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sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

P1189: RECORDAÇÕES DO JERO

ALCUNHAS DO TEMPO DA VIDA MILITAR 
QUE NÃO ESQUECEM / 6

”JUCA”, O MINHOTO PURO

JERO
O Correia era por todos conhecido na Companhia por “Juca”. De estatura meã, a pender para o pequeno, o JUCA não tinha quaisquer complexos por ser baixo. Os homens não se medem aos palmos e, curiosamente, o JUCA tinha uma voz que se ouvia longe e que não o deixava passar despercebido. Onde estava o “JUCA” podia não se ver à primeira vista mas que se ouvia “acima” dos outros era rigorosamente verdade. Dizia com frequência que era “minhoto puro” (natural de Ponte de Lima) e “afinava” a sério quando a sua “casta” era posta em causa.

Era um jovem alegre, bem disposto que ,como militar, não deixava os seus créditos por mão alheias. Furriel de “Armas Pesadas” carregava com galhardia a sua bazuca que, felizmente, não teve que utilizar muitas vezes. Pertencia ao 1º. Pelotão, comandado pelo Alferes Costa. Até se deslocar para Guidage com o seu pelotão pode-se dizer que o Juca foi sempre um militar aprumado e um jovem bem disposto e sem problemas em Binta.

Guardo na memória uma “sacanice” que lhe fiz. Não me orgulho muito da “brincadeira” que não se faz a ninguém... quanto mais a um amigo. A atenuante – a existir – só poderá ter a ver com a idade do autor e com a falta de divertimentos que havia (ou não havia) na vila de Binta...

JUCA... e JERO
O JUCA tinha um medo terrível de injeções. Era um autêntico caguinchas! Quando foram dadas as primeiras vacinas para “a doença do sono” baldou-se. Nós tínhamos registos na Enfermaria e sabíamos que ele estava em falta. Constava – e era verdade por que também a levei – que a vacina por via intramuscular era dolorosa. Essa “má nova” foi passando na Companhia e os cagarolas foram-se baldando ,apesar das recomendações do Serviço de Saúde local...

Chegaram novas vacinas e surpreendentemente o novo medicamento não fazia doer nada... Lá conseguimos ver na Enfermaria os “caguinchas” em falta e finalmente o meu amigo Juca compareceu para o “castigo”. Ainda cheio de dúvidas lá o consegui convencer a deitar-se numa “marquesa”, ao lado de outra marquesa ocupada por outro  militar de que já não recordo o nome. E disse-lhe: – JUCA vou vacinar primeiro este militar e depois ele vai dizer-te se lhe doeu alguma coisa. Ok?

Vacina dada e o militar confirmou. – Não dói nada.

O JUCA ,que estava nitidamente assustado, pareceu ganhar algumas cores. Animei-o - "Descontrai-te e deita as calças abaixo". Finalmente, o JUCA pôs-se a jeito. Preparei a vacina que... era do stock anterior (a tal que doía como o caraças) e lá vai disto. Dei-lhe a injecção e o JUCA... levantou-se da maca que nem um tiro. Julgo que até vomitou. Saiu da Enfermaria com as calças na mão e com agulha ainda espetada no rabo.

Parece que o estou a ver. Foi uma cena autenticamente à Cantiflas... Corri atrás dele, consegui acalmá-lo e tirar-lhe a agulha que lhe enfeitava a nádega. Coitado do JUCA... ainda me agradeceu. Fiquei cheio de remorsos com a minha brincadeira. Só anos depois lhe contei a verdade e, está claro, nessa altura chamou-me tudo menos... bom rapaz. E com razão.

Mas voltando à guerra…O pelotão a que pertencia o JUCA foi escalado para uma “temporada” em Guidage, um posto na fronteira com o Senegal situado a cerca de 20 quilómetros de Binta. Até então nada de complicado tinha acontecido em Guidage, que “cheirava” mais a um espaço para férias do que para guerras. 

