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segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

P1188: ADEQUADO À NOSSA GERAÇÃO...

Temos o prazer de reproduzir um poema escrito pelo nosso camarigo Juvenal Amado e recentemente publicado no blogue “Luís Graça & Camaradas da Guiné”. Decisão que nos agradou tomar dada a sensibilidade e emoção que emana do poema, a que acresce o facto de este belo texto já estar escondido nas “páginas seguintes” do blogue da Tabanca Grande. Teremos assim a possibilidade de partilhar com mais uns tantos camaradas um poema de grande sensibilidade que dirá muito a grande parte dos nossos camarigos, que passam ou já passaram por momentos idênticos.

Com a devida vénia ao Juvenal Amado e à Tabanca Grande, que publicou este poema.

Os editores

Juvenal Amado
“Caros camaradas,
É costume falarmos das agruras do nosso passado de militares mas hoje cabe-me falar das alegrias do presente, bem como de algumas dores nas costas.
Há um ano nasceu o meu neto Henrique, e como esse acontecimento veio transformar a minha vida de piloto experimental de sofás, bem como umas reconfortantes sestas, numa agitação de parques infantis, sopas e fruta esmagada, fraldas mijadas e, pior que isso, choradeiras e agora já com umas nódoas negras.
Não é nada que milhares de camaradas não tenham passado e perguntarão alguns para quê tanta tragédia. Mas para que servem os momentos felizes se não falarmos deles e dos seus actores, agora que estão aí as castanhas e a água-pé mais logo o vinho novo?
Assim sendo cá vai um poema que as cataratas me deixaram escrever.

Um abraço para todos
Juvenal Amado

PORQUE TARDASTE?


Porque tardaste tanto?
- Não conhecerás se não os meus olhos cansados

As minhas mãos que tremulam
O meu andar pesado e lento
As minhas barbas brancas
O meu cabelo raro.

-Porque tardaste tanto?
Miro-te
Não sabes ainda que o tempo será sempre pouco
Vou guardar o teu sono
Pois os dias em que te contemplo serão curtos
Não te assustes com o vento e trovoada
Que eu rezo a Santa Bárbara.
- Vou ajudar nos teus os primeiros passos
Vou magoar-me com o teu choro
Quero-te mostrar a beleza do mar
Ensinar-te o quanto é suave o odor das árvores
Por recompensa beberei o teu riso
Cada gargalhada tua será um hino.
- Só chegaste no meu entardecer
Fizeste-me renascer
Trouxeste-me amanheceres límpidos
- Porque demoraste tanto a chegar?
Só tenho amor para dar e estórias para te contar.

                                             Juvenal Amado

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

P1173: VELHAS HISTÓRIAS DO JUVENAL AMADO / 2

Mais uma história do nosso camarigo Juvenal Amado...

A PEQUENA E ADORÁVEL MARIAMA

Abriu os olhos de espanto e de medo ao ver a minha Berliet, que entrava pela aldeia levantando nuvens de pó. Virou costas e correu no sentido contrário, abrigando-se nas pernas da mãe que, com alguma curiosidade, nos observava junto da sua cabana destruída.

Mariama era uma bajuda de palmo e meio. Tinha um tom de pele café com leite escuro, os olhos grandes e castanhos. O cabelo todo entrançado com amuletos nas pontas. Vestia uma blusa sem mangas e um pano fula enrolado à cintura. Um ronco, num dos tornozelos dos seus pés descalços, completava a vestimenta.

Parei a viatura, saltei dela com a minha arma e disse-lhe adeus, ao que ela respondeu escondendo-se, ainda mais, na roupa da mãe.


Bangacia após o ataque - 1
Íamos começar a reconstrução de Bangacia, que tinha sido destruída pelos guerrilheiros algum tempo atrás. Sempre achei que aquilo tinha sido um ataque por encomenda.

Assim, quando reconstruímos, fizemos algumas benfeitorias, entre as quais, casas mais espaçosas e telhados de zinco, em vez dos de capim (que tinham que ser mudados de vez em quando), posto médico e escola.

