terça-feira, 10 de janeiro de 2017

P866: PILOTO NO CHARCO...

Este texto foi recentemente publicado no Blogue dos Especialistas da BA12. Reproduzimo-lo aqui, com a devida vénia ao autor, Maj/PilAv (Ref) Alberto Roxo da Cruz, e ao Blogue dos Especialistas da BA12, que o editou. 

GUINÉ 1973:  UMA EJECÇÃO NO TANCROAL

Este acidente ocorreu a cerca de 50km Nordeste de Bissau, na zona do Tancroal.
Eu fazia parte, como asa, de uma formação de dois Fiat G91 R4. Estávamos a desenvolver uma acção de bombardeamento, seguida de metralhamento, numa área onde tinha sido referenciada, por informações, a existência de um Grupo de atiradores de Míssil Strela. Creio que posteriormente estava prevista uma acção de pára-quedistas ou outras forças terrestres transportadas por helicópteros Alouette III. 

Após termos executado dois passes de bombardeamento com bombas de 50 e 200 kg, iniciamos, um de cada vez, um passe de metralhamento de ângulos grandes (MAG).

Quando iniciei o disparo das metralhadoras, senti um grande estrondo no avião e a perda total de controlo do mesmo, assim como uma enorme quantidade de luzes acesas e a piscar.


Não era possível identificar qual a origem da "avaria", pois as vibrações eram tão violentas que me faziam bater com o capacete na "canopy" do avião.

Ainda tentei desligar os "Yaw dampers", mas logo vi que não era essa a origem do problema. Como me encontrava em ângulo de picada de 60º decidi ejectar-me, pois entretanto as vibrações passaram à sensação de espiral descontrolada e tão violenta que perdi a capacidade de fixar a visão. Só via umas manchas verdes e cinzentas, que deduzo serem o solo e o céu que se apresentava nublado com alto-estratos.

A ejecção deve ter acontecido com cerca de 450 nós, que estava perto do limite do cabo de disparo do pára-quedas de abertura (470 nós). Ainda arranjei tempo para decidir ejectar-me com a alavanca superior, por permitir melhor posição e menos danos da coluna.

Após esse accionamento, só me recordo de uma explosão muito forte, e perdi os sentidos. No entanto, fiquei num estado de semiconsciência, e que permitiu interrogar-me como isto me tinha acontecido; “vi” a minha vida a correr em “flashes” rapidíssimos. Segundo os dados da cadeira de ejecção, até à abertura do pára-quedas decorre um período de 1 a 2 segundos. 

Tive a sensação de terem passado mais de 5 minutos…Acordei muito lentamente, e um sentido de cada vez, ainda com o pára-quedas em desaceleração. O primeiro sentido a recuperar foi a visão com a explosão do avião, bastante perto. Nessa altura ainda não ouvia nem sentia.

De repente, começo a ouvir um silvo, que provinha do pára-quedas. Seguidamente, sinto uma corrente de ar enorme na cabeça e vejo meu corpo pendurado, mas sem me conseguir mexer. 

De seguida, reparo que tenho sangue a cair-me nas luvas e nos braços. Mais tarde é que vi que o sangue provinha de uma perfuração do lábio inferior por embate do meu estimado Breitling, que ainda hoje mantenho. 

Aí, apercebi-me que tinha perdido o capacete, que estava com o francalete bem justo, assim como a máscara e a viseira colocadas. Quem quiser, que experimente retirar o capacete da cabeça nestas circunstâncias. Nós tentamos essa experiência e ninguém conseguiu! 

A cadeira naquela época ainda era a primeira versão da Martin Baker, que tinha uma aceleração de cerca de 39/45 G's no disparo da cadeira. Logo aí sofri a primeira compressão da coluna. 

Seguidamente, a velocidade a que o pára-quedas abriu foi tal que senti um grande esticão. Após um grande formigueiro em todo o corpo, recuperei os movimentos. 
O tempo de queda foi de cerca de 15 a 20 segundos, mas naquelas condições é difícil medir o tempo. No entanto, ainda me permitiu desfrutar do maravilhoso silêncio do voo de pára-quedas. 

A chegada ao solo não foi directa; fiquei pendurado numa árvore a cerca de 5 metros do solo. Fui deixando o pára-quedas deslizar até que a cerca de 2 metros ele se desprendeu e caí desamparado no solo; mais uma compressão na coluna. 

As dores lombares e num joelho, bem com a perda de visão de um olho, foram as sequelas de que logo me apercebi. Mais tarde, confirmou-se que tinha ficado mais baixo 2 cm e que tinha fractura ligeira da vértebra D5, lesão no joelho com derrame do líquido sinovial e lesão traumática no olho esquerdo durante a ejecção, possivelmente pelo “arrancamento” do capacete. 

