quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

P750: É EM 23 DE JANEIRO

Em Dezembro chamámos a atenção no blogue para a presença do Juvenal Amado no nosso convívio de Janeiro, em que irá fazer a apresentação do seu novo livro, "A Tropa vai fazer de ti um Homem".

Referimos também que nessa ocasião a obra estará disponível para compra (preço 15 €), revertendo 2 € em cada livro vendido para apoio a combatentes necessitados - uma oferta generosa do nosso camarigo Juvenal.

Não queremos agora deixar de referir que o lançamento oficial deste livro ocorrerá uns dias antes (em 23 de Janeiro, pelas 16H30) no Chiado Clube Literário & Bar, em Lisboa, conforme poderão ver no cartaz promocional reproduzido em baixo.

Uma boa razão para o pessoal que mora em Lisboa e arredores estar presente neste evento, dando uma forcinha a este nosso camarada e acompanhando-o num momento importante para ele. O Juvenal irá certamente apreciar o nosso apoio!



domingo, 10 de janeiro de 2016

P749: AVENTURAS E DESVENTURAS EM LUANDA

DE COMO PASSEI A SER LADRÃO DE

CORTES DE FAZENDA…


Luanda, Março de 1975.

Depois de uma noite “complicada”, porque envolveu muitos copos e muitas horas, no regresso a casa, entro, sem querer, numa rua sem saída que terminava num passeio muito alto.

O carro embate com o para-choques no passeio, eu vou com as ventas ao para-brisas que fica estilhaçado, e a minha cara transforma-se rapidamente num filme de terror com cortes por todo o lado e sangrando abundantemente.

Os copos anestesiam um pouco a coisa e saio do meu carro pelo meu pé, dirigindo-me à rua principal.

Aqui falha-me a memória se foi alguém que caridosamente me depositou no Hospital de Luanda, ou algum táxi que consegui apanhar, mas dado o adiantado da hora, acredito mais na primeira hipótese.

Dou então comigo no hospital a ser cozido na cara a sangue frio, sem grande desinfecção e lavagem das feridas, de tal modo que passados muitos, muitos anos, ainda andava a tirar pedaços ínfimos de vidros, sobretudo nas sobrancelhas, à medida que eram rejeitados pelo corpo. Enfim, coisas que acontecem!!!

Dispensado pelos médicos, (ou lá quem é que me coseu), parti sozinho à procura da saída do hospital, em tronco nu, visto que a T-shirt que vestia tinha sido cortada no hospital.

Junto à saída do hospital, ou já cá fora (não me lembro bem), tinha à minha espera um ou dois agentes da PSP bem como um Alferes do Exército (com soldados numa Berliet), que me identificaram, tendo-me informado que estava detido por ter assaltado uma loja de cortes de fazenda.

Julguei que estava mais bebido do que estava, ou que aquilo era uma partida muito parva e sem sentido. Fosse como fosse, invocando a minha recente situação de Alferes Miliciano na Guiné e argumentando não sei muito bem como, lá consegui que o Alferes me levasse na Berliet até ao local do acidente, (em vez de ir com a PSP, naqueles tempos após o 25 de Abril os militares mandavam mais), para lhe provar que tudo aquilo era uma estupidez sem sentido.

Lá chegámos ao local onde estava o meu carro, diga-se de passagem bastante destruído, e qual não é o meu espanto quando verifico que por cima do capot no exterior, bem como nos bancos no interior do carro, estavam diversos cortes de fazenda!!!

O espanto foi total e tive de me render à evidência, permitindo que os militares me levassem para a esquadra da PSP. Aí chegado, convenci os agentes de que precisava de telefonar para resolver de vez aquele assunto, que nada tinha a ver comigo.

Claro que a melhor opção era telefonar para a Base Aérea de Luanda, onde tinha amigos, e até podia ser que o Major Pil Av Luís Quintanilha, (meu particular amigo e companheiro nesses tempos), tivesse chegado de Lisboa e me pudesse ajudar.

Assim não aconteceu e, não sei como, dei comigo a falar com o Major Bessa (*), Piloto Aviador já falecido, que era meu conhecido e amigo desde os tempos da Base de Monte Real, em que eu convivia, (embora mais novo), com os Pilotos da Força Aérea.