Mas um dia – há sempre um dia - aconteceu um facto anedótico que acabou tragicamente. No interior da cerca do arame farpado que fazia fronteira com o Senegal havia uma espécie de “tasca”, que não era “militar” mas que dava para beber um copo. Um “terrorista”, ou simpatizante da guerrilha que combatia a tropa portuguesa, veio beber um copo à tal “tasca” e foi denunciado como “inimigo”. Foi feito prisioneiro mas o destacamento de Guidage não dispunha de prisão.

Foi preparado um pequeno espaço para tal efeito num pequeno anexo exterior a uma morança que não tinha janelas mas apenas uma porta… sem fechadura ! Foi improvisado um “posto de sentinela” no exterior do arame farpado e organizados turnos. Num turno noturno de quatro horas “avançou” então um soldado africano. Aquele militar deverá ter sentido algum tempo depois “os pés frios”, encostou a sua espingarda ao arame farpado da vedação e dirigiu-se à morança onde vivia com a mulher. 

O prisioneiro apercebeu-se que a sentinela se ausentara do seu posto e arriscou sair do seu cubículo. Nas calmas passou por entre as fiadas de arame farpado e pôs-se ao fresco. Nem se preocupou com a espingarda abandonada, com que poderia ter abatido uma ou mais sentinelas.

Horas depois “rebentou a bronca”. O prisioneiro tinha fugido e o soldado (pouco) responsável pela fuga não conseguiu explicar o que acontecera… inexplicavelmente. Foi severamente espancado, agredido de toda a maneira e feitio pelos militares do 1º.pelotão. Começou-se por murros na cara, pontapés por todo o lado e quando acabou “o castigo” o infeliz não dava sinais de vida porque simplesmente estava morto. Ninguém que lhe tinha batido como castigo pensara que lhe podia acontecer o pior. Mas aconteceu.

Dias volvidos um oficial do Batalhão sediado em Farim veio até Guidage para instaurar um processo de averiguações. Chegado ao seu destino o averiguante bebeu uns copos com o comandante do destacamento e o nosso Alferes, supondo pisar terreno firme, narrou em “off” os pormenores dos acontecimentos turbulentos do dia da fuga do prisioneiro e do espancamento que se seguiu na pessoa do soldado africano responsável pela fuga. Cavou o buraco onde ia ser enterrado…

Encurtando razões: O processo chegou ao Tribunal militar, que decidiu castigar os três graduados presentes na altura do espancamento ao nosso militar africano. Foi aplicada uma pena de 24 meses de prisão ao Alferes, 12 meses de prisão a um 1º Cabo e 18 meses de prisão ao JUCA, que era Furriel Miliciano naquele tempo.

Viemos  anos mais tarde a saber pelo JUCA que esta prisão não foi efetiva: passeavam durante o dia por Bissau para “passar o tempo” e à noite dormiam na prisão.

O JUCA
(Foto recente)
Mas os problemas para o JUCA não acabaram quando regressou à Metrópole um ano e meio depois dos seus camaradas da Companhia. Antes do serviço militar ele era  funcionário público numa  Repartição de Finanças e à chegada foi informado de que tinha sido expulso da função pública.

Foram tempos difíceis, mas veio a arranjar outro emprego, a constituir família e a fixar-se na cidade de Aveiro. Cresceu um pouco – para os lados – e continua a falar alto.

Tem feito toda a sua vida na região de Aveiro mas vê-se nele, sem dificuldade, que é “um minhoto puro”. Um bom homem que passou na vida por algumas “guerras” difíceis. E não se esquece da injeção contra o doença do sono que o “amigo” Enfermeiro lhe espetou! Não gosta de falar de guerra e tem faltado a alguns convívios da “675”.