Ainda me consegui deslocar para uma clareira, com a intenção de me sinalizar. No entanto, dos “very-light” que levava só restaram os que me tinham sido entregues pelo Cap. Pedroso de Almeida, quando fez o “desquite”. Bem-haja! Quando comecei a pensar, apercebi-me que tinha o fato de voo do meu amigo Cap. Pinto Ferreira, ainda com o nome dele na “etiqueta” de identificação. A primeira coisa que fiz foi enterrá-la e disfarçar esse local com vegetação. 

Começo a olhar para o ar, e vejo o meu chefe de parelha, o então Cor. Lemos Ferreira, comandante da Zona Aérea Cabo Verde e Guiné, a voar em círculos. Pensei que me tivesse visto a aterrar, mas por eu já estar tão baixo, vim mais tarde a saber que apenas viu a explosão do avião e, por um segundo, o pára-quedas a ser “engolido” pelas árvores.

Seguidamente, começo a ouvir vozes e alguns assobios, o que em África, devido ao silêncio que todos conhecem, tanto podiam estar perto como longe. Imaginei que poderia ser “recolhido” pela população ou pelos guerrilheiros que tínhamos acabado de bombardear. Não iam de certeza levar-me um whisky com Perrier…

Comecei a criar um espaço onde poderia colocar o pára-quedas, para assinalar a minha posição, mas comecei a ter dores violentas nas costas; mesmo rolando no solo, de maneira a deitar o capim que tinha mais de dois metros de altura, não consegui espaço para estender o pára-quedas. 

Entretanto, comecei a sair do estado de choque e comecei a “engendrar” a conversa que teria se fosse capturado. 
Estabeleci um plano, e fiquei a aguardar que me fossem recuperar. Ainda notei que o meu chefe de formação abandonou o local (deve ter aterrado “seco”), e apareceu outro Fiat a sobrevoar a zona, que mais tarde vim a saber ter sido o Ten. António Matos. Pensei cá para mim: estou safo, estava perto da Base e ainda não eram 15:00 horas.

Passaram cerca de 40 minutos, que a mim me pareceram horas, e começo a ouvir o “santo” ruído de um Heli e em “stereo”; eram dois, mas um, eu nunca o vi. Levantei-me com muito custo e preparei os “flares” para me sinalizar. 

A clareira onde me encontrava estava rodeada de árvores, e apenas num pequeno ângulo, é que tinha visão horizontal. Como os Helis não tinham informação precisa da minha posição andaram ainda uns tempos à procura, e eu que só tinha dois “flares”, resolvi accionar um quando ouvisse um Heli mais perto.


Passado um tempo, que não consigo calcular, vi pela primeira vez um Heli; quando ele passou pela abertura das árvores, disparei o “flare” que me restava mesmo apontando ao Heli, pois era a maneira mais certa de não o atingir… Fui visto! 

O piloto do Heli tenta uma aproximação já na clareira, mas o capim, com 2 metros, teima em não baixar com o vórtice do rotor principal. Nesta altura, em que o piloto tenta baixar o máximo possível, eu noto que o rotor de cauda se aproxima perigosamente de uns troncos secos e grossos que emergiam do capim já “abatido”. 

Entretanto, eu que já estava em pé novamente, mas com muita dificuldade, reparo que o Heli é um Heli-canhão. E agora? O Heli-canhão descolou de Bissalanca, voou, no máximo meia hora, deve estar com muito peso e eu embora magro, vou provocar “overload”. 

Ainda pensei que íamos lá ficar à espera de um Heli sem canhão. Mais tarde, fiquei a saber que tinham descolado dois heli-canhão para me dar protecção e me localizar. Como a zona era muito problemática, tomaram a decisão de me recuperar mesmo com o canhão. Como o Heli não conseguia aterrar, aproximou-se de mim e fui içado à mão, ficando com o estribo de entrada entre as pernas e agarrado à estrutura vertical onde fecham as portas.

Descolámos, mas passado pouco tempo começo a escorregar, prevendo que me ia estatelar no solo. O mecânico, atirador do canhão, ao ver a “cena”, largou tudo e enquanto me agarrava pelo pescoço, ia gritando para o piloto aterrar o mais depressa possível, que eu estava a cair. 

O piloto quase que fez um “quick stop” e eu aterrei primeiro do que o Heli; saltei para dentro dele, batendo com a cabeça não sei onde, e tombei desmaiado sobre a caixa das munições do canhão. 