As alterações eram nitidamente do agrado da população. Fizeram-se vários grupos de construção. Sapadores, alguns elementos do Pel.Rec. que tinham conhecimentos de pedreiro e carpinteiro. Também vieram camaradas das Companhias Operacionais, onde pontuava o Saltinho como grupo mais numeroso.

Cada chefe de família tinha que produzir blocos de barro para utilizar na construção da nova casa, para a sua família. Assim, amassavam o barro de cor cinzenta com palha misturada, enchiam um molde e os blocos daí resultantes iam sucessivamente ficando ao sol, até se tornarem duros.

Eu e os outros condutores de Berliet acarretávamos os blocos para o local escolhido pelos seus donos. Escusado será dizer que era preciso pôr ordem nos carregamentos, pois todos queriam ser os primeiros. Assim sempre que não tinha coluna para qualquer lado, lá estava eu logo de manhã a transportar os tijolos de barro, hora para uns, hora para outros.


Bangacia após o ataque - 2
A Mariama espreitava sempre de longe. Eu acenava-lhe e, à hora do lanche, que fazíamos às 10 horas da manhã, oferecia-lhe com um gesto um pouco de pão. Acabava alguém por vir buscar para ela, mas ela nunca vinha.

Como tinha sempre doce da ração de combate, passei a levar-lhe. Mas pouco e pouco as outras crianças, que andavam sempre à nossa volta, foram-na trazendo mais para perto.

Passado algum tempo, mal eu chegava, vinha a correr dar-me mão. Levava-me ao pé da mãe, mulher de talvez vinte e poucos anos, com dois filhos e a nossa heroína.

A idade dela era difícil de descobrir, tendo em conta os filhos e a vida dura das mulheres da Guiné que rapidamente perdiam a sua juventude. O pai era mais velho e tinha outras mulheres, como era costume. A riqueza de um Homem Grande media-se pelo número de mulheres e cabeças de gado.

O nome por que eu era conhecido, fazia-lhes confusão uma vez que Amado era muito parecido com Amadu ou Mamadu. Quando eu o mencionava, os Homens Grandes faziam uma expressão de gozo, metiam a mão à frente da cara – “Heeeeeiiiiiiiiiiiiii nosso cabo é manga de calabanta!” (1). Pensavam que eu estava a gozar com eles.

Mas a Mariana, mal eu chegava, ouvia logo a vozita dela a chamar, “Almadu…. Almadu”, ainda complicou mais o nome. Vinha à procura das guloseimas que no fundo se resumiam a pão, latas de cavala e sardinha. Todo o dia andava comigo para cima e para baixo, em cima da viatura mandando nos outros garotos. Era a mais pequenita de todos.

Junto a um monte de tijolos utilizados
na reconstrução de Bangacia
A reconstrução seguia em bom ritmo. Faziam-se as paredes exteriores dividia-se por dentro em quatro salas iguais, punha-se o vigamento e por último o telhado.

Sempre que se atingia uma fase, assistia-se a estranhas negociações. Os Homens Grandes ofereciam galinhas para serem os primeiros a terem as casas prontas, mas à medida que viam a mesma a ficar concluída, começavam a esquecer-se das promessas.

Os Islamitas são bons negociadores. Então os camaradas diziam que não lhes acabavam a casa e mais, furavam-lhe os tectos todos. Com gestos simulavam um chuveiro, onde eles passariam a tomar banho. Com grande alarido as negociações começavam em cinco galinhas, mas por fim o Homem Grande só dava uma. E levava tempo a negociar.

Nós riamos pois para nós, naquele caso, era tudo uma brincadeira. Entretanto passei a ser recebido na casa da Mariama. Ela pedia-me tudo o que lhe diziam para pedir: “Almadu parte (2) peso”, “Almadu parte lata”, etc, etc... Na medida do possível lá lhe comprei uns chinelos coloridos, que ela nem para dormir os tirava.