 Mas... tal como nós concorda que na guerra todos os mortos... são demais!
JERO

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

P1187: RECORDANDO "O MEU TENENTE DA GUINÉ"

TRAGÉDIA DO PELOTÃO DE MORTEIROS 980

Poucos dias depois da tragédia que envolveu pessoal do Pelotão de Morteiros nº 980, em 5 de Janeiro de 1965, apareceram cinco corpos a boiar no rio Cacheu, perto de Binta.


Foram recuperados pela nossa tropa e, como Furriel Enfermeiro, tive que me ocupar dos seus restos, nomeadamente no que diz respeito à recolha de objetos pessoais que servissem para a sua identificação.

Objetos pessoais nos bolsos das calças (uma navalha, um espelho de mão) e outras pequenas coisas que já não consigo recordar.

O que nunca mais vou esquecer é que a maioria dos corpos tinha apenas as pernas e um pedaço do tronco com algumas costelas à vista. Uns dias no rio e a presença de crocodilos explicava o estado em que nos tinham aparecido aqueles camaradas. 

Os corpos foram para Farim dado pertencerem ao Pelotão de Morteiros nº 980, com exceção de um, que ajudei a enterrar a Sul do nosso aquartelamento, tendo ficado a sua identificação numa garrafa dentro do improvisado caixão com que foi sepultado.

Pela consulta do livro «Mortos em Campanha», Tomo II – Guiné-Livro 1 da Resenha Histórico Militar das Campanhas de África (1961-1974), vim a saber agora – depois de tantos anos passados -  a sua identificação:

1 - António Domingos Félix Alberto, soldado nº. 2540/63. Está sepultado no Cemitério do Ramalhal. 

2 - António Ferreira Baptista, soldado nº. 2481/63. Está sepultado no Cemitério de Aldeia Gavinha(Alenquer) .

3 - António José Patronilho Ferreira, soldado nº. 2143/63. Natural da de Torrão, Alcácer do Sal. Corpo não recuperado.

 4 - António Maria Ferreira, soldado nº. 3029/63.Natural de Santa Maria-Viseu. Corpo não recuperado.

5 - Arlindo dos Santos Cardoso, 1º. Cabo nº. 1295/63. Está sepultado no Cemitério de Vila Verde, Oliveira do Bairro.

 6 - João Jota da Costa, soldado nº. 3021/63. Está sepultado no Cemitério a Sul de Binta – Margem esquerda do Rio Cacheu.

 7 - João Machado, Soldado nº. 2143/63, natural de Freixomil, Guimarães. Corpo não recuperado. 8 - Joaquim Gonçalves Monteiro, Soldado nº. 2594/63. Está sepultado no Cemitério de Vila Verde, Oliveira do Bairro.

Comandava então o pelotão de Morteiros nº. 980 o Tenente Pedro Cruz, que foi um dos sobreviventes. Meses mais tarde veio a ser o Comandante da Companhia 675, substituindo o nosso Capitão Tomé Pinto. Nunca esqueci a história que me contou do desastre em que esteve envolvido no Rio Cacheu, de que vieram a resultar 8 mortos.



Reencontrei "o meu Tenente da Guiné", já como General na reserva, em 22 de Novembro de 2007. Teve algum simbolismo o nosso reencontro pois aconteceu na ponte da Ribeira da Laje, em Oeiras. Uma ponte entre duas épocas...

À distância reconheci o mesmo sorriso e a postura escorreita e desembaraçada do meu Tenente da «675»... Percorremos rapidamente a ponte entre duas épocas... Quantos caminhos (e degraus) percorreu (e subiu) o jovem oficial com quem tantas vezes conversei ao final do dia na sala da «nossa» secretaria da Companhia!

Quem viveu uma vida normal – sem a passagem pela guerra aos vinte e poucos anos – não pode perceber o que significa um abraço tantos anos depois. Eu tive esse abraço e esse momento. Atrevo-me a usar o plural. Tivemos esse abraço e esse momento!

Recordando a manhã de 5 de Janeiro de 1965 e o General Pedro da Cruz.

