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quarta-feira, 3 de maio de 2017

P907: A PROPÓSITO DE UMA FOTOGRAFIA

COMBATENTE!


Jaz ali,
no meio da erva por cortar,
debaixo de uma cruz por limpar,
numa campa,
miseravelmente abandonada,
por um estado indigno,
porque indignamente trata os filhos,
que pela Pátria deram a vida.

Sim,
é o estado que é indigno,
porque a Pátria,
a Nação,
Portugal,
não pertence ao estado,
mas a cada Português,
que tem a Cruz de Cristo,
gravada no coração.

Ali,
no meio da erva por cortar,
debaixo de uma cruz por limpar,
numa campa,
miseravelmente abandonada,
não está um Português,
tão somente,
estamos todos
e cada um de nós,
que orgulhosamente,
nos levantámos por Portugal,
e deixámos que a nossa vida,
fosse vida de combatente.
Joaquim Mexia Alves           

quarta-feira, 8 de março de 2017

P890: HISTÓRIAS CURTAS DAS TERMAS DE MONTE REAL - 8

RECOLHA FALHADA…
  
Há muitos anos, quando a Linha do Oeste era a principal via de transporte para chegar a Monte Real, o Hotel Monte Real enviava sempre um motorista e/ou um recepcionista para recolherem os hóspedes na estação de caminho de ferro e os transportarem até ao Hotel.

Um dos motoristas que costumava fazer esses serviços, era uma pessoa estimada em Monte Real, e conhecida pelo seu humor, pelas suas respostas rápidas e desconcertantes.

Não o vou identificar aqui, mas as pessoas de Monte Real, com alguma idade, sabem muito bem de quem se tratava. Infelizmente já não está entre nós.

Conta a história que um dia lhe foi pedido para ir à estação buscar o filho de uma hóspede que estava no Hotel.

As recomendações da senhora foram tantas, explicando que o filho era um conhecido bailarino, muito famoso, e mais isto e aquilo, que não seria possível qualquer engano na recolha de tão “ilustre” passageiro.

Pois o referido motorista lá foi à estação e lá voltou para o Hotel … sozinho!!!

A senhora indignada perguntou-lhe como era possível ele não ter encontrado o seu filho, um bailarino tão famoso e conhecido.

Ao que o motorista lhe respondeu de imediato:

Minha senhora, os passageiros desceram do comboio, mas eu não reconheci ninguém, pelo que assobiei uma das minhas melhores árias!
Como ninguém dançou, calculei que o filho de vossa excelência tivesse perdido o comboio!!!

Poderão não ser estas as palavras exactas, visto que já lá vão muitos anos, e a história já foi contada e recontada milhares de vezes, mas o humor da resposta continua vivo!

Joaquim Mexia Alves

sábado, 14 de janeiro de 2017

P867: DESABAFO

ESTOU CANSADO!

Sento-me nas minhas memórias e deixo-me assim ficar um pouco.

Estou cansado!
E não sei bem do que estou cansado!

Apetece-me voltar a uma ou outra tarde na Guiné, no planalto do Mato Cão, sentar-me na minha cadeira, com uma cerveja na mão, e deixar-me ficar ali, sem ontem, sem amanhã, apenas e só naquele momento.

Como é possível que pelo meio da guerra houvesse momentos em que sentia uma paz imensa, uma quietude silenciosamente empolgante, uma serenidade quase divina que naqueles momentos nada poderia afectar.

No fundo era quase uma fuga do mundo, embora o mundo me rodeasse.

Afinal talvez perceba porque estou cansado.
Provavelmente estou cansado deste mundo que me parece cada vez mais egoísta, o que é curioso, porque cada vez mais se fala em solidariedade, em ajudar os outros, etc., etc.

