cerca de 5 kms) para se ir até Famalicão (onde estava um bidão que assinalava o “retorno”) e voltava-se em direção à Nazaré, onde estava instalada a meta.

Um dos melhores lugares para apreciar a corrida e o esforço dos corredores era (e é) na Quinta Nova. Nesse local os da frente passavam (e passam) com cerca de 16,5 kms percorridos e cruzavam (cruzam) com a rapaziada da cauda do pelotão que levava (e leva) então cerca de 9,5 kms de prova ainda a caminho do bidão (de Famalicão).

Nesse ano de 1994 ou 1995 “plantei-me” no cruzamento da Quinta Nova para ver a corrida e para incitar especialmente o Carlos Pereira (que trabalhava comigo na SPAL). É que nesse ano o Carlos Pereira corria para ficar entre os 10 primeiros, pois “valia” então uma hora e sete minutos na distância.

Avistei o grupo da frente – que englobava uns 10 ou 12 corredores – e lá vinha ele.
Tentei ganhar maior visibilidade no local onde me encontrava, levantei os braços e gritei: - “Força, Carlos! Força, Carlos!”

Julgo que nem me viu nem me ouviu. O esforço é grande e a concentração de quem corre àquele ritmo é enorme.

Mas na altura dos meus gritos de incitamento ouvi uma voz do outro lado da estrada a gritar para mim: - “Eh, Oliveira!”

Olhei de imediato e reconheci a voz e a pessoa. Era o Carlos Vieira, da Guiné. O “Massa Bruta”...

O meu de grito de “Força, Carlos!”, tinha encontrado eco (noutro Carlos), que corria no outro lado da estrada, no pelotão dos “coxos”, ainda a caminho do bidão de retorno de Famalicão.


Fiquei de boca aberta e tão surpreendido como ele. Ou ainda mais... Vim depois a caminho da meta. Para cumprimentar o Carlos Pereira (o colega da SPAL), que já tinha chegado e obtido a sua melhor classificação de sempre: - o 3º lugar da classificação geral (com 1h06m59s).

Esperei mais um bom bocado mas não consegui localizar o Carlos Vieira, da Batalha, o meu camarada dos tempos da Guiné. São 3.000 atletas na zona de chegada e muita confusão à mistura...

Voltei para casa. Não podia deixar de pensar naquela coincidência levada da breca. Três mil indivíduos a correr, sei lá com quantos “Carlos” lá pelo meio e tinha acontecido aquele coincidência extraordinária numa fração de segundo.

Gritar por um “Carlos”, que via todos os dias e que nem para mim olhou, e responder-me outro “Carlos”, que já não via há uma série de anos. Qual o cálculo de probabilidades de isto acontecer!? Não faço a mínima ideia.

Continuo a pensar que este incitamento para “forças” desencontradas acontecerá uma vez na vida. Mas que aconteceu… aconteceu!

E a fotografia não é montagem. Foi tirada por mim umas frações de segundo depois do meu grito de incitamento.

Tempos depois encontrei o meu camarada da Guerra da Guiné. A quem contei a história.

E o Carlos da SPAL que me desculpe mas o meu grito de incitamento - o “Força, Carlos!”- passou a ser mesmo só para o meu ex-camarada da Guiné.
JERO


quinta-feira, 29 de agosto de 2019

P1160: IDEIAS PEREGRINAS...


Esta história já foi publicada há alguns anos no blogue "Luís Graça & Camaradas da Guiné" e, por dificuldade de acesso a alguns registos deste nosso blogue, não temos a certeza de que tenha sido igualmente publicada no blogue da Tabanca do Centro.

Mas, estando nós em época de "reprises" de verão - com que somos inundados nas nossas televisões - e calculando que muito do pessoal que nos lê afinal ainda não conhece esta história, arriscamo-nos a repescá-la, com a devida vénia à Tabanca Grande, que a editou em devido tempo.

Igualmente com a devida vénia ao blogue "Histórias da Guiné 71-74 A CCAÇ 3491 - Dulombi" (www.ccac34917174.blogspot.com), de onde reproduzimos as duas fotos que apresentamos.

Quanto ao autor, sabemos que ele concorda com a sua reprodução...
Os editores

PISTA DA ÉPOCA (COMO A FRUTA)

Miguel Pessoa
Lembro-me que nas Operações do Grupo Operacional 1201, na BA12, havia um arquivador muito prático onde estavam registados dados de todas as pistas existentes no território e que, para além das características específicas de cada uma (comprimento, largura, orientação, condições de utilização, limitações, etc.), incluía fotografias de cada pista, incluindo algumas tiradas à vertical das mesmas.