JERO

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

P1169: UMA HISTÓRIA SURREAL...

ALCUNHAS DO TEMPO DA VIDA MILITAR 
QUE NÃO ESQUECEM / 5

O “ALCOBAÇA”

JERO

Memória de uma longa conversa com o meu conterrâneo José Peça, um “rapaz” do meu tempo!

Foi no dia 5 de Junho de 1963. Passava pouco do meio-dia. À distância do tempo recorda esse dia… ao minuto. Era Soldado Condutor (condutor auto rodas) da CCS do Batalhão 400 (BART 400). Pediram nessa altura “voluntários” para ir ajudar uma coluna do "392", de Baca, que estava a ser atacada quando vinha a meio caminho em direção a Bessa Monteiro.

O José Peça ficou no quartel sentindo-se na obrigação de me explicar que “na tropa aprendeu cedo que não se devia ser voluntário” para nada. Saiu uma coluna comandada pelo Capitão Moura Borges para "ir dar uma mão" à tropa do "392", ajuda que tinha sido pedida por rádio.
Por volta das 3 da tarde soube o que tinha acontecido.

A cerca de 12 kms. de Bessa Monteiro, num local em que a “picada” estreitava devido a uma “garganta” da montanha a segunda viatura da coluna da CCS rebentou uma mina anticarro, não tendo conseguido chegar ao local da emboscada da "392". Tinham-se registado diversos mortos e feridos.

Lembra-se de os mortos terem chegado “feitos em bocados”. Havia a lamentar 3 mortos da CCS, entre os quais o Capitão Borges. E também havia mortos em Baca da CART 392. Constava que eram 4.

O “Alcobaça” - como era conhecido e tratado na sua companhia - ajudou no que lhe foi possível e, ainda assarapantado pela confusão do momento, lembra-se de passado algum tempo ter sido chamado pelo Comandante de Batalhão, Tenente-Coronel Alberto Ferreira de Freitas Costa.

“Alcobaça”, vai jantar e depois levas os mortos a Ambrizete”.
Nesta parte da narrativa o Zé Peça esclarece-me de algumas dúvidas.
Destino Ambrizete porquê?
Ambrizete ficava a 200 kms. mas tinha cemitério e uma Igreja onde se podiam fazer os funerais. Teria que fazer o percurso onde tinha ocorrido o rebentamento da mina e passar por Baca para transportar para o mesmo destino os outros mortos.

Entre diversos pormenores macabros em relação aos mortos da CCS o Zé Peça lembra-se ainda do que comeu na altura: “bacalhau com batatas”! Porque se lembra deste pormenor ?
Porque que era um "prato" de que muito gostava e não tinha conseguido "tocar na comida".
Algum tempo depois apresentou-se com a sua “GMC” junto ao Comando e carregaram-lhe, em maca, os 3 mortos.

O Tenente-Coronel entregou-lhe os galões do Capitão Borges e disse-lhe em voz baixa que os voltasse a colocar no corpo do Oficial quando tivesse chegado ao seu destino.

- “E quem vai comigo, meu Comandante?”

- “Ninguém. Vais sozinho pois já chegam os mortos que tivemos. Se houver outra mina só teremos mais uma baixa e não duas.”

O José Peça, que sabia que o Comandante de Batalhão tinha estima por si, sentiu um aperto "mitral" mas nada disse e subiu para a viatura. Pôs o motor a trabalhar e arrancou, seguido por duas viaturas com 2 secções. Lembra-se que uma das secções era comandada pelo Furriel Tavares. 

Eram umas seis da tarde. Ainda havia luz de dia mas pouco depois começou a escurecer. 
O “Alcobaça” não acendeu os faróis mas ligou os “olhos de gato” da “JMC”. Em marcha lenta, pois nalguns troços da “picada” os homens do Furriel Tavares seguiam apeados, chegaram ao local onde tinha rebentado a mina.