A mãe torrava-me mancarra (3) numa panela de ferro e foi ali que provei a bianda (4) com molho da polpa que envolve a amêndoa da palmeira.

Um dia a mãe disse-me, mais por gestos que por fala, se eu queria “levar a Mariama no Lisboa”.  Eu ri-me, fiquei embaraçado e disse-lhe que não era possível.

A idade, para além das dores nas pernas e nas costas, traz também por vezes alguma sabedoria e hoje, quando penso neste episódio, vejo com clareza a mensagem daquela mãe.

Trazer a pequenita comigo era livrá-la da mutilação (5), da miséria, do analfabetismo e de uma esperança de vida que não ultrapassa os quarenta anos. A Mariama terá, se chegou à pré-adolescência, passado por essa prova cruel do Fanado, terá sido vendida por dois sacos de mancarra e um de cola, para ser a 2ª ou 3ª mulher de um homem bem mais velho.

A mãe não terá tido consciência do alcance total do seu pedido. Mas estava no seu instinto de mulher tentar um futuro diferente para a filha.

A reconstrução de Bangacia ficou pronta. Foi um prazer ver aquelas casas alinhadas, com arruamentos largos, os telhados brilhando ao sol.

Passei a ir menos vezes à povoação, embora lá fosse sempre que ia às Duas Fontes. Levava latas de conservas e pão, que trocava com os garotos por laranjas e mangas. Guardava sempre o melhor para a pequenina Mariama.

Um dia também me apareceu no quartel...

No momento que escrevo estas linhas, peço para que o destino lhe tenha reservado um futuro diferente dos milhões de Mariamas que na Guiné sofrem com a pobreza e possivelmente não acreditam que possa haver cura para os seus males.

Juvenal Amado
Ex-1.º Cabo Condutor
CCS/BCAÇ 3872
Galomaro 1972/74

Notas do autor:

(1) Malandro.
(2) Dá-me um escudo
(3) Amendoim.
(4) Arroz.
(5) “Fanado”: trata-se de uma prática horrível, onde se mutilam as meninas nos órgãos genitais. Por todo o Mundo Islâmico é praticado. Há no entanto algumas vozes de mulheres africanas, que fazem uma campanha muito corajosa contra esta prática, que as limita como mulheres inteiras, no pleno direito e uso, de todas as suas capacidades.


terça-feira, 24 de setembro de 2019

P1166: VELHAS HISTÓRIAS DO JUVENAL AMADO / 1

Resolvemos repescar uma série de histórias produzidas pelo nosso camarigo Juvenal Amado e de há muito enterradas nos arquivos do blogue da Tabanca Grande. 

Pensamos que se justifica trazer à luz do dia textos que hoje muitos desconhecem e que mantém totalmente o seu interesse. 

O autor aceitou a nossa proposta, por isso iniciamos hoje esta série, com a devida vénia à Tabanca Grande, que editou estes textos há muuuito tempo...


Esta história é um pouco a história de todos os que embarcaram naqueles anos cinzentos.
Tão jovens, depressa envelhecemos interiormente.
Juvenal Amado

PELA CALADA DA NOITE

No campo militar de Sta. Margarida, o frio naquele mês de Novembro trespassava-me a ponto de me fardar com botas e tudo, depois deitar-me novamente.
Não foi pois com desgosto que disse adeus a CIME e ao seu comandante, o Coronel Maçanita.

Nunca tive dúvida de que seria mobilizado. Em pensamentos antecipados pensava em Moçambique, onde tinha já prestado serviço militar o meu irmão mais velho.
Talvez Angola, onde até tinha família. Mas…

Fui mandado regressar a Abrantes já sabendo que tinha sido mobilizado, não sabia ainda para onde.

Depressa me tiraram as duvidas… Guiné, esse nome tão temido.

Quando cheguei a casa com dois sacos verdes, a minha mãe olhou-me no cimo das escadas e perguntou-me num fio de voz: “Para onde?”