Chegamos a Bissalanca, e eu, já acordado, noto que alguém estava à minha espera com um copo numa bandeja.
Como sabiam que eu gostava, na altura, de me refrescar com água Perrier com um dedo de whisky, tentei sair em pé da viatura que me transportou do Heli para o Grupo Operacional, armado em herói; claro está que se não me agarrassem rapidamente, lá ia mais outra queda. 

Bebi o copo de um golo. Já na enfermaria da Base, começo a sentir a cabeça à roda e um enjoo terrível. Pensei que me estava a acontecer alguma coisa pós-choque, mas não era mais do que a “doença” provocada pelo “refresco” que os malandros dos meus amigos tinham adulterado… O “refresco” da Perrier com um dedo de whisky era afinal whisky com um dedo de Perrier. Ainda hoje não sei quem foi o artista...

Fui para o Hospital Militar, regressei à enfermaria, e fui evacuado para a “Metrópole” no primeiro avião militar.



Regressei à Guiné nos primeiros dias de Fevereiro de 1974, e por coincidência (?), a primeira missão operacional teve lugar no mesmo local onde me tinha ejectado. Ao fazer o passe de metralhadoras, o dedo parecia que não queria accionar o gatilho; respeitei esta hesitação do dedo e não premi o gatilho.

Na missão seguinte, tudo se normalizou, após uma consciente reflexão sobre a lei das probabilidades…

Esta minha ejecção foi já na minha segunda comissão. Eu era um dos dois únicos pilotos que tinham sido nomeados para uma segunda comissão, em Fiat, para a Guiné; o outro foi o então Ten. Cor. Vasquez, como Comandante do Grupo Operacional. 

Apenas alguns dias após o 25 de Abril, convivemos com os guerrilheiros que combatíamos em 1969 nas antiaéreas, onde eu fui protagonista e tendo feito parte das missões mais complicadas, que incluíram uma tentativa (gorada) de, com a acção dos pára-quedistas, os “apanharmos à mão”.

O ataque às antiaéreas na zona do Quitafine a Sudoeste de Bissau, perto do rio Cacine e a fronteira com a Guiné-Conakri, eram missões que tínhamos que fazer para que os guerrilheiros não nos conquistassem esse território, pois as forças terrestres já lá não tinham acesso…

Foram conversas interessantíssimas, e pelas quais vim a saber que eles para não serem afastados pelas bombas que rebentavam dentro do "caracol" (local onde eram colocadas as antiaéreas), eram atados às armas. Normalmente usavam as ZPU-4 de 14,5mm ou as duplas de 12,7mm. Nessa época ainda não tinham chegado à Guiné os Grupos de mísseis. 

No entanto, em 1972 (?) já havia conhecimento de que estavam a ser treinadas as equipas dos mísseis na URSS. Eu vim a saber disso porque sendo adjunto do Comandante de Grupo, na segunda comissão, ao arrumar uns arquivos, encontrei documentação de 1972 (?) com informação detalhada dos EUA sobre os mísseis Strela, bem como um completo estudo do seu envelope de acção. 

Também referiam ter informações fidedignas que o aparecimento dos mísseis SAM-7 estaria para breve no Teatro de Operações da Guiné e só mais tarde em Moçambique. Na Guiné, nessa altura, já ninguém era apanhado de surpresa…

Mas mesmo assim, e como o outro elemento da parelha sobrevoava a zona em altitude, não viu a saída do míssil, eu fiquei convencido que se tinha aberto o painel das metralhadoras do lado esquerdo, pois na inspecção antes do voo notei que já apresentava alguma folga. Isto deu origem a uma consulta à Força Aérea Alemã, que informou que apenas tinham conhecimento de um caso desses, a baixa velocidade, e que isso tinha sido fatal para o piloto. A grande velocidade, o avião destruía-se em voo, não dando a mínima hipótese ao piloto. 

Mesmo assim, devido a essa dúvida, foram inspeccionados todos os Fiat's e descobriu-se que a maior parte apresentava fadiga de material na fixação das metralhadoras. Isso obrigou à respectiva reparação em todos os aviões. A causa dessa fadiga e de algumas fracturas terá que ficar confidencial… por enquanto! 

Mais tarde, e já após o 25 de Abril, chegou uma informação proveniente do PAIGC, de que o meu avião (5409) tinha sido abatido por um grupo residente nessa área, e que até encontraram o meu capacete. 