Estes dados eram de grande importância para o aviador, principalmente no início da comissão, quando ainda não tinha grande conhecimento do terreno. O número elevado de pistas existentes (cerca de sessenta), a falta de visibilidade horizontal durante uma época do ano e o facto de as pistas por vezes se sucederem num espaço de terreno relativamente curto podiam induzir em erro os menos experientes. Ninguém gosta de aterrar num determinado sítio e descobrir que o que queria é mais ao lado, principalmente quando a pista está afastada do aquartelamento e afinal não há qualquer segurança montada no local...

Vista aérea do quartel de Dulombi
Por isso era habitual passarmos pelas Operações para visualizar os sítios onde íamos pela primeira vez. Daí ser natural já termos por vezes um conhecimento virtual de determinada pista mesmo antes de lá ter ido - uma espécie de Flight Simulator da época...

Uma vez recebi uma incumbência curiosa; tratava-se de ir abrir ao tráfego aéreo a pista de Dulombi, isto é, comprovar que aquela pista estava em condições de poder ser utilizada pelos nossos DO-27. Fiquei curioso com esta missão, mas uma visualização das fotos da pista rapidamente me elucidou. Na tal fotografia feita à vertical da pista pude verificar que, ao contrário do que sucedia nos outros aeródromos, em que a placa de helicópteros surgia normalmente ao lado da pista, a uma distância de segurança [1], aqui essa placa surgia cravada no meio da pista, dividindo-a em duas partes mais ou menos iguais, uma para cada lado.

A placa de helicópteros durante um apoio a uma operação da FAP
em Madina do Boé, em Novembro de 1973
É natural que, tratando-se de duas construções de diferente tipo, uma em cimento e a outra em terra batida, a sua utilização intensa (que não seria no entanto o caso) e principalmente os efeitos da natureza podiam levar à degradação das duas junções e criar um degrau fatal para qualquer avião que ali tentasse aterrar. Assim, durante a época das chuvas, as águas que corriam ao lado da placa de helicópteros arrastavam as terras adjacentes deixando a placa saliente e impedindo a utilização da pista, dado que qualquer das tiras remanescentes (uma para cada lado, recorda-se) era insuficiente para o DO operar.

Portanto, todos os anos, depois de as chuvas terminarem, havia que proceder à recuperação da pista nas zonas adjacentes à placa, de modo a permitir a passagem dos aviões por cima desta sem sobressaltos.

A minha missão não teve problemas de maior, dado que as terras tinham sido repostas e a pista podia ser utilizada em segurança. Mas sempre me interrogava sobre o motivo por que tinha sido tomada esta opção (falta de espaço para a placa noutro local?) que tornava sazonal o uso daquela pista. É que, sabendo-se das dificuldades sentidas pelos nossos militares nas zonas mais isoladas, a pista de aterragem era sempre uma mais-valia que podia reduzir um pouco esse isolamento e limitar as carências daí resultantes.

                                                 Miguel Pessoa




[1]   Tratando-se de uma construção em cimento, muitas vezes saliente do chão cerca de um palmo, podia ser um obstáculo intransponível se se perdesse o controlo do avião e ele embicasse na direcção da placa (normalmente por causa dos ventos, pontualmente também me chegaram a aparecer à frente vacas e cães, durante a aterragem...). Pelo menos lembro-me de um DO-27 imobilizado sobre os dois cotos que tinham sido o trem de aterragem, no meio de uma placa de helicópteros, devido à perda de controlo do avião durante a descolagem. Já não cheguei a ver lá o avião, mas as marcas deixadas pelos cotos no cimento ainda eram bem visíveis...

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

P1159: A PACIÊNCIA TEM LIMITES...

Aproveitando a disponibilidade do nosso camarigo Helder Valério Sousa para ver publicados neste blogue alguns textos da sua lavra anteriormente editados pela Tabanca Grande, resolvemos avançar com a recuperação de algum desse material publicado em devido tempo na Tabanca Grande mas que hoje se vê “tapado” por material editado posteriormente, não sendo por isso do conhecimento de uma boa parte dos leitores deste nosso blogue.

Além disso os leitores não serão necessariamente os mesmos…

Por esses motivos avançámos com a publicação deste primeiro texto recuperado, com a devida vénia ao Hélder Sousa, seu autor, e aos editores da Tabanca Grande, que o publicaram.
Os editores

A BAZUCA EM RAJADA

Helder Valério Sousa
Esta história tem os seguintes considerandos iniciais.
A sua lembrança foi motivada por um comentário do Alberto Branquinho a uma minha história anterior, em que ele sublinha que a sua insistência em negar-se a “falar de si ou do seu umbigo” tem como alvo “aqueles que falam/escrevem só e sempre sobre o seu próprio umbigo”. Acho que o compreendo!