Senti-me tentado em dizer-lhe que ia para outro sítio qualquer. Não podia esconder-lhe e brinquei com o facto, tentando apagar o pânico que vi nos seus olhos. “Mãe, ainda vou fazer o IAO, depois ainda venho de férias e só depois embarco.”

Tentei fazer passar a ideia de que passaria o Natal e talvez para Fevereiro ou Março eu rumaria às terras da Guiné.

As férias passaram a correr - aliás quanto mais me aproximava da data de regresso a Abrantes, mais desejoso de partir estava. Era incapaz de estar naquele meio termo.


O meu pai e a minha mãe pediram-me que escrevesse sempre. Despedi-me: “Até para a semana, pois decerto venho passar o Natal a casa”, menti eu.


Entrei na Porta de Armas naquela madrugada escura e cinzenta. O vulto da 4 L verde-escuro foi ficando mais longe, mas sempre um braço se agitava num longo adeus.

Dobrei a esquina da caserna, esperei um pouco e voltei a espreitar. Lá estava a 4 L imóvel, talvez à espera que o tempo voltasse atrás e eu entrasse nela, de regresso a casa.

Penso que eles se aperceberam que o embarque já estava marcado e que não voltariam a ver-me tão cedo.

Foram poucos os dias que tivemos até à data do embarque, mas deu para cimentar algumas amizades que ainda duram.

Quando entrei na caserna ouvi chamar com aquela pronúncia do Norte: “Condutor, ó condutor, tens aqui lugar, traz as tuas coisas para a nossa beira.”

Na verdade nós já nos conhecíamos, pois tínhamos vindo do RI 6 do Porto para Abrantes no mesmo combóio, quando todos acabámos as nossas respectivas especialidades. O Ivo, ErmesindeLopes, Silva, Félix, Ferreira, Passos, Dias e o Leo, todos do Pelotão de Reconhecimento e Informação.


Assim fui adoptado pelo Pelotão e só mais tarde vim a conhecer os meus camaradas da ferrugem. Ainda ouvi bocas de que eu tinha desprezado o meu Pelotão. Na verdade, acabei por ir parar a outro abrigo, onde se arrumaram os camaradas das mais variadas especialidades, que não tinham tido lugar nos abrigos dos seus pelotões.

Mas voltando a Abrantes, todas as noites aquele grupo saía, bebíamos uns copos, só voltando para o quartel quando já estavam a fechar a Porta de Armas de vez.

Invariavelmente de manhã só me levantava após a visita de algum graduado e mesmo assim, quando ele virava costas deitava-me outra vez. Assim, passava o capitão, batia na cama com uma varinha e chamava: “Oh Zé das canas, então, não te levantas?”

Estas visitas já faziam parte do nosso dia-a-dia. Foi assim que uma manhã, o oficial de dia entrou com aquela desenvoltura dos Operações Especiais a gritar: “Está a levantar e quem não se levantar rapidamente leva uma porrada, que vai parar à Guiné!”

Chegou ao pé da minha cama e gritou-me: “Ó nosso cabo, dê cá já o seu número!”.
Sonolento e cheio de frio, respondi-lhe que só lho dava se ele o mandasse dourar.

O Alferes Armandino fingiu que não ouviu. Assim ele não tivesse ouvido a ordem que o levou ao encontro da morte mais os seus homens no dia 17 de Abril de 1972 na emboscada do Quirafo (*).


Mandam que nós arrumássemos as nossas coisas e despejássemos a caserna até às 22 horas. Para não haver dúvida, passam revista e fecham a porta à chave. Ali ficamos sentados nos sacos e mais bagagem, até cerca da meia-noite.

As Morris, Berliets e Unimogs começam a faina de nos acartar para Estação dos Caminhos de Ferro, no Rossio ao Sul do Tejo. É tudo feito pela calada da noite.

Metidos em comboio especial, só paramos em Lisboa em Sta. Apolónia ainda é noite. Já lá estão os transportes para nos levar até ao cais de Alcântara. Amanhece, mas é uma luz parda com névoa, que paira sobre o rio Tejo ali ao lado.