Foi-me buscar à esquadra da PSP e com promessas de retorno rápido, etc., e pela “autoridade conferida” aos militares nesse tempo, lá fomos no seu carro, tendo-o eu convencido a voltarmos ao local do acidente.

Aí chegados, (era uma zona de moradias), batemos à porta da casa mais perto do acidente e perguntámos se, por acaso, tinham visto alguma coisa. Não foi preciso ir mais longe, porque o dono da casa informou logo que estando acordado àquela hora da madrugada em que se deu o acidente, tinha antes ouvido barulho na rua e espreitado para perceber o que se passava.

Contou ele que viu dois ou três vultos, carregando os tais cortes de fazenda, e que os mesmos largaram tudo e fugiram quando o meu carro entrou pela rua sem saída. Mais informou, que tendo-me visto ir embora, e como os cortes de fazenda estavam no chão da rua, para não se estragarem os colocou no capot e nos bancos do carro!!!

Trabalho de investigação concluído, foi regressar à esquadra e dizer àquele pessoal que fizessem o trabalho como devia ser!

Ainda hoje estou para perceber porque é que o dono da casa se preocupou tanto com os cortes de fazenda e não comigo??? Mistérios da natureza!!!

A história é verdadeira, mas pode, obviamente, ter algumas lacunas ou imprecisões, dado o tempo já passado, (41 anos), e sobretudo o tempo que naquela altura se vivia com uma guerra civil diária em Luanda, entre os três movimentos políticos angolanos.

E assim passei a ser, durante algum tempo, ladrão de cortes de fazenda!!!


Joaquim Mexia Alves
10 de Janeiro de 2016

(*) Manuel Bessa Rodrigues Azevedo
http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2014/11/guine-6374-p13845-in-memoriam-201.html
(Com a devida vénia à Tabanca Grande, claro!)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

P748: UM POEMA AO CAIR DO PANO

REFLEXÃO SOBRE O TEMPO (OU OS TEMPOS)


Mais tempo estarei depois de agora estar
do que o tempo que já estive até chegar à luz.
A vida, entre chegar e partir, é um alor de vento
que nos traz e nos leva sem tréguas
sem tempo de traçar melhores caminhos.
E é tudo tão arrastadamente monótono
tão dolorosamente igual ao tudo já havido.

Cada ano que desponta e se desnuda
à babujada cobiça dos sonhos e esperanças
é folha branca como as folhas brancas que
desde o acordar da existência se fundiram
no grande livro onde se escreve o tempo e as memórias.

Porém agora quando já a noite se anuncia
o tempo pára. Ergueram-se muros, 
fecharam-se as fronteiras e os segredos,
atearam-se os ódios e libertou-se a besta.
E é tudo tão igual como na génese dos dias.

Teremos sempre por destino esta sina
de nos matarmos uns aos outros
como se a viagem não tivesse outros lugares
para além dos cemitérios,
como se não se soubesse que
após a morte fica o vazio,
como se, de resto, morrer fosse
tão só uma formalidade inevitável.

A vida entre o chegar e o partir é fogo-fátuo
tão breve como as glórias da conquista,
tão banal como a sanha dos algozes,
tão bem-vinda como um riso de criança.

De resto o tempo faz-se sempre anunciar
para que, quem já nasceu, saiba
que existe um percorrer  incessante e inadiável
e que os outros, no casulo da esperança, aprendam
desde o berço, que não é pelo medir do tempo,
renascido a cada ano que começa,
que se atinge a imortalidade.

É o que se diz que dizem os sábios
sempre que Janeiro se anuncia.
 
António Lúcio Vieira
31-12-2015 – 21,00 h
 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

P746: OUTROS NATAIS...

O nosso camarada Zé Belo enviou-nos lá dos confins da Lapónia um link para um texto publicado em http://www.whychristmas.com/customs/hanukkah.shtml, que nos dá a conhecer o Hanukkah, um evento judeu que ocorre em datas próximas das do nosso tradicional Natal. O texto está em inglês e tivemos a iniciativa de o traduzir. Esperamos que a versão portuguesa não fuja muito à mensagem original…

HANUKKAH – O FESTIVAL JUDAICO DE LUZES

Hanukkah é o Festival das luzes judaica, e recorda a rededicação a Deus do segundo templo judeu em Jerusalém. Isto aconteceu nos 160s A.C. (antes do nascimento de Jesus). Hanukkah é a palavra judia para dedicação.

