domingo, 6 de dezembro de 2015

P734: AO "GOSÉ"!

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O José Seara, ou melhor, o Gosé, segundo Vasco, era, é, um verdadeiro camarigo.

Trazido à Tabanca do Centro pela mão da sua prima Giselda e, portanto, pelo Miguel Pessoa, não precisou dos “padrinhos” para se impor pela sua simpatia, pela sua afectividade, pela sua humildade, e tantas mais virtudes que são sempre apanágio dos homens bons.

Era, é, um amigo, e mais do que um amigo, um camarigo!

E a doença nunca vence os homens bons, porque embora eles possam partir do nosso convívio cara-a-cara, ficam sempre no convívio dos nossos corações.

O “Gosé” é um desses, que mora em nós, faz parte de nós, é um de nós! Um camarigo, verdadeiramente!

Nunca esta “conversa” de camarigos em me chamar “régulo da Tabanca do Centro”, ou “Amado Chefe”, com ternuramente o Vasco da Gama me chamou e chama, pesou tanto sobre mim, ao querer escrever palavras que digam o que me vai no coração, para o “Gosé”, para a sua filha Glenda, (que connosco também esteve), para a sua prima Giselda, (a humildade deve ser característica daquela família), para o Miguel, que se supera em amizade e camarigagem.

Todos os que me conhecem sabem da fé profunda que vivo em Deus, e por isso mesmo, a melhor homenagem que posso prestar ao “Gosé” é pedir ao Senhor da Vida, que o receba no seu eterno abraço de amor, e que acompanhe, acaricie e console, os seus familiares, especialmente a Glenda, que podendo ficar mais “pobre” na terra, fica sem dúvida mais “rica” no Céu, porque o Céu é dos homens bons, dos homens de boa vontade, e o “Gosé” era, é, um deles.

Na Tabanca do Centro não estamos de luto, estamos serenamente recordando o nosso camarigo “Gosé”, que continua connosco, nos nossos corações, nas nossas vidas, nos nossos encontros todos os meses, até todos nos encontrarmos no “Encontro Final”, que será uma festa sem dúvida.

Que Deus receba o “Gosé” no seu eterno descanso e que nós todos nos alegremos serenamente, na tristeza da partida, por termos um camarigo como o “Gosé”.

Abraço a Glenda, a Giselda, o Miguel e a todos os camarigos da Tabanca do Centro nesta hora de tristeza, mas também de gratidão por termos na nossa memória, e na nossa vida, (passada, presente e futura), um homem como o “Gosé”!

Marinha Grande, 6 de Dezembro de 2015
Joaquim Mexia Alves

P733: JOSÉ SEARA

MAIS UM CAMARADA QUE PARTIU

Apareceu nos convívios da Tabanca do Centro pelas mãos do casal Pessoa (era primo da Giselda). 

Tinha feito a sua comissão em Angola mas facilmente se integrou no ambiente dos “guineenses”, sendo por eles bem recebido e ganhando a sua amizade.

Durante a comissão em Angola, devido ao rebentamento de um forno recebeu queimaduras graves que o deixaram às portas da morte, situação de que recuperou depois de meses de sofrimento.

Trabalhou esforçadamente na indústria da panificação ao longo de quarenta anos longe de casa – na Venezuela – de onde regressou há cerca de cinco anos para Portugal,  para junto de familiares e amigos para combater a doença que o atacou, o que fez com grande ânimo e coragem.

Esteve connosco em Monte Real há bem pouco tempo – em finais de Setembro – participando naquele que, longe de o prevermos, seria o seu último contacto com os camarigos da Tabanca do Centro.

Teve neste último ano e meio a felicidade de ter junto de si a sua filha Glenda, que interrompeu o seu trabalho em Londres (onde vive com o marido e filho) para acompanhar e apoiar o pai na sua luta contra a  doença.

O nosso camarigo José Seara (Gosé como amistosamente lhe chamava o Vasco da Gama por causa do seu sotaque espanholado) deu-se finalmente por vencido no passado dia 5 de Dezembro, deixando saudades naqueles que com ele lidaram. Que possa descansar em paz.

A Tabanca do Centro



segunda-feira, 23 de novembro de 2015

P728: DO AMIGO... DA ONÇA

CARTAS ANÓNIMAS

JERO
Nunca vi este tema ser tratado em "blogs" de ex-militares.

Devido às minhas funções de Enfermeiro lidei com um caso que nunca mais esqueci. Por ter sido um caso humano complicado mas também por estar envolvido um amigo. Amigo que passou um mau bocado na Guiné, "mau bocado" que se veio a reflectir na sua vida pessoal depois do regresso. Arrisco até a dizer que essa "carta anónima" terá influenciado toda a sua vida.
Mas vamos por partes.

Toda a gente sabe da importância que o correio tinha para os militares. Para a gente nova há que recordar que nesses velhos tempos não havia cabines telefónicas nos quartéis nem telemóveis nem nada que se parecesse! Havia aerogramas e cartas que nos chegavam uma vez por semana!

