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sábado, 14 de dezembro de 2019

P1191: UMA EXPLICAÇÃO PARA OS MAIS CURIOSOS...


UMA QUESTÃO DE “POSTERS

Helder Valério Sousa
Existem alguns artigos no Blogue “Luís Graça e Camaradas da Guiné” onde apareço ao lado dum “poster” com Ernesto “Che” Guevara. Nunca disse que o “poster” era meu, nem que estava no meu quarto.

Sobre esse facto vários amigos, partindo do princípio que tal situação seria como eles tinham “decidido”, foram tecendo diferentes considerações, algumas lá publicadas nesses artigos como comentários aos mesmos, ou também de modo particular.

Uns interrogavam como era possível haver numa parede dum quarto de militares em Bissau uma imagem de uma pessoa que, afinal, inspirava os adversários, outros intrigavam-se como me teria sido permitida tal situação, outros ainda aproveitavam a circunstância para tecerem críticas ou louvores (conforme os seus próprios entendimentos) à realidade daquela existência e/ou ao personagem em si mesmo.

Ora bem, esse “poster” não era meu nem estava no meu quarto. Estava sim num outro quarto na mesma vivenda que habitava, anexa ao Centro de Escuta onde desempenhava funções.

Confesso que nunca colocaria aquele “poster”. Não porque a figura do “Che” me fosse odiosa, não senhor, tinha até alguma admiração pela coerência que esse médico argentino colocava na sua acção, dando corpo na prática à teoria que apregoava e propunha, mas eu entendia que as “revoluções” não se exportavam, em cada local deveriam ser os seus povos a fazer a revolução, se assim o entendessem, e se lhes fosse possível, com os meios que conseguissem concitar.

Sei que aquela foto, a do “Che”, é da autoria de um tal Alberto Korda (*), um ícone da “Art Pop” e é, talvez a mais publicada e mais idolatrada pelos seus admiradores. Mas, na realidade, não sei quem a comprou, onde, quando e quem a colocou.

No meu quarto, a partir de certa altura, havia, isso sim, um “poster”, também muito conhecido, com um músico famoso naqueles tempos, o Frank Zappa, que aparecia sentado numa sanita, aparentando defecar. Foi colocado no nosso quarto (meu e do meu camarada Nelson) após termos feito “melhoramentos”, incluindo pintar as paredes de castanho, com tinta de óleo.

Isto aconteceu porque o Comandante (das Transmissões) tinha o hábito de aos sábados “passar revista às tropas e às instalações e alojamentos”, coisa que muito incomodava os senhores Sargentos que, em surdina, refilavam porque achavam que já eram crescidinhos e não precisavam de um “paizinho” que lhes fosse dizer que tinham de lavar e desinfectar o quarto, fazer melhor as camas, etc. Mas não se atreviam a “fazer coisas”.

Deste modo, eu o Nelson, se bem congeminámos a situação, melhor o fizemos. Pedimos autorização para limpar e pintar o quarto, o que nos foi concedido, e lá foi feito como disse, Na janela, em jeito de quebra-luz, foi colocado um pano amarelo-dourado (que se completava lindamente com o castanho da parede) e com as cobertas verde-seco das camas. A lâmpada do tecto era de fraca potência.

Aquando da habitual vistoria ocorrida logo após esses “melhoramentos” o Comandante “Raminhos” quando abre a porta do nosso quarto depara-se com uma penumbra e um ainda intenso cheiro a tinta e pouco ou nada consegue ver. Aproxima-se do “post” do Zappa, pisca os olhinhos, e com o seu sotaque de “xopinha de maxa”, vai repetindo “ixto extá uma borrada, ixto extá uma borrada” e saiu. E nunca mais houve vistorias aos quartos dos Sargentos!

Por tal, não posso precisar se o tal “post” do “Che” já foi colocado depois desta “falta de vigilância” ou não. Caso sim, está explicado. Caso não…. Não sei dizer.