Foi muito difícil ultrapassar o "buracão", dificuldades que pouco depois aumentaram quando encontraram duas árvores abatidas na "zona de morte" da emboscada que a malta do "392" tinha sofrido.

Os “abatises” tiverem que ser serrados e removidos para a berma para a pequena coluna continuar o seu caminho. Foram horas de angústia que se prolongaram pela noite dentro.

Chegaram a Baca por volta das 4 da manhã. Aí o Zé Peça lembra-se de ter comido alguma coisa. Uma espécie de pequeno almoço. Tinham sido precisas cerca de 10 horas para percorrer 22 quilómetros!

Foram carregados os mortos da “392”- eram 3 e não 4 -  e a coluna “funerária” seguiu a caminho de Ambrizete.

Só, na sua cabine, nem uma vez o Zé Peça olhou para trás, para a sua ”carga”. Sentia um cheiro a morte e um zumbido de moscas… Foram horas e mais horas até Ambrizete. Só, com os seus pensamentos, o Zé Peça olhava para a “picada” atento a qualquer coisa… As sombras da noite foram clareando e quando o amanhecer chegou o seu ânimo melhorou um pouco…

Eram 5 da tarde quando chegou a Ambrizete. Tinham passado cerca de 23 horas desde que tinha saído de Bessa Monteiro! Os corpos começaram a ser descarregados e o “Alcobaça” apressou-se a pôr os galões no cadáver que lhe pareceu ser o do Capitão Borges. Os corpos estavam inchados, cobertos de pó, de moscas e… irreconhecíveis. O Zé Peça teve dúvidas mas… não conseguia olhar mais tempo os mortos.

Perguntei-lhe se os corpos estavam identificados, se tinham as chapas metálicas de identificação que todos os militares traziam ao peito. Em consciência não se lembra… nem sabe responder.

O "Alcobaça"
Tinha que sair dali bem depressa e foi para a “Pensão do Moço”. Conhecia o dono e lembra-se que foi para a cama bem cedo. Caiu na cama mas não conseguiu dormir nada de jeito. Teve pesadelos e viu, vezes sem conta, os “seus” mortos numa noite longa… que parecia não ter fim.

 
No dia seguinte atestaram-lhe a sua GMC com géneros. Carregou sacos de arroz, feijão, grão, batatas, conservas e barris de vinho. O Zé Peça lembra-se que sentia algum “conforto” com a carga que ia transportar. Carregava a tonelagem máxima e se “encontrasse” uma mina anticarro talvez não saltasse muito!

Não houve problemas no regresso a Bessa Monteiro. Quando chegou ao aquartelamento pensava que ia encontrar a malta toda em lágrimas. Foi recebido com gritos de satisfação – “Olha o “Alcobaça”!
 
Num grupo tocava-se acordeão e dançava-se… Parecia que nada de anormal se tinha passado dois dias antes… O “Alcobaça” percebeu que a guerra é mesmo assim. Ai dos que partem! Quem fica… come, bebe, brinca... convencido que a acontecer alguma coisa de mau acontecerá aos outros.

Fez o relatório verbal ao seu Comandante  e não ocultou as dúvidas que teve quando colocou os galões do Capitão… num corpo que poderia não ser o “certo”. O seu Tenente-Coronel não o recriminou e explicou-lhe as razões da tal ordem cruel: «Segues sozinho porque já me chegam os mortos que tivemos.» O Zé Peça compreendeu e seguiu para a sua vida no quartel.

O nosso camarada termina a sua história com a voz rouca.
Peço-lhe algumas fotografias do seu tempo de Angola que, com a ajuda da sua mulher, encontra passado algum tempo.
Passar uma noite a conduzir… A morte marcou-lhe a vida!

JERO


terça-feira, 3 de setembro de 2019

P1161: "FORÇA, CARLOS!"