Por outro lado tive sempre a tentação de reagir a um artigo publicado num Poste da Tabanca Grande, que é uma espécie de carta escrita pelo Luís Graça a um seu amigo (o Tony Levezinho) transformando-o em interlocutor imaginário daquilo que observou durante uma estadia em Bissau quando, durante algum tempo, esteve “desenfiado” do “Vietnam”.

Para além de considerar essa carta muito interessante, pelo seu conteúdo, pelos pressupostos, até por referir algumas situações ou episódios que eu, ao tempo, “vivia” cá na chamada “Metrópole”, e também para além de retratar, com bastante azedume, aliás, alguma da “fauna” de Bissau, há lá um aspecto que eu próprio testemunhei mais tarde, provando que, nesse capítulo, pouco ou nada se alterou entre o “tempo” do Luís e o meu “tempo”.

Refiro-me ao facto “as tropas especiais” normalmente se “pavonearem” por Bissau, nos períodos em que por lá andavam. Mas, em termos de “exageros de actividade operacional”, também havia, e muito, quem gostasse de contar as suas histórias, as suas aventuras, os seus actos inigualáveis de heroísmo, sempre mais, maiores e mais ousados que o do “contador” antecedente.

Sempre tive alguma dificuldade em entender porque deveriam ser “heróis” aqueles que tinham (têm) como mérito o “saberem matar muito, destruir muito”, em detrimento daqueles que “salvaram, construíram, ajudaram, muito ou pouco”. Certamente será um problema meu, que passará com o tempo... ou então, não!

Foi então a junção destas duas lembranças, “os que falavam de si” e os que exageravam até à náusea, que me fez recordar este pequeno episódio.

Num daqueles dias em que a paciência estava esgotada, vá lá agora lembrar-me porquê, em que não havia paciência para aturar as fanfarronices, as idiotices desbocadas, o exacerbamento do ego de alguns daqueles elementos da “fauna” de Bissau, estando no bar de Sargentos de Santa Luzia, depois do almoço, deixei-me estar na roda de “heróis” que contavam as suas façanhas.

Como disse, a paciência não era muita e depois de ouvir três ou quatro episódios em que haviam sempre emboscadas com, invariavelmente, dois bigrupos (não sei porquê, mas isto dos dois bigrupos era infalível, parecia o Juca Chaves a parodiar o Gary Cooper), em que os personagens “contadores da história” acabavam por ser o elemento decisivo para a resolução do problema e em que em resultado da sua acção os elementos do IN caíam que nem tordos, a fazer lembrar os filmes de “faroeste” com os índios a serem dizimados às dúzias, não me contive e disse que também tinha uma história parecida para contar.

Tendo em conta a minha atitude normalmente reservada, ficaram admirados que tivesse alguma coisa a revelar, mas dispuseram-se a ouvir.

Então eu disse que também se tinha passado comigo uma situação semelhante às que eles tinham estado a contar, que tinha ocorrido numa coluna em que vinha inserido, pouco depois do K3 (era sempre bom referir estes locais de respeito), a qual caiu numa emboscada medonha, eram pelo menos dois bigrupos, talvez até três, e em que a rapaziada ficou tão surpreendida que saltámos dos “unimogs” e alguns até abandonaram os seus equipamentos.

Os “gajos” estavam em cima da gente, a coisa estava feia e eu, que até nem era nada dado a actos de heroísmo, nem sei o que me passou pela cabeça, saltei do chão, agarrei na bazuca que tinha ficado em cima da viatura, coloquei-a junto à cintura, enfrentei os gajos fazendo a “menina” cantar… rá tá tá tá tá tá tá tá, rá tá tá tá tá tá tá tá,. Com esta minha intervenção os tipos assustaram-se, a nossa malta ganhou ânimo e conseguimos abortar a emboscada com poucos feridos e causando inúmeras baixas ao IN.
Propuseram-me um louvor e colocaram-me na “Escuta”. Era por isso que agora eu estava lá.

Como calculam, após alguns breves instantes de perplexidade e de estupefacção (não se esqueçam que isto se passa no Bar, após o almoço…) um dos ouvintes diz: “Eh pá, mas a bazuca não dispara em rajada!”

Aí eu disse: Ai não? E porquê? Na minha história dispara, sim senhor! Então vocês podem contar as histórias como querem, com as invenções que entendem, e eu não posso? Pois estão enganados, na minha história há uma bazuca que dispara em rajada e vai ficar sempre assim, porque essa é a minha verdade, vocês fiquem com as vossas! Passem bem!