Uma cozinha de campanha distribui café com leite e pão para o pequeno almoço.

Angra do Heroísmo já espera por nós. A cidade acorda lentamente, mas mais um embarque, depois de 10 anos a ver partir barcos carregados de jovens, já não causa qualquer interesse nem curiosidade.



Não tinha avisado ninguém da data da partida, mas à última hora deu-me vontade de ter alguém a quem dar um abraço, que dissesse aos meus pais e irmãos que eu tinha embarcado bem. Telefonei ao meu tio Armando, que em 15 minutos já estava ao pé de mim. Veio com ele a minha prima. 

Conversámos, entreguei-lhe uma carta para ele meter nos correios, mas com a condição de não dizer que tinha estado comigo até a mesma chegar ao destino. Quando os meus pais receberam a carta, já estava com dois dias de mar alto...

Vem a ordem para se começar a embarcar por Companhias, olho em volta o nevoeiro que não deixa ver para além de duzentos metros.

Subo para o navio, fico a olhar para o cais onde se dão os últimos abraços, ainda se contêm as lágrimas.

Já estamos todos a bordo. 

O navio solta três vezes o urro das suas sirenes.

Um alarido percorre aquela mancha verde de soldados, já estamos afastados do cais. Um enorme e estrondoso silvo de assobios ecoa pelo cais, olho para esplanada do mesmo e vejo os lenços, a mole humana parece varrida por uma rajada, vão tombando aqui e ali as mães, irmãs e namoradas que tinham até ali resistido ao seu próprio drama.

O nevoeiro vai engolindo Lisboa, ainda se vê ou está gravado nos meus olhos aquela mancha cinzenta do cais com braços acenando.

Quando voltar a esse lugar, será de certo num dia mais feliz, mas nunca apagará da minha memória a enorme tristeza da partida.

Juvenal Amado
ex-1º Cabo Condutor
CCS /BCAÇ 3872

(*) -  Trágica  emboscada no Quirafo, em 17 de Abril de 1972, de que resultaram onze militares mortos e um desaparecido.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

P884: É UM BARDO PORTUGUÊS...

Envia-nos o nosso camarigo Juvenal Amado esta "Ode ao Cozido", pretensamente cozinhada por um tal Chatotorix - diz ele... Bom, que lhes faça bom proveito! Mas não abusem...



segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

P754: NO LANÇAMENTO DO LIVRO DO JUVENAL AMADO

"A TROPA VAI FAZER DE TI UM HOMEM!"

A sala do Chiado Clube Literário e Bar, na Galeria Comercial Tivoli Forum, em Lisboa, mostrou-se pequena para albergar o grupo de amigos do Juvenal Amado que quiseram estar presentes na apresentação do seu livro “A Tropa vai fazer de ti um Homem!”.


Correndo o risco de falhar nomes dos combatentes presentes (o escriba de serviço limita-se a referir aqueles que conhece…) pudemos registar a presença do Virgínio Briote, Cláudio Moreira, Manuel Joaquim, Carlos Silva, José Brás, Rui Pedro Silva, Armando Pires, Hélder Sousa, Giselda Pessoa e Miguel Pessoa, para além de outros bloguistas (caso da Felismina Costa), amigos pessoais do Juvenal e seus familiares – a esposa Manuela e a filha Vanessa.

Na mesa, para além da representante da Editora e do autor, esteve o nosso camarada Helder Valério Sousa, convidado pelo Juvenal para apresentar a obra… e o perfil do nosso camarigo Juvenal, de que realçou o seu carácter de homem bom, solidário e amigo do seu amigo, características bem vincadas no texto que escolheu para ler, um pequeno episódio incluído no livro agora publicado.


Precavido, o Juvenal tinha preparado a sua intervenção escrita, cuja leitura foi dificultada pela emoção do momento, o que levou o Hélder Sousa a terminar a leitura do texto preparado pelo autor do livro.

