MALDITO MAR
O naufrágio ocorrido há dias na entrada da barra da
Figueira da Foz que causou cinco mortos trouxe-me à memória os gritos
lancinantes que ouvia na minha juventude vivida ali mesmo no Largo da Má
Língua, onde nos invernos mais rigorosos os botes e as bateiras repousavam
serenos, fugidos das ondas alterosas que nas marés mais fortes lambiam as
portas das nossas casas. Corriam os anos cinquenta e os naufrágios dos pequenos
barcos de pesca costeira e também das traineiras ocorriam com alguma infeliz
regularidade.
Numa vila eminentemente piscatória a esmagadora maioria
dos meus amigos de brincadeira e companheiros de escola provinham de famílias
de pescadores e desde cedo me habituei e aprendi a estimá-los e a respeitar a
tão ingrata profissão de seus pais.
Mantenho, felizmente ainda hoje, todas as
amizades de então, feitas na melhor altura das nossas vidas de rapazes livres,
independentemente dos percursos de vida de cada um de nós.
Se no meu tempo de miúdo de dez anos grande parte da
população dependia da pesca, o mesmo acontecia, com muito maior acuidade, nos
tempos do meu pai, nascido em 1910. Recordo-me de o ouvir contar, como só ele o
sabia fazer, as grandes tragédias marítimas a que assistiu e que o marcaram
também no apreço pelos pescadores de Buarcos.
Essa consideração e estima que o meu pai lhes dedicava levou-o a escrever com catorze ou quinze anos (1924/25?) o poema que ele intitulou de Balada do Mar e que é na realidade um grito de revolta contra o mar feroz, cruel e traiçoeiro.
Essa consideração e estima que o meu pai lhes dedicava levou-o a escrever com catorze ou quinze anos (1924/25?) o poema que ele intitulou de Balada do Mar e que é na realidade um grito de revolta contra o mar feroz, cruel e traiçoeiro.
Como foi também Outubro que me levou minha mãe e meu pai,
achei por bem dar à estampa, pela primeira vez, o poema de meu pai.
Vasco da Gama
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BALADA DO MAR
No
mar imenso rugem procelas
Que a
vida roubam aos mareantes;
Fúria
assassina que rasga as velas
Aos
frágeis barcos dos navegantes
Mar traiçoeiro,
mar de pavor
Monstro
sinistro sempre a uivar
Orfãos,
viúvas, pranto e dor
São
obra tua, maldito mar.
A tua
espuma- luar de Janeiro
De
alva brandura, triste e gelado
Parece
arminho imaculado
E é a
mortalha do marinheiro.
Água
maldita, lençol mortuário
De corpos frios, a balouçar
De corpos frios, a balouçar
Brilhas
na noite como um sudário
Num cemitério, feito ao luar.
Num cemitério, feito ao luar.
E
como a fera, que em sua gruta
Cheia
de fome finge dormir
E
está alerta, d'ouvido á 'scuta
Para
melhor a presa atrair
Assim
o monstro finge um sossego
Que é
traição; mas de repente
Ergue-se
uivando, de furor cego
E
espalha a morte, raivosamente...
Goela sinistra e tenebrosa
Tudo
engole sem distinção
Frágil
batel ou nau alterosa
Loura
criança ou velho ancião
Maldito
mar, em ti ocultas
Quantos
cadáveres apodrecidos
E
gangrenados em ti sepultas?
Oh!
tantos, tantos, que o peito sente
Ondas
de pranto em si brotar
Oh!
tantos, tantos, que a nossa mente
De pavor
treme só de o pensar!
Vasco Traqueia da Gama
Nota: No original, um pouco sumido, pode ler-se uma anotação manuscrita da sua professora e amiga,
D. Christina Torres, figura grande da Figueira da Foz na luta pela Liberdade.






