Tenho sinceramente saudades do tempo em que os homens apertavam as mãos e assim selavam negócios, construíam amizades, estabeleciam sociedades e se ajudavam mutuamente a cumprir os seus compromissos.
De quando não tinha que se interpretar o que os outros diziam, porque o que eles diziam, tal como nós, era límpido e sem subterfúgios, pelo menos de uma maneira geral.

Tenho saudades dos tempos em que se davam dois murros e se levavam três e depois se ia beber uma cerveja, porque estava tudo resolvido.
Agora só se se for beber a cerveja ao hospital enquanto somos tratados da facada, ou do tiro que levámos, por nos termos esquecido do tempo em que vivemos.

Por isso cada vez mais prezo a companhia dos combatentes, em que damos abraços, dizemos asneiras, rimos, gargalhamos, até nos zangamos para depois fazermos as pazes, e por vezes até choramos, mas temos sempre um ombro amigo para enxugar as lágrimas.

Estou cansado, mas só até ao próximo almoço da Tabanca do Centro!


     Monte Real, 14 de Janeiro de 2017
     Joaquim Mexia Alves

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

P862: HISTÓRIAS CURTAS DAS TERMAS DE MONTE REAL - 7


EXCENTRICIDADES…

Habituado que estava a excentricidades de alguns hóspedes, há algumas dezenas de anos, tinha atenção redobrada para alguma coisa fora do normal que visse chegar ao Hotel.

Um dia, (pelo início do Verão), em que estava sentado no terraço da entrada do Hotel, vi chegar um táxi com duas senhoras, (uma de mais idade, a outra mais nova), e quando os porteiros descarregavam a bagagem, não pude deixar de reparar num objecto grande, tapado com uma espécie de lençol e que não deixava ver o que seria e o que traria no seu interior.

As senhoras traziam também na sua mão, uma pequena gaiola com um periquito. Preocupado, pedi a um dos porteiros que se inteirasse do que era tal objecto e o que continha.

Pouco depois, veio ter comigo a rir e disse-me que era uma grande gaiola, com poleiros, mas vazia. Tinha indagado junto das senhoras para o que era tal gaiola, e responderam-lhe então que era o “quarto dos brinquedos do periquito”.
Compreendi então o motivo do riso.

No outro dia, ao fim da manhã, no terraço do Hotel, estavam as duas senhoras sentadas, com a gaiola pequena e o periquito, eis se não quando, chega um táxi, e lá vão os três (as duas senhoras e o periquito) rumo não fazia eu a mínima ideia onde.

Claro que, curioso, fui perguntar ao mesmo porteiro da véspera, que soltando uma gargalhada me disse:

Vão para a praia até à hora do almoço, porque segundo me disseram o periquito precisa de apanhar sol nas penas!!!!

Joaquim Mexia Alves




segunda-feira, 21 de novembro de 2016

P845: HISTÓRIAS CURTAS DAS TERMAS DE MONTE REAL - 6

DUAS HISTÓRIAS CURTAS

Mais duas histórias de um tempo já distante do Hotel das Termas de Monte Real, relembradas pelo nosso camarigo Joaquim Mexia Alves.


1.  PEIXE FRESCO…

No Hotel, naquele tempo (até por causa das dietas termais), havia sempre o cuidado de ter peixe fresco - especialmente pescada - para ser servido às refeições.

Um dia ao almoço, um senhor oriundo de uma cidade que não vou identificar, mas que estaria pouco habituado a comer pescada fresca, protestou junto do Chefe de Mesa, dizendo que o referido peixe não era fresco.

Claro que imediatamente se mandou cozer outra posta de pescada, pensando que pudesse ter havido qualquer problema com a anteriormente servida.

De novo se queixou o referido senhor, e quando o Chefe de Mesa lhe perguntou a razão da reclamação, o senhor afirmou que a posta não se “desfazia” em lascas mais ou menos duras.

Percebemos de imediato o problema e sem nada dizer ao hóspede, mandei o Chefe de Cozinha cozer uma posta de pescada congelada, que também tínhamos para outro tipo de pratos de peixe.