Verificámos uma boa afluência de pessoal interessado na aquisição do livro, que o Juvenal  teve o gosto de autografar, antes e depois da sessão de apresentação.

Fica para o fim uma foto do nosso camarada Juvenal Amado, um homem feliz com esta sua realização, na companhia da filha Vanessa, de uma amiga de família - a Rosa Caramba, viúva de um seu camarada - e da esposa Manuela.


Reproduzimos mais em baixo a intervenção do nosso camarada Juvenal Amado, lida (a meias com o Hélder Sousa...) no decorrer deste encontro.

E lembramos que no próximo dia 29 de Janeiro o Juvenal estará presente em Monte Real para apresentar esta sua obra aos camarigos da Tabanca do Centro, por ocasião do seu 50º Encontro, uma segunda oportunidade para quem quiser adquirir o livro agora editado.


Miguel Pessoa


A INTERVENÇÃO DO JUVENAL AMADO

Caros camaradas, amigos e familiares:

Poderá discutir-se até à exaustão,  os benefícios ou malefícios de se ter ido ou não à tropa.

Deixar o emprego, a namorada, a casa e o conforto da casa paterna, perder a identidade e passar a ser um número mecanográfico.

A partir dali perdíamos a autonomia social, mandavam em nós até nas pequenas coisas, como se fez a barba ou não, a enorme chatice que era ter um botão desabotoado, as botas mal engraxadas, não se poder sair sem licença prévia, perder o direito de nos vestirmos como nos aprouvesse e termos que cumprimentar até com quem estávamos chateados, no caso de ser nosso superior.

Por outro lado ir para a tropa era como chegar à idade adulta, sair da alçada da família, satisfazer algum fascínio pelas armas e, porque não, algum desejo de aventura.

Sem esperar arranjámos amigos. Embora sem saber, esses ficaram para toda a vida  
Eles foram chegando e partindo engolidos pelas rápidas transformações que a vida militar ditava. 

Depois de mobilizados, encontrávamos os que connosco viveram mais tempo, nos destacamentos no tempo que duraram as comissões e quando estas acabaram, despedimo-nos. Muitos de nós não nos tornámos a ver, o que à partida parecia impossível dado os laços que se criaram em zona de conflito.

Desembarcado, rapidamente tentei esquecer aqueles dois anos e pico e durante 20 anos limitei-me a trocar alguma mensagem, alguma visita a dois ou três, fui ao casamento do Ivo, do Caramba e do Silva. Conheci os filhos bebés.

Mas as coisas nunca se passam como nós inicialmente pensamos e, à medida que avançamos na idade, o passado vem ter connosco de várias formas e nem sempre pacífica. Foram os almoços da Companhia, ir à procura das fotografias antigas, olhar para as imagens e tentar lembrar os nomes, acabando por pôr em marcha um mecanismo de recordações e afectos que julguei já não existir.

Depois, aconteceu encontrar amigos ao longo dos anos seguintes e, quando esperava alguma solidão, eles multiplicaram-se e enchem hoje muitos álbuns de memórias que nos ligam, forjadas em situações iguais ou parecidas, que criam novos laços a todo o momento.

Este é um projecto a caminho dos  8 anos, inicialmente sem pretensões de o ver passado a livro, o que acabou por acontecer.

Nele tento transmitir sem ódios, sem paixões sem remorsos, sem falsas modéstias sem puritanismos, sem vencedores nem vencidos, sem saudades excessivas que me toldassem o raciocínio, sobre um tempo que passou da minha juventude do qual ficaram os rostos e datas, que jamais poderei esquecer. Pelo menos foi sempre essa a minha intenção.

Está claro o que outros pensam de nós, está um bocado além do que podemos fazer. Porque ao nortearmo-nos pelos nossos princípios e seguirmos os nossos impulsos ao expor o que achamos correcto, nunca cederemos ao mais fácil, e assim nunca agradaremos ao mesmo tempo  a gregos e a troianos.