O Hanukkah dura oito dias e começa no dia 25 de Kislev, o mês do calendário judaico que ocorre quase simultaneamente com o mês de dezembro. Porque o calendário judaico é lunar (ele usa a lua nas suas datas), o Kislev pode acontecer desde final de novembro até ao final de dezembro.

Em 2015 o Hanukkah vai da noite de domingo, 6 de dezembro, até à noite de segunda-feira, 14 de dezembro. Já em 2016 o Hanukkah será a partir na noite de sábado, 24 de dezembro até à noite de domingo, 1º de Janeiro.

Durante o Hanukkah, em cada uma das oito noites, uma vela é acesa num menorah (candelabro) especial chamado “hanukkiyah”. Há uma nona vela especial chamada a vela shammash ou serva, que é usada para acender as outras velas. A shammash está normalmente no centro das outras velas, numa posição mais elevada. 

Na primeira noite uma vela é acesa, na segunda noite serão duas, até que todas estão acesas na oitava e última noite do festival. Tradicionalmente as velas são acesas da esquerda para a direita. Uma bênção especial, agradecendo a Deus, é dita antes ou depois de acender as velas e um hino judaico especial é habitualmente cantado. 

O candelabro é colocado na janela da frente das casas para que as pessoas que passam ver as luzes e relembrar a história do Hanukkah. Muitas famílias judias têm uma menorah especial e celebram o Hanukkah.

O Hanukkah é também um tempo para dar e receber presentes, muitas vezes dados em cada uma das noites. Muitos jogos são jogados durante a época do Hanukkah. O mais popular é o pião (iídiche) ou sivivon (Hebraico). Tem  quatro lados com uma letra Hebraica em cada lado. As quatro letras são as primeiras letras da frase “Nes Gadol Hayah Sham”, que significa “Um grande Hayah (milagre) aconteceu lá“. Em Israel o “lá” mudou para “aqui”, por isso diz-se “Nes Gadol Hayah Po”.

O jogador coloca uma peça (moeda, noz ou moeda de chocolate) num pote e o pião é girado. Se surgir a letra “nun” (נ) nada acontece, se for “gímel” (ג) o jogador ganha o conteúdo do pote, se for “hay”(ה) ganha metade do pote e se for “shin” (para “lá” ש) ou “pe” (para “aqui” פ) tem que colocar outra peça no pote e passa a vez à próxima pessoa.

Alimentos fritos em óleo são tradicionalmente consumidos durante o Hanukkah. Os favoritos são “latkes” (panquecas de batata) e “sufganiyot” (donuts fritos)  que são  enchidos com compotas/geleias e polvilhados com açúcar.

A HISTÓRIA POR TRÁS DO HANUKKAH

Cerca de 200 A.C., Israel era um estado no Império Selêucida (um Império governado sob a lei grega) e sob as ordens do rei da Síria. No entanto, eles podiam seguir a sua religião e suas práticas. Em 171 A.C. surgiu um novo rei chamado Antiochus IV, que também se intitulava  “Antiochus Epíphanes”, que significa “Antiochus o Deus visível”. Antiochus  queria que todo o Império seguisse  o modo de vida grego e a religião grega, com todos os seus deuses. Alguns dos judeus queriam ser mais gregos, mas a maioria queria permanecer judeu.

O irmão do sumo sacerdote judeu queria ser mais grego, então ele subornou Antiochus para que fosse ele o novo sumo sacerdote em vez do seu irmão, o qual foi morto! Três anos mais tarde outro homem subornou Antiochus ainda mais para se tornar o sumo sacerdote! Para pagar o suborno, roubou alguns dos objetos de ouro que eram usados no templo judeu.

A caminho de casa, depois de se retirar de uma batalha, Antiochus parou em Jerusalém e descarregou toda a sua raiva sobre a cidade e sobre o povo judeu. Ele ordenou que as casas fossem queimadas, e dezenas de milhares de judeus foram mortos ou tornados escravos. 