A resposta do hóspede, quando a provou, foi:
Esta sim, é pescada fresca!!!


2.  DESABAFOS…

Naqueles tempos mais antigos não havia tantas locais de diversão como hoje há e, tirando a televisão e um ou outro baile organizado em Monte Real, pouco mais havia para fazer, pelo que as salas de jogo do Hotel se enchiam à noite de senhoras e senhores jogando canasta, bridge, king, etc.

Estava então no Hotel hospedado, como todos os anos, um senhor e sua mulher que viviam em Angola, extremamente simpáticos e de conversa muito fácil e agradável.

Todas as noites se sentavam com outras senhoras e senhores jogando a canasta e conversando, e eu, ainda rapaz adolescente, quedava-me muitas vezes por ali, ouvindo as conversas que contavam sempre histórias muitas vezes interessantíssimas.

Mas o que me chamava mais a atenção naquele senhor, era uma frase que ele sempre utilizava quando a sorte às cartas não lhe sorria.

Nunca me esqueci de tal frase:

«Quando a sorte é maniversa, nada vale ao desinfeliz»


Joaquim Mexia Alves

terça-feira, 18 de outubro de 2016

P829: HISTÓRIAS CURTAS DAS TERMAS DE MONTE REAL - 5

TRÊS DE RAJADA…

1.  Uma cena passada no hall do Hotel

Em frente da recepção, no hall do Hotel, havia uns cadeirões azuis, confortáveis, onde à noite se sentavam, sobretudo, os senhores a conversar.

Um fim de tarde, encontravam-se dois senhores (um deles muito conhecido, mas que obviamente não identifico), conversando animadamente de pé.

A certa altura um deles disse ao outro:
O melhor é sentarmo-nos nestes cadeirões.

Nesse momento começou uma “dança” entre eles, cada um “empurrando” o outro para o cadeirão à esquerda ou à direita, até que um parou e disse:
Ó homem sente-se deste lado, que eu sou surdo do ouvido direito!

Respondeu o outro:
Também eu, caramba!


2.  Consulta nas Termas

Há muitos anos atrás, durante uma consulta médica, uma pessoa queixava-se de vários problemas, para os quais o médico foi prescrevendo os tratamentos em conformidade.
Quase no fim da consulta, o médico perguntou se tinha mais algumas queixas.

Respondeu-lhe a pessoa dizendo que ainda tinha mais um problema, e que era uma “traqueíte”.

O médico disse então que lhe iria prescrever umas inalações, pois com certeza ajudariam a resolver o problema.

Foi então que a pessoa em questão, disse espantada:
Inalações, senhor Doutor?

Ao que o médico respondeu, que sem dúvida nenhuma, as inalações iriam ajudar ao problema de garganta de que se queixava.

Foi então que a pessoa disse, novamente com um ar ainda mais espantado:
Mas ó senhor Doutor, o meu problema é que dou muitos “traques”!!!


3.  Uma linguagem própria…

Entre os colaboradores do Hotel e das Termas havia toda uma linguagem, que quem não estivesse por dentro, não conseguiria entender.

Apenas um exemplo:
Quem, por exemplo, estivesse à hora das refeições dos hóspedes do Hotel, na cozinha, haveria de ficar muito espantado por ouvir os empregados de mesa chegarem à “roda da cozinha” e “gritarem” para o Chefe: «Sai boné!»

Pois bem, o “boné” era pura e simplesmente esparregado de nabiças, que era servido numas taças que à primeira vista se pareceriam com um “boné”!!!


Joaquim Mexia Alves





segunda-feira, 19 de setembro de 2016

P820: HISTÓRIAS CURTAS DAS TERMAS DE MONTE REAL - 4


ACÇÕES BEM INTENCIONADAS…
MAS MAL SUCEDIDAS…

Nos anos 70, o Hotel tinha um Bar, (que fora instalado na antiga sala do bilhar), com uma esplanada para um espaço que ficava entre o edifício do Hotel e a Rua Dr. Oliveira Salazar, mesmo em frente do cinema de Monte Real.