As razões porque fui “abatido” dentro do "envelope" do míssil terão também que ficar pela confidencialidade… No entanto, continuo convencido que não fui abatido pelo Strela, mas que tive uma violenta falha estrutural. Mas como me pareceu que era mais conveniente, para os então “poderes constituídos”, tratar o acidente como “abate”, em vez de falha estrutural, eu fui-me calando…


Alberto Roxo da Cruz

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

P864: A PROPÓSITO DE UM LIVRO...

Li com grande interesse o Poste 16801 publicado recentemente no Blogue “Luís Graça & Camaradas da Guiné” em que o nosso camarada Beja Santos faz uma apreciação do livro “Ten General Alípio Tomé Pinto, o Capitão do Quadrado”, uma biografia da autoria de Sarah Adamopoulos. 

E chamou-me particular atenção uma frase, quando se refere os ferimentos sofridos por aquele oficial, atingido no decorrer de uma emboscada pelos estilhaços de uma morteirada mal dirigida: “Tomé Pinto cai ferido, o furriel enfermeiro estanca-lhe a hemorragia, pede-se a evacuação”*.

Esta frase transporta-me de imediato para aquela situação vivida no já longínquo dia 5 de Agosto de 1964, sobre a qual tive a oportunidade de escrever um texto que está incluído no meu livro “Golpes de Mão’s”. É que, curiosamente o furriel enfermeiro acima referido… sou eu, José Eduardo Reis de Oliveira, natural e residente desde 4 de Abril de 1940 em Alcobaça, onde a maioria das gentes me conhece por JERO. 

Por isso aqui fica o que então escrevi sobre aquele dia…


O CAPITÃO DE BINTA

Quarenta e alguns anos depois...

Para quem viveu a patrulha de Santancoto de 5 de Agosto de 1964 a imagem dos homens de camuflado a chorar... ficou para toda a vida.

Cada qual à sua maneira viveu e recordará as horas dramáticas de ter o Comandante de Companhia ferido e ser emboscado no meio de uma mata fechadíssima .

Passei a maior parte desses compridos minutos junto do capitão por «dever de ofício». Era o Furriel Enfermeiro.

A esta distância no tempo consigo brincar um pouco com a situação. O meu Capitão não era um doente fácil pois recusava-se a tomar sedativos que lhe aliviariam as dores... sendo certo que eu, na altura, não lhe conseguia arranjar nem sossego nem tranquilidade...

O barulho era ensurdecedor e o doente continuava (felizmente) a dar ordens e... não parava de comandar.

Cap. Tomé Pinto (1964)
Refere-se no «Diário da 675» que «...continuou a dar ordens que eram transmitidas pelo Furriel Enfermeiro... insistindo pelo afastamento da coluna o mais rapidamente possível da zona de morte da emboscada...»

«...Com frequência, soldados abeiravam-se do Unimog onde seguia o nosso Capitão perguntando pelo seu estado, não conseguindo ocultar uma lágrima teimosa que descia pelos seus rostos sujos de terra e suor.»

Vinte e nove anos depois destes acontecimentos tive a felicidade de estar numa homenagem ao General Tomé Pinto na terra da sua naturalidade.

Se a memória não me falha... em 4 de Abril de 1993 o Cine-Teatro de Torre de Moncorvo rebentava pelas costuras.

Gen. Tomé Pinto (2013)
Eu era um dos oradores inscritos.

Falaram ex-militares de outras Companhias, que tinha servido sob as suas ordens .

Quando subi ao palco para falar em nome da «675» o 
«Capitão de Binta» sabia que... eu ia falar da Patrulha de Santancoto.

Foi um momento de grande cumplicidade e, no que me diz respeito, de grande emoção. Quando não me deu um enfarte dessa vez...

Quando no final o General Tomé Pinto agradeceu, leu um longo discurso, que previamente tinha preparado, para não correr o risco de esquecer alguém.

Quando chegou à vez da «675» já lá estava escrito tudo que tinha acontecido nos minutos anteriores...  Dava a ideia que tinha feito o discurso de agradecimento naquele mesmo momento!

Também importa recordar que aqueles momentos vividos em 5 de Agosto de 1964, em cima da viatura da «Breda», nos aproximaram para toda a vida...

Era um mau doente mas... um grande Comandante. Transmontano, com tudo o que isso quer dizer: valente, determinado, antes quebrar que torcer.

José Eduardo Reis de Oliveira
(JERO)


(*) Extracto reproduzido com a devida vénia ao nosso camarada Beja Santos e ao blogue “Luís Graça & Camaradas da Guiné”, onde o texto foi publicado.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

P862: HISTÓRIAS CURTAS DAS TERMAS DE MONTE REAL - 7


EXCENTRICIDADES…

Habituado que estava a excentricidades de alguns hóspedes, há algumas dezenas de anos, tinha atenção redobrada para alguma coisa fora do normal que visse chegar ao Hotel.