Antíochus passou então a atacar o Templo judaico, o edifício mais importante em  Israel para os judeus. Os soldados sírios levaram todos os tesouros do Templo e no 15 de Kislev 168 AC Antíochus colocou uma estátua do Deus grego Zeus no centro do Templo judeu (mas tinha o rosto de Antíoco!). Em seguida, no 25 de Kislev ele profanou o lugar mais sagrado no templo e destruiu os pergaminhos sagrados judaicos.

Antiochus proibiu então a prática da fé e religião judaica (se fossem descobertos eram mortos com toda a família) e transformou o templo num santuário para Zeus. Houve muitos judeus mortos por sua fé. Em breve se iniciou uma rebelião judaica.

Tudo começou quando um antigo sacerdote judeu, chamado Mattathias, foi forçado a fazer uma oferenda a Zeus em sua aldeia. Ele recusou-se a fazê-lo e matou um soldado Sírio! Os filhos de Mattathias juntaram-se a ele e mataram os outros soldados na aldeia. Mattathias era um homem velho e morreu pouco depois deste acontecimento, mas o seu filho Judah assumiu então o comando dos combatentes da liberdade. Judah era apelidado de “Maccabee” , que vem da palavra hebraica para “martelo”. Ele e suas tropas refugiaram-se em cavernas e mantiveram uma guerra clandestina durante três anos. Defrontaram então os sírios em campo aberto e derrotaram-nos.

Quando regressaram a Jerusalém o templo estava em ruínas, ainda ali se mantendo a estátua de Zeus/Antiochus. Limparam então o Templo, reconstruiram o altar judeu e no 25 de Kislev 165AC, exactamente três anos depois dos primeiros acontecimentos, o altar e o Templo foram novamente dedicados a Deus.

Há várias teorias sobre a razão de o Hanukkah ser celebrado durante oito noites. Uma lenda diz que quando Judah e os seus seguidores chegaram ao Templo havia apenas óleo suficiente para queimar por uma noite, mas que ardeu durante oito noites. Outra história diz que eles encontraram oito lanças de ferro e, colocando-lhe velas, usaram-nas para iluminar o templo.

O HANUKKAH E O NATAL


As datas do Hanukkah e do Natal estão associadas pois o 25 de Kislev foi a data em que o Templo foi novamente dedicado a Deus e a nova Igreja escolheu o 25 de Dezembro pois assumiu o aniversário do deus grego Zeus e do deus romano Júpiter.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

P745: ARREPENDIMENTO

CONTO DE NATAL

No frio da sua cela, só e sem alento, sentado na enxerga com a cabeça entre as mãos, pela milionésima vez pensava em tudo o que o tinha trazido até ali, àquela prisão que lhe retirava os anos jovens da sua vida.

Algumas más companhias, o álcool, os “charros”, a falta de encontrar interesses na vida que não fossem os imediatos, os prazeres rápidos e fortuitos, e aquela noite, aquela terrível noite que o tinha mandado directamente para a prisão.

E mais uma vez lhe veio a ideia, uma quase obsessão de fazer para o tempo, de recuar aos primeiros minutos daquela noite e fazer tudo diferente. Sobretudo parar o tempo antes daquele encontrão, que levou aos insultos e que num ápice lhe colocou aquela navalha na mão, que sem qualquer verdadeira razão, tinha espetado violentamente na barriga do outro jovem.

Ah! Pudesse parar ali e ter oportunidade de dizer qualquer coisa como, desculpa, foi sem querer, e seguir caminho na noite.

Agora pensava assim, mas nos tempos que se seguiram a essa noite, durante o julgamento, e nos primeiros anos preso, uma raiva surda, um rancor, um quase ódio, tinham tomado conta dele. Afinal o culpado era o outro, que em vez de se afastar, em vez de ter percebido que o encontrão tinha sido sem querer, se “pôs a mandar vir” com ele, e por isso mesmo ele lhe tinha espetado a navalha na barriga. Morreu, mas a culpa era dele!

Mas os anos de prisão tinham-no amaciado. O sentir a vida tão jovem ainda, correr-lhe por entre os dedos, ali aprisionada, vivendo sem qualquer sentido, colocavam-no perante a realidade de perceber que afinal a culpa tinha sido dele e que o outro apenas tinha reagido como os jovens normalmente reagem. Era um arrependimento que pouco a pouco ia tomando conta do seu coração e curiosamente isso dava-lhe uma sensação de paz e de alívio.