Hélder Sousa
Fur. Mil. Transmissões TSF

(*) Alberto Díaz Gutiérrez, mais conhecido por Alberto Korda ou simplesmente Korda (14 de Setembro de 1928 – 25 de Maio de 2001), foi um fotógrafo cubano tornado famoso por esta imagem do revolucionário marxista argentino Che Guevara obtida em Havana em 5 de Março de 1960.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

P1176: UM CENÁRIO NOVO


Neste texto - há muito publicado no blogue “Luís Graça e Camaradas da Guiné” e agora recuperado para a Tabanca do Centro - descrevo a minha chegada a Bissau no navio da marinha mercante Ambrizete, em rendição individual, bem como as primeiras impressões da cidade, dos seus lugares mais afamados e da sua fauna humana.


A CHEGADA À GUINÉ E AS
REALIDADES DE UM NOVO MUNDO…

Helder Valério Sousa
A minha partida para a Guiné ocorreu cerca das 22 horas do dia 3 de Novembro de 1970, quando o velho Ambrizete rumou à foz do Tejo com destino a Bissau, navegando com uma inclinação de 7º para estibordo motivada por uma qualquer má distribuição da carga (constituída, para além de géneros alimentícios, por material de guerra diverso e sobressalentes para manutenção).

A viagem correu bem, com mar sem causar problemas (vaga larga, como nos explicaram), gozando aqui e ali da companhia dos peixes voadores que faziam questão de acompanhar e, aparentemente, rivalizar com o navio.

A aproximação à costa da Guiné deu-se pela madrugada do dia 9 de Novembro, com todas as sensações que têm sido descritas por outros camaradas, como a visualização da linha do que parecia ser uma mata cerrada, o bafo quente e húmido de lá emanado, os sons e os silêncios, tudo isto ainda mais ampliado pelo facto de estar a nascer o sol em contra-luz em relação à nossa posição.

Durante a madrugada tínhamos ultrapassado o Carvalho Araújo,  que seguia carregado de militares mas que nos disseram ter tido um conjunto de problemas (fogo a bordo?) que o fazia navegar muito lentamente. Deste modo, todos aqueles que seguiam no Ambrizete (6 militares, todos Furriéis de Transmissões, 3 TPF (transmissões por fios) e 3 TSF (eu, o Nélson Batalha e o Manuel Martinho)) desembarcámos a meio da manhã desse dia 9, enquanto que o desembarque do pessoal do Carvalho Araújo só ocorreu no dia seguinte, dia 10 de Novembro, dia de S. Martinho, o que nos fez ficar com velhice acrescida em relação a todos os que viajaram naquele barco, nomeadamente os nossos camaradas de curso e especialidade, Furriéis Milicianos Eduardo Pinto, Luís Dutra Figueiredo, António Calmeiro e José Manuel Fanha, sendo que, como era sabido, "a velhice era um posto"!

O episódio do desembarque teve algo que me marcou e que me deixou de pé atrás, como se costuma dizer...


Devido à tal situação do posicionamento relativo dos dois barcos que estavam a chegar ao cais de Bissau, o Ambrizete ficou um tanto ancorado ao largo para dar a primazia ao Carvalho Araújo, razão pela qual a passagem dos passageiros do barco para terra foi feita por intermédio de pequenas embarcações do tipo que lá se usavam para fazer as cambanças, mas que no nosso imaginário eram pirogas dirigidas por nativos, sendo aí o primeiro contacto (desconfiado) com os naturais.

Quando o barquito manobrava na aproximação à rampa, estando nós naturalmente a um nível mais baixo do que aqueles que se encontravam no cais, um dos militares presentes procurou saber se "algum de vós é o Furriel Hélder Sousa?". Após a confirmação de que era eu mesmo, o militar em causa, que eu vinha substituir, e que já andava desesperado pela demora da minha chegada (não esquecer que oficialmente parti a 23 de Outubro, embora só o tenha feito realmente em 3 de Novembro e, sendo das Transmissões, ele sabia que eu já tinha embarcado) começa aos saltos e aos gritos de “É ele!, é ele!, é ele!", o que fez aumentar a minha preocupação sobre onde me vinha meter para suscitar tanta alegria pela partida...