Um dia, (pelo início do Verão), em que estava sentado no terraço da entrada do Hotel, vi chegar um táxi com duas senhoras, (uma de mais idade, a outra mais nova), e quando os porteiros descarregavam a bagagem, não pude deixar de reparar num objecto grande, tapado com uma espécie de lençol e que não deixava ver o que seria e o que traria no seu interior.

As senhoras traziam também na sua mão, uma pequena gaiola com um periquito. Preocupado, pedi a um dos porteiros que se inteirasse do que era tal objecto e o que continha.

Pouco depois, veio ter comigo a rir e disse-me que era uma grande gaiola, com poleiros, mas vazia. Tinha indagado junto das senhoras para o que era tal gaiola, e responderam-lhe então que era o “quarto dos brinquedos do periquito”.
Compreendi então o motivo do riso.

No outro dia, ao fim da manhã, no terraço do Hotel, estavam as duas senhoras sentadas, com a gaiola pequena e o periquito, eis se não quando, chega um táxi, e lá vão os três (as duas senhoras e o periquito) rumo não fazia eu a mínima ideia onde.

Claro que, curioso, fui perguntar ao mesmo porteiro da véspera, que soltando uma gargalhada me disse:

Vão para a praia até à hora do almoço, porque segundo me disseram o periquito precisa de apanhar sol nas penas!!!!

Joaquim Mexia Alves




segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

P861: DEPOIMENTO DE UM CAMARADA

O António Carreira é um camarada que já esteve presente nos nossos convívios. Teve agora a oportunidade de dar o seu depoimento sobre a sua comissão na Guiné, publicado na Revista de Domingo do Correio da Manhã, saída no passado dia 27 de Novembro - que aqui reproduzimos, com a devida vénia àquele diário.
É-nos difícil apresentar o tamanho adequado do texto. Sugerimos por isso que, para lerem o texto com mais facilidade, primam a tecla CTRL e rodem o botão "scroll" do rato (a rodinha) para aumentarem o zoom e adaptarem a largura do texto ao tamanho do monitor. Experimentem com 175% de zoom, que deverá ser suficiente.

Os Editores




domingo, 25 de dezembro de 2016

P860: UM POEMA DO LÚCIO VIEIRA

INVENÇÃO DA LUZ
  


então eu disse aos véus da noite que rompessem
e nasceu o dia
calaram-se os gemidos e os canhões
silenciaram-se gritos e sirenes
depois do mais profundo da terra
brotou um cântico de vida

silêncio      ouçam
são ao longe os sinos que repicam
e depois o vento a murmurar
na seara que aloira

o vento
o mesmo que leva no dorso o milagre da esperança
e os sonhos das mães que nunca pariram

ouçam mais além o murmúrio do mar
que se amaina em delírios de bonança

e então eu digo
que venham poetas, que venham operários
que venham também os santos e os reis
que um cinzel de artista esculpa um novo hino

e que todos os homens da Terra
o façam ouvir no longe das estrelas

silêncio      escutai

já surgem ao longe os pastores
já se renderam os soldados
as flores irrompem nos pântanos
e nos penhascos todos de todas as serras
acendem-se já os arco-íris
enquanto na suave espuma do mar
purificam sábios e anjos e leprosos
                                                                                          
e os astros abriram-se
e eu disse aos lábios mudos que cantassem
e disse aos olhos de água que sorrissem
                                                    
escutai e vede que tudo foi assim
e que o mel se derramou no regaço das papoilas
                                                          

vinde
vinde e trazei o olhar puro
e as mãos transparentes
e o linho e o trigo e a água e o sol
e as veias abertas ao clamor da vida

vinde
libertos de algemas
de armas depostas
de feridas saradas
com palavras puras                         
e cânticos de amor

vamos      vinde
trazei na viagem o vosso inimigo
falai aos regatos e dizei aos ventos
que as palavras perderam o sentido



que se cantem d’ora avante
só canções de amor e salmos de luz
que a hora sublime é chegada

vinde
despidos e puros
sem rumos nem ódios
sem medos nem trevas
sem prazeres nem ouros

vinde     todos
rendei-vos à vida
párias e monges
loucos e poetas
operários e reis
soldados e virgens
e vós

vós também

vinde     apenas
vinde e enchei os olhos de milagre
porque agora mesmo
nas benditas mãos de uma mulher
acaba de nascer uma criança




                                                          António Lúcio Vieira
1980
1980