Tinha havido uma audiência, (ou lá o que era), para analisar a sua possível libertação condicional, mas ele nada esperava, porque o seu comportamento anterior no julgamento, e durante os primeiros tempos na cadeia, não augurava nada de bom.

Era dia de Natal, (o que a ele dizia muito pouco ou nada), mas lembrava-se de uma ou duas conversas que tinha tido com o padre da prisão, que lhe tinha explicado de modo muito simples a história de Jesus Cristo, que tinha nascido no Natal e era Filho de Deus, segundo o padre, claro, e que tinha vindo para nos salvar com o seu sacrifício de amor.

Mal não fazia, pensou ele, e, ajoelhando-se no chão da cela, olhou para o Céu e disse: Não sei quem és e se estás aí, ou aqui, mas se me amas e se podes, ajuda-me como quiseres para que não perca totalmente a minha vida.
Levantou-se sem qualquer esperança de ser atendido no seu pedido e nesse momento um guarda chamou-o dizendo que tinha uma visita. Ficou admirado pois não esperava ninguém, mas seguiu o guarda até à sala de visitas dos presos.

Ficou ainda mais admirado e receoso quando viu que a visita afinal eram uma mulher e um homem, nos quais ele reconheceu os pais do rapaz que ele tinha morto naquela fatídica noite.

Não sabia o que fazer, mas o olhar que lhe lançaram e o aceno das mãos pedindo que fosse ter com eles, deram-lhe a necessária segurança para se aproximar, de cabeça baixa, envergonhado.

Não tinha sido nada fácil no julgamento senti-los a olhar para ele com um olhar duro que o trespassava. Mas não era esse o olhar que agora lhe devolviam.

“Estás com certeza admirado de nos ver aqui?” Ouviu ele dizer àqueles pais magoados e tristes.
Com uma voz quase inaudível respondeu: “Sim!”
Eles falaram novamente: “Sabes, temos sabido da tua vida na prisão e sabemos que ultimamente te tens comportado muito bem e que até tens falado com o capelão da prisão.”
“É verdade”, respondeu ele timidamente. “Quero acreditar, mas é muito complicado, depois daquilo que fiz.”

Eles disseram-lhe: “Sabes, nós somos católicos acreditamos em Deus e no seu amor infinito e acreditamos também no seu perdão.”

Olhou para eles admirado e eles continuaram: “Sabes, também que houve uma reunião para decidir a tua liberdade condicional. Nós quisemos estar presente e como nos ensinou Jesus Cristo, quisemos dizer ao juiz e às pessoas que lá estavam que te perdoávamos sinceramente e mais ainda, que tendo sabido do que se passava na prisão contigo, pedimos que te fosse concedida a liberdade condicional.”

Levantou a cabeça, olhou para eles, os olhos encheram-se de lágrimas e não soube o que dizer.

Mas eles acrescentaram: “Nós pedimos e foi-nos concedido que fossemos nós a trazer-te a notícia. Sais hoje em liberdade condicional e esse é o melhor perdão que te podemos dar. Quando saíres daqui do pé de nós, podes ir fazer o teu saco, pois hoje mesmo vais passar o Natal a tua casa.”

Ia dizer qualquer coisa, como obrigado, (sabia lá ele bem o que dizer naquela altura), mas eles interromperam-no e disseram-lhe: “Teremos depois tempo para falar, mas para já agora o que deves fazer é acreditar, verdadeiramente acreditar, que neste Natal, Jesus Cristo nasceu para te salvar.”

Joaquim Mexia Alves
Marinha Grande, Dezembro de 2015



quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

P744: UM EPISÓDIO DE GUERRA NA GUINÉ PORTUGUESA

SEIS HORAS NA VIDA DE UM MILITAR

Na parede de adobe, mal caiada, e onde esverdeadas manchas de humidade alastravam, o calendário do ano de 1963 marcava uma data: 24 de Dezembro.
Com a janela aberta, por onde apenas entrava, na abafada e sufocante noite tropical, uma suspeita de frescura, o jovem oficial miliciano, à luz de uma vela, escrevia: «… Minha Querida Mãe, são 21 horas e 40…»

À luz de uma vela, porque a chama do petromax é alvo demasiado visível para qualquer atirador especial terrorista, alcandorado, ao longe, no cimo de alguma árvore. Mas ouve-se um estampido. Podia bem ser a rolha de uma garrafa de champanhe a saltar…

Ao estampido segue-se, porém o assobio quase imperceptível de uma bala que vai cravar-se na húmida parede de adobe, coisa de um metro acima da cabeça do oficial. Este apaga logo a vela. Depois, às apalpadelas, no escuro, procura o capacete e a pistola.