ALCUNHAS DO TEMPO DA VIDA MILITAR 
QUE NÃO ESQUECEM / 4

O “MASSA BRUTA”

JERO
Como é normal na vida militar procurei nos primeiros tempos depois do regresso da Guiné, “filhos da terra”…

De Alcobaça não havia ninguém mas havia um “vizinho” a cerca de 20 kms. O Carlos Agostinho Vieira, da Batalha, que tinha sido “ Cabo Quarteleiro”.

As suas funções tinham a ver com o stock de munições, com o bom funcionamento das armas (conservadas com “massa consistente) e, eventualmente, com mais algumas coisas de que já não me lembro.

O Carlos Vieira era um indivíduo muito alto, pouco falador, que caminhava um tanto curvado e com quem não era fácil manter uma relação cordial. Era “fechado” e vivia fechado no “buraco” onde se guardavam as armas e munições da Companhia.

Cada um é como cada qual e o Carlos desempenhava as suas funções a contento. Era um bom Cabo Quarteleiro, que só dava nas vistas por ser um grande calmeirão. E caminhar curvado. E ser calado “como o caraças”…

Até que um dia, melhor dizendo numa noite, deu nas vistas. E não foi pela melhor das razões…

Numa operação que envolvia dois pelotões que saíam do quartel de Binta por volta da meia-noite, no máximo silêncio e com ocultação de luzes, apareceu na altura da saída para o mato com um “petromax” aceso para perguntar ao Capitão Tomé Pinto se era preciso mais alguma coisa.

Foi de imediato repreendido e mandado desaparecer, e quando começou a responder que ”tinha pensado”… o comandante de Companhia disse-lhe logo que ele não estava ali para pensar mas… para cumprir ordens.

A malta da tropa é cruel e a partir daquela madrugada passou a ser conhecido como o “Massa Bruta”. Está-se mesmo a ver porquê…

Também é verdade que, à distância no tempo, me parece que o Carlos Vieira não se importava por aí além com a alcunha “sacana” que lhe calhou…

Regressámos da Guiné em Maio de 1966 e estive alguns anos sem o ver.

Melhor dizendo, em vinte e muitos anos encontrei-o 3 ou 4 vezes nas reuniões anuais da malta da Companhia, que fazíamos todos os anos no primeiro domingo de Maio, em Lisboa, com concentração frente à Estátua dos Restauradores.

Fixei-me na zona de Alcobaça onde exerci a minha actividade profissional na SPAL durante trinta e muitos anos.

Depois de casar não houve mais tempo para corridas e o trabalho, a vida sedentária e os dotes da minha mulher para a cozinha levaram-me num curto espaço de tempo a um “ganhar um peso”, que esteve a 3 quilos dos 3 dígitos.

Com pequenas oscilações mantive-me com 97 kgs, por alguns anos, mas por volta dos 35 anos voltei ao desporto por duas razões: para emagrecer e… para não passar o resto da vida a comer cozidos e grelhados.

Dos 35 até cerca dos 50 anos fui praticante diário de “jogging”, também conhecido entre os “malucos das corridas” como “alta manutenção”.

Foram os tempos das meias maratonas da Nazaré. Corri umas dez - nunca desisti - e fiquei sempre entre os primeiros 3 mil concorrentes…

Fazia os 21 quilómetros do percurso entre 1H45 e 2H00, obviamente com muito sacrifício, pois correr durante 21.097 metros “não é pera doce”…

A última meia-maratona que corri foi “tão comprida” que, depois dos 17 kms, não me lembrava de nada. Corri essa parte final do percurso em “autêntico transe”…

Mais tarde falei nisso ao meu médico que me disse para ter juízo: «Faça caminhadas e deixe-se de corridas».  Foi o veredicto que terminou com a minha carreira de meio-maratonista…

Chegou a altura de passar a espectador e há uns dez anos atrás fui (involuntário) protagonista de um facto invulgar, que resolvo agora partilhar .