Hoje já não me lembro do seu nome, ele que fez tanta questão em me acompanhar em todas as voltas que foi necessário dar para me apresentar no Quartel, de me levar a uns amigos de Vila Franca que me tinham guardado um lugar para ficar, de me levar a almoçar à messe de sargentos, etc. A imagem que tenho é a de um macaquinho aos saltos (era o que me parecia, já que o via de baixo para cima e ele estava acocorado), feliz da vida por ter encontrado o seu pira e safar-se dali o mais depressa possível, provavelmente na viagem de regresso do Carvalho Araújo.

Depois das apresentações fiquei a saber que os Comandantes da Companhia de Transmissões e do STM (Serviço de Telecomunicações Militares) eram respectivamente os Capitães Cordeiro e Oliveira Pinto (excelentes pessoas), que eram cunhados e contemporâneos da minha (nossa) passagem pelo B.T., no Quartel da Graça, quando fazíamos a especialidade, o 2º Ciclo do C.S.M., e eles eram Tenentes a fazer o tirocínio para capitães, período de alguma agitação pois ocorreu no último trimestre de 1969, quando tiveram lugar as chamadas Eleições de 69.

Igualmente o 1º Sargento que supervisionava o STM em Bissau e que nos iria instruir - preparando-nos para as tarefas que teríamos que desempenhar quando fossemos destacados para os postos no interior - era meu velho conhecido, já que tinha sido ele a orientar o meu estágio da especialidade em Tancos, na EPE (meu e do Manuel Martinho que também foi para a Guiné, bem como do Miguel Rodrigues que foi para Angola, salvo erro, e do Fernando Marques que ficou cá em Portugal, na CHERET).

O camarada que fui substituir deixou-me depois aos cuidados dos meus conterrâneos vilafranquenses, Furriéis Milicianos José Augusto Gonçalves e Vitor Ferreira, o primeiro deles meu colega da Escola Industrial e o outro das tertúlias do Café A Brasileira, mais parceiro que adversário das partidas de bilhar. Ambos estavam integrados nas Transmissões (nessa ocasião ainda estava em criação o futuro Agrupamento de Transmissões) e arranjaram um espaço para me acomodar no quarto que compartilhavam nas instalações para sargentos em Santa Luzia, juntamente com outro Furriel, de apelido Pechincha. Este último tinha estado colocado numa Companhia de Caçadores Nativos e estava agora destacado numa repartição qualquer do Q.G..

Levaram-me a jantar à Meta (já li algumas referências nos Blogues mas não me parece que lhe tenham dado o relevo que de facto tinha naqueles finais de 1970). Era um lugar muito frequentado, com uma zona de Bar, zona de restauração e uma enorme pista de slot-cars (minicarros eléctricos), muito maior que as que conhecia cá na Metrópole e que era palco de acesas e renhidas disputas de competição dos vários miniaceleras que por lá iam gastando o seu tempo e dinheiro.

Após o jantar, uma voltinha para desmoer e reconhecer os vários locais de interesse, SolmarSolar dos 10Ronda, o inevitável Café do Bento (5ª Rep.), a casa Espada (das ostras) na rua paralela à marginal, o Pelicano.

Aqui no Pelicano, quando para me integrar saboreava a minha Coca Cola com uísque (era um privilegiado, já tinha tido a oportunidade de beber aquela coisa quando em 1968 estivera em França, Bélgica e Inglaterra), tive contacto directo com mais algumas das realidades do mundo onde estava a entrar...

O primeiro foi a sensação estranha de estar ali na esplanada a ouvir embrulhar lá longe, do outro lado do grande e largo Geba. Diziam que era em Tite, ou Fulacunda ou qualquer outro nome que para mim naquela ocasião não assumia personalidade. Mais tarde já não era assim, os nomes passaram a ter depois uma identidade própria; acho mesmo que havia até uma espécie de hierarquia, no que respeita à forma como eram identificados pelas dificuldades de vida que lhes eram inerentes. 