Após esta saída de cena, houve desmobilização geral. Alguns ainda pretenderam empertigar-se um bocado, sentindo-se ofendidos na sua honra, pela dúvida lançada quanto à veracidade das suas histórias, mas foi sol de pouca dura pois começaram a discutir entre eles, cada qual desmentindo os outros.

Reconheço que foi uma atitude pouco conciliadora e certamente injusta para com aqueles que na verdade enfrentaram reais situações mas, como disse, a paciência tem limites e, também em boa verdade, aquelas conversas já enjoavam. Mas foi quase “remédio santo” pois durante bastante tempo não houve bigrupos…

E pronto, esta história já está!
Um abraço para toda a Tabanca!
Hélder Sousa
Fur. Mil. Transmissões TSF


domingo, 11 de agosto de 2019

P1157: MAIS UMA DAS MEMÓRIAS DO JERO


ALCUNHAS DO TEMPO DA VIDA MILITAR QUE NÃO ESQUECEM / 3

O “CAMPO DE OURIQUE”

O "Campo de Ourique"
Carlos Dias Rodrigues de seu nome era um alfacinha de gema. Cenógrafo na vida civil, foi na Companhia de Caçadores 675 1º. Cabo Condutor. Opinioso e de palavra fácil percebia-se que se sentia melhor junto de Sargentos e Oficiais de que junto dos seus “pares”. Era metódico e cuidadoso na sua especialidade e, sempre que podia, questionava as ordens e... não deixava de dar troco ao seu furriel das “viaturas”...

O “Campo de Ourique” não tinha complexos de inferioridade... Durante a fase mais complicada da vida da Companhia em termos operacionais “apanhou” com um minúsculo estilhaço de granada que o fez cliente assíduo do Posto de Socorros. Queixava-se da cabeça e tantas queixas fez que a sua “crónica” dor de cabeça nem sempre foi levada muito a sério. Pelo menos com a seriedade que o “Campo de Ourique” julgava que merecia. Julgamos que o mini-estilhaço nunca foi localizado!

Na segunda fase da Companhia - regresso das populações e melhorias do aquartelamento - foi sempre colaborante, embora com o pecadilho de anunciar "super-produções" que demoraram o seu tempo a realizar...

Mas finalmente fez obra e foi o grande responsável pelo embelezamento da “Avenida Capitão de Binta” com uma gigantesca “estrela” feita com garrafas de cerveja... Garrafas vazias, está claro!

Depois... no regresso foi sempre presença assídua nos convívios da Companhia, referindo - sempre que estava por perto alguém ligado ao Serviço de Saúde - o célebre estilhaço da cabeça…

Com estilhaço ou sem ele, esteve ligado a um dos momentos mais conseguidos de uma das festas realizadas em Lisboa.

Ligado ao teatro – recordamos que era cenógrafo – conseguiu bilhetes para a malta da “675” que, depois do almoço, foi assistir a uma peça que era protagonizada por Jacinto Ramos e Irene Cruz. 

Durante a representação o actor principal – um “grande senhor” do teatro e do cinema – interrompeu a cena para dedicar algumas simpáticas palavras aos ex-combatentes da “675” que se encontravam na plateia. Foi um momento muito bonito que ficámos a dever ao “Campo de Ourique”.

Depois os anos passaram e... o «Campo de Ourique» foi sempre aparecendo mas percebia-se que já não era o mesmo. Num dos últimos convívios ficámos ao pé dele. Conversámos muito e ouvimos da sua boca um testemunho impressionante. Tinha um filho apanhado pela droga. 

Estava a fazer uma autêntica “Via Sacra” pelos locais onde se vendia e consumia droga para tentar perceber o que tinha levado o seu filho para aquela “zona da vida”... tão perto da morte.

Já tinha ido vezes sem conta ao Casal Ventoso e não conseguia perceber a opção de vida dos drogados. Era um homem amargurado. Muito amargurado. Desconhecemos como acabou o drama que o atormentava. Julgamos que não acabou bem.

Um homem da cidade, da grande cidade, refugiou-se nos últimos anos da sua vida na Madeira. Na ilha de Porto Santo. Onde veio a falecer em 18 de Outubro de 2005.

Recordamos com respeito o “Campo de Ourique”. Carregou penas bem pesadas. Que a terra lhe seja leve.