Quando finalmente sai já o duelo – a tiros de espingarda e rajadas de metralhadora - está a travar-se entre os terroristas (ocultos na floresta) e os seus soldados abrigados por detrás da muralha – só aparentemente frágil – de velhos bidões de gasolina cheios de areia. Entre uns e outros ergue-se a cerca de arame farpado.

Está isolada a pequena força do destacamento de Caçadores. O posto mais próximo é a muitos quilómetros de distância. Antes que amanheça, nenhum auxílio podem esperar estes homens. Mas será que os terroristas se aprestam para um ataque frontal?

Aos soldados e ao oficial também, o que sobretudo os irrita é que aquele inoportuno tiroteio aconteça em noite de Natal, já com a mesa posta para a consoada. E havia broas, uma galinha assada, algumas garrafas de bom vinho.

A noite, entretanto, povoa-se de clarões – as armas de fogo que disparam incessantemente, assinalando cada segundo com um tiro. E as horas passam.

Mas o jovem oficial nem tempo tem para ver as horas no pequeno mostrador luminoso do seu relógio de pulso. E nem sequer pensa no perigo – ali entrincheirado e tendo pela frente um inimigo bem armado, que conhece a palmos o terreno e vê de noite, como o jaguar.

Agora só pensa naquela carta que teve de interromper: 
«…são 21 horas e 40…».
Mas quando é que isso foi?
Era noite de Natal.
E agora? Sim. A meia-noite deve estar próxima. Talvez o padre, algures, já esteja a encaminhar-se para o altar. Mas o jovem oficial não o sabe de certeza – e não pode ter um olhar para o mostrador luminoso do seu relógio de pulso. A pistola-metralhadora palpita-lhe nas mãos como se fosse dotada de vida própria e chispas de fogo, desdobradas em leque, correm, segundo a segundo, em direcção à negra cortina de arvoredo.

No mundo em que não há guerra já decerto agora o sacerdote acabou de celebrar a Missa do Galo.
Aqui, o fogo começa, enfim, a esmorecer.
Naturalmente, os terroristas principiam a retirar, para que os aviões ao amanhecer, se viessem bombardear a floresta, já não os encontrem…

Uma a uma, calam-se as armas automáticas do inimigo. Uma a uma, a intervalos certos, como se houvesse, algures no mato, a batuta de um maestro.

Mas será de facto a retirada? Não será antes o silêncio de mau agoiro que sempre antecede a gritaria de um assalto frontal? Não. É efectivamente a retirada.

E devagar, como se lhe custasse a acordar de um pesadelo, o jovem oficial recolhe ao seu quarto, risca um fósforo, acende a vela, atira para um canto o capacete, que está a queimar-lhe a testa, e suado, exausto, com os nervos num feixe, senta-se, de novo, à mesa para escrever: «… pois agora, minha querida mãe, são 3 horas e 20. Eu e os meus soldados tivemos uma noite de Natal muito divertida. Nem imagina… As broas que nos mandou souberam a pouco. E das garrafas mandadas pelo pai, diga-lhe que não ficou nem uma gota».

21 horas e 40. 3 horas e 20.
Menos de seis horas na vida de um homem. Mas deitado numa padiola, com uma bala na cabeça, o Manuel, o seu impedido, é um corpo que rapidamente arrefece, como no verso de Fernando Pessoa.

Artigo não assinado. Publicado em «O ALCOA» em 8 de Fevereiro de 1964 (Ano XVII-Nº.876), quinzenário da região de Alcobaça onde colaborei durante muitos anos.