Estar ali a ouvir os rebentamentos abafados pela distância e a ver alguns clarões deu logo um arrepiozinho na espinha, com aquele misto de temor e de ansiedade que nessas ocasiões nos assaltam, mas também com um pensamento de solidariedade e angústia pela impotência de quem só pode assistir e não intervir.

O segundo contacto foi mais do género de constatar a degradação moral que a permanência em situações daquelas podia produzir em espíritos mais fracos. Já se falava do que acontecia no Vietnam com os soldados americanos consumindo droga para resolver os seus problemas mas ali no Pelicano não foi esse o caso. Tratou-se apenas do facto de que em determinado momento um desgraçado qualquer acercou-se da mesa onde estávamos e procurou vender-nos uma fotos "de gajas nuas". 

É claro que recusámos mas fui depois esclarecido de que não se tratava de "gajas" mas sim de "uma gaja", a própria mulher dele, a quem ele (diziam que era um fulano já bastante apanhado do clima) enviava fotos que tirava a si mesmo sem roupa e pedindo que ela lhe enviasse fotos do mesmo jeito, que ele depois reproduzia e tentava vender.

Fiquei bastante impressionado com aquela demonstração prática da alienação a que o clima de guerra e o consequente improviso da vivência podiam produzir em seres humanos e jurei a mim mesmo que haveria de sair da Guiné são de cabeça e mais determinado em contribuir para as mudanças inevitáveis que haveriam de ocorrer na nossa sociedade.
Hélder Valério Sousa
Ex-Furriel Mil Transmissões TSF

Foto 2  - © lifecooler.com. Todos direitos reservados
Fotos 3, 4 e 5 -  © Agostinho Gaspar. Todos direitos reservados

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

P1163: COMPANHEIROS DE JORNADA


MASCOTES E ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO E/OU COMPANHIA
OS GATOS…

Helder Valério Sousa
Dado que esta recordação já foi anteriormente publicada no Blogue da “Tabanca Grande”, fará 10 anos, pareceu-me oportuno fazer uma “revisão” para a encurtar e, se possível, melhorar.

Como de costume, quando escrevo algo sobre os tempos vividos na Guiné, é motivado por vários elementos que vão aparecendo e que depois de os remoer, um pouco, acabam por me fazer lembrar das situações ou acontecimentos. Veio isto ao caso por, ao longo do tempo, terem sido publicados “posts” em que se falava de aves, pássaros vários, morcegos, “ui-uis” e quejandos e da quantidade e variedade de comentários que suscitou.

A propósito deles ficámos a saber de “pardais amestrados”, de convívios com morcegos, da admiração pelos jagudis (quase sempre confundidos com perus pelos periquitos…). Também já se tinham referido a cães que, por todas as tabancas, quartéis e aquartelamentos, eram muitas vezes a grande companhia para as solidões.

Até se fez referência a uma tresloucada acção de ‘matança’ de cães que, algures no mato (longe de Bissau, portanto) incomodavam quem não deviam… Igualmente sabemos de periquitos e outras aves que ajudavam a passar o tempo das ‘horas mortas’. Aqui e ali são também conhecidas as proximidades com aqueles animais que, na generalidade, referimos como macacos. E por aí fora.

Não me apercebi de coisas estranhas, mas possíveis, como ter como mascote ou companhia crocodilos, osgas, iguanas, grilos ou cobras (de várias espécies) mas não posso jurar que não os houvesse… Agora, o que mais me intriga, é a falta de referências aos gatos.

É que esses animais, sempre com o seu estilo particular, lá como cá e noutras partes por onde existem, estiveram presentes durante as nossas ‘comissões de serviço’.

Eu sei que falar de gatos pode parecer um pouco “abichanado” mas mesmo assim, se me permitirem, vou referir-me a eles.

E, para começar, apresento um poema que o nosso camarada Marques Lopes fez publicar na “Tabanca de Matosinhos”, no início de Agosto passado (2009), em homenagem a um seu amigo entretanto falecido fazia 6 meses, sendo esse o autor do poema e de seu nome Fernando Vale.