Essa esplanada do Bar ficava, obviamente, junto às janelas de alguns quartos da chamada então, “parte nova”.

Essas janelas tinham umas floreiras que nunca tinham sido ocupadas pelos vasos que as enfeitariam.

Ora um dia em que eu estava sentado na esplanada, esperando a hora do almoço, veio ao meu nariz um cheiro desagradável, e logo tentei encontrar o motivo para tal.

Os meus olhos fixaram-se numa espécie de pequena bacia, que estava na floreira de uma das janelas de um dos quartos do rés-do-chão.

Fui ver o que continha a bacia, e verifiquei que era uma espécie de lama de mau aspecto, que deitava um cheiro muito desagradável.

Julguei ser uma graça de mau gosto de alguém que por ali tinha passado e chamei um dos recepcionistas, dando-lhe ordem para ir ao quarto e atirar fora aquele objecto estranho e mal cheiroso.

Ele assim fez, claro!

Passadas umas horas veio ter comigo e disse-me: 

“Arranjámo-la bonita”!

Perguntei porquê, e ele respondeu-me dizendo que aquela bacia e aquela lama mal cheirosa eram da senhora que estava naquele quarto, e a lama era, nada menos nada mais, uma máscara de beleza que ela costumava colocar à noite na cara!!!

Arranjaram-se as desculpas necessárias e suficientes, logicamente, mas não foi possível substituir a dita cuja lama de beleza!!!

Joaquim Mexia Alves


sábado, 6 de agosto de 2016

P814: HISTÓRIAS CURTAS DAS TERMAS DE MONTE REAL - 3

VIROU-SE O FEITIÇO CONTRA O FEITICEIRO…

Nos anos 60/70 costumava vir para o Hotel um Senhor Doutor, homem de bom trato, mas “esfusiante”, nervoso, que falava alto e dava nas vistas.

Era bastante mais velho do que eu e tinha por costume, infelizmente, vir por detrás de mim e dar-me uma palmada nas costas, que ele julgava “meiga” mas que afinal tinha força demasiada e chegava a magoar.

Avisei-o várias vezes para não repetir tal “cumprimento”, o que nunca surtiu efeito até ao dia em que respondi na “mesma moeda”. Terminaram nesse momento, finalmente, as palmadas nas minhas costas.

Mas o referido senhor, tinha a convicção, ou pelo menos apregoava aos “sete ventos” tal condição, de ser um conhecedor e praticante das artes marciais, vulgo Karate.

Nesse tempo no Hotel trabalhava então um rapaz dos seus 14/15 anos como “groom” (como à época se dizia), já “bem espigado”, e que longe de ser tímido e reservado, sendo respeitador, não deixava de ter a sua personalidade, como se costuma dizer.

As suas funções, para além de ir buscar os jornais, ir ao correio, fazer recados, etc., eram também as de abrir as portas de vai-vem que davam acesso ao corredor que levava à Sala de Jantar, e as portas da referida sala, à hora das refeições.

Ora um dia, por volta das 12H30, hora a que se abria a sala para os almoços (mês de Agosto, Sala de Jantar cheia), o Senhor Doutor ao entrar na sala, e quando o "groom" lhe abria a porta, fez menção, na brincadeira, de executar um “pontapé de Karate” dirigido ao rapaz.

Apanhado de surpresa, o rapaz agarrou-lhe a perna, tendo o Senhor Doutor ficado estendido ao comprido no meio das mesas da Sala de Jantar, para gáudio e risota dos restantes hóspedes.

Teve o senhor o bom senso de não apresentar nenhuma reclamação, foram apresentadas as desculpas necessárias e, pelo menos no Hotel, pararam as “bravatas” sobre os seus dotes de “karateca”.

