UMA QUESTÃO DE “POSTERS”
| Helder Valério Sousa |
Existem alguns artigos no Blogue “Luís
Graça e Camaradas da Guiné” onde apareço ao lado dum “poster” com Ernesto “Che”
Guevara. Nunca disse que o “poster” era meu, nem que estava no meu quarto.
Sobre esse facto vários amigos, partindo
do princípio que tal situação seria como eles tinham “decidido”, foram tecendo
diferentes considerações, algumas lá publicadas nesses artigos como comentários aos
mesmos, ou também de modo particular.
Uns interrogavam como era possível haver
numa parede dum quarto de militares em Bissau uma imagem de uma pessoa que,
afinal, inspirava os adversários, outros intrigavam-se como me teria sido
permitida tal situação, outros ainda aproveitavam a circunstância para tecerem
críticas ou louvores (conforme os seus próprios entendimentos) à realidade
daquela existência e/ou ao personagem em si mesmo.
Ora bem, esse “poster” não era meu nem
estava no meu quarto. Estava sim num outro quarto na mesma vivenda que
habitava, anexa ao Centro de Escuta onde desempenhava funções.
Confesso que nunca colocaria aquele “poster”.
Não porque a figura do “Che” me fosse odiosa, não senhor, tinha até alguma
admiração pela coerência que esse médico argentino colocava na sua acção, dando
corpo na prática à teoria que apregoava e propunha, mas eu entendia que as “revoluções”
não se exportavam, em cada local deveriam ser os seus povos a fazer a revolução,
se assim o entendessem, e se lhes fosse possível, com os meios que conseguissem
concitar.
Sei que aquela foto, a do “Che”, é da
autoria de um tal Alberto Korda (*), um ícone da “Art Pop” e é, talvez a mais
publicada e mais idolatrada pelos seus admiradores. Mas, na realidade, não sei
quem a comprou, onde, quando e quem a colocou.
No meu quarto, a partir de certa altura,
havia, isso sim, um “poster”, também muito conhecido, com um músico famoso
naqueles tempos, o Frank Zappa, que aparecia sentado numa sanita, aparentando
defecar. Foi colocado no nosso quarto (meu e do meu camarada Nelson) após
termos feito “melhoramentos”, incluindo pintar as paredes de castanho, com
tinta de óleo.
Isto aconteceu porque o Comandante (das
Transmissões) tinha o hábito de aos sábados “passar revista às tropas e às
instalações e alojamentos”, coisa que muito incomodava os senhores Sargentos que,
em surdina, refilavam porque achavam que já eram crescidinhos e não precisavam
de um “paizinho” que lhes fosse dizer que tinham de lavar e desinfectar o
quarto, fazer melhor as camas, etc. Mas não se atreviam a “fazer coisas”.
Deste modo, eu o Nelson, se bem
congeminámos a situação, melhor o fizemos. Pedimos autorização para limpar e pintar
o quarto, o que nos foi concedido, e lá foi feito como disse, Na janela, em
jeito de quebra-luz, foi colocado um pano amarelo-dourado (que se completava
lindamente com o castanho da parede) e com as cobertas verde-seco das camas. A
lâmpada do tecto era de fraca potência.
Aquando da habitual vistoria ocorrida logo
após esses “melhoramentos” o Comandante “Raminhos” quando abre a porta do nosso
quarto depara-se com uma penumbra e um ainda intenso cheiro a tinta e pouco ou
nada consegue ver. Aproxima-se do “post” do Zappa, pisca os olhinhos, e com o
seu sotaque de “xopinha de maxa”, vai repetindo “ixto extá uma borrada, ixto
extá uma borrada” e saiu. E nunca mais houve vistorias aos quartos dos Sargentos!
Por tal, não posso precisar se o tal “post”
do “Che” já foi colocado depois desta “falta de vigilância” ou não. Caso sim,
está explicado. Caso não…. Não sei dizer.
Hélder Sousa
Fur. Mil.
Transmissões TSF
(*) Alberto Díaz Gutiérrez, mais conhecido por Alberto Korda ou simplesmente Korda (14 de Setembro de 1928 – 25 de Maio de 2001), foi um fotógrafo cubano tornado famoso por esta imagem do revolucionário marxista argentino Che Guevara obtida em Havana em 5 de Março de 1960.