JERO


segunda-feira, 5 de agosto de 2019

P1156: UNINDO O PASSADO E O PRESENTE

UMA APRESENTAÇÃO EMOCIONANTE…

… E EMOCIONADA


Joaquim Mexia Alves
No dia 19 de Junho estive nas Caldas da Rainha, na ESAD, onde pude assistir ao trabalho do meu filho André para a Licenciatura em Teatro que está a fazer naquela Escola.

A apresentação (escrita e pensada por ele) foi sobre a minha comissão militar na Guiné, entre Dezembro de 1971 e Dezembro de 1973.

Para tal, antes fez-me uma entrevista, em que falámos daquilo que passei, dos meus sentimentos, das minhas emoções, das minhas experiências antes, durante e depois.

Foi algo que nos aproximou ainda mais e que me deu um sentimento de que afinal aquele passado também servia para unir o presente.

Na apresentação a boina dos Rangers foi figura principal, e fiquei profundamente tocado por aquilo que o André conseguiu representar e representou e que tão bem demonstrou as vivências e sentimentos pelos quais passei naqueles tempos e hoje em dia.

Foi uma representação que me emocionou, que emocionou o André (e algumas pessoas, professores e colegas de curso) e que me encheu o coração de orgulho por ele.

As fotografias são do André e retratam parte do cenário que ele usou.

Joaquim Mexia Alves

sexta-feira, 26 de julho de 2019

P1154: EQUÍVOCOS...


DIFERENÇAS CULTURAIS

Aproveitando o repescar da memória relativamente ao tempo do estágio em Tancos, relembro agora um outro episódio passado, desta vez em Tomar.

Como, entretanto, consegui encontrar uma foto tirada nesse tempo, e que se junta, podemos ver nela os futuros Furriéis Milicianos Fernando Marques e Hélder Sousa, em baixo, da esquerda para a direita e, em cima, pela mesma ordem, Manuel Martinho e Mário Miguel, todos referidos na história anterior.


Para o caso, em mais um fim de tarde, mais uma saída (algumas vezes também ficámos no “Perímetro”, na E.P.E., salvo erro para ver algum filme que passava lá no cinema ou para outra coisa qualquer) e desta vez o destino foi Tomar.
Um dia em que o tempo estava incerto, de vez em quando chovia.

Lá seguimos para a linda cidade do Nabão (onde havia também um Colégio famoso na época, salvo erro o “Nuno Álvares”, onde pontuavam, dizia-se, alguns “filhos-família” que se tinham “baldado” em outros locais de ensino). 

Na procura de local de estacionamento para o já referido “Morris” circulámos pelo interior histórico da cidade e, em certa altura, numa daquelas ruas estreitas, há uma passadeira para peões e em jeito de “passa-não-passa” estava uma jovem, bem bonita por sinal, com o seu guarda-chuva fechado na mão (já não estava a chover na ocasião).

Eu e o Martinho íamos atrás no carro, o condutor – o Marques – levava a seu lado o Miguel. Este camarada era um jovem bem apessoado de Barcelos, com pinta de actor de cinema, com pinta de membro de conjunto musical (à época a maior parte dos meus colegas de Curso TSF eram, ou tinham sido, membros de vários desses conjuntos que corporizaram os então famosos “concursos yé-yé” no Cinema Monumental, em Lisboa), com linguagem e sotaque tipicamente nortenhos, com conceitos muitos próprios. Ora o Marques resolve incitar o Miguel a “dizer um piropo à menina”…

Então, o Miguel, solícito e diligente, puxa o melhor de si, abre o vidro e diz: “Ó Guidâinha, vai meia de leite”? Para o Miguel, “todas” as miúdas eram “Margaridas”, “Guidinhas” em forma mais ternurenta, e a “meia de leite” pretendia ser uma forma simpática de referir a oferta de um lanche.

Não sei o que foi que a rapariga entendeu, a verdade é que parece não ter gostado e vá de dizer “seu ordinário!” ao mesmo tempo que batia com o guarda-chuva no tejadilho do carro!

Uma paragem e o eventual “sururu” poderiam fazer atrair gente - éramos, afinal, “militares à paisana”, e ao tempo Tomar era o QG da Região Militar do Centro. Não tivemos por isso oportunidade de esclarecer o que foi uma natural “diferença cultural”, coisa que hoje por hoje, com toda esta universalidade e conhecimentos mútuos, seria pouco provável acontecer.

O velho conceito de “em Roma, sê romano” deveria ter sido aqui aplicado, mas acho que nunca passou pela cabeça do Miguel que houvesse incompreensão quanto à sua generosa sugestão de oferta. Mas, já sabem, devem ter sempre em conta as “diferenças culturais”. Mesmo entre naturais de Portugal!

Hélder Sousa
Fur. Mil. Transmissões TSF