Caros camaradas, amigos e familiares:
Poderá discutir-se até à exaustão, os benefícios ou malefícios de se ter ido ou
não à tropa.
Deixar o emprego, a namorada, a casa e o conforto da casa
paterna, perder a identidade e passar a ser um número mecanográfico.
A partir dali perdíamos a autonomia social, mandavam em nós
até nas pequenas coisas, como se fez a barba ou não, a enorme chatice que era
ter um botão desabotoado, as botas mal engraxadas, não se poder sair sem
licença prévia, perder o direito de nos vestirmos como nos aprouvesse e termos
que cumprimentar até com quem estávamos chateados, no caso de ser nosso
superior.
Por outro lado ir para a tropa era como chegar à idade
adulta, sair da alçada da família, satisfazer algum fascínio pelas armas e, porque
não, algum desejo de aventura.
Sem esperar arranjámos amigos. Embora sem saber, esses
ficaram para toda a vida
Eles foram chegando e partindo engolidos pelas rápidas
transformações que a vida militar ditava.
Depois de mobilizados, encontrávamos
os que connosco viveram mais tempo, nos destacamentos no tempo que duraram as
comissões e quando estas acabaram, despedimo-nos. Muitos de nós não nos tornámos
a ver, o que à partida parecia impossível dado os laços que se criaram em zona
de conflito.
Desembarcado, rapidamente tentei esquecer aqueles dois anos e
pico e durante 20 anos limitei-me a trocar alguma mensagem, alguma visita a dois
ou três, fui ao casamento do Ivo, do Caramba e do Silva. Conheci os filhos
bebés.
Mas as coisas nunca se passam como nós inicialmente pensamos
e, à medida que avançamos na idade, o passado vem ter connosco de várias formas
e nem sempre pacífica. Foram os almoços da Companhia, ir à procura das
fotografias antigas, olhar para as imagens e tentar lembrar os nomes, acabando por
pôr em marcha um mecanismo de recordações e afectos que julguei já não existir.
Depois, aconteceu encontrar amigos ao longo dos anos
seguintes e, quando esperava alguma solidão, eles multiplicaram-se e enchem
hoje muitos álbuns de memórias que nos ligam, forjadas em situações iguais ou
parecidas, que criam novos laços a todo o momento.
Este é um projecto a caminho dos 8 anos, inicialmente sem pretensões de o ver
passado a livro, o que acabou por acontecer.
Nele tento transmitir sem ódios, sem paixões sem remorsos,
sem falsas modéstias sem puritanismos, sem vencedores nem vencidos, sem
saudades excessivas que me toldassem o raciocínio, sobre um tempo que passou da
minha juventude do qual ficaram os rostos e datas, que jamais poderei esquecer. Pelo menos foi sempre essa a minha intenção.
Está claro o que outros pensam de nós, está um bocado além do
que podemos fazer. Porque ao nortearmo-nos pelos nossos princípios e seguirmos
os nossos impulsos ao expor o que achamos correcto, nunca cederemos ao mais
fácil, e assim nunca agradaremos ao mesmo tempo
a gregos e a troianos.
O que está dito está
dito e só o oiro agrada a todos.
Pode ter sido mal exposto ou mal interpretado, mas ficou
gravado assim e assim ficará na versão que cada um julgar mais consentânea com
a sua forma de pensar, ou no seu juízo de valor.
O tempo ensinou-me que não há verdades nem certezas
absolutas.
Nada há a fazer quanto a isso, mas também nada pretendo
fazer, pois alterar o que vi ou que penso sobre o que me levou a ir combater em
terras da Guiné ainda hoje está inalterável na minha cabeça - negá-lo seria uma desonestidade a que nunca
me sujeitaria.
Porventura as minhas motivações ou razões serão iguais ou
parecidas às de milhares de jovens que para lá foram ao longo dos 13 anos de
guerra, com a generosidade e ingenuidade dos nossos 20 anos.
Resta-me assim esperar que para além do que possam discordar,
vejam a honestidade com que apresento à vossa consideração as passagens de vidas
sem nada de extraordinário, mas verdadeiras.
Não podia escrever este livro de outra maneira. Ele não aconteceu, foi acontecendo lentamente e foi assim que
amadureceu.
Nestes anos muita coisa se alterou, muitos partiram, mas também muitos chegaram
para me dar alento e mostrar que não era em vão o trabalho a que meti ombros.
Todos deixaram marcas, no tempo que passei com eles. São as suas vidas,
histórias e a sua riqueza humana, que valorizaram o que escrevi.
Nada mais valioso do que poder fazer deles também autores, de
que me servi na concepção deste livro.
Nada teria sido escrito sem as suas palavras, sem as nossas
conversas, sem as suas vivências e o seu . incentivo ou as suas críticas.
Espero que não o entendam como relatório de operações pois
não é disso que se trata. Trata-se de situações vividas, compiladas, reunidas
sem rigor histórico. Interessam sim as personagens, todas elas reais, de carne
e osso, que comigo conviveram em dado momento bom ou mau.
As dúvidas foram e são muitas, certezas praticamente
nenhumas. Não há volta a dar.
As razões foram tão diferenciadas como diferenciadas foram as
condições e evolução ao longo dos anos
da guerra. Alterou-se o armamento, o equipamento, mas também a maneira de
encarar o conflito. Também foi crescendo a contestação ao mesmo.
O estado de espirito com que foram os jovens em 1962, terá
sido bem diferente dos que foram comigo em 1971.
Mas nenhum livro porá uma pedra final sobre o assunto e a
discussão sobre o conflito, bem como as consequências do fim dele, as condições
da nossa retirada do teatro de operações, alimentarão as tertúlias de ex-combatentes
durante muitos anos.
Diz-se que a História só deve ser escrita de 100 em 100 anos,
por isso só após o nosso desaparecimento físico o que se escreveu merecerá a
atenção de historiadores que, livres da nossa visão apaixonada, sem terem que
tomar partido, sem terem que dizer o que esteve certo ou que esteve errado,
talvez consigam colocar-nos no lugar da História, lugar esse que será de todos
os ex-combatentes por direito e sem excepção.
Disse anteriormente que foi um processo solitário, resta-me
também deseja-lo solidário.
Naquele tempo tínhamos pouco tempo para sermos meninos e
jovens, mas não sei se foi a Tropa que Fez de Mim um Homem.
A todos os presentes quero agradecer a vossa presença, que
encaro como testemunho vivo da vossa estima. Bem hajam por isso.
Quero aqui deixar uma
palavra especial para o Luís Graça, para Hélder Valério, Carlos Vinhal,
ao Belarmino Sardinha, ao José Brás e ao
dr. Nuno Miguel Ferreira Oliveira que fez a correcção de texto.
Por último, quero agradecer à minha mulher e filha, por tudo
o que me deram ao longo das suas vidas, em que não contabilizaram nem
regatearam o seu amor.
Sem elas nunca seria o homem que sou.
Muito obrigado.
Juvenal
Amado
E, para terminar, uma última foto, com dizeres da autoria do próprio Juvenal Amado... Ele lá sabe!