                       Joaquim Mexia Alves

domingo, 24 de julho de 2016

P813: HISTÓRIAS CURTAS DAS TERMAS DE MONTE REAL - 2

AINDA O RODRIGUINHO…


Mais uma das aventuras do Rodriguinho nas Termas de Monte Real.

Um dia, julgo que ao fim da tarde, o Rodriguinho decidiu tomar um banho de imersão na casa de banho do seu quarto.

A sua mãe preparou a banheira com a água quente e o rapazinho foi para a casa de banho, tendo fechado a porta pelo lado de dentro.

Passado algum tempo sem dar sinal, a mãe preocupada foi bater à porta da casa de banho, mas não obteve resposta.

Ao fim de muito bater à porta, de gritar pelo Rodriguinho e de tudo fazer para ter uma resposta do filho, dirigiu-se à recepção do Hotel, obviamente preocupadíssima.

Um dos porteiros foi com a senhora ao quarto e depois de muito insistir e não obter resposta, decidiu arrombar a porta da casa de banho.

Aberta a porta, a mãe entrou de rompante na casa de banho e deu com o Rodriguinho deitado na banheira de olhos muito abertos e quieto, como se tivesse tido um qualquer ataque e tivesse morrido.

Aos gritos desesperados da mãe, o Rodriguinho levantou-se e deu uma sonora gargalhada!

Claro que a mãe aliviada e sempre condescendente, apenas o repreendeu com palavras mansas.

Foi preciso um grande esforço da parte do porteiro, para não encher o Rodriguinho de bofetadas, que era o que ele merecia!

Poder-se-iam contar histórias quase intermináveis do Rodriguinho, mas deixo aqui esta última, a partir da qual a família de tão “encantadora” criança deixou de frequentar o Hotel.

Naquele tempo a maior parte da roupa do Hotel, (lençóis, toalhas, etc.) era colocada a secar em grandes estendais, na mata das Termas por detrás do Hotel.

Ora um dia em que o estendal estava cheio de lençóis brancos a secar, o Rodriguinho passou por ali e, sujando as mãos na terra, foi-as limpando nos lençóis, acabando por sujar irremediavelmente a maioria dos lençóis, que tiveram de ser novamente lavados.

Quem não achou graça nenhuma à brincadeira foram as empregadas da lavandaria, que decidiram dar uma lição ao “menino”.

Quando este passava por um caminho junto à lavandaria do Hotel, as empregadas despejaram em cima dele um alguidar de água, de tal modo que o Rodriguinho ficou que nem um “pinto molhado”!

A chorar foi fazer queixinhas à mãe, que muito indignada veio por sua vez protestar, junto do meu pai, Olympio Duarte Alves, trazendo pela mão o Rodriguinho.

Enquanto a Senhora demonstrava a sua indignação, o Rodriguinho (sem ela ver) ia dando pontapés na perna do meu pai, que a certa altura não se conteve e dando-lhe um empurrão, fez com que o Rodriguinho fosse parar a um canteiro de canas da índia que estava ali mesmo ao lado.

A indignação da Senhora subiu de tom, e disse então que se ia embora daquele Hotel, ao que o meu pai respondeu, que desde que tinha sabido do último episódio do Rodriguinho com os lençóis já tinha mandado tirar a respectiva conta, pois hóspedes assim não interessavam ao Hotel.

E assim acabaram as “aventuras” do Rodriguinho no Hotel Monte Real, tendo voltado a paz aos hóspedes durante o mês de Agosto.

Joaquim Mexia Alves

quinta-feira, 26 de maio de 2016

P795: HISTÓRIAS CURTAS DAS TERMAS DE MONTE REAL - 1

Iniciamos hoje a publicação de um conjunto de pequenas histórias curtas escritas já há alguns anos pelo nosso camarigo Joaquim Mexia Alves, em que ele relembra pequenos episódios do dia-a-dia do Monte Real Palace Hotel e das Termas a ele associadas, experiências que naturalmente lhe ficaram bem presentes nas suas memórias de infância e juventude.