NOTA FINAL-Fiz muitas pesquisas para descobrir dois mistérios que resultam deste artigo de O ALCOA”:

1) Quem é o Alferes Miliciano?
Só pode ser da região de Alcobaça. Terá regressado à Metrópole num navio que deixou Bissau em Janeiro de 1964.Há um navio que saiu de Bissau em 17 de Janeiro de 1964.
Já localizei as Companhias e Pelotão de Morteiros que regressaram nessa altura. Esses militares estiveram cerca de dois anos na Guiné onde a guerrilha começa a ter importância no terreno a partir dos primeiros meses de 1963.
(C.Caç. 600, C.Caç. 512, C.Caç. 506, C.Caç. 513, C.Ca. 356, C.Caç. 599.)
Para se ser Alferes Miliciano nesse tempo era preciso ter habilitações literárias no mínimo equivalentes ao 3º. Ciclo dos Liceus (antigo 7º. Ano).
Pesquisei no arquivo da C. M. de Alcobaça os registos de mancebos respeitantes aos anos de 1958, 1959, 1960 e 1961.
Encontrei vários nomes, consegui alguns contactos pessoais mas... nada.

2) Quem é o militar que morreu na véspera de Natal de 1963?
Nos registos oficiais do E.M.E. só há um militar das milícias locais que morreu por acidente em 24 de Dezembro de 1963 – JARGA SEIDI, soldado-atirador da CCS/Bat. Baç. 508, em Contubel.

Com nome de Manuel há um registo em 28 de Dezembro de 1963:
MANUEL RAMALHO CAPELAS,1º.CABO-ATIRADOR, CCAV 567, BINAR.DATA DE FALECIMENTO – 28 DE DEZEMBRO DE 1963.FERIDO EM COMBATE (Mortos em Campanha – Guiné – livro 1, pgs.42).
Não é impossível um engano nos registos mas não é nada vulgar…

Há outras “incoerências” que não encaixam na história: Binar não é um posto fronteiriço e um primeiro-cabo não era habitual ser “impedido” de um Alferes. Por outro lado a CCav 567 só acabou a sua comissão em meados de 1965!
Resumindo e concluindo: Passo a minha angústia e o meu mistério à nossa Tabanca do Centro. Alguém alguma vez ouviu alguma coisa deste ataque a uma pequena força de um destacamento de Caçadores na noite de Natal de 1963?

«…Menos de seis horas na vida de um homem. Mas deitado numa padiola, com uma bala na cabeça, o Manuel, o seu impedido, é um corpo que rapidamente arrefece, como no verso de Fernando Pessoa.»

«…Malhas que o Império tece
(O Manuel) Jaz morto e apodrece…».
___________

A minha intenção ao evocar o “Soldado Desconhecido” desta história – o Manuel – é acima tudo de homenagem e de respeito. Se não houver respeito - melhor ainda, se não houver grandeza de alma e memória - Portugal não merece os que morreram em seu nome.

José Eduardo Reis de Oliveira (JERO)
Fur Mil Enf da CCAÇ 675




sábado, 19 de dezembro de 2015

P742: LANÇAMENTO DE UMA OBRA DUM NOSSO CAMARIGO

UM LIVRO DO JUVENAL AMADO

No nosso próximo encontro no dia 29 de Janeiro, para além de festejarmos o nosso 5º aniversário vamos ter também connosco o Juvenal Amado e o seu livro agora editado e lançado “A Tropa vai fazer de ti um homem!”

Homem de coração grande e solidário, quer o Juvenal dar parte da receita da venda do seu livro nesse dia para a ajuda que a Tabanca do Centro dá a alguns combatentes com necessidades. Assim sendo, do valor de venda do livro de 15,00€ (venham preparados para o comprar) 2,00€ reverterão, por vontade dele, para a ajuda aos combatentes.

Claro que a Tabanca do Centro, para além de se sentir honrada com a vontade do Juvenal em trazer o seu livro para o nosso Encontro, também se sente orgulhosa, não só da escrita, mas também da solidariedade do autor, que é um dos “fundadores” da nossa Tabanca do Centro.

Aproveitamos assim para sugerir/pedir que quem quiser comprar o livro o faça nesse dia do Encontro da Tabanca do Centro, para assim poder ajudar os combatentes necessitados e levar também consigo uma boa leitura.

Referiu-nos o Juvenal que o livro também estará à venda nos Encontros seguintes para quem não consiga estar presente em Janeiro, com a mesma receita (2,00€) a reverter para o fundo de apoio aos combatentes.

Ao nosso camarigo Juvenal Amado o nosso forte, grato e amigo abraço. Cá te esperamos de braços abertos.

                 A Tabanca do Centro