Na minha Companhia estabeleceu-se um calendário para os dias da semana que, sendo brincalhão, dizia tudo em relação ao assunto:

Domingo - Dia da Bandeira; Segunda-feira - Antevéspera do Correio; Terça-feira -Véspera do Correio; Quarta-feira - Dia do Correio; Quinta-Feira - Dia do São Comprimido*;  Sexta-Feira = Sexta-Feira e Sábado - Véspera do Dia da Bandeira e Saída do Correio.

(*Em relação ao Dia do São Comprimido recordo que se tomava resoquina para evitar o paludismo).

O correio chegava-nos “pelo ar” em sacos que eram atirados das avionetas para “dentro” dos quartéis.

Sobre o assunto encontrei um relato do Coronel Miguel Pessoa, que aqui transcrevo:

«Nas missões que levavam a efeito por todo o território da Guiné os pilotos sabiam da importância que a chegada do correio tinha para o pessoal exilado nos locais mais recônditos, por ser o principal (às vezes o único) elo que tinham com a civilização.

Sucedeu comigo por várias vezes quando voava no DO-27 que, sobrevoando o território no percurso para o aeródromo de destino, ao passar sobre um aquartelamento, era interpelado por um operador de rádio mais ansioso, de que geralmente resultava uma conversa
 encriptada, mais ou menos nestes termos:

- Águia, Águia (ó aviador), aqui 
XX (código do quartel), informe se tem Sierra (serviço) para este?

- XX, Águia, negativo

- OK. Confirme que não tem Charlie (correio) para este?
                                   
- XX, Águia, negativo

- OK, Águia, Óscar Bravo (obrigado), o Charlie (Comandante) manda uma Alfa Bravo (Abraço) e deseja um Bravo Victor (boa viagem)

- XX, Águia, um Alfa Bravo para vocês. Terminado.

E lá continuava eu para o meu destino deixando para trás um interlocutor desiludido.

Deve-se reconhecer que os SPM (Serviços Postais Militares) tinham em consideração, sempre que possível, a necessidade que o pessoal tinha de receber notícias fresquinhas - das famílias, das namoradas, dos amigos. Por isso, estava bem organizada a distribuição dos sacos do correio, de modo a embarcarem no primeiro avião disponível para o local.

Para além de embarcarem o correio de acordo com as missões planeadas, sempre que surgiam missões inopinadas (como as evacuações ou um transporte inesperado), as Operações do GO1201 alertavam os SPM e estes, sempre que possível, levavam à placa onde se encontrava o AL-III ou o DO-27 o correio para o aquartelamento em causa, por vezes também para outros aquartelamentos próximos, a quem o correio seria enviado por terra, a partir do primeiro.

Também por vezes os pilotos tinham a iniciativa de mandar embarcar os sacos de correio dirigidos a outros locais em que não iríamos aterrar, mas que sobrevoaríamos; claro que não se adequava levar encomendas frágeis, que se pudessem partir, pois a ideia era
 desembarcarmos o saco pela porta lateral quando passássemos a baixa altitude por cima da área do aquartelamento. Mas para o simples correio era uma boa solução de recurso, principalmente em locais isolados sem pista.

Enfim, foi tudo por uma boa causa, que era afinal a de mitigar as saudades dos nossos camaradas em terra por tudo aquilo que tinham deixado lá longe.»

Completado (mais ou menos) o contexto devido para o tema que dá o título a esta crónica, recordo que a melhor maneira de lidar com cartas anónimas era (é) ignorá-las. É tão óbvio que seria desnecessário referi-lo.

Mas numa situação de guerra a milhares de quilómetros da casa quem é que consegue ser tão cerebral?!

Não refiro pormenores pois não seriam exactos dado o muito tempo que entretanto se passou.

Faltavam cerca de 3 meses para o final da comissão. Em cada dia que passava sentíamo-nos mais perto de casa! Na qualidade de enfermeiro e de amigo fui procurado por um camarada que me confessou estar "arrasado" devido ao correio recebido no dia anterior. Uma carta anónima dum "amigo sem nome" dizia-lhe que a sua noiva não estava a respeitá-lo e que andava envolvida com outro homem!

Mais do que medicamentos o que aquele militar precisava era a de uma mão amiga no ombro. E teve-a.

Chegou o dia por que esperámos durante 2 anos e com os nossos corações entre angustiados e esperançosos atravessámos o Oio - sempre na expectativa de uma emboscada ou de uma mina - a caminho de  Bissau para embarcar no "Uige". Tudo correu bem e… cinco dias depois desembarcámos em Lisboa onde nos esperavam as nossas famílias, as namoradas e amigos.

Cada qual foi à sua vida. Durante o ano seguinte corremos Portugal inteiro para estarmos presentes nos casamentos de uns e de outros.