O MENINO RODRIGUINHO

Há alguns anos, na década de 60, havia uma família (entre muitas) que todos os anos frequentava as Termas e se alojava no Hotel.

Era constituída pela mãe, uma filha mais velha, talvez da minha idade, e pelo Rodriguinho (nome fictício, história verdadeira), que andaria pelos seus 10 ou 12 anos.

As histórias do Rodriguinho são imensas, mas hoje começo por recordar a que todos os anos tinha lugar no exacto dia e momento da chegada da família ao Hotel.

Era sempre no mês de Agosto, por volta da hora do almoço, altura em que o terraço de entrada do Hotel estava cheio de hóspedes à espera da entrada para o restaurante.

A família chegava, saía do seu carro, e o Rodriguinho no meio do terraço com um ar sorridente e desafiante, dizia em alta voz para todos ouvirem:
- “Acabou o sossego! Cheguei eu!”

Mas, entrando nas histórias do Rodriguinho:

Todos os anos vinha para o Hotel, onde passava pelo menos três meses (se bem me lembro), um distinto Senhor Doutor, oriundo dos Açores mas vivendo no Continente, pessoa de trato fácil, muito educado, afável e bonacheirão (no sentido positivo do termo), de quem toda a gente gostava e apreciava a companhia.

Para além de outras, tinha a particularidade de ter sempre no bolso do lado direito dos seus casacos, rebuçados, o que toda a gente sabia, especialmente as crianças que estavam no Hotel com as suas famílias.

Era hábito, pela hora do almoço ou ao fim da tarde, sentar-se nuns cadeirões que havia em frente da recepção, de perna traçada, observando e cumprimentado o corrupio de gente que naqueles meses de Verão ia passando no hall do Hotel.

Ora numa dessas tardes em que calmamente estava sentado de perna traçada, o Rodriguinho andava a correr pelo hall do Hotel incomodando obviamente as pessoas e fazendo pior, ou seja, sempre que passava pelo Senhor Doutor, dava-lhe um pontapé no pé da perna traçada.

Aquilo já estava a incomodar muita gente, mas o distinto Senhor fazia gestos no sentido de não se incomodarem com isso.

A certa altura em que o Rodriguinho mais uma vez ia a passar, o Senhor Doutor, colocando “ostensivamente” a mão no bolso direito do casaco, chamou-o.

E aí vem o Rodriguinho todo contente à espera do rebuçado.

Só que quando chegou ao pé do Senhor Doutor, estendendo a mão para o rebuçado, levou foi uma estalada na cara, e ouviu-o dizer:
- “E agora vai lá fazer queixa à tua mãe!”


Joaquim Mexia Alves

domingo, 10 de janeiro de 2016

P749: AVENTURAS E DESVENTURAS EM LUANDA

DE COMO PASSEI A SER LADRÃO DE

CORTES DE FAZENDA…


Luanda, Março de 1975.

Depois de uma noite “complicada”, porque envolveu muitos copos e muitas horas, no regresso a casa, entro, sem querer, numa rua sem saída que terminava num passeio muito alto.

O carro embate com o para-choques no passeio, eu vou com as ventas ao para-brisas que fica estilhaçado, e a minha cara transforma-se rapidamente num filme de terror com cortes por todo o lado e sangrando abundantemente.

Os copos anestesiam um pouco a coisa e saio do meu carro pelo meu pé, dirigindo-me à rua principal.

Aqui falha-me a memória se foi alguém que caridosamente me depositou no Hospital de Luanda, ou algum táxi que consegui apanhar, mas dado o adiantado da hora, acredito mais na primeira hipótese.

Dou então comigo no hospital a ser cozido na cara a sangue frio, sem grande desinfecção e lavagem das feridas, de tal modo que passados muitos, muitos anos, ainda andava a tirar pedaços ínfimos de vidros, sobretudo nas sobrancelhas, à medida que eram rejeitados pelo corpo. Enfim, coisas que acontecem!!!