 O que está dito está dito e só o oiro agrada a todos.

Pode ter sido mal exposto ou mal interpretado, mas ficou gravado assim e assim ficará na versão que cada um julgar mais consentânea com a sua forma de pensar, ou no seu juízo de valor.

O tempo ensinou-me que não há verdades nem certezas absolutas.

Nada há a fazer quanto a isso, mas também nada pretendo fazer, pois alterar o que vi ou que penso sobre o que me levou a ir combater em terras da Guiné ainda hoje está inalterável na minha cabeça -  negá-lo seria uma desonestidade a que nunca me sujeitaria.

Porventura as minhas motivações ou razões serão iguais ou parecidas às de milhares de jovens que para lá foram ao longo dos 13 anos de guerra, com a generosidade e ingenuidade dos nossos 20 anos.

Resta-me assim esperar que para além do que possam discordar, vejam a honestidade com que apresento à vossa consideração as passagens de vidas sem nada de extraordinário, mas verdadeiras.

Não podia escrever este livro de outra maneira. Ele não aconteceu, foi acontecendo lentamente e foi assim que amadureceu.

Nestes anos muita coisa se alterou,  muitos partiram, mas também muitos chegaram para me dar alento e mostrar que não era em vão o trabalho a que meti ombros. Todos deixaram marcas, no tempo que passei com eles. São as suas vidas, histórias e a sua riqueza humana, que valorizaram o que escrevi.

Nada mais valioso do que poder fazer deles também autores, de que me servi na concepção deste livro.

Nada teria sido escrito sem as suas palavras, sem as nossas conversas, sem as suas vivências e o seu . incentivo ou as suas críticas.

Espero que não o entendam como relatório de operações pois não é disso que se trata. Trata-se de situações vividas, compiladas, reunidas sem rigor histórico. Interessam sim as personagens, todas elas reais, de carne e osso, que comigo conviveram em dado momento bom ou mau.

As dúvidas foram e são muitas, certezas praticamente nenhumas. Não há volta a dar.

As razões foram tão diferenciadas como diferenciadas foram as condições e evolução  ao longo dos anos da guerra. Alterou-se o armamento, o equipamento, mas também a maneira de encarar o conflito. Também foi crescendo a contestação ao mesmo.

O estado de espirito com que foram os jovens em 1962, terá sido bem diferente dos que foram comigo em 1971.

Mas nenhum livro porá uma pedra final sobre o assunto e a discussão sobre o conflito, bem como as consequências do fim dele, as condições da nossa retirada do teatro de operações, alimentarão as tertúlias de ex-combatentes durante muitos anos.

Diz-se que a História só deve ser escrita de 100 em 100 anos, por isso só após o nosso desaparecimento físico o que se escreveu merecerá a atenção de historiadores que, livres da nossa visão apaixonada, sem terem que tomar partido, sem terem que dizer o que esteve certo ou que esteve errado, talvez consigam colocar-nos no lugar da História, lugar esse que será de todos os ex-combatentes por direito e sem excepção.

Disse anteriormente que foi um processo solitário, resta-me também deseja-lo solidário.

Naquele tempo tínhamos pouco tempo para sermos meninos e jovens, mas não sei se foi a Tropa que Fez de Mim um Homem.

A todos os presentes quero agradecer a vossa presença, que encaro como testemunho vivo da vossa estima. Bem hajam por isso.

Quero aqui deixar uma  palavra especial para o Luís Graça, para Hélder Valério, Carlos Vinhal, ao Belarmino Sardinha, ao José Brás  e ao dr. Nuno Miguel Ferreira Oliveira que fez a correcção de texto.

Por último, quero agradecer à minha mulher e filha, por tudo o que me deram ao longo das suas vidas, em que não contabilizaram nem regatearam o seu amor.

Sem elas nunca seria o homem que sou.
Muito obrigado.
Juvenal Amado


E, para terminar, uma última foto, com dizeres da autoria do próprio Juvenal Amado... Ele lá sabe!