No entanto há ainda que esclarecer os que nunca andaram por este “mundo” das “meias-maratonas” que há corredores e… “corredores”.

 Os que lutam para os primeiros lugares correm cada Km. em cerca de 3 minutos e os outros – os corredores do pelotão – percorrem cada km. em 5 ou 6 minutos.

Quer isto dizer que com meia hora de corrida há corredores que vão nos 10 kms de percurso e outros – como era o meu caso – que apenas tinham percorrido cerca de 5 kms.

Está claro que, à medida que aumentam os quilómetros, aumentam as distâncias entre os mais rápidos e os outros – os lentos ou, também conhecidos na gíria das corridas, como “os coxos”.

Na Meia-Maratona da Nazaré – que foi a corrida onde se registou o tal “facto invulgar” ,que irei descrever em pormenor - era normal os atletas da frente cruzarem-se com os mais atrasados, dado que o percurso da prova era de ida e volta.

Explicando melhor, a partida fazia-se da Nazaré (então com uma volta dentro da vila de cerca de 5 kms) para se ir até Famalicão (onde estava um bidão que assinalava o “retorno”) e voltava-se em direção à Nazaré, onde estava instalada a meta.

Um dos melhores lugares para apreciar a corrida e o esforço dos corredores era (e é) na Quinta Nova. Nesse local os da frente passavam (e passam) com cerca de 16,5 kms percorridos e cruzavam (cruzam) com a rapaziada da cauda do pelotão que levava (e leva) então cerca de 9,5 kms de prova ainda a caminho do bidão (de Famalicão).

Nesse ano de 1994 ou 1995 “plantei-me” no cruzamento da Quinta Nova para ver a corrida e para incitar especialmente o Carlos Pereira (que trabalhava comigo na SPAL). É que nesse ano o Carlos Pereira corria para ficar entre os 10 primeiros, pois “valia” então uma hora e sete minutos na distância.

Avistei o grupo da frente – que englobava uns 10 ou 12 corredores – e lá vinha ele.
Tentei ganhar maior visibilidade no local onde me encontrava, levantei os braços e gritei: - “Força, Carlos! Força, Carlos!”

Julgo que nem me viu nem me ouviu. O esforço é grande e a concentração de quem corre àquele ritmo é enorme.

Mas na altura dos meus gritos de incitamento ouvi uma voz do outro lado da estrada a gritar para mim: - “Eh, Oliveira!”

Olhei de imediato e reconheci a voz e a pessoa. Era o Carlos Vieira, da Guiné. O “Massa Bruta”...

O meu de grito de “Força, Carlos!”, tinha encontrado eco (noutro Carlos), que corria no outro lado da estrada, no pelotão dos “coxos”, ainda a caminho do bidão de retorno de Famalicão.


Fiquei de boca aberta e tão surpreendido como ele. Ou ainda mais... Vim depois a caminho da meta. Para cumprimentar o Carlos Pereira (o colega da SPAL), que já tinha chegado e obtido a sua melhor classificação de sempre: - o 3º lugar da classificação geral (com 1h06m59s).

Esperei mais um bom bocado mas não consegui localizar o Carlos Vieira, da Batalha, o meu camarada dos tempos da Guiné. São 3.000 atletas na zona de chegada e muita confusão à mistura...

Voltei para casa. Não podia deixar de pensar naquela coincidência levada da breca. Três mil indivíduos a correr, sei lá com quantos “Carlos” lá pelo meio e tinha acontecido aquele coincidência extraordinária numa fração de segundo.

Gritar por um “Carlos”, que via todos os dias e que nem para mim olhou, e responder-me outro “Carlos”, que já não via há uma série de anos. Qual o cálculo de probabilidades de isto acontecer!? Não faço a mínima ideia.

Continuo a pensar que este incitamento para “forças” desencontradas acontecerá uma vez na vida. Mas que aconteceu… aconteceu!