Dispensado pelos médicos, (ou lá quem é que me coseu), parti sozinho à procura da saída do hospital, em tronco nu, visto que a T-shirt que vestia tinha sido cortada no hospital.

Junto à saída do hospital, ou já cá fora (não me lembro bem), tinha à minha espera um ou dois agentes da PSP bem como um Alferes do Exército (com soldados numa Berliet), que me identificaram, tendo-me informado que estava detido por ter assaltado uma loja de cortes de fazenda.

Julguei que estava mais bebido do que estava, ou que aquilo era uma partida muito parva e sem sentido. Fosse como fosse, invocando a minha recente situação de Alferes Miliciano na Guiné e argumentando não sei muito bem como, lá consegui que o Alferes me levasse na Berliet até ao local do acidente, (em vez de ir com a PSP, naqueles tempos após o 25 de Abril os militares mandavam mais), para lhe provar que tudo aquilo era uma estupidez sem sentido.

Lá chegámos ao local onde estava o meu carro, diga-se de passagem bastante destruído, e qual não é o meu espanto quando verifico que por cima do capot no exterior, bem como nos bancos no interior do carro, estavam diversos cortes de fazenda!!!

O espanto foi total e tive de me render à evidência, permitindo que os militares me levassem para a esquadra da PSP. Aí chegado, convenci os agentes de que precisava de telefonar para resolver de vez aquele assunto, que nada tinha a ver comigo.

Claro que a melhor opção era telefonar para a Base Aérea de Luanda, onde tinha amigos, e até podia ser que o Major Pil Av Luís Quintanilha, (meu particular amigo e companheiro nesses tempos), tivesse chegado de Lisboa e me pudesse ajudar.

Assim não aconteceu e, não sei como, dei comigo a falar com o Major Bessa (*), Piloto Aviador já falecido, que era meu conhecido e amigo desde os tempos da Base de Monte Real, em que eu convivia, (embora mais novo), com os Pilotos da Força Aérea.

Foi-me buscar à esquadra da PSP e com promessas de retorno rápido, etc., e pela “autoridade conferida” aos militares nesse tempo, lá fomos no seu carro, tendo-o eu convencido a voltarmos ao local do acidente.

Aí chegados, (era uma zona de moradias), batemos à porta da casa mais perto do acidente e perguntámos se, por acaso, tinham visto alguma coisa. Não foi preciso ir mais longe, porque o dono da casa informou logo que estando acordado àquela hora da madrugada em que se deu o acidente, tinha antes ouvido barulho na rua e espreitado para perceber o que se passava.

Contou ele que viu dois ou três vultos, carregando os tais cortes de fazenda, e que os mesmos largaram tudo e fugiram quando o meu carro entrou pela rua sem saída. Mais informou, que tendo-me visto ir embora, e como os cortes de fazenda estavam no chão da rua, para não se estragarem os colocou no capot e nos bancos do carro!!!

Trabalho de investigação concluído, foi regressar à esquadra e dizer àquele pessoal que fizessem o trabalho como devia ser!

Ainda hoje estou para perceber porque é que o dono da casa se preocupou tanto com os cortes de fazenda e não comigo??? Mistérios da natureza!!!

A história é verdadeira, mas pode, obviamente, ter algumas lacunas ou imprecisões, dado o tempo já passado, (41 anos), e sobretudo o tempo que naquela altura se vivia com uma guerra civil diária em Luanda, entre os três movimentos políticos angolanos.

E assim passei a ser, durante algum tempo, ladrão de cortes de fazenda!!!


Joaquim Mexia Alves
10 de Janeiro de 2016

(*) Manuel Bessa Rodrigues Azevedo
http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2014/11/guine-6374-p13845-in-memoriam-201.html
(Com a devida vénia à Tabanca Grande, claro!)