   O GATO

O gato é um felino
Aristocrata
Sempre usou laço
Nunca quis gravata

O gato é um felino
Snob
De trato fino
Até vaidoso

O seu andar?
Suave, silencioso
Independente
Misterioso

Nunca submisso
Mostra unhas
Também os dentes
Se em duelo
Tanto for preciso

Usa bigode
Destemido, soberbo
Sempre snobe
Não conhece o medo

O seu porte
A muitos humanos
Não agrada
Mas este felino
É um nobre
Capaz de ronronar
Ao exigir uma carícia
É snobe
Mantém sempre
A cabeça levantada
É nobre
Até mesmo quando caga

O gato é um felino
Aristocrata
Sempre usou laço
Nunca quis gravata

(Fernando Vale, 28.02.2008)

Ora acontece então que durante a minha permanência no “Centro de Escuta” os gatos foram a minha companhia, principalmente durante as longas noites de serviço e disso não posso, nem quero, esquecer-me.

Disse “durante a noite” porque tanto a “Morcona” como o “Kiki” só nesse período se deixavam ver. Não sei porquê, nunca me disseram nem consegui descobrir. Durante o dia desapareciam completamente das vistas e só depois do sol-posto apareciam. Houve também um outro, o “Caçador”, que era completamente diferente.

Eu e o "Caçador"
Esse dava-se a ver durante o dia e deixava-se agarrar. Chamei-lhe assim porque era um caçador nato, apanhava tudo o que podia, ratos, sapos, lagartos ‘paga-dez’, até cobras e víboras e depois muito vaidoso carregava as presas e vinha oferecer-me, numa espécie de deferência.

Tudo começou pela “Morcona” que era a gata-mãe dos outros dois, em ninhadas diferentes. Quando cheguei á “Escuta” essa gata estava no forro da casa, tendo entrado para lá por essa ocasião por um buraquito, mas pelo qual já não podia sair.

Pensámos em deixá-la por lá, mas sempre havia o perigo de alguma incomodidade pelo cheiro e não só, e eu, aos poucos, fui tentando cativar a sua confiança, através da comida que lhe levava pelo alçapão de acesso existente na “Escuta”, o que acabei por conseguir. Traindo a sua confiança conquistada com tanto trabalho, consegui agarrá-la e fazê-la passar por esse alçapão, recuperando igualmente três pequenos gatitos.

A pose serena da "Morcona"
Inicialmente ficou ‘louca da vida’ mas acabou por não rejeitar as crias, as quais foram acondicionadas no que seria a chaminé da casa onde vivia que era contígua ao “Centro de Escuta”, de modo bem disfarçado e que lhe deu bastante privacidade.

Esta ninhada esteve na origem de um episódio bem caricato passado com o meu camarada Nélson Batalha (entretanto já falecido e que na época compartilhava o quarto comigo), e que foi o seguinte:

Por esses tempos era hábito, aos sábados, o Sr. Comandante do que viria a ser o Agrupamento de Transmissões, Tenente-Coronel Ramos, passar revista às instalações, incluindo-se aqui os alojamentos dos Sargentos, que muito se incomodavam com esse aparente atestado de menoridade (o Sr. Comandante ia ver se os quartos estavam bem arrumados e limpos…).

Nesse sábado o Nélson saiu de serviço às 7 da manhã e foi dormir para o quarto, preocupado com a existência da ninhada de gatos e com o que sairia da ‘vistoria’ rotineira.

Como fui eu que o substitui no serviço, estava na “Escuta” quando o Sr. Comandante e comitiva passaram por lá e procurando-me antecipar à continuação da visita à casa ao lado, onde era o nosso quarto e também a improvisada ‘maternidade’, fui lá ver se estava tudo bem camuflado (e estava!) e quis avisar o Nélson da iminente presença das chefias, só que a sua preocupação fez com que ele, estremunhado, gritasse bem alto:

- “Eh pá, tira-me daí esses cabrões!” - (é claro que ele se referia aos gatos, que achava serem da minha responsabilidade…)

Só que não houve tempo de intervalo suficiente entre o meu aviso e a presença dos ‘superiores’ que, como devem calcular, não tendo conhecimento da existência dos gatos (nem os viram, tal a camuflagem), ‘não tiveram dúvidas’ a quem aquele impropério se dirigia!

Como o Nélson estava nas ‘boas graças’ do Sr. Comandante por ter sido ferido e evacuado de Catió, em resultado de ferimentos ocorridos num ataque àquele aquartelamento e era um ‘bom cartaz’ demonstrando assim que o pessoal do STM também corria riscos, a coisa passou ‘à pala’ de o Nélson ainda estar um bocado ‘apanhado’ e com sobressaltos resultantes dos ferimentos…

O "Caçador", sempre atento
Pelas fotos que junto podem ver o porte altivo da “Morcona” e as expressões argutas do “Caçador”. Do “Kiki” não encontrei qualquer foto.

Peço desculpa por vos tomar tempo com estas coisas menores mas acho que também devem fazer parte do ‘levantamento’ que fazemos das nossas memórias, e a questão dos animais de companhia ou mascotes não são despiciendas, pois muitas vezes serviram para nos fazer sentir que ainda éramos humanos. 

No meu caso, e tratando-se de gatos, não posso dizer que eram as minhas mascotes ou animais de companhia, já que foi muito mais eles a escolherem-me do que eu a eles. Volto a utilizar (com a devida vénia) as palavras do Marques Lopes que cita Manuel António Pina em artigo do “Jornal de Notícias”, de que “nunca viu um gato a fazer habilidades num circo...”, para ilustrar bem o que se entende da ‘personalidade’ felina.

Hélder Sousa (Fur. Mil Trms TSF)
Fotos: © Hélder Sousa (2009). Direitos reservados.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

P1159: A PACIÊNCIA TEM LIMITES...

Aproveitando a disponibilidade do nosso camarigo Helder Valério Sousa para ver publicados neste blogue alguns textos da sua lavra anteriormente editados pela Tabanca Grande, resolvemos avançar com a recuperação de algum desse material publicado em devido tempo na Tabanca Grande mas que hoje se vê “tapado” por material editado posteriormente, não sendo por isso do conhecimento de uma boa parte dos leitores deste nosso blogue.

Além disso os leitores não serão necessariamente os mesmos…

Por esses motivos avançámos com a publicação deste primeiro texto recuperado, com a devida vénia ao Hélder Sousa, seu autor, e aos editores da Tabanca Grande, que o publicaram.
Os editores

A BAZUCA EM RAJADA

Helder Valério Sousa
Esta história tem os seguintes considerandos iniciais.
A sua lembrança foi motivada por um comentário do Alberto Branquinho a uma minha história anterior, em que ele sublinha que a sua insistência em negar-se a “falar de si ou do seu umbigo” tem como alvo “aqueles que falam/escrevem só e sempre sobre o seu próprio umbigo”. Acho que o compreendo!

Por outro lado tive sempre a tentação de reagir a um artigo publicado num Poste da Tabanca Grande, que é uma espécie de carta escrita pelo Luís Graça a um seu amigo (o Tony Levezinho) transformando-o em interlocutor imaginário daquilo que observou durante uma estadia em Bissau quando, durante algum tempo, esteve “desenfiado” do “Vietnam”.

Para além de considerar essa carta muito interessante, pelo seu conteúdo, pelos pressupostos, até por referir algumas situações ou episódios que eu, ao tempo, “vivia” cá na chamada “Metrópole”, e também para além de retratar, com bastante azedume, aliás, alguma da “fauna” de Bissau, há lá um aspecto que eu próprio testemunhei mais tarde, provando que, nesse capítulo, pouco ou nada se alterou entre o “tempo” do Luís e o meu “tempo”.

Refiro-me ao facto “as tropas especiais” normalmente se “pavonearem” por Bissau, nos períodos em que por lá andavam. Mas, em termos de “exageros de actividade operacional”, também havia, e muito, quem gostasse de contar as suas histórias, as suas aventuras, os seus actos inigualáveis de heroísmo, sempre mais, maiores e mais ousados que o do “contador” antecedente.

Sempre tive alguma dificuldade em entender porque deveriam ser “heróis” aqueles que tinham (têm) como mérito o “saberem matar muito, destruir muito”, em detrimento daqueles que “salvaram, construíram, ajudaram, muito ou pouco”. Certamente será um problema meu, que passará com o tempo... ou então, não!

Foi então a junção destas duas lembranças, “os que falavam de si” e os que exageravam até à náusea, que me fez recordar este pequeno episódio.

Num daqueles dias em que a paciência estava esgotada, vá lá agora lembrar-me porquê, em que não havia paciência para aturar as fanfarronices, as idiotices desbocadas, o exacerbamento do ego de alguns daqueles elementos da “fauna” de Bissau, estando no bar de Sargentos de Santa Luzia, depois do almoço, deixei-me estar na roda de “heróis” que contavam as suas façanhas.

Como disse, a paciência não era muita e depois de ouvir três ou quatro episódios em que haviam sempre emboscadas com, invariavelmente, dois bigrupos (não sei porquê, mas isto dos dois bigrupos era infalível, parecia o Juca Chaves a parodiar o Gary Cooper), em que os personagens “contadores da história” acabavam por ser o elemento decisivo para a resolução do problema e em que em resultado da sua acção os elementos do IN caíam que nem tordos, a fazer lembrar os filmes de “faroeste” com os índios a serem dizimados às dúzias, não me contive e disse que também tinha uma história parecida para contar.

Tendo em conta a minha atitude normalmente reservada, ficaram admirados que tivesse alguma coisa a revelar, mas dispuseram-se a ouvir.

Então eu disse que também se tinha passado comigo uma situação semelhante às que eles tinham estado a contar, que tinha ocorrido numa coluna em que vinha inserido, pouco depois do K3 (era sempre bom referir estes locais de respeito), a qual caiu numa emboscada medonha, eram pelo menos dois bigrupos, talvez até três, e em que a rapaziada ficou tão surpreendida que saltámos dos “unimogs” e alguns até abandonaram os seus equipamentos.

Os “gajos” estavam em cima da gente, a coisa estava feia e eu, que até nem era nada dado a actos de heroísmo, nem sei o que me passou pela cabeça, saltei do chão, agarrei na bazuca que tinha ficado em cima da viatura, coloquei-a junto à cintura, enfrentei os gajos fazendo a “menina” cantar… rá tá tá tá tá tá tá tá, rá tá tá tá tá tá tá tá,. Com esta minha intervenção os tipos assustaram-se, a nossa malta ganhou ânimo e conseguimos abortar a emboscada com poucos feridos e causando inúmeras baixas ao IN.
Propuseram-me um louvor e colocaram-me na “Escuta”. Era por isso que agora eu estava lá.

Como calculam, após alguns breves instantes de perplexidade e de estupefacção (não se esqueçam que isto se passa no Bar, após o almoço…) um dos ouvintes diz: “Eh pá, mas a bazuca não dispara em rajada!”

Aí eu disse: Ai não? E porquê? Na minha história dispara, sim senhor! Então vocês podem contar as histórias como querem, com as invenções que entendem, e eu não posso? Pois estão enganados, na minha história há uma bazuca que dispara em rajada e vai ficar sempre assim, porque essa é a minha verdade, vocês fiquem com as vossas! Passem bem!

Após esta saída de cena, houve desmobilização geral. Alguns ainda pretenderam empertigar-se um bocado, sentindo-se ofendidos na sua honra, pela dúvida lançada quanto à veracidade das suas histórias, mas foi sol de pouca dura pois começaram a discutir entre eles, cada qual desmentindo os outros.

Reconheço que foi uma atitude pouco conciliadora e certamente injusta para com aqueles que na verdade enfrentaram reais situações mas, como disse, a paciência tem limites e, também em boa verdade, aquelas conversas já enjoavam. Mas foi quase “remédio santo” pois durante bastante tempo não houve bigrupos…

E pronto, esta história já está!
Um abraço para toda a Tabanca!
Hélder Sousa
Fur. Mil. Transmissões TSF