E a fotografia não é montagem. Foi tirada por mim umas frações de segundo depois do meu grito de incitamento.

Tempos depois encontrei o meu camarada da Guerra da Guiné. A quem contei a história.

E o Carlos da SPAL que me desculpe mas o meu grito de incitamento - o “Força, Carlos!”- passou a ser mesmo só para o meu ex-camarada da Guiné.
JERO


domingo, 11 de agosto de 2019

P1157: MAIS UMA DAS MEMÓRIAS DO JERO


ALCUNHAS DO TEMPO DA VIDA MILITAR QUE NÃO ESQUECEM / 3

O “CAMPO DE OURIQUE”

O "Campo de Ourique"
Carlos Dias Rodrigues de seu nome era um alfacinha de gema. Cenógrafo na vida civil, foi na Companhia de Caçadores 675 1º. Cabo Condutor. Opinioso e de palavra fácil percebia-se que se sentia melhor junto de Sargentos e Oficiais de que junto dos seus “pares”. Era metódico e cuidadoso na sua especialidade e, sempre que podia, questionava as ordens e... não deixava de dar troco ao seu furriel das “viaturas”...

O “Campo de Ourique” não tinha complexos de inferioridade... Durante a fase mais complicada da vida da Companhia em termos operacionais “apanhou” com um minúsculo estilhaço de granada que o fez cliente assíduo do Posto de Socorros. Queixava-se da cabeça e tantas queixas fez que a sua “crónica” dor de cabeça nem sempre foi levada muito a sério. Pelo menos com a seriedade que o “Campo de Ourique” julgava que merecia. Julgamos que o mini-estilhaço nunca foi localizado!

Na segunda fase da Companhia - regresso das populações e melhorias do aquartelamento - foi sempre colaborante, embora com o pecadilho de anunciar "super-produções" que demoraram o seu tempo a realizar...

Mas finalmente fez obra e foi o grande responsável pelo embelezamento da “Avenida Capitão de Binta” com uma gigantesca “estrela” feita com garrafas de cerveja... Garrafas vazias, está claro!

Depois... no regresso foi sempre presença assídua nos convívios da Companhia, referindo - sempre que estava por perto alguém ligado ao Serviço de Saúde - o célebre estilhaço da cabeça…

Com estilhaço ou sem ele, esteve ligado a um dos momentos mais conseguidos de uma das festas realizadas em Lisboa.

Ligado ao teatro – recordamos que era cenógrafo – conseguiu bilhetes para a malta da “675” que, depois do almoço, foi assistir a uma peça que era protagonizada por Jacinto Ramos e Irene Cruz. 

Durante a representação o actor principal – um “grande senhor” do teatro e do cinema – interrompeu a cena para dedicar algumas simpáticas palavras aos ex-combatentes da “675” que se encontravam na plateia. Foi um momento muito bonito que ficámos a dever ao “Campo de Ourique”.

Depois os anos passaram e... o «Campo de Ourique» foi sempre aparecendo mas percebia-se que já não era o mesmo. Num dos últimos convívios ficámos ao pé dele. Conversámos muito e ouvimos da sua boca um testemunho impressionante. Tinha um filho apanhado pela droga. 

Estava a fazer uma autêntica “Via Sacra” pelos locais onde se vendia e consumia droga para tentar perceber o que tinha levado o seu filho para aquela “zona da vida”... tão perto da morte.

Já tinha ido vezes sem conta ao Casal Ventoso e não conseguia perceber a opção de vida dos drogados. Era um homem amargurado. Muito amargurado. Desconhecemos como acabou o drama que o atormentava. Julgamos que não acabou bem.

Um homem da cidade, da grande cidade, refugiou-se nos últimos anos da sua vida na Madeira. Na ilha de Porto Santo. Onde veio a falecer em 18 de Outubro de 2005.

Recordamos com respeito o “Campo de Ourique”. Carregou penas bem pesadas. Que a terra lhe seja leve.

JERO