O meu amigo da "carta anónima" foi o último a casar nesta revoada de matrimónios dos ex-combatentes da Guiné. E não contraiu casamento com a "noiva da Guiné" mas com outra jovem que entretanto conheceu.

Os anos passaram e voltei a encontrá-lo várias vezes. Já pai de vários filhos, cada vez mais careca e barrigudo. E a partir de certa altura senti-o um homem só.

Ganhei coragem e pus-lhe uma mão no ombro.
"O que se passa contigo, pá?"

Ele olhou-me um bocado antes de responder e disse-me: - "Lembras-te da "carta anónima!? Não devia ter feito o que fiz. Ela era a mulher da minha vida… Bem gostava de saber quem foi o sacana que escreveu a tal carta. E sabes que ainda a guardo!"

Fiquei sem palavras. E depois de ele se afastar apeteceu-me dizer-lhe: Porque é que não a procuras?

Espero que ele - ou ela - nunca leiam este texto...

JERO

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

P727: UMA RECORDAÇÃO DA BA5

Pelas mãos do nosso camarada Paulo Moreno chegou-nos esta relíquia, uma história em Banda Desenhada incluída no Boletim da BA5, uma publicação editada periodicamente naquela Unidade, sendo este o nº 54, referente a Abril/Maio de 1984.

Esta BD tem a particularidade de ter sido desenhada pelo Sargento Agria, um militar da Unidade que estava colocado nas Operações do Grupo Operacional 51 (GO51) à data em que eu proprio desempenhei funcões na BA5 como Comandante do referido GO51.

Não tendo esta publicação no nosso blogue quaisquer intuitos comerciais, sinto-me à vontade para vos apresentar esta relíquia, com o que pretendo fazer uma modesta homenagem à Base de Monte Real, ao velhinho Sabre F-86 que ali operou durante muitos anos, e principalmente ao Sargento Agria, que lembro com saudade.

Onde quer que ele esteja, sei que apreciará esta singela recordação.


Miguel Pessoa





terça-feira, 17 de novembro de 2015

P726: DO MANUEL MAIA - 14

A FAINA

À mesa do café, pensando em nada,
fruindo de bom tempo na esplanada,
uns versos me lembrei de alinhavar...
p´ra vós "camarigagem", gente boa
que à volta da revista do Pessoa
escreve com prazer de assinalar...

Cria, ilustra, edita e gere
revista de grande impacto
um Pessoa que prefere
não valorizar o facto...


Lá longe, bem na linha d´horizonte,
veleiro cruza o mar mesmo defronte
à praia "Las Galletas" que é a minha...
Gaivotas acompanham o regresso
dos barcos "ganha-pão" que com sucesso
se encheram lá na faina da sardinha...

Na lota, algo ansioso, aguarda o povo
para aceder ao peixe, que de novo,
mercê da quantidade é mais barato...
Cirandam gatos catando festim
que as tripas, as espinhas, peixe ruim,
amigos pescadores lhes dão por trato...

Sorrisos de alegria estão espelhados
nos rostos desses homens tão cansados,
já madrugada cedo no labor...
A rede vinha cheia de pescado
e o barco dessa forma carregado
mostrava a rija fibra/pescador...

Eis quando a "calima"*, de repente
se fecha assim num sopro, estranhamente,
soando está "sarronca"** em tom aflito...
Há barcos ´inda fora por entrar
no porto salvador daquele mar
a angústia é transformada em alto grito...

Neptuno vinca assim, como garante,
que é dele o mando sempre, a todo o instante,
no reino d´água calma ou bem revolta...  
Mostrou-se, desta vez, compadecido,
c´os gritos deste povo em alarido
em preces, porto inteiro, ali à volta...

E entrado foi o barco derradeiro
no porto salvador, como o primeiro,
sardinha prata/viva, em profusão...
O povo e pescadores que horrores padecem
prostrados, de joelhos, agradecem
                                                                        à Santa Candelária em gratidão...

E à virgem negra vão surgir benesses
pagando assim promessas feitas preces
que a Santa Candelária ouvira as gentes...
Poseidon, Virgem Negra ou Neptuno,
acharam ser momento oportuno
p’ra deixar os canários tão contentes...

E aos primeiros alvores da manhã
aqui respiro a aragem fresca e sã
que a maresia impregna bem no ar...
Sentado na varanda vou olhando
os barcos, um a um, que vão zarpando
saindo p´ra um mar chão, a navegar...

E a cada dia a faina se repete
um, dois, dez, quinze, vinte, trinta e sete...
e de repente o mar se enche de gente...
No estender da rede, o coração
augura a fartura desse pão
a cada dia em luta persistente...


Manuel Maia


* Calima --- é o nome que os canários dão à tempestade de areia vinda do Sahara e que por vezes atinge a ilha.
** Sarronca --- é o sinal sonoro dado à navegação aquando do calima ou